
Parabéns
Hoje é dia de Eugénia. Do aniversário dela. Festeja-se na Sardenha e festeja-se neste cemitério. A Eugénia tem tudo: a riqueza e a inteligência, os bens do mundo e os bens do coração. Pensei, e não creio que esteja mal, fazer-lhe uma oferta singela. Agora que ela é tão pequenina, convido-a a vir comigo ao cinema. Comigo e com o meu tempo, de quando eu era pequenino, o tempo que me fez o que sou hoje. Não é uma grande prenda (melhor seria Tiffany ou coisa que o valha, valha-me Deus). Mas quando é de nós que damos, também se diz que é o melhor que podemos dar. Parabéns Eugénia e venha daí. Ao cinema.

…de quem, nesta sala, todos somos filhos
Somos uma multidão. Uma turbamulta de gritos e empurrões vestida a calções, manguinhas curtas, pés descalços ou sandálias, alguns quedes. Somos a minúscula multidão de 5 anos espevitados até aos 12 no limiar da inocência. Somos brancos, negros e mulatos, juntos como nos selos que o colonialismo, que nos juntou, cola nas cartas. Como nos selos, às vezes de mão dada. Outras à estalada, lambido selo que a doçura mediterrânica dos bons padres capuchinhos interrompe com uma chicotada do cordão que lhes ata o hábito. Estamos na fila. “Faz fila, faz fila! não empurra! estás a empurrar porquê? não sou eu, estão-me a empurrar então.”
É a fila da matinée de sábado. O filme, é sempre, é de cóbois. O Padre, quem manda, passa ao nosso lado e atormenta-nos:
- Figlio mio, essa minina não entra. É molto picola!
- Como não entra, Padre Miguel, é a Eugénia!
- Siiii, será Eugénia, ma não entra. Molto picola.
- Faz anos hoje, o Padre Luis diz que não fazia mal. Se não entra, vai chorar. É pecado, Sô Padre.
- Ó Nossa Signora, esses mininos.
Este é o cinema de São Domingos, anexo à Igreja que conhecemos pelo mesmo nome, embora se chame e seja de Nossa Senhora de Fátima. Para nós, a mãe de Deus que nos desculpe, tudo ali, a igreja, os campos pelados, o campo de basquete, e acima de tudo o cinema, é de São Domingos.
Mesmo sem nada saber, nós que só isso sabemos, acreditamos que o cinema de São Domingos é o cinema que representaria o cinema se o cinema fosse representável no “mundo das ideias”. A pequenina Eugénia, ainda agora nascida, diz baixinho: “cinema paradiso”. Talvez não seja um edifício sumptuoso, reconheço. Está bem, provavelmente não será o arquétipo que estou a tentar vender-vos. Mas esperem para ver.
Na bilheteira, os bilhetes mais caros são os da frente. Em angolares, dois e meio, dois escudos e cinquenta centavos. As filas do meio para trás, é só dois angolares por cabeça. Paga mais quem vê primeiro, explicam os gentis franciscanos de calabresa fala mansa. Todos queremos ver primeiro e as primeiras filas esgotam sempre. As de trás também. A sala é um rectângulo com bancos corridos, de madeira, e sem costas. Janelas altas que uma flanela preta começa a cobrir, um minuto antes da sessão começar. Imaculado, lá à frente, o lençol branco aguarda, reprimido, as cores do sonho. Ao fundo da sala, nas nossas costas, atrás de uma cortina de espesso veludo negro, espreita à janela esse olho de luz que só trabalha no escuro.
A sala ainda não se calou. Grita-se, xinga-se: “a chegar, foste o último então! último a chegar mãe dele é gato”. A ansiedade masculina é intolerável e física e dois agarram-se e vai uma bassúla que a sala ovaciona, como se aqueles dois que se enfrentam já adivinhassem que no 27 de Maio hão-de, fraccionados, estar de lados opostos da barricada que parecerá soviética de qualquer extremo que se olhe.
A sala berra e não se vai calar. Nesta sala, estes miúdos vieram para não se calar. A sala ensinou-os a não se calarem. E o que gosto que esta sala nunca se cale, eu que nunca fui de gritar muito.
O filme é de cóbois. Parece que é sempre de cóbois. Menos quando é de espadachins. Alguns anos depois, minina Eugénia, vai ver que vão construir aqui uma sala nova, balcão e plateia, cabine de projecção. E já vão vir outras meninas, e não só uma menina pequenininha que faz anos hoje. Virão, as jovens raparigas, com um perfume atónito que vai muito bem com filmes em que já há beijos. “Larga o osso”, grita, no balcão ou na plateia, a nossa inépcia pré-púbere – se é que nos desculpa o palavrão.
Agora, ainda não há beijos. Os filmes são de cavalos e tiros, de murros e de espadas, de diligências e de piratas, de naus e às vezes um canhão: para educação destes infantes meio-europeus ou totalmente africanos. Apagaram-se as luzes e os gritos são lancinantes. É um só grito de todos. Quase não se ouve o som do genérico, ronco do leão da MGM ou a tonitruante música de Filmes Castello Lopes. “Aka, já vi esse firme então!” A mesma piada e a sala ri como se fosse a primeira vez, porque é a mesma estafada primeira vez. Não queremos piadas novas. Queremos, a cada emboscada dos bandidos, bradar com urgência: “Cuidado artista, cuidado rapaz, atrás de ti, o bandido está atrás de ti.” Indiferente ou surdo, o rapaz não ouve e atiramos-lhe com sapatos para que ele se vire e salve. “Uaauu, esquindiva, o rapaz já está a controlar-lhe.” E salva-se. “Fui eu que lh’ avisei!” “Aka então, quem lh’avisou fui o so’ eu” “és mentiroso, foi o meu sapato que lh’ avisou”.
Salva-se, o rapaz salva-se! Porque é na salvação dele que nós nos salvamos. Ó, e se queremos salvar-nos! Ainda não sabemos de quê. Mas na igualdade com que nos sentamos, certinhos, no banco de sumapau, as perninhas encostadas para cabermos todos, adivinhamos o arrepio de uma diferença que, quando crescermos, há-de multiplicar-se ignóbil. Ao contrário da miraculosa multiplicação dos pães e dos peixes do crucificado destes cinéfilos padres capuchinhos de quem, nesta sala, todos parecemos filhos.
Esta é a minha sala de cinema, aquela onde às trevas chamei dia e à luz linda noite; e, exactamente como queria e onde eu queria, fez-se o crepúsculo, a aurora, a manhã, dia primeiro. No meio da multidão que nós éramos, as pernas escanifobéticas a sair dos calções curtos, descobri a alegria e a paz. Depois, no silêncio sumptuoso de outras, descobriria outros pesadelos, o grito dos mortos. Não no meu primeiro cinema, onde chorar era pecado. E por isso, Eugénia, a convidei para que, hoje nascida, visse o primeiro filme.

A igreja. Ao lado, os filmes, os cóbois e os espadachins.