
Raymond Depardon, 1989.
Morreu, é certo. Deus foi assassinado, crê-se. Um alemão, Friedrich, reclama a autoria do crime. Alega tê-lo feito a mando de uma figura fantasmática que mal vislumbramos atrás do obscuro nome de Zaratustra.
A pretensão de Friedrich sofre de defeito. Não conseguiu apresentar prova material: o corpo do delito nunca foi encontrado. Não se estranha que outros alemães – a sanha alemã! – pretendam ter sido eles os autores da matança: Karl, que viveu penosamente em Londres, fez clandestina confissão de o ter morto a ópio. Adolph, pintor da escola suástica, jurou que Deus era judeu e matou-o gaseando-o. “O cristianismo, essa superstição judaica”, terá depois dito, eufórico, o matador.
A notícia da sua morte omite o que alguns acólitos advertem ser um facto essencial: a imortalidade da personagem. Possibilidade negada por uma seita blasfema que, sustentando a inverosimilhança ontológica, denuncia a lenda como uma trivial narrativa de maldição metafórica: apenas e só a maldição da eternidade.
Outros, numa improvável combinação de ciência e esoterismo, sustentam que Deus deve ser imaginado como um incrível burlão que tivesse, primeiro, roubado o tempo e, num segundo momento, decretado a sua inexistência.
Não é fácil executar-lhe a biografia, sobretudo quando os seus mais acérrimos defensores pretendem que a sua idiossincrasia é apofática. Mesmo se tentarmos ser positivos, reunir as peças da sua vida é uma tarefa atrapalhada por torpes fantasias. Relatos heterogéneos dão-no como súbita presença no naufrágio de um transatlântico, salvando uma centena de aflitos enquanto mil infortunados se afogavam. Herói de superpoderes, terá salvo um bebé no meio de um terramoto, uma virgem na queda de um avião em que todos os passageiros pereceram carbonizados. É olímpica a sua indiferença ao sofrimento, é juvenil e entusiástico o seu modelo de heroísmo.
Épico parece ter sido o seu apetite sexual. De Deus, nome de guerra a que nunca juntou apelido, conhecem-se episódios insensatos, detalhes dissolutos. Manteve uma relação mais íntima com Teresa d’ Ávila e com João da Cruz o que revela uma sexualidade melancólica, preenchida por silenciosos êxtases *. Em San Francisco, mais a norte na costa californiana, iniciou o “flower power”. O movimento outorgou-lhe a paternidade nomeando-o num lema mítico: “Deus é amor”, diziam.
Mestre do disfarce, entretendo uma vida lúdica, ninguém conheceu o seu rosto. Cega quem o olhar de frente, asseguram testemunhos balbuciantes. Homem sem rosto – um olho só, intolerável e imenso, como surge em retratos apócrifos – os seus soldados, os seus ministros, os adeptos do seu culto delirante e arrebatado, apagaram-lhe as imagens, abominando a pintura, a escultura, a fotografia como elementos ruinosos e ridículos, obstáculos à ontoteologia que proclamam.
Apreciador de uma ironia clamorosa, ao rosto secreto contrapôs uma interminável multiplicidade de nomes. Sociedades secretas, agremiações teosóficas, seitas delirantes enumeram os seus nomes. Um grupo de iluminados ou ungidos assegura serem 99 os nomes verdadeiros, de alfa a ómega. Outros, radicais, defendem que é o Inominável. “Unum” foi como o chamou, com inefável serenidade, Mestre Eckhart.
Múltiplos são também os sinais da sua passagem por cidades e desertos, por remotas aldeias e incansáveis rios. Há cruzes e crescentes, rodas e pedras negras, mesmo um falo estatuário. Descrição a roçar o idólatra apresenta-o em festas secretas com uma auréola pairando-lhe sobre cabeça, o que o converte num precursor da Industrial Light & Magic e dos special effects spielberguianos que substituíram os esgotados lumen naturae.
Morto, sem rosto, inominável, de sobredotada sexualidade, recolhe-se hoje a este cemitério. Réprobo e tão próximo agora, deixa de ser a visão poética que se confundia com uma galáxia distante. Estava morto. Está enterrado.
* Triângulo (não confundir com trindade) em que François Truffaut se inspirou para o filme “Jules et Jim”.

walking-barefoot, peter meyer

















Fizeste-Lhe a folha, estás lixado!…
Bem, está muito bem enterrado, talvez te safes com três ou quatro reencarnações.
Com sorte.
Eu tenho sorte. Tu és meu amigo. E toclas.
Manuel, acho que não lerei nada melhor sobre o assunto nessa vida.Depois desse seu texto tudo o que Saramago escreveu referente ao ilustre defunto ficou pequenininho…
Como diria o nosso PN: Saramago, também não é assim tão difícil. Direi eu: por amor de Deus, isto pouco mais é do que o relatório do médico legista.
Mas escrito com maestria!
Assim se descobre o déspota que há em si, perdão, o Marquês, e de Pombal: enterrar mortos. Venha então outro texto, igualmente bem amanhado em fundo noticioso, onde cuide dos vivos.
Apofática, Manuel Fonseca?! Você dá-me tratos de polé à ignorância..
Ponha-se com ofensas à aristocracia e depois admire-se se for enterrada viva.
Apofática? É uma variante teológica suspeita de ateísmo: sustenta que dizendo o que Deus não é definimos o que ele é. A apófase nega que se possa descrever Deus com atributos positivos ou determinados. Não podemos dizer que Deus é bom ou que é justo. Ele é maior do que essas palavras ou esses pensamentos.
Manuel Fonseca,
a correr que estou com tanta pressa que ainda nem li, muito menos comentei, uma série de textos deste lindo blog, uma notinha telegráfica para acalmar o Marquês que há em si e o fazer arrepender-se das ameaças e eventuais salmouras. Adiante.
Foi aqui, numa caixa de comentários, a do seu belo texto de Hérois e Vilões, que apresentou o Michel Houellebecq à minha ignorância. Pois roa-se de inveja que a Grand Entretien deste mês na Magazine Littéraire é com esse malvado, já li, e não lhe conto nadinha.
Eugénia, pensei o mesmo! Apofática?! Lá está o Manuel a armar-se…
Por amor de Deus, António, a teologia apofática é simplesmente o contrário da teologia catafática.
Manuel: reduziste-me a pó! A mim, que nem patafásico fui…
Serás tu a Morte?…
Apofático também não sei o que é. Conheço apofântico, mas não me parece que ali se aplique. Nós, Manuel, ignorantes nos confessamos.
Quanto ao tema, não discuto, não rebato. Lembro apenas o cântico, bonito, que ressoa: ubi caritas, Deus ibi est! E assim tem sido na minha vida…
Gonçalo, os meus olhos nem querem ouvir o que disseste, nem os meus ouvidos acreditam no que vêem. Então, apofático!!!! Não tinhas à mão o teu Pseudo-Dionísio Areopagita e cito:
“Ousamos negar tudo a respeito de Deus para chegarmos a esse sublime desconhecimento que nos é encoberto por aquilo que conhecemos sobre o restante dos seres, para contemplar essa escuridão sobrenatural que está oculta ao nosso olhar pela luz perceptível nos outros seres”.
Acredita, Manuel, acredita. Afinal de contas, tens de acreditar em alguma coisa — e mais vale na minha ignorância do que no contrário. Ficaremos melhor os dois. :)
O facto, porém, é que do dito, que não era Dionísio e nem sequer areopagita, pouco coisa li para além da citação que fazes acima. E é verdade que faço mal, porque foi muito importante na Idade Média, onde exerceu tal influência na leitura e interpretação das Escrituras, que é costume compará-la, neste ponto, à do seu contemporâneo Agostinho. E foi assim que muito influenciou São Tomás, que, desde o seu magistério de Colónia, a partir da triplex via do pseudo-Dionísio bebeu e desenvolveu a sua via negationis — nome pelo qual sei dizer o teu apofático. Na verdade, porém, para além de saber que existe, nem o comentário do santo de Aquino sobre o De Divinis Nominibus li. E nem será muito fácil que o venha a ler. Permanecerá, também ele, encoberto, mas agora pela minha preguiça e condição.
Perceberás, por tudo isto, a importância e o valor que para mim tem, de hoje em diante, a tua citação. Obrigado!
Pronto, incineraram o Senhor Queiroz! Nem sei se diga oh diacho! se oh deus!
Uma coisa sei: muito se aprende aqui, com estes mortos. Obrigada.
Uma tragédia, gb, uma tragédia…