EU! – Porque matei Bento XVI
História Particular
da Infâmia

Sei bem que não é minha competência matar hoje ninguém – e que para mais ecoam ainda nos ares puros deste cemitério os forçosamente fortes cabeçalhos do recente passamento de Deus e respectivo enterro.
Mas acontece que tive precisamente hoje uma epifania televisiva relativa a um pequeno conflito interior que me tem atazanado o ego desde que o cardeal Ratzinger foi eleito papa.
A questão é simples: o papa foi eleito com o nome de Benedict XVI mas por cá sempre o conhecemos, porque sempre assim nos foi apresentado, como Bento XVI. Como o assunto era de ego (o meu segundo nome é exactamente Benedito, o mesmo com que a nossa querida Turmalina carinhosamente me trata) nunca aprofundei a questão – talvez por achar que iria fazer uma certa figura de parvo.
Na verdade sempre achei que o erro – porque se trata de um – não passava de latinisse simplista, espécie de preguiça medterrânica que tudo haveria de desculpar.
No entanto hoje, só hoje, percebi que esta singularidade era mesmo singular, exclusivamente lusófona. Porque no noticiário da tarde dei comigo, pasmado, a ver um grupinho de jovens espanholas em Santiago de Compostela a entoar cânticos de boas-vindas ao papa Benedicto XVI! (ainda cheguei a assinar assim, com ‘c’…)
Ora isto já requeria investigação – até porque sei perfeitamente que S. Bento e S. Benedito são santos distintos e distantes entre si cerca de mil anos.
Como não sabia por onde começar – nem tenho à mão o número directo do Núncio Apostólico (uma falha enorme, eu sei!) – apostei no Google a pergunta directa e em cru: «Bento XVI ou Benedito XVI»?…
E o que eu fiquei a saber, mon Dieu!…
Um horror, quase uma infâmia. E por isso me mascarei de Povo Português, pai da lusofonia e mãe de todos os disparates e formalismos informais que se produzem dentro do chamado quadro legal – seja o que for que isto quer dizer neste contexto preciso — e pintei a cara de preto.
Na verdade desconheço se o assunto foi ou não discutido no nosso país, por quem e em que moldes. Já no Brasil o assunto mereceu acesa discussão depois da primeira confusão.
Eis o que apanhei ao acaso.
Diz Hélio Consolaro, professor de português, cronista e presidente da Academia Açaratubense de Letras, no seu site Por Trás das Letras:

Surgiu uma confusão. No primeiro momento, ouviu-se pela tevê que o papa seria chamado de Benedito e depois passou a ser Bento. Essa confusão na tradução aconteceu apenas no Brasil. Qual é o motivo? Houve até gente que levantou suspeita de racismo, pois São Benedito é negro e motivo de piadas, e São Bento é branco.
“Bento” é particípio irregular do verbo benzer, veio do latim de “benedictus,a,um”. Já “Bendito”, particípio passado de “benedicère”. E “benzido” é particípio regular do mesmo verbo.
Bendito que significa louvado, abençoado, consagrado também do latim e tem a mesma origem de bento: “benedictus,a,um”. E daí vem também o nome Benedito, o bem dito, por isso tivemos 15 papas Benedetto.
São Bento e São Benedito foram dois santos diferentes. O primeiro é o protetor das pestes, mordeduras de víboras e lacraias, sendo o segundo o padroeiro dos negros no Brasil. São Benedito também é referenciado como protetor dos escravos e ainda dos pequenos acionistas.
A Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros (CNBB) é que adotou Bento como a tradução oficial de Benedictum. Embora sejam coisas diferentes (Benedictum = bem dito, bendito e não exatamente abençoado, que é Bento), todos os dicionários de nomes em latim apontam “Benedictum” como sinônimo de Bento.
A verdade é que desde o “Benedictum I”, que foi papa lá no princípio e sempre seu nome foi traduzido para Bento no Brasil. Se houve algum preconceito racial na tradução, aconteceu lá atrás, quando não se queria que o papa tivesse nome de padroeiro de escravos.
A revista “Isto É” escreveu que na tradução para o português, Benedictus ganhou duas formas: Bento e Benedito. E foi ouvir o professor de Latim da PUC-SP Jarbas Nascimento que afirmou: “O novo papa é chamado de Bento XVI por um motivo óbvio: não existe nenhum papa Benedito e existe um Bento XV. Todos os papas Benedictus vieram para nós como Bento”.

(http://www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/sub.php?op=polemica/docs/papabentobenedito)

Em nova chamada, desta vez assinada no seu site pela escritora e historiadora brasileira Urda Alice Klueger, apanho este rechonchudo e apetecível naco:

Vejamos: eu liguei a televisão bem na horinha em que começou a sair uma primeira fumacinha lá na chaminé da capela Sistina, e logo a fumaça ela ficou branca! Era hora do Jornal “Hoje”, e a expressão “Habemus Papa” passou a estar na boca de todos, seguida da grande curiosidade: “Quem é, quem é?” Havia sido escolhido o alemão Joseph Ratzinger, e isto é assunto para que outra discussão! O que nos interessa, neste momento, é que quando se soube quem era o Papa, ele já havia escolhido seu nome de Papa, e o Jornal Hoje já estava devidamente calçado com a presença de um teólogo da USP, que dava explicações. Soube-se que o nome que o Papa escolhera significava “Abençoado”, e o teólogo foi taxativo: tanto em italiano, quanto em português, “Abençoado” significava “Benedito”, ou “Bento”. Então não havia dúvidas: Habemus Papa Benedito!
Por uns 30 minutos, no Brasil, tivemos o Papa Benedito XVI. O Jornal Hoje se estendia sem pressa com o teólogo da USP, quando de repente, uma meia hora depois, o nome do Papa passou para Bento. Eu cá estranhei: aquilo tinha cheiro de racismo! Lembrei-me de São Benedito, santo preto muito popular no Brasil, padroeiro das gentes negras – será que uma coisa não estava tendo a ver com a outra? Passei uma mensagem para uma amiga antropóloga na Alemanha, contando o que acontecia, e ela me respondeu: “Aqui ele é Benedikt. Eu acho que é racismo, sim!” Expus o caso para minha faxineira que viera nesse dia. Ela foi taxativa: “Bento fica melhor, tu não estás vendo? Benedito é nome di nego!”. Eram opiniões de áreas extremas. Telefonei para minha mãe e expus o caso – ela achava melhor não mexer com tais coisas. Então, só restava esperar.
E esperei.
Nas horas seguintes, nos dias seguintes, fui vendo que a exclusividade do nome Bento pertencia ao Brasil (e agora descobri que a Portugal também). Na língua espanhola o papa é Benedicto; na língua alemã é Benedikt – na verdade, não pesquisei em muitos países, pois já conheço um bocado este Brasil onde “Benedito é nome di nego”, e posso entender este racismo que assola a minha gente, sob a capa de uma democracia étnica.
E Portugal, bem … se um dia fomos no embalo de Portugal, penso que hoje Portugal muito nos copia – basta ver o gosto dos portugueses pelas nossas novelas!
Taí o que queria falar. Se “Abençoado”, no Brasil, quer dizer Bento, e não Benedito, acho que São Benedito e nossos irmãos negros têm muito a ver com a coisa. Se na nossa língua não se aceita ter um Papa Benedito, eu acho que tem a ver com o mais descarado racismo, sim. Gilberto Freire que me perdoe, mas a tal democracia étnica está fazendo água.

(http://urdaklueger.blogspot.com/)

É evidente que depois disto tudo só me restava matar Bento XVI.

Já está.

Comentários a “EU! – Porque matei Bento XVI” (44)

  1. isabel castro diz:

    Um livro com crónicas deste género:aprender e divertir. É do que nós precisamos. Avance! beijinhos

  2. Lívia diz:

    Olá António. Julgo que lidas as referidas explicações e utilizando as imagens da Sra. Urda, chamar o Sr.Pontífice de Bento estará na mesma calha do gosto por telenovelas brasileiras. Fará esta tradução parte do acordo ortográfico? Mate-o à vontade que S. Benedito lhe há-de valer.
    Abraço.

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Olá Lívia, não estará na mesma calha das telenovelas, mas do acordo parece-me bem que sim…
    Ainda que gostou do meu assassinato privado.

  4. Ruy Vasconcelos diz:

    eça,

    não creio na hipótese de racismo. há dois nomes que designam mais ou menos a mesma circunstância: abençoado — uma vez que “bem dito”, de “bem-dizer”, também é uma forma de abençoar. assim como mal-dizer é amaldiçoar. tanto, que “maldito” quer dizer “amaldiçoado”.

    espinoza, o filósofo neerlandês, que era descendente de judeus portugueses, cuja língua materna, falada em casa era o português — e que não era negro, embora fosse moreno, e isso não diminuiu a importância de sua filosofia, pois ele é o mais importante filósofo do sec. XVII no Ocidente — era conhecido por três nomes: baruch [para a comunidade judia de amsterdã], bento [para os de casa, logo a sua família, que não iria “descriminá-lo”] e benedito [para os marranos, ou judeus cristãos-novos portugueses que haviam seguido com os demais]. os três, possuindo o mesmo sentido, no entanto: abençoado.

    além disso, o pontificado do primeiro papa com este nome, benedito ou bento, deu-se entre 575–579. ou seja, não havia brasil. aliás, sequer havia portugal. seria preciso investigar como eram chamados os papas quando ainda não havia brasil, apenas portugal. se eram chamados de bento, por exemplo, nos documentos do medievo, então está afastada por completa a hipótese de racismo.

    machado de assis, que era mulato, e é nosso maior escritor — aliás, qual o grande escritor mulato que está no ‘mainstream’ da literatura estadunidense? (os franceses, vá lá, ainda tem um alexandre dumas, que, convenhamos, não se pode comparar a machado, que lhe é muito superior) — designa seu protagonista em seu principal romance como “bento” e não “benedito”. seria machado, que era em parte negro, racista? ou talvez o nome bento, à certa altura, era mais popular ou emblemático (no sentido de “abençoado”, em termos mais institucionais? afinal, há a “água benta”, etc.

    o certo é que houve 12 papas bentos ou benedictos antes do descobrimento do brasil. e é muito pouco provável que eles fossem referidos como “bentos”, em português, somente após a descoberta do brasil. afinal, o brasil era a colônia. era aonde chegavam as designações. ao menos desse gênetro. e, muito, provavelmente, se covencionou chamar esses pontífices de bento não pelos quatro últimos (quando já havia brasil), mas pelos doze primeiros papas que utilizaram o nome…(que são três vezes mais que os quatro últimos).

    De resto, o fenômeno da variância de nomes não se dá só com bento. mas com muitos, vários nomes. uma das mais interessantes se dá com o ‘jacob’, bíblico [Yacov, em hebraico]: vai dar em ‘james’, na inglaterra (embora haja também ‘jacob’). em ‘tiago’ na espanha e em portugal (embora haja a variante ‘jacó’, e mesmo ‘yacó’, em português). em ‘jacques’, na frança; ‘giacommo’ na itália. ‘xaime’ na galícia; ‘jaime’ em português; séamus (na irlanda); ‘jago’ no país de gales; e se por aí fôssemos…

  5. Ruy Vasconcelos diz:

    p.s — quando digo “não havia brasil” ou “não havia portugal”; quero dizer na forma como os entendemos hoje, como estados-nações independentes, autônomos, com instituições próprias, etc. e etc.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Caro Ruy, não coloco a questão do racismo no Brasil mas sim em Portugal — um racismo institucional, dos tempos áureos da escravatura, que se inscreveu inevitavelmente na história do Brasil. Vamos ao exemplo de Espinoza: ele começou por ser chamado Benedicto ou Bento? Terá essa duplicidade onomástica resultado de estratégia de defesa da família? Afinal os pais de Espinoza saíram de Portugal para a Holanda por alguma razão, a Inquisição — que agia como um estado dentro do estado, e este estado tinha escravos negros.
      Mas vamos ao aspecto mais simples: Antão é coevo de António, como Benedito é coevo de Bento; Mahaut é coevo de Mafalda… Mas existiram dois santos e Bento de Núrcia chamava-se realmente Bendictus — nome que Ratzinger adoptou. Se eu me chamasse Antão, e conheço dois (ou tivesse mudado de nome), detestava que me chamassem António — e vice-versa. Curiosamente conheço imensas Beneditas e nenhuma Benta — embora também existam.
      Bento não é tradução, existe em Portugal, tal como Benedito — este muito menos usado.
      A adopção lusófona de Bento em vez de Benedito — e é caso único, mais nenhuma língua o fez com o os papas, seja por respeito político seja por não ter «necessidades» esconsas — é meramente utilitária por imperativos que considero idiotas.
      Mais nada, acho eu, e foi por esse utilitarismo (e para fazer piada com a minha posição «egotista») que decidi «matar» o virtual Bento XVI.
      Acresce o facto de não ser fã dele…

  6. Paula Oliveira diz:

    AEQ
    Uma escolha à medida da sua estatura.
    Apesar da sua mente aguçada e intelectualidade invulgar, não nos podemos esquecer da estatura do Sumo Pontífice. Logo, reduzir Benedito a Bento, na minha modesta opinião, foi sensato, sempre se economizam duas sílabas, não vá ficar o Vaticano mais pobre!
    PO

    • António Eça de Queiroz diz:

      Bem observado, Paula, mas tem de concordar que é apenas utilitário…
      E sabe que sapatos Prada têm preços que não distinguem o número que se calça.
      Logo, parece-me no mínimo ineficaz.

  7. Teresa Font diz:

    Até talvez seja um bom dia para esta morte — é o que se chama ter a mão na massa.

    Muito interessante, António. A citar mais uma vez a Eugénia, gostei uma fartura.
    Eu não me lembrava nada da curta fase Benedito do papa Bento XVI.
    E fica aqui uma bela discussão. Tanto os seus argumentos — e os que enconntrou, que são mérito seu (vamos passar pela coisa do bem escrito que está tudo, que aqui só se escreve bem, that goes without saying, que sou atenta — :) sorriso a la FB) como os de Ruy Vasconcelos são tão, tão válidos que dá empate.
    Claro que o mundo muda muito e o que era verdade antes da existência de Portugal e do Brasil tal como os entendemos hoje pode não verdade agora.

    Uma mudança de nome por causa do racismo, num papa particularmente polémico. Sim ou não?

    E sabe? Acho que tem sorte. O seu segundo nome, tão bonito quando dado a uma criança, não foi usado no re-baptismo desta — opinião pessoal — pouco simpática personagem.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Mas só em Portugal, Teresa?!…
      A minha indignação, em desespero de causa, é que este povo e esta língua não ME respeitam…
      Olhe o meu ar de culpado: {^\^}
      Ainda bem que gostou

      • Teresa Font diz:

        Ou seja, no fundo matou num duelo.
        Sem qualquer intenção de desrespeitar (mesmo que desrespeitado…) mas tão só de matar.
        Parece-me legítimo.

        E nós a ler tudo, mais o Ruy, o Gonçalo, a Joana a postarem tanta coisa interessante-e falo só destes por motivos óbvios.

        Pus-me eu ontem a cogitar aqui em frente ao Tejo e a desoras se o re-uso que, diga-se, nunca foi abundante por cá, do nome Benedito, não teria justamente vindo do Brasil onde chegou via emigrantes italianos Benedettos, para Portugal. Excepto nos casos raros em que se manteve tradicionalmente nalgumas familias.
        Em Portugal terá sido, das duas formas, a que caiu em desuso. Antão é um bom exemplo, só conheço um e , sendo o mais novo de muito irmãos, a imaginação e os nomes dos avoengos já escasseavam…
        Bento-nome proprio, também não é muito usado mas é mais do que Benedito. As Beneditas mais recentes parecem-me um fenómeno de moda.
        Porque é que a Curia, em Portugal, chamou Bento ao primeiro papa Benedito? O principio, como geralmente acontece com os principios, estará no principio.
        E com esta me vou. Não quero ler os outros posts já.
        Coisas tristes para depois de almoço.

        (Este blog é uma universidade que tomara muitas, carago!
        “Singela homenagem lisboeta ao cinq a séc de ontem”. grrrrrrrrrrr…)

        • António Eça de Queiroz diz:

          Áh!…, mas evidentemente, um duelo justo e leal, sublinhe-se. O tal nome arranjou montes de advogados ilustres mas, no fim, matei-o na mesma e de morte matada!
          Teresa, tem toda a razão — a questão está nas origens do país. A verdade é que as ordens dão dos Franciscanos, dos Agostinhos… e dos Beneditinos — nunca dos Bentinhos (Betinhos?…) ou Bentoninos!
          S. Bento de Núrcia não era Bento, era Benedito — daí a ordem com o seu nome. Na origem decidiu-se modernizar (não tem nada a ver, mas cada vez que vejo o nome do Eça acabar com um «Queirós» pergunto-me do porquê disso, já que ele assinava com «Z», como o pai, o avô e nós todos». Tanto quanto sei foi um decreto falhado do Salazar de harmonização onomástica, que só causou confusão. Acho que os governantes nacionais fazem certas coisas por não saberem mais o que fazer).
          E SIM, UMA GRANDE HOMENAGEM AOS BENFIQUISTAS QUE SABEM PERDER!!!

  8. Turmalina diz:

    Continuo gostando de chamá-lo, Antonio, de Benedito. Sabe que nunca relacionei o nome ao Papa, e só agora me dei conta que ele é Benedito.Tão ligada nessas cousas que sou, nem percebi a troca por Bento Embora o Ruy tenha demonstrado muito bem sua posição contrária a teoria do racismo, eu tenho cá uma pulga atrás da orelha, ainda mais em se tratando de algo decidido pela CNBB.Sim, existe racismo no Brasil!

  9. António Eça de Queiroz diz:

    Como em toda a parte, Turmalina!…
    Mas se ler as respostas perceberá que para mim não se trata já de racismo mas sim de utilitarismo imbecil.
    Áh!… E eu adoro que me tratem por Benedito, o meu Pai tratava-me só por esse nome.
    Tenho um grande amigo que por vezes também me trata assim.

  10. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Meu caro António, escrevo-te com amizade, mas sobre este teu post tenho duas coisas a dizer.
    1. A primeira para lembrar um senhor que desgraçadamente aqui andou a comentar-nos, que dava pelo nome de Pinto Costa, mas que eu inavertidamente, no título de um post, grafei como Pinto da Costa. Chamaste-me na altura a atenção para a dubiez, ou dubiedade (os dois são possíveis em português) do título que então dei ao meu post, a qual poderia ferir o carácter do presidente do Futebol Clube do Porto. Reconheci o erro e retratei-me, mudando o título e pedindo-te desculpa. Julgo que, no mínimo, o respeito que é sem dúvida devido ao presidente de um clube de futebol deveria também ser considerado no caso do chefe ou cabeça de uma igreja. Ora, matar Bento XVI no título, ainda que com as explicações que se seguem, parece-me francamente agressivo e exagerado, measmo quando aceitemos, como é obviamente o meu caso, que discordes expressamente dele.
    2. O segundo ponto é para te dizer que, apesar de não ser latinista, me parece que a tua tese não tem fundamento (e não falo da do racismo, já que essa, como bem mostrou o Ruy Vasconcelos, não tem qualquer cabimento). Na verdade, tanto Bento como Bendito derivam de benedictum, particípio do verbo benedico, is, ere, xi, ctum (literalmente: dizer ou falar bem de, elogiar; a partir do que evoluiu para: louvar, celebrar, abençoar e consagrar). Ora, na passagem dos vocábulos latinos para o português muitas vezes aconteceu que o mesmo nome derivou nuns casos por via erudita e noutros por via popular. É o caso, por exemplo, da palavra pão (vi popular) e panificação (via erudita), ambos provindos de pane. Não há, no entanto, explicação científica universalmente aceite para os casos em que tal acontece, embora as mais frequentes se expliquem a partir da influência celta, mais óbvia em Portugal do que em Espanha, sobretudo nos casos em que as palavras latinas apresentavam um “n” ou um “l” no meio das palavras, casos em que a tradução popular as deixava cair, levando à criação de ditongos muito fortes, que com o tempo passaram a escrever-se com um til. Neste caso, aliás, bendito é algumas vezes usado como nome próprio, ainda que o mais frequente seja Bento. Benedito, no entanto, manteve-se como nome próprio directamente a partir do vocábulo latino, enquanto Bento e Bendito são claramente portugueses. É razoavelmente claro, neste sentido, que o actual nome do Papa foi durante mais de mil e muitos anos usado oficialmente em latim, isto é, Benedictum, ao mesmo tempo que era também dito em português: Bento.
    Não me leves a mal, mas não me parece, por tudo isto, que tenhas razão, parecendo-me mesmo desrespeitoso e despropositado o título do post. Estou, no entanto, inteiramente disponível para discutir contigo, se eu souber e se tu o desejares, discordâncias que tenhas em relação ao que este Papa faz e defende. Se há coisa, aliás, que distingue a igreja cristã (e nesse caso, deixa-me dizer-te, também este Papa), é a vontade de estabelecer um diálogo fecundo entre a fé e a razão. Mas é tempo de deixarem de ser só os árabes a pedir que respeitem as suas crenças.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Gonçalo, convém esclarecer que não tive qualquer intenção de desrespeitar crenças — nunca o fiz, não ia começar agora, nem imagino que alguém se sinta desrespeitado na sua fé por alguém não gostar do nome que (a meu ver erradamente, mantenho) um país e a sua língua impõem ao seu portador.
      Ponto 1: a questão do Pinto da Costa levei-a bem à conta de piada, como pensei que este meu «crime» também fosse levado. Porque eu apenas matei virtualmente uma denominação que acho tão desligada como se me referisse a Cambridge como sendo Cantabrígia ou a Oxford como Oxónia: é tradução, soa-me mal, não gosto do nome Bento (lembra-me Benito) e torna (para mim) esta singularidade nacional numa esquisitice.
      Ponto 2: exactamente por imaginar que o título «puxado» podia desagradar é que eu me auto-enterrei no portal da Infâmia — mais não posso fazer…

  11. Joana Vasconcelos diz:

    Eu só queria dizer que:

    1 — Ontem à noite, já tarde, espreitei aqui o cemitério, para ver se estava tudo sossegadinhoo — afinal, alguém tem de manter a ordem nisto — e logo vi que o nosso bem-aventurado dragão deixado sozinho e à solta tinha feito das suas (dele)

    2 — O título sobressaltou-me e, vindo de quem vinha, tratei de o ler de imediato: gostei, claro, do delirante móbil homicida do autor (sendo certo que aqui se mata tanto quanto se jaz morto enquanto se escreve, comenta e zaragateia …), mas sobretudo de nele o nosso (bendito seja) AEQ vir a posteriori dar-me razão — que é algo que eu sei que tenho sempre, mas que naturalmente me agrada ver reconhecido … Ora diga lá António Benedito quantas, quantas, quantas vezes lhe chamei Bento e Bentinho e até Benoît … tendo suscitado os seus veementes e mau-feitiosos protestos!?! Mas, enfim, mais vale tarde que nunca: eu estava afinal certa!!!

    3 — Quando, há pouco, me apresentei para comentar os posts que fui lendo por estes dias, começando por este, deparei com um monte de comentários. Li-os todos, gostei muito e aprendi tanto — em especial com o que aqui trouxeram o Ruy (adorei relembrar Espinosa, tema de tese do meu professor de filosofia do liceu, que constantemente nos falava do seu pensamento e trazia textos para as aulas, apesar de não fazer parte do programa lectivo) e Gonçalo (fascina-me esse recuar até à origem das palavras, e o que ao fazê-lo se descobre quanto a palavras tão aparentemente díspares). Correndo o risco de me tornar repetitiva, este blog é mesmo extraordinário, desde logo pelos seus extraordinariamente cultos e generosos autores que nos permitem alargar horizontes, neste caso ajudando-nos a olhar bem para trás!

    4 — Só para deitar mais lenha para a fogueira, em francês o actual papa é chamado Benoît, que é justamente o nome que é dado nos países francófonos a São Bento de Núrsia, fundador da ordem beneditina e padroeiro da Europa … E nós por cá temos o muito antigo (1640) santuário de São Bento da Porta Aberta, em Terras de Bouro

    5 — O que o Ruy disse sobre Espinosa ser também chamado Baruch (= Bento ou Benedito) fez-me lembrar ter algures lido ser essa também a origem de Barack (sim, o Obama) — declino evidentemente qualquer responsabilidade quanto a futuros posts homicidas transatlânticos do nosso fero draco!

    • António Eça de Queiroz diz:

      Joana, pois claro!, tinha de ser!
      Benoît é exactamente o exemplo que quero: faz-me lembrar quando os franceses dizem «vachanton» quando se referem a Washington.
      Quanto ao Barack acho muito bem, não quero a CIA à porta, mas penso que esse nome tem a sua própria matriz na sua língua original — não deriva de nada europeu.

  12. Ruy Vasconcelos diz:

    ahahaha,

    que coisa fantástica é essa digressão sobre nomes.

    uma ironia, Joana, que, ao fim de tudo, barak e o papa tenham o mesmo nome. desconhecia o fato.

    mas, de resto, concordo consigo sobre a riqueza deste blogue — e ressalto o post do gonçalo pistacchini, de bem embasados argumentos.

    abraço a todos,

  13. Turmalina diz:

    Ok…fico quase que praticamente convencida que não houve nada de preconceituoso na escolha dos Bispos da CNBB. Obrigada, Ruy e Gonçalo.
    Mas no meu inocente olhar, sem preconceitos, acredito que o título só foi uma referência ao nome e não à pessoa do Papa. No meu entendimento, o nosso Benedito, deve ter querido enterrar um nome, supostamente errado, para que usássemos o correto.
    Ah…e Ruy, gostei que fostes buscar Machado de Assis para ilustrar parte do seu comentário.
    E Joana…não tinha pensado em draco dessa forma…

  14. O turismo religioso é mais importante que o desportivo, Portugal deveria ter investido em mais uma ou duas Fátimas. Papa é apenas business, e quem foi a Roma, com olhos na cara, e não apenas passear frustração, sabe disso.

  15. isabel castro diz:

    Depois de ler os comentários uma vez (mas vou voltar! como volto ao Eça muitas vezes e ao Machado de Assis)apetece-me dar um conselho aos portugas: ignorem noticiários repetitivos, inda p’ra mais gritados, inda p’ra mais cheios de tantos cifrões e milhares de milhóes, e voltem-se para o que estes senhores e senhoras/senhoras e senhores dizem neste blogue onde a gente muito aprende e se diverte também, mais que no cinq a séc de ontem, gostei dessa, Teresa Font, associo-me nos parabéns, para sermos pelo menos duas almas grandes não invejosas e com vista para o Tejo.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Viva!!!…
      Mas, Isabel, é benfiquista?!…
      Cruscredo! Pardeus! Com tal aconteceu?!

      • isabel castro diz:

        Qual benfiquista, sou talvez meia-benedita, que olha p’ra todos e reza baixinho vença o pior e o mais pobrezinho…e o mais feio: o Villas-Boas já tem que chegue.

        • António Eça de Queiroz diz:

          Meia-benedita acho bem…

        • Teresa Font diz:

          Gosto muito do seu motivo, Isabel.
          E, para não fazer vista com alma que não mereço, deixo uma confissão, que o ambiente é propicio: foi mesmo para irritar o meu filho sportinguista. Ou seja, é uma causa do mal, a minha.

          Se calhar é por isso que desde que me dediquei mais ao assunto o pobrezinho leva cabazada atrás de cabazada.
          Andamos a mexer com forças sérias.

          • isabel castro diz:

            E mais outra em comum: é que também eu quis irritar o menino Benedito…

            • António Eça de Queiroz diz:

              Áhhhhh!… Conhece-me suficientemente bem para saber que aqui o Bené não se irrita com coisas dessas: se fosse verdade passava o resto da vida a gozar consigo…
              & toclas!

  16. Grande título, António! Gostei muito. E o conteúdo vem mesmo a propósito… Obrigado por elucidar este tema (é incrível que alguém leia isto e considere uma afronta à religião).
    Parabéns!
    Um abraço!

  17. António Eça de Queiroz diz:

    Grande abraço, Renato, ainda bem que gostou.

  18. José Vicente Águia Imperial diz:

    Vê Isto por este prisma, irmão : prezas tanto o nome Benedito, que é teu e bem bonito por sinal, e tens orgulho em o partilhares com o enorme S. Benedito. Assim, ainda bem que ele, o Papa, é Bento e não Benedito como tu.

    Se não, imagina-o tu, a confidenciar, assim, num grupo muito privado : ” Sabeis, lá para a Lusitânia, há um rapaz que também se chama Benedito” ! Um tal de António, que também é Benedito “. ” Quem” ? Pergunta um do grupo privado ! ” Um tal de António Eça de Queiroz “, responde o Sumo Pontífice. ” NÃO ” ! ” Sim, Sim “. E há pessoas que de todo não sabem guardar um segredo, por mais importante que ele seja. Dos cardeais aos bispos e dos bispos aos sacerdotes, dos sacerdotes ao povão, espalha-se a notícia, corre o mundo ! Toda a gente a saber que tens o mesmo nome deste Papa. Tu, a passeares calmamente, enfiado nos teus pensamentos, na Av da Boavista, em Vila do Bispo ou em Roma, e as pessoas, mão em concha, voz baixa : ” Ali vai o Benedito ! O que tem o mesmo nome do Papa ” .
    Estás a ver a sorte que tens ?
    Paz, irmão

    • António Eça de Queiroz diz:

      Ó Zé, não tinha pensado nessa hipótese! De todo. Que bem visto.
      No entanto o sentido cívico move-me, inexorável…
      Grande abraço!
      (olha-me aí: aquilo do D. Luiz à esquerda foi droga que deram ao JJ, não?…)

  19. José Vicente Águia Imperial diz:

    Quando Jesus aspira a ser Anjo, ainda por cima no diminuitivo, dá nisto. Errou duas vezes, fez exatamente a mesma asneira e foi punido, espero que não haja uma terceira. Mas parabéns ao Dragão, jogou muito bem e mereceu a bela vitória.

  20. António Eça de Queiroz diz:

    Quanto ao JJ nada sei, tem cara de quem marra sempre para o mesmo lado…
    Já os teus parabéns recebo-os com a certeza duma coisa: por muito que te custe, és verdadeiro.
    Obrigado meu irmão, foi de facto um belo jogo para nós.

  21. jota diz:

    mataste mesmo o papa antónio benedito? :) benedito e sorrio porque és tão diferente do ratozinger. mas afinal mataste qual papa? o bento ou o benedicto? realmente teins algumas parecenças com aquele papa do Bacon… eu acho que esse mesmo Bacon é um prodigio superior a Nostredame: pos-te, embora exageradamente gordo, num trono. e tu estás num trono António Benedito.
    Reconheço que só homens como tu conseguem confrontar-se com um papa qualquer e dar-lhe um tiro nos miolos…: és um dos homens que poderiam assumir, humanamente, humanisticamente, uma ordem diferente desta tão regular desordem. bem. todos nós já vimos ‘as sandálias do pescador’… até poderiamos dibidir algumas daquelas porçoeins das altaneiras e ricas cabes do Baticano.
    Tou farto de falar contigo António Benedicto. Nunca falei taum longa e desmesuradamente com um papa! Acho muito bem o facto de o teres assassinado. O déssimo-seisto foi-se… sobramos nós. e tu…
    ”frade que pede a deus pede para dois”… leimbra-te de mim antónio benedicto… pede par três… :D

    • António Eça de Queiroz diz:

      Caro Jota, não sei se sei quem és mas desconfio…
      Que nós, os assassinos de papas nominas, somos sempre um pouco desconfiados. Ossos do ofício, acho eu.
      No trono do Bacon, largo como um tamboril e ainda por cima enjaulado?… Eu?!… Bon Dieu, que me querem fazer a folha!
      Jota, claro que matei o Bento — está no título/confissão… Sobra o Benedictus!
      Um abraço.

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