
A meio da tarde, perceberam: todos a tinham conhecido.
Uns julgavam-na perdida no espaço, na anunciação. Outros viam-na como animal ferido, pronto a eliminar os bosques nesse último sopro. Uns e outros tinham-na possuído, pelo sol bravo da juventude, e nada conheciam dela. Escapava às fontes, fugia aos argumentos, e chegaram à conclusão que ela, sim, os tinha possuído a eles.
A sensação, comum, revelava-se: foram cordeiros gentilmente tosquiados pelos braços cortantes de um corpo entre dois sexos, duas idades, dois continentes. Ela não tinha tempo, nem peso, nem bússola. Desaparecia perante o esforço das classificações e surgia agora ali, breve, na revista que durava quatro, cinco dias, até outros sorrisos mais tangíveis atravessarem o papel, enfiando-se na relva.
Apertaram o círculo para melhor a fixarem. Sem sucesso. Nenhum guardava uma imagem igual: os sonhos que dela tiveram surgiam com calores e espessuras tão diferentes como o leite da água. E, no entanto, sabiam que se tratava da mesma pessoa, da mesma fonte de energia, da mesma sombra.
Um, Luchino di Modrone, viu-a uma vez na mansão milanesa feita de quadros mansos, guarda-chuvas, tecidos finos, salas de arte nova, sabores da Liguria, móveis do Piemonte, alta-burguesia como a cal das casas a deslizar rumo ao Mediterrâneo, o cabelo apanhado de Carlota.
Apesar disso, a ricotta e a búfalla azedaram após três tardes vícios ao sol, com as pombas dos sepulcros a sairem das suas cúpulas até poisarem no espelho mortal de uma piscina como a de Fedra, pobre, beco, silenciosa.
Outro, Roderick Gault, penetrou-a na barca em cima dos cobertores da lenha, falta, concisa, os dedos ainda a cheirarem ao sexo dela quando agarrou na caneca de estanho do Strider’s Longfellow, aquela taberna à última volta do canal antes de aportar em Edimburgo. Roderick julgou que a tinha entendido, escondida nos farrapos do rio, pronta a ocultar-lhe as palavras, todas tão mesquinhas. Estava, claro, enganado.
Paul Samson sabia que ela era escocesa, sabia-lhe a altura exacta – era uma estátua esguia, 1,79 m – porque a tinha medido durante o sono. Sabia que o sangue era nobre e corria pelas Highlands desde o século IX, quando os castelos ainda abrigavam os peregrinos. Mas encontrara-a ao fundo do lago Tahoe, depois de tentar salvar um filho da cupidez. E a cupidez é sempre mortal.
Mesmo no fim das águas, os olhos-alga brilhavam, verde vale e vimioso.
Alexeiev Constantine, o cabelo preto como uma saia de viúva, tocou-a, e sentiu o descanso das nuvens: era o Arcanjo Gabriel, voz, trovão e tormento de Deus, mas também a beleza da misericórdia.
Shelmerdine, o mais velho, julgou-a homem, e ela, de qualquer ângulo isabelino, parecia isso mesmo: um rapaz pálido, de lábios em segredo, pronto a mergulhar na neve e com ela confundir-se até desaparecer.
O vestido, cor de Capri, António tinha-o tirado a meio do monte, quando a brisa soprava as borboletas para os ramos das árvores e os pés de ambos sentiam as formigas a percorrerem as folhas até pararem junto ao umbigo, fazendo cócegas.
No fim da conversa, ela continuava furtiva, ausente. Inclassificável.
Era como descrever o rosto de uma mulher que se beijara com uma venda nos olhos: o sabor dos lábios ficava durante dias, o aroma do perfume permanecia na roupa, mas como era afinal o rosto?
Sabiam apenas que se chamava Katherine Matilda Swinton.
Ninguém põe adjectivos a um adjectivo.























Diria, young master Peter, que não conheço Matilda mais substantiva.
Fantástico enredo, Pedro!
Gostei que tivesse ido buscar, melhor dizendo, nos tivesse levado até Tilda Swinton e da maneira como o fez. Apesar de (ou talvez porque) a minha confrangedora bagagem cinematográfica não incluir nenhum dos filmes de que fala, reduzindo-se a The Lion, the Witch and the Wardrobe, onde a vi pela primeira vez, fabulosa como White Witch, Michael Clayton e Burn after Reading. Acho-a única e dificilmente qualificável e parece-me inteiramente apropriada a sua adjectiva explicação para tal.
O enredo é tremendo, mas eu ainda estou pior que a Joana: nunca (acho) vi esta singularíssima senhora em dias da vida…
A Tilda Swinton deveria ser obrigatória! Orlando é inesquecível.
Em boa hora resolvi ir ver, em Inglaterra, há uns anos, o filme Young Adam que não encontrou lugar no circuito comercial em Portugal. Uma pena…
Ora essa!…
Gostei de todos os encontros, mas mais ainda o de Constantine.
Vi vários filmes com a Tilda Swinton, mas confesso que fiquei fascinada depois de ver “Io Sono L’amore”!
Obrigado
Aqui está a prosa de PMS, toda ela, todo ele. Brilhante e abrangente.
Quanto ao resto estou como M. Antoine, mas vou deixar de estar.
Como diria PN, lá vai o meu cartão de crédito entrar em sinergias com a amazon.
Corando, mr. orcama, elogio o seu contributo a esse grande motor capitalista que é a Amazon. Doutor, Joana, António, André, Turmalina e Ana Rita, espero que continuem a (re)descobrir Mrs Matilda.
Excelente como sempre Pedro! E que final apoteótico para a imagem deste mês!
Estive a pensar que no próximo jantar em que nos encontremos, tens que me emprestar o teu cérebro. Fico com ele por um ano. Como se fosse um disco rígido cheio de filmes e conteúdos extra para consultar. Farei a minha educação e no jantar do ano seguinte podes te-lo de volta. No entretanto terás que te remendar com o meu. Explicar-te-ei na altura como fazê-lo funcionar.…..
Forte Abraço
É já, Vasco. Penso no oriente, na América, na bela Itália de que vou desfrutar e em que vou reflectir. Boa prenda natalícia.
Extasiado com seu texto, tão tão tão extraordinariamente escrito, que ao lê-lo não sabia se era a descrição de um livro, até entender que falava dos filmes de Tilda. Um talento mágico dele, um talento outro seu para literatura.
Obrigado, caro Eduardo, pelas suas gentis palavras.