Arquivo | Novembro de 2010


Fernando Pessoa, a última foto

a última foto

Ainda ninguém o trouxe para este cemitério, mas faz já 75 anos que morreu Fernando Pessoa, uma das raras figuras da literatura portuguesa do século XX a ultrapassar as fronteiras da língua e, curiosamente, tão amado, se não mais, no Brasil como em Portugal.
Era ele e era outros. Pelo menos a ele e um dos outros, Álvaro de Campos, se alguma coisa os define é essa “insatisfação ante a incapacidade construtiva característica da nossa época, em que não surgiu nenhum grande poeta, nenhum grande estadista, nem mesmo, bem vistas as coisas, nenhum grande general.” Adivinhava o futuro, é o que é.

A Beautiful Mind

Um dos mais artísticos livros do ano foi agora publicado nos Estados Unidos. Não é sobre pintura, ou artes gráficas. Chama-se “Portraits of the Mind: Visualizing the Brain from Antiquity to the 21st Century”, e é o resultado do trabalho de Carl Schoonover, um estudante do programa de doutoramento em neurociências da Universidade de Columbia. O conceito é simples: atrair o pensamento e a reflexão sobre o cérebro humano através das imagens que o seu estudo proporciona. O livro inclui ensaios e investigações sobre a história científica da visualização da mente, mas as estrelas cintilantes da obra são os desenhos, aguarelas e, sobretudo, fotografias do cérebro.

Através de técnicas de infusão de cor, os neurónios, as sinapses, os vírus, as enzimas, o lóbulo pré-frontal, o neocortex, in sickness or in health, transformam-se em telas de Dali, Van Gogh, Braque, Monet, Pollock, De Kooning. São explosões de supernovas, campos de alfazema sob a brisa mediterrânica, mapas de Marte, topografias de cidades alienígenas, esquemas de maquinaria agrícola, chuveiros psicadélicos, palimpsestos de granito, apontamentos de paisagens africanas, flores de neve, rios de néon em fluxo descontrolado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É a mente, mais bela do que nunca.

 

 

Ver de ouvidos bem abertos

A proverbial frigidez de Stanley Kubrick gerou não poucos equívocos, levando a que fossem exaltadas algumas obras suas particularmente desvitalizadas, como Full Metal Jacket e Eyes Wide Shut, ambos exercícios de estilo sobe matérias que reclamam sujidade no lugar da geometria, confusão em vez de magistério e um sentido pulsional da vida, uma espécie de vontade de energia, da qual Kubrick, o misantropo Kubrick, sempre se arredou e evitou.
Não, a guerra não é aquele exercício de ginástica reduzido às formas da guerra que nos apresenta em Full Metal Jacket. Mesmo que dela se quisesse ter uma visão descomprometida com os horrores da guerra (Saving Private Ryan), dos delírios da razão na guerra (Apocalypse Now) ou da exaltação dos orgulhos e da ética da guerra (qualquer filme de John Ford…), ou até mesmo do tédio da guerra (Generation KIll), em nenhuma circunstância atingiríamos um módico de verdade elaborando sobre ela um puro relatório dos seus costumes e procedimentos formais. Para descrevê-los, e sem obliterar a dor, os dilemas do dever, e a estranha mistura entre inteligência e ferocidade a que a guerra obriga, nada destronará os supinos In Wich We Serve de Noel Coward e Air Force de Hawks, sintomaticamente todas obras de propaganda. Se não era nada disto, também Full Metal Jacket não é nada disso.
Eyes Wide Shut é ainda pior, pois encerra um propósito descritivo feito por alguém que aparenta nunca ter vivido, sequer tocado, o objecto que relata. Se Kubrick desejava demonstrar de um modo ínvio a sua repulsa pelo sexo puramente carnal, vivido como um fim em si própria, já cá tínhamos The Last Tango in Paris, que ainda hoje tem muito para dizer quando o despimos da ganga psicanalítica. Se era para avivar o traço que une o sexo à culpa, já havia o fantasmagórico Repulsa, obra insuperável de Polansky. Se a intenção seria, como parece que se entrevê lá ao fundo do sentido do filme, denunciar o hedonismo e os seus requintes, assimilando sexo, dinheiro e poder até à vertigem final, então melhor será encaminhar os olhos na direção de Silence of the Lambs, Duel in the Sun, qualquer fotograma com Ava Gardner e, sim, Rear Window. Eyes Wide Shut é um filme sem pele nem tato.

Quero com isto dizer que há filmes de Kubrick que tenho como sublimes. Por exemplo Barry Lyndon. Cada um é como cada qual, pelo que coloco Barry Lyndon um nadinha acima de Dr. Strangelove e de The Shinning, deixando meia linha abaixo (mas sempre tudo muito lá em cima) Lolita e 2001. E não, não me esqueci de A Clockwork Orange, apenas o omiti.
Não é dispiciendo que Barry Lyndon decorra num tempo histórico bem definido, o longo, complexo e dramático reinado de Jorge III, a quem aconteceu tudo e mais alguma coisa. Estamos na transição do neoclassicismo para o romantismo, quando já se renegava com horror as convulsões do barroco, mas ainda não se haviam adoptado os fervores da modernidade ou dela se desconfiavam as temeridades. O modo preciso e minucioso de filmar de Kubrick, a sua sempre manifesta vontade de construir uma obra como se resultasse de um algoritmo mágico, encontra nesta época a sua ecologia.
Um filme é para ser apreciado de cabo a rabo, mas depois podemos eleger certos momentos para guardar no baú dos tesouros.
Esta cena, como um dia mostrou o meu amigo Scorsese, é o apogeu do programa cinematográfico de Kubrick. A narrativa é dirigida pelo enigmático Trio de Piano Opus 100 de Schubert (enigmático porque em vez do dedilhar esvoaçante que é apanágio do compositor, o tempo é aqui sincopado com mão pesada e notas claras). Isto dilata sobremaneira o tempo dramático, transportando-o para uma dimensão rara em cinema, pois tudo o que é visual, os planos e a montagem, organiza-se em função do elemento sonoro. Os gestos dos protagonistas submetem-se, também eles, ao ritmo musical, embora tentem simular uma suposta naturalidade. E apesar de os atores nunca proferirem palavra, a veemente marcação dos seus passos e o modo meticuloso como a câmara os segue, asseguram que a cena foi toda escrita. Quer dizer: não há palavras nem texto, mas haverá decerto um poderoso verbo a pôr as coisas em marcha. Porque o cinema, tal como todas as criações, resulta do verbo que o enunciou e que nele ganha forma; no caso de Kubrick é o próprio racionalismo que se torna palpável, perdão, visível e audível.

Despedida

Dignou-se aceitar a morrer por um mês e vir acompanhar-nos neste cemitério. Foi um privilégio recebê-lo. Ficámos ainda mais vaidosos agora que faz o favor de ser nosso amigo. Hoje despede-se o nosso “um morto em visita”, Eduardo Marçal Grilo.


Tenho hoje a última oportunidade de me dirigir a todos os membros efectivos do “É Tudo Gente Morta” e em certa medida também àqueles que lêem regularmente os textos deste blogue.
Creiam que foi para mim um enorme privilégio ter tido ao longo de um mês a oportunidade de escrever e dialogar numa rede tão interessante como é esta que reúne um conjunto de pessoas que resolveram antecipadamente viver num cemitério, mas que conseguiram transformar um espaço tradicionalmente triste e pouco agradável, embora calmo e tranquilo, num local de cultura, de partilha de experiências e de interacção entre pontos de vista diferentes que não necessariamente divergentes. Acresce que o cemitério se tornou também num tempo e num espaço onde se fez uma recolha de memórias, particularmente interessantes,  que ilustram bem o que pode ser o papel de uma rede social que não tem os objectivos clássicos dos portugueses de dizer mal uns dos outros, ou de, à falta de melhor, zurzir nos governos, nos governantes, na política  e nos políticos em geral.
As minhas últimas vontades, se me permitem utilizar esta linguagem que normalmente antecede as entradas nos cemitérios, gostaria de as sintetizar nos seguintes pontos ( um pouco à engenheiro que ainda me considero ser ):
1)      Agradecer a todos a forma como fui recebido e tratado ao longo destes 30 dias do meu envolvimento neste projecto;
2)      Sugerir que dentro de um ano possa novamente ter esta oportunidade, desde que isso não esteja em contradição com os Vossos regulamentos;
3)      Pedir para conhecer pessoalmente cada um de Vós e nesse sentido tentar ser convidado para um dos jantares que organizam regularmente, desde que também este pedido se enquadre nos regulamentos; e, finalmente,
4)      Incentivar o Blogue a lançar um debate sério sobre as grandes questões que temos pela frente em termos globais como por exemplo:  As desigualdades existentes em tantos domínios e em tantos países e regiões; A questão da demografia e da emigração em Portugal e na Europa; Os equilíbrios geoestratégicos à escala mundial; O combate à pobreza; A regulação dos sistemas financeiros; O papel da Cultura neste mundo materialista e sem valores ou referências; Os limites da Ciência; A relação da Humanidade com o Planeta Terra; As questões do clima e a destruição do nosso habitat; etc. etc.
Um abraço a todas e a todos e a certeza de que sempre poderão contar comigo num futuro mais ou menos próximo

Vosso amigo

Eduardo

Amanhã temos novas visitas

Durante um mês, e com a abundante participação que todos admirámos, Eduardo Marçal Grilo deu-nos um bocadinho de seu tempo e muito das suas vivências e gostos. Foi o nosso convidado de Novembro. Despede-se hoje do cemitério e da pequena romaria de tão bons visitantes que nos estimam. Agradecemos-lhe. Fez-nos bem a sua companhia, uma companhia que nos levou dos quartéis da revolução a uma escondida aldeia do México, e até a uma reunião com um Secretário de Estado. Convenhamos: é preciso ter pedalada para o acompanhar. Obrigado, caro Eduardo. 
Amanhã, já sabem, anunciamos o nosso “um morto em visita” de Dezembro. Uma surpresa, claro.

Secretários de Estado assim…

Hoje, o nosso convidado de Novembro leva-nos a uns bastidores que talvez adivinhássemos parecidos, mas não tanto. Uma visita de luxo. Pela mão de Eduardo Marçal Grilo.

Ainda antes de chegar ao fim desta minha estada no Vosso Cemitério de Memórias não posso deixar de contar uma pequena história  passada durante o período em que fiz, em Portugal, a coordenação dos Projectos de Educação do Banco Mundial.
Numa certa altura veio a Portugal uma delegação do Banco que trazia como objectivo fazer o levantamento das áreas prioritárias em que o Banco deveria apoiar o investimento, o que implicou uma delegação muito alargada e dirigida por um dos seus altos quadros, um economista sul-coreano, muito competente e pessoa de grande qualidade pessoal. A delegação incluía mais uns três ou quatro elementos, com formações diversas que eu acompanhei numa longa visita a diversos pontos do nosso país.
No final, como era prática corrente com estas delegações, o Chefe da Missão produziu um pequeno relatório, muito sucinto, mas muito bem feito que era apresentado a diversas entidades designadamente Directores Gerais, Secretários de Estado e Ministros envolvidos nestas negociações entre Portugal e o Banco Mundial.
Acontece que numa dessas visitas a um Secretário de Estado dei-me conta, no início da reunião de que este membro do Governo não falava, nem compreendia inglês pelo que eu me ofereci para fazer de intérprete nos dois sentidos.
A reunião iniciou-se com o Chefe da Missão (que era o Sr. Man He You, pessoa por quem eu tinha uma grande simpatia e com quem tinha trabalhado numa missão à Jordânia) fazendo uma apresentação muito bem estruturada, identificando problemas, definindo estratégias e apontando prioridades para a Educação em Portugal, que eram enquadradas numa visão muito global e integrada dos problemas que a Missão tinha detectado durante as cerca de três semanas passadas no nosso país e durante a qual tinham contactado e ouvido dezenas e dezenas de pessoas, não apenas na Administração Central, mas também em escolas, empresas, universidades , institutos de investigação e “tutti quanti”.
Eu lá traduzi para português o que o Sr. Man He You tinha dito e a resposta do Secretario de Estado deixou-me perplexo e sem saber o que fazer a seguir porque este o que queria que eu dissesse à Missão cito: “Sabe Senhor doutor o que eles deviam apoiar era a obra do senhor Padre… onde se ensinam raparigas a trabalhar com as máquinas de costura e os rapazes a escrever à máquina.”
Fiquei sem saber o que dizer, mas decidi-me por fazer uma intervenção tirada da minha cabeça dizendo que o Senhor Secretário de Estado concordava basicamente com a estratégia definida e com as prioridades estabelecidas tendo eu próprio procurado de imediato dar por terminada a reunião o mais rapidamente possível. E assim aconteceu. O Secretário de Estado estava também certamente desejoso que tudo acabasse sem mais questões.
Quando saímos e nos reunimos ainda no passeio do edifício desse Ministério onde estava colocado o Secretário de Estado, um dos membros da Missão que tinha vivido uns tempos no Brasil e percebia qualquer coisa de português perguntou-me assim – “Oh! Eduardo tu não nos disseste exactamente o que o Secretário de Estado disse pois não! Ele falou num padre e tu não referiste isso.”
Nessa altura falei sério e disse-lhes – Meus Caros esta reunião é como se não tivesse existido. Com padres ou sem padres risquem das vossas agendas esta reunião porque houve em toda esta reunião um equívoco que não vale a pena revelar-vos.
Já houve Secretários de Estado assim!…

Parabéns, menina Eugénia

Parabéns

Hoje é dia de Eugénia. Do aniversário dela. Festeja-se na Sardenha e festeja-se neste cemitério. A Eugénia tem tudo: a riqueza e a inteligência, os bens do mundo e os bens do coração. Pensei, e não creio que esteja mal, fazer-lhe uma oferta singela. Agora que ela é tão pequenina, convido-a a vir comigo ao cinema. Comigo e com o meu tempo, de quando eu era pequenino, o tempo que me fez o que sou hoje. Não é uma grande prenda (melhor seria Tiffany ou coisa que o valha, valha-me Deus). Mas quando é de nós que damos, também se diz que é o melhor que podemos dar. Parabéns Eugénia e venha daí. Ao cinema.

…de quem, nesta sala, todos somos filhos

Somos uma multidão. Uma turbamulta de gritos e empurrões vestida a calções, manguinhas curtas, pés descalços ou sandálias, alguns quedes. Somos a minúscula multidão de 5 anos espevitados até aos 12 no limiar da inocência. Somos brancos, negros e mulatos, juntos como nos selos que o colonialismo, que nos juntou, cola nas cartas. Como nos selos, às vezes de mão dada. Outras à estalada, lambido selo que a doçura mediterrânica dos bons padres capuchinhos interrompe com uma chicotada do cordão que lhes ata o hábito. Estamos na fila. “Faz fila, faz fila! não empurra! estás a empurrar porquê? não sou eu, estão-me a empurrar então.

É a fila da matinée de sábado. O filme, é sempre, é de cóbois. O Padre, quem manda, passa ao nosso lado e atormenta-nos:

- Figlio mio, essa minina não entra. É molto picola!

- Como não entra, Padre Miguel, é a Eugénia!

- Siiii, será Eugénia, ma não entra. Molto picola.

- Faz anos hoje, o Padre Luis diz que não fazia mal. Se não entra, vai chorar. É pecado, Sô Padre.

- Ó Nossa Signora, esses mininos.

Este é o cinema de São Domingos, anexo à Igreja que conhecemos pelo mesmo nome, embora se chame e seja de Nossa Senhora de Fátima. Para nós, a mãe de Deus que nos desculpe, tudo ali, a igreja, os campos pelados, o campo de basquete, e acima de tudo o cinema, é de São Domingos.

Mesmo sem nada saber, nós que só isso sabemos, acreditamos que o cinema de São Domingos é o cinema que representaria o cinema se o cinema fosse representável no “mundo das ideias”. A pequenina Eugénia, ainda agora nascida, diz baixinho: “cinema paradiso”. Talvez não seja um edifício sumptuoso, reconheço. Está bem, provavelmente não será o arquétipo que estou a tentar vender-vos. Mas esperem para ver.

Na bilheteira, os bilhetes mais caros são os da frente. Em angolares, dois e meio, dois escudos e cinquenta centavos. As filas do meio para trás, é só dois angolares por cabeça. Paga mais quem vê primeiro, explicam os gentis franciscanos de calabresa fala mansa. Todos queremos ver primeiro e as primeiras filas esgotam sempre. As de trás também. A sala é um rectângulo com bancos corridos, de madeira, e sem costas. Janelas altas que uma flanela preta começa a cobrir, um minuto antes da sessão começar. Imaculado, lá à frente, o lençol branco aguarda, reprimido, as cores do sonho. Ao fundo da sala, nas nossas costas, atrás de uma cortina de espesso veludo negro, espreita à janela esse olho de luz que só trabalha no escuro.

A sala ainda não se calou. Grita-se, xinga-se: “a chegar, foste o último então! último a chegar mãe dele é gato”. A ansiedade masculina é intolerável e física e dois agarram-se e vai uma bassúla que a sala ovaciona, como se aqueles dois que se enfrentam já adivinhassem que no 27 de Maio hão-de, fraccionados, estar de lados opostos da barricada que parecerá soviética de qualquer extremo que se olhe.

A sala berra e não se vai calar. Nesta sala, estes miúdos vieram para não se calar. A sala ensinou-os a não se calarem. E o que gosto que esta sala nunca se cale, eu que nunca fui de gritar muito.

O filme é de cóbois. Parece que é sempre de cóbois. Menos quando é de espadachins. Alguns anos depois, minina Eugénia, vai ver que vão construir aqui uma sala nova, balcão e plateia, cabine de projecção. E já vão vir outras meninas, e não só uma menina pequenininha que faz anos hoje. Virão, as jovens raparigas, com um perfume atónito que vai muito bem com filmes em que já há beijos. “Larga o osso”, grita, no balcão ou na plateia, a nossa inépcia pré-púbere – se é que nos desculpa o palavrão.

Agora, ainda não há beijos. Os filmes são de cavalos e tiros, de murros e de espadas, de diligências e de piratas, de naus e às vezes um canhão: para educação destes infantes meio-europeus ou totalmente africanos. Apagaram-se as luzes e os gritos são lancinantes. É um só grito de todos. Quase não se ouve o som do genérico, ronco do leão da MGM ou a tonitruante música de Filmes Castello Lopes. “Aka, já vi esse firme então!” A mesma piada e a sala ri como se fosse a primeira vez, porque é a mesma estafada primeira vez. Não queremos piadas novas. Queremos, a cada emboscada dos bandidos, bradar com urgência: “Cuidado artista, cuidado rapaz, atrás de ti, o bandido está atrás de ti.” Indiferente ou surdo, o rapaz não ouve e atiramos-lhe com sapatos para que ele se vire e salve. “Uaauu, esquindiva, o rapaz já está a controlar-lhe.” E salva-se. “Fui eu que lh’ avisei!” “Aka então, quem lh’avisou fui o so’ eu” “és mentiroso, foi o meu sapato que lh’ avisou”.

Salva-se, o rapaz salva-se! Porque é na salvação dele que nós nos salvamos. Ó, e se queremos salvar-nos! Ainda não sabemos de quê. Mas na igualdade com que nos sentamos, certinhos, no banco de sumapau, as perninhas encostadas para cabermos todos, adivinhamos o arrepio de uma diferença que, quando crescermos, há-de multiplicar-se ignóbil. Ao contrário da miraculosa multiplicação dos pães e dos peixes do crucificado destes cinéfilos padres capuchinhos de quem, nesta sala, todos parecemos filhos.

Esta é a minha sala de cinema, aquela onde às trevas chamei dia e à luz linda noite; e, exactamente como queria e onde eu queria, fez-se o crepúsculo, a aurora, a manhã, dia primeiro. No meio da multidão que nós éramos, as pernas escanifobéticas a sair dos calções curtos, descobri a alegria e a paz. Depois, no silêncio sumptuoso de outras, descobriria outros pesadelos, o grito dos mortos. Não no meu primeiro cinema, onde chorar era pecado. E por isso, Eugénia, a convidei para que, hoje nascida, visse o primeiro filme.

A igreja. Ao lado, os filmes, os cóbois e os espadachins.

A minha primeira condenação por romantismo pueril

Confessei-vos, assim que vim para aqui morar, que pendia sobre mim um terrível cadastro. Várias condenações. Todas “por romantismo pueril por me emocionar com histórias de amor belas e simples”. Era assim que rezavam as sentenças. E este que se segue foi o primeiro dos crimes que cometi:

 

“Saíra de casa com a cabeça nas memórias que o filme evocava, o que era o mesmo do que dizer com a recordação das suas mãos entrelaçadas nas minhas, do sorriso dela a invadir-me a alma de todas as vezes – já não sabia quantas – em que, juntos, tínhamos ido de Viagem a Itália, guiados por Rossellini. Sempre que o filme passava na Cinemateca, eu cumpria o ritual: dois bilhetes, na mesma fila, nos mesmos lugares, e um lugar vazio do meu lado esquerdo, o mesmo, também, que ela ocupara na noite em que, lavada em lágrimas, e tomada pela inquietação de Ingrid, me dissera, depois da sessão, que tinha de partir. Não sabia por quanto tempo, nem se para sempre, mas tinha de partir.

Durante muito tempo alimentara a esperança do seu regresso. Se era Ingrid a sua inspiração, a Ingrid que simplesmente se afastara por momentos sem chegar a partir, ela teria de voltar. Mas os anos foram passando e o lugar vazio ao meu lado continuou sem ser ocupado. Até ao dia em que me fiquei por um único bilhete. Pouco me importava já que alguém se sentasse no lugar que, em espírito, a ela era destinado. Bastava-me a recordação da minha mão na dela, dos diálogos ditos em uníssono pelos dois enquanto viajávamos por terras italianas.

Só que, nesse dia, de tão diferente, tudo foi igual ao que sempre tinha sido. Uma mão procurou a minha e numa fracção de segundo percebi que era a dela, a mão dela. E quando, duas horas depois, pronunciámos, naquela sintonia tão perfeita que o lugar vazio do lado prometera durante anos, o I Love You do “recomeço” de Ingrid e George, eu soube finalmente. Soube que, tal como Ingrid, ela nunca chegara a partir. Que ela se afastara apenas por momentos a uma distância de algumas filas atrás de mim. Foi a distância que ela se impôs para ver melhor o que estava bem perto dela. A distância que, sessão após sessão, ela ia encurtando. Desde a última fila até encontrar a minha mão de novo. ”

 

Nada disto seria muito grave se tivesse parado por aqui. Mas não. Continuei a prevaricar. E sem sinais de arrependimento.

Tempus fugit


Não perguntes, é odioso saber, o fim que os deuses me darão a mim ou a ti, Leuconoe.

Não sejas tentada pelos números babilónicos,

É melhor padecer o que quer que venha a ser.

Conceda-te Jupiter muitos invernos ou um último,

Que agora mesmo desgasta o mar Tirreno nas pedras expostas:

Sê sábia, decanta o vinho e reduz as tuas longas esperanças a um tempo breve.

Enquanto falamos, a vida cruel terá passado:

Aproveita o dia,  dá o crédito mínimo ao porvir.

 

Invoquei dois mortos ilustres para me guardarem os primeiros passos neste cemitério, roubando o título a um (Vergílio) e traduzindo o outro (Horatio), que tão gasto está e permanece, no entanto, intacto. Lembro-me da primeira vez que o ouvi no original, mal percebendo o que estava a acontecer, até chegar o famoso CARPEDIEM. Bebamos pois, o vinho decantado e gozemos os prazeres do conhecimento. O futuro virá a seu tempo, hoje colhemos e saboreamos os frutos, deitados sobre a relva, por entre os túmulos.

Agradeço aos residentes deste cemitério abrirem-me as portas para o “outro lado” onde, estou certa, terei longos dias e longas noites de deleite agora que as fúnebres mãos de Hécate me levaram a transpor o umbral. Salve!

 

POST SCRIPTUM — Queriam  de certeza ver o original:

Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi finem di dederint, Leuconoe,

nec Babylonios temptaris numeros

ut melius, quidquid erit, pati

seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,

quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare Tyrrhenum:

sapias, vina liques et spatio brevi spem longam reseces.

dum loquimur, fugerit invida aetas: carpe diem, quam minimum credula postero.

Quintus Horatius Flaccus 65 a.C– 8 a.C.


Há um novo autor no É Tudo Gente Morta

Há algum tempo que este cemitério não abria uma campa com carácter definitivo. Por unanimidade e aclamação decidimos que era tempo de ter um cadáver fresco entre nós. E escolhemos, com ovação, a Marta Costa Reis que se apresenta, no perfil que podem ler na coluna da direita, se clicarem no nome dela, o quarto a contar de cima.
Começa por dizer que já se reconciliou com a ideia de que não vai ler todos os livros do mundo. Acreditem em tudo o que ela vos disser a partir de agora, menos nisso. Quem conhece a nossa nova autora sabe bem que ela vai ler — está quase a acabar — todos os livros do mundo. Também nos avisa que a acusam de ter voz de fadista. Mas ela não se quer convencer. É que nem vamos tentar. Para já, só queremos que ela escreva. Muito, porque bem já sabemos que vai ser. E pode ser a partir deste momento.
Lá mais adiante discutiremos a questão do fado. Bem-vinda Marta Costa Reis — o cemitério é teu.

O gigante que gostava de histórias

Nasceu no País de Gales, de pais noruegueses que lhe deram o nome do herói da sua terra distante que o nosso Francisco aqui gelidamente sepultou. Media quase dois metros de altura e gostava de snooker, de orquídeas, de chocolate e de histórias. Sobretudo de histórias — de as ouvir, ainda pequeno, à mãe, que lhe falava dos gigantes e de outros seres fantásticos da mitologia nórdica; de as contar aos seus cinco filhos, à noite, antes de lhes apagar a luz. Participou numa expedição científica à Terra Nova, trabalhou para a Shell em África e foi piloto da RAF e espião ao serviço de Sua Majestade durante a II Guerra Mundial. Só depois começou a escrever, numa cabana ao fundo do jardim, no cadeirão que herdara da mãe, com uma prancha de madeira a servir de mesa. E sempre a lápis.        

É antiga a minha história com Roald Dahl. E desenrola-se de trás para a frente, o que faz todo o sentido, sendo ele o incomparável master dos twisted plots e dos surprise ends.    

Lembro-me de ver na televisão, teria uns treze ou catorze anos, Tales of the Unexpected, uma série cujos episódios eram antecedidos de um extraordinário genérico com música de realejo de feira e de uma provocatória e desconcertante introdução, muito ao estilo do Hitchcock Presents*, pelo próprio Roald Dahl, autor das short stories em que aqueles se baseavam. Os enredos eram imaginativos, estranhos, tortuosos, muitas vezes macabros, quando não perversos — mas sempre negra e irresistivelmente divertidos. Descobri entretanto lá por casa vários volumes das ditas short stories que a minha mãe, completamente addicted, trazia das viagens de trabalho a Inglaterra. Comecei pelas conhecidas, só para ver se eram mesmo assim. Eram so much better, so much more wicked and bizarre and spinechilling que as li todinhas. Porque, como dizia o próprio Dahl, “what’s horrible is basically funny – in fiction”. Ainda hoje as relembro amiúde e as revisito com gozo: Lamb for the Slaughter, Man from the South, William and Mary, The Way up to Heaven, The Great Switcheroo, Skin, Bitch, to name just a few …

Só muito depois descobri o delicioso Matilda, que devorei num ápice. De leitora do Dahl para crescidos, rapidamente me tornei — também — leitora do Dahl juvenil. Seguiram-se The Witches, Charlie and the Chocolate Factory, The Big Friendly Giant, The Magic Finger, The Twits, Esio Trot, Fantastic Mr. Fox e todos os outros. Muitos deram origem a filmes, altamente apreciados por estas bandas. Mas são os livros que são objecto de adoração – minha e das filhas, todas três, e também da vasta trupe de filhos de primos e de amigos, a quem a Tia Joana fez questão de iniciar neste estimulante vício. Porque não são muito grandes e até se conseguem ler bem e depressa, dizem os mais relutantes, surpreendidos, convertidos e já prontos para o próximo. Porque as histórias são fantásticas, dizem todos. E têm razão. Roald Dahl escreve para os mais pequenos como se fosse do tamanho deles: é pelos olhos límpidos e atentos dos seus protagonistas, quase sempre crianças, que vemos o mundo, aquilo que lhes sucede e, claro, os adultos. Que, com contadas e honrosas excepções, raramente saem bem no retrato: são insensíveis, insensatos e injustos. Pior, não percebem nem tentam perceber as crianças, tratam-nas sem afecto nem cuidado, gritam-lhes e metem-lhes medo. À conta disto, adultos há — estes reais, não de ficção — que alegam serem estes livros subversivos, logo impróprios para crianças. Decerto nunca tiveram professores retorcidos, vigilantes de recreio prepotentes, parentes assustadores, vizinhos antipáticos — digo eu. Porque não me ocorre outra explicação para que por completo lhes escape, não só o que de comicamente catártico têm tais histórias, mas sobretudo o que nelas mais importa: que os miúdos levam sempre a melhor porque são corajosos, optimistas, resilientes, lúcidos e inteligentes. É este, aliás, um ponto que me fascina e me encanta em Roald Dahl: ter sido capaz de produzir, às vezes em simultâneo, das mais tortuosas e arrepiantes histórias para adultos que li e estas deliciosas e tocantes histórias para crianças, a todas cunhando com a sua marca: uma portentosa e às vezes impiedosa combinação de agudo sentido crítico e de corrosivo humor. 

Há ainda as obras in between, catalogadas como infantis, mas em bom rigor para adultos, como as Revolting Rhymes, uma hilariante e politicamente incorrecta reelaboração dos tradicionais contos infantis — na qual o Capuchinho Vermelho mata o lobo a tiro e faz um casaco de peles e a Branca de Neve, exasperada porque os Sete Anões, jogadores inveterados, não acertam uma, surripia à madrasta o Espelho Mágico, para ter tips acarca dos cavalos vencedores … e acabam todos milionários.  

E, last but not the least, as ilustrações de Quentin Blake, que numa parceria feliz com a escrita criativa e exuberante de Dahl, que ainda hoje perdura, apreendeu a essência das figuras criadas por este e, ao desenhá-los, tornou-os ainda mais reais e adoráveis ou execráveis, conforme o caso. Gosto delas todas, mas, a ter de escolher uma, sem hesitar a menina leitora, de Matilda.   

Fez esta semana vinte anos que Roald Dahl morreu, a 23 de Novembro de 1990. Há muito que andava para o trazer para aqui. Pareceu-me ser esta uma boa ocasião.  * Foi aliás Hitchcock quem primeiro filmou algumas das short stories de Roald Dahl, entre 1958 e 1961, a saber: Lamb to the Slaughter, Dip in the Pool, Poison, Man from the South, Mrs Bixby and the Colonel’s Coat, The Landlady.  

O meu ciclismo

Fiquem a saber, Eduardo Marçal Grilo, nosso convidado de Novembro,
pôs este cemitério num alvoroço. Não é que agora lhe deu para, entre campas e jazigos, desatar a pedalar
numa linda bicicleta dourada cheia de recordações? Uma delícia.

Quando iniciei a minha participação neste fantástico “É Tudo Gente Morta” fui confrontado com algumas questões relativas a uma das minhas paixões, o Ciclismo. Na altura, ou seja há 27 dias atrás, respondi a alguns comentários, mas fiquei a pensar que talvez pudesse dar um contributo mais rico para este Blogue. Nesse sentido e como começo a ter pouco tempo de vida entre os Vossos mortos decidi colocar estes pequenos textos que dão uma ideia, embora pálida, do que poderia ser o começo de um grande debate sobre esta modalidade.
O Ciclismo Mundial é constituído pela Volta a França e depois por um conjunto de outras provas em que se incluem voltas como o Giro de Itália, a Vuelta, o Campeonato do Mundo, a Volta à Suíça, a Volta a Portugal e depois as inúmeras Clássicas que vão do Milão-São Remo ao Flèche Wallonne passando pela Semana Catalã, pelo Liège-Bastogne-Liège e pelo Paris-Roubaix entre outras.
Por isso este texto contém algumas histórias do Tour de France e da Volta a Portugal e chamei-lhe “A Paixão das Bicicletas”

O Tour e a Volta constituíram para mim desde muito cedo, mais concretamente desde 1951 quando eu tinha nove anos, um mito e um sonho que todos os Verões me entretinha durante boa parte dos meses de Julho e Agosto embora nessa altura as notícias que nos chegavam a Castelo Branco fossem escassas e intermitentes. A BOLA era o veículo principal mas só se publicava três vezes por semana o que significava que nos “intervalos” me socorria do jornal diário que era o D.N. ou o Século consoante os “humores” do meu Pai que, de vez em quando, resolvia mudar de jornal sem que nós lá em casa percebêssemos a razão pela qual isso acontecia.
O Tour começou por ser para mim a figura do Hugo Koblet que foi o meu primeiro ídolo do ciclismo, em paralelo com o Alves Barbosa, que foram em 51 os vencedores respectivamente do Tour e da Volta.
Daí para cá passei a acompanhar religiosamente os dois grandes acontecimentos desportivos apenas com algumas intermitências provocadas pelas minhas actividades profissionais.
O que quero aqui recordar são apenas algumas das mais atraentes histórias que eu recordo e que acompanhei ou vivi mais de perto.
Eis algumas:
1950
Em Julho de 50, mais concretamente no dia 31 como confirmei agora pelos registos oficiais, a Volta a Portugal chegou a Castelo Branco ‚isto é, a terra onde nasci e onde vivia com a minha família. Tinha oito anos e esta chegada dos ciclistas à meta instalada na Av. Marechal Carmona constitui a minha mais remota recordação da Volta dos ciclistas e da caravana dos acompanhantes.
Fazia calor, eu era muito miúdo e o meu pai, com receio de que eu me metesse naquela confusão pediu ao Sr. Domingos Pio que era seu grande amigo, para eu ver a chegada instalado numa janela da Garagem S. Cristóvão que ficava mesmo voltada para o local da meta.
Recordo-me de muita gente à volta do acontecimento e tenho ainda bem viva a chegada do primeiro ciclista, o Dalmacio Langarica, que era um espanhol de muito boa qualidade, como mais tarde tive ocasião de comprovar pelos seus registos na Volta á Espanha e na Volta à França, e que corria com as cores do Académico do Porto.
O que tem de interessante este episódio é que o Langarica que tinha fugido na Serra sensivelmente a meio da etapa que tinha começado na Guarda, cortou a meta ao contrário ou seja em vez de subir a Marechal Carmona como estava previsto no trajecto, começou a descê-la porque se enganou no largo onde está o Banco de Portugal e em vez de virar para a J. A. Mourão para entrar na Marechal Carmona por baixo, passou em frente dos “Cafés” e foi entrar na meta, como eu disse, pelo lado contrário. Lembro-me de ter havido alguma confusão mas tudo acabou em bem com o Langarica a ser considerado o vencedor, aliás justíssimo porque trazia um enorme avanço em relação ao segundo classificado.
Não quero também deixar de recordar uma imagem que muito me impressionou e ainda hoje recordo apesar de não ter nunca visto qualquer fotografia que comprove esta imagem que ainda retenho na memória. Trata-se do carro de apoio que vinha integrado na caravana e que era do Mario Fazio, um magnífico corredor italiano que alinhava pelo Sporting. Era, salvo erro, um Lancia que tinha a particularidade de não ter portas. Era aberto lateralmente para que todas as “operações” de apoio ao ciclista pudessem ser mais rápidas e eficazes. Já nesse tempo se pensava em quase tudo!
São estas as primeiras imagens reais que guardo da Volta a Portugal em Bicicleta porque em termos de descrição de acontecimentos lembro-me de ter sido relatada lá em casa a chegada de 48 também em Castelo Branco quando o Jean Guegin, que era um francês poderoso, perdeu a camisola amarela para o Fernando Moreira. O meu irmão Luís que fez a descrição, dizia com satisfação que o Guegin estava no chão deitado de costas a arfar ainda com a Amarela vestida. Refira-se que o meu irmão era grande fã do Fernando Moreira…
1951
Uma nota curta apenas para assinalar que este é para mim um ano histórico uma vez que a Volta a Portugal foi ganha pelo Alves Barbosa e a Volta a França pelo Hugo Koblet. E isto porque estes dois campeões se tornaram em dois dos meus heróis de juventude. O Koblet porque o Tony Lobato Faria, que era grande amigo do meu irmão e que mais tarde veio a ser meu cunhado, me meteu o “vício” do ciclismo e conseguiu que da Suiça me enviassem uma fotografia do ciclista devidamente autografada. O Barbosa porque se tornou com as suas actuações na Volta a Portugal e sobretudo na Volta a França de 56, um dos grandes ídolos nacionais que todos nós admirávamos. Acresce que neste ano e com 19 anos o Barbosa “agarrou” a camisola na 1ª etapa e só a largou em casa depois de ter passado toda a Volta de amarelo.
Registe-se que só nos últimos tempos ao ler uma entrevista de 1950 do Barbosa á Flama fiquei a saber que um dos ídolos que ele teve foi exactamente o Hugo Koblet !
Koblet é um daqueles corredores que “passa” pelo Tour como um meteoro. Num ano, 1951, é o vencedor incontestável, conquista cinco vitórias em etapas e “esmaga” a concorrência mas a partir daqui apenas concorre mais duas vezes, em 53 e 54, não tendo no entanto chegado sequer ao fim em nenhuma delas.
1955
Esta foi a Volta da vergonha. Quem recebeu o prémio foi o Ribeiro da Silva mas para todos o vencedor foi Alves Barbosa. O país que acompanha o desporto viveu essa Volta de forma especial. O Ribeiro da Silva andou de amarelo a Volta quase toda mas no contra-relógio da Figueira da Foz para Sangalhos o Barbosa ganhou a etapa e passou para a frente da classificação.
Na última etapa, a da consagração, ocorreu um dos episódios mais negros do ciclismo português. Recordo-me bem, era um domingo à tarde e lá em casa ouvia-se o relato do final da etapa que terminava no Porto. Subitamente o locutor deu a entender que algo se tinha passado com o Barbosa, para pouco depois se saber que nos Carvalhos um grupo de energúmenos tinha agarrado o Barbosa e o tinha impedido de acompanhar o pelotão onde iam todos ou quase todos os ciclistas. Ficámos todos, e julgo que todo o País, completamente estupefactos e revoltados. O Barbosa acabou por chegar á meta sozinho muito depois dos restantes ciclistas e apenas acompanhado por um grupo de polícias montados nas suas motos.

 

1956
Um Tour que Portugal seguiu com os olhos no Placard do Rossio e com os ouvidos nas rádios, dada a forma como o Alves Barbosa foi coleccionando boas classificações nas etapas, ( obteve mesmo um 3º lugar em Gap atrás de Forestier e  Baffi ) mesmo que integrado numa equipa que nunca lhe proporcionou qualquer apoio– e que lhe permitiu no final um 10º lugar entre o Privat (9º) e o Voorting (11º).
1957
A Volta de 57 é na minha juventude o momento mais alto do meu envolvimento na Caravana.
A etapa  Portalegre — Castelo Branco foi disputada no sistema de contra-relógio e o dia seguinte foi o dia de descanso que eu vivi intensamente no meio dos ciclistas pedindo autógrafos e dirigindo-lhes a palavra, o que para mim, com quinze anos e vivendo numa “aldeia” como era Castelo Branco nos anos 50, eram momentos únicos e de grande exaltação.
A chegada do contra-relógio foi algo de extraordinário. A meta estava instalada na Av. Nun’Alvares mesmo em frente da minha casa. De tal forma era em cima da meta que o correspondente de um dos jornais do Porto, não sei se o do Norte Desportivo, fazia a reportagem através do telefone de minha casa que para o efeito tinha sido pedido previamente ao meu pai.
Á saída de Portalegre a camisola amarela estava na posse do Sousa Santos do Futebol Clube do Porto – o pai dos dois jovens que anos depois vieram também a ser excelentes ciclistas – mas os dois grandes favoritos ao contra-relógio e à vitória final eram indiscutivelmente o Alves Barbosa e o Ribeiro da Silva. Já ambos tinham ganham a Volta o primeiro em 51 e 56, o segundo em 1955 e os dois vinham de duas espectaculares Voltas a França, o Barbosa com o 10º lugar em 56 e o Ribeiro da Silva com o 25º neste mesmo ano de 57 mas coberto de glória com a forma como andara na montanha e como ajudara o Anquetil a ultrapassar o “breakdown” que teve em pleno Tourmalet.
A chegada dos dois foi fantástica, o Ribeiro da Silva ganhou, o Barbosa ficou em segundo, e seria também assim no final da Volta, mas jamais me esquecerei da descrição dos policias que contavam não os terem conseguido acompanhar na descida para o Tejo antes de Vila Velha de Ródão. Dizia-se que tinham chegado aos 90/100 nessa descida que , para quem a conhece ainda hoje, é de assustar mesmo quando se viaja confortavelmente instalado num automóvel.
O dia de descanso foi um fascínio; lembro-me de ter encontrado logo de manhã junto à Câmara Municipal o Ribeiro da Silva de chinelos e a comer um cacho de uvas que lhe tinham dado na Praça e de ver o Pedro Polainas a brincar com uma bicicleta muito pequenina em que ele conseguia andar apoiando nos pedais apenas a ponta dos pés.
Mas o acontecimento mais fascinante foi o que nos pôs a mim e ao meu Pai próximo do Alves Barbosa. O Barbosa que era um ídolo para todo o país, e que estava instalado numa pensão no centro da cidade, mandou comprar no estabelecimento do meu pai uns frascos de fruta em calda que lhe foram oferecidos como manifestação de simpatia por parte da firma José António Grilo de que o meu pai era um dos sócios. Pois o Barbosa, que já nessa altura era uma “gentleman” foi pessoalmente agradecer ao meu pai a gentileza e ofereceu-lhe uma fotografia autografada tendo-lhe o meu Pai pedido igualmente um autógrafo para mim. Como se pode imaginar guardo religiosamente estas duas fotografias autografadas bem como uma série de outros autógrafos de ciclistas famosos da época como foram o Ribeiro da Silva, o Pedro Polainas e o Américo Raposo que eram meus ídolos por serem do Sporting e que foram grandes “ papa-etapas”, o Sousa Cardoso que como ciclista do Porto ganhou a Volta de 58 e foi um dos melhores ciclistas portugueses, o Armindo Gonçalves, o Onofre Tavares, o Joaquim Carvalho e o Agostinho Ferreira que eram os colegas leais do R. da Silva no Académico, e o Fernando Maltez ciclista do S.L.e Benfica que na altura não tinha uma grande equipa de ciclismo.
1969 
Um ano histórico para Portugal e para Eddy Merckx: para Portugal porque Joaquim Agostinho corre pela 1ª vez o Tour, alcança o 8º lugar na classificação final, ganha duas etapas isolado, em Mulhouse e Revel e torna-se a maior revelação do ciclismo mundial do ano; para Eddy Merckx porque este é o primeiro dos cinco Tours que vai vencer ao longo da extraordinária carreira que o torna um dos maiores ciclistas de todos os tempos. Merckx é ainda hoje o recordista de etapas no Tour com 34 vitórias em seis participações.

Agostinho enceta em 69 uma carreira única no ciclismo português que ainda hoje o torna um dos corredores com maior número de participações (13) e só batido por sete ciclistas, entre eles Zootmelk (16), Van Impe(14) e Poulidor(14).
1978–79
Os dois anos de ouro do “nosso” Joaquim Agostinho, que consegue nestes dois Tours alcançar um lugar no Podium atrás de Hinault e Zootemelk, respectivamente primeiro e segundo classificados nestes dois anos.
Em 79 Joaquim Agostinho faz no dia 15 de Julho uma das mais fantásticas corridas da sua vida ao vencer isolado a etapa iniciada em Moûtiers e que terminou no alto de Alpe d’Huez depois daquela subida incrível de 14 km com vinte e uma curvas em cotovelo e uma inclinação média de 8%.
1998
Esta é a Volta em que ao fim de muitos anos realizei um dos meus sonhos de juventude – acompanhar no carro do Director da Corrida uma etapa e viver por dentro todos os pormenores da organização, das informações e da gestão de toda aquela “máquina” que é a caravana da Volta.
Fi-lo na etapa de Portalegre para a Torre no carro do Serafim Ferreira que teve a gentileza de me convidar sabendo que eu sou um apaixonado pelo ciclismo e que gosto de saber “coisas” sobre as corridas e os corredores.
Quando cheguei a Portalegre veio ter comigo o Emídio Pinto que fazia a Volta como condutor de um dos juizes internacionais mas que nos anos 50 foi um ciclista famoso que corria pelo Futebol Club do Porto. Quando o vi não resisti a recordar-lhe uma etapa que terminou em Évora e em que ele a meio do percurso tinha um tal avanço em relação ao pelotão que era o “virtual” camisola amarela. O Emídio Pinto ficou tão entusiasmado com esta minha recordação que foi de grupo em grupo anunciar aquele facto de que ninguém já se lembrava. Ou seja naqueles minutos que se seguiram ao nosso encontro, o Emídio Pinto, para todos aqueles jovens jornalistas, ciclistas, locutores – passou de “motorista adaptado” a “ciclista consagrado” que foi o que ele realmente foi, quando nas Voltas dos anos 50 integrava o pelotão.