Fizemos um ano. A partir de hoje, neste Um Morto em Visita, temos a novidade dum convidado por mês. A nossa primeira visita é a autora de Ana de Amsterdam, um blog de leitura sempre exaltante, às vezes convulsiva. Hoje, responde ao inquérito a que todos os nossos convidados estão obrigados. Amanhã, volta com outra surpresa. Bem-vinda Ana Cássia Rebelo. O É Tudo Gente Morta agradece.

a chatice da eternidade
“Vejo-te“
As respostas de Ana Cássia Rebelo
1. Que gostaria que se lesse na sua lápide?
O fim nas palavras do Mário de Sá Carneiro: “Quando eu morrer batam em latas,/ Rompam aos saltos e aos pinotes,/Façam estalar no ar chicotes,/Chamem palhaços e acrobatas!/Que o meu caixão vá sobre um burro/Ajaezado à Andaluza…/A um morto nada se recusa,/Eu quero por força ir de burro.”
2. Se fosse um aprendiz, quem seria o seu mestre?
Tinha de ser uma mulher. Recuso aprender seja o que for com um homem. Talvez a Lídia Jorge que é uma escritora magnífica e eu, aqui que ninguém nos ouve, gostava de ser uma escritora magnífica.
3. Que verbo é melhor sinónimo para amar?
Não sei. Nem me interessa. O amor é coisa de difícil explicação. Quanto mais se explica, menos se percebe.
4. Qual foi a coisa mais bonita que lhe disseram?
“Vejo-te”, disse o meu filho Joaquim, numa manhã de chuva, com o olhar, seis meses depois de nascer no mais absoluto silêncio, nem um som se ouviu naquela sala de partos, era só angústia e incerteza. Depois de seis meses a fugir com os olhos, a fixar o vazio, alheio ao mundo, a tudo, olhou-me. Foi um olhar que valeu por mil palavras.
5. Houve grandes heróis de morte matada na literatura, no cinema. Nas mitologias. Tem de matar um que viva numa dessas categorias. Quem escolhe? Porquê?
Escolho Marcovaldo, o extraordinário homem comum de Ítalo Calvino. Marcovaldo é um anti-herói. Colhe cogumelos no meio da cidade, leva uma marmita para a fábrica, persegue coelhos radioactivos pelo bairro para fazer um guisado aos filhos que passam fome. Apesar de ser uma personagem extraordinária, ninguém lhe liga. Os leitores querem heróis consagrados, heróis crípticos, querem os heróis que não compreendem, nem amam, mas que outros asseguram ser dignos de entusiasmo e admiração. Marcovaldo é o triunfo da simplicidade, a sublimação da banalidade. O mundo não o merece. Matava-o por compaixão. Fazia-o desaparecer de vez. Guardava-o só para mim.
6. Morreu. Tem comité de honra à espera. Cinco: Ulisses, D. Quixote, Hamlet. Quem são os outros dois? Com qual deles fala primeiro? Seja indiscreto! Conte-nos um bocadinho do que lhe vai dizer.
Podia soltar um palavrão, melhor dizendo, escrever um palavrão, mas parece mal num blogue de gente amável. Recuso morrer se é para ter um comité de honra desse calibre. Que se dane o Ulisses, o D. Quixote e o Hamlet. Se posso ter alguém à minha espera que sejam os mortos que me fazem falta: o meu avô José, a avó Felicidade, a tia Ercília que se atirou de um sétimo andar e gostava de frutas cristalizadas, a minha avó goesa, Maria Aninha, que não conheci, mas de quem – asseguram-me — herdei o azedume, a carranca fechada. Não lhes dizia nada. Pedia-lhes colo, abraçava-os durante muito tempo, sem pressa, para aliviar da chatice da eternidade.
7. Queremos terminar com simplicidade, por isso, nada de grandes questões. Já sabemos que alguém lhe contou o segredo: o que é a vida? E nós, tem um sentido a nossa existência? Somos a pequenina parte do sonho em que alguém nos sonha? Não nos esconda nada… do Aleph de Borges aos comboios de descrentes de Whitman, diga-nos tudo o que quiser.
Confesso a ignomínia: não conheço o Aleph de Borges nem os comboios de descrentes de Whitman. Mas conheço bem os comboios suburbanos de Lisboa e as lagartas apinhadas de gente de Bombaim, onde a vida se mostra, com as suas excrescências carnudas de miséria e sofrimento, dolorosa, mas, por vezes, tão bela. Posto isto, dou uma resposta que fica sempre bem num questionário deste género: A vida é um labirinto. Estamos sempre a perdermo-nos e a encontrarmo-nos. Há uma saída. Mas é muito difícil de encontrá-la.

… a vida… excrescências carnudas de miséria e sofrimento, dolorosa, mas, por vezes, tão bela

















Não poderia haver melhor maneira de começar: a Ana, única…muito bonito o que ela diz, o que escreve.
~CC~
Apreciei muito que em tão poucas palavras nos tenha mostrado um tão comovente olhar.
É como diz, estamos sempre a perder-nos e a encontrar-nos. Mas ainda bem que perguntámos: foi muito bom o encontro com estas suas respostas.
Que boa chegada, cheia de vida, amor e compaixão. E veio fazer festa neste Cemitério!
Ana, seja muito bem-vinda! Que fantástico é tê-la aqui connosco durante este mês!
Li com enorme interesse e ainda maior gosto as suas respostas ao nosso labiríntico questionário.
Queria dizer-lhe que acho que já é uma magnífica escritora – apesar da falta de tempo de que tão admiravelmente se queixou há tempos.
Também que me agrada a ideia de aprender com uma mulher: são normalmente femininas as figuras que me inspiram, os exemplos, bons ou nem por isso, que faço por seguir ou evitar. Se bem que eu não seja (porque a vida se encarregou de me demonstrar o contrário) tão taxativa na recusa da aprendizagem com a outra metade da humanidade …
E, ainda, o quanto me desconcertou e comoveu o que contou sobre o seu filho Joaquim: qualquer mãe tenderá a incluir nesta categoria das “mais bonitas”, várias arrebatadas e extraordinárias declarações feitas pelos seus meninos e meninas … não costumam é ser tão fortes e intensas…
PS – Desculpe a indiscrição, mas tenho de mesmo de aproveitar … o Direito, é verdade ou é como as camisas brancas, só para despistar o leitor, no caso, a leitora?
Ana, seja bem vinda. É um gosto ler o que escreve, apetece. E encontrá-la nestas respostas outro gosto ainda. Sinta-se muito querida: é uma alegria para nós a sua visita.
Ana (perdoe a intimidade) já espio seu blog pela fresta que este aponta há tempos. Gosto sempre. E as respostas de hoje são inspiradoras, fortes e provocativas. Aguardo, curiosa, o post.
As pessoas interessantes que se conhece neste extraordinário blog!
É um grande prazer ter uma blogger desta sensibilidade no nosso jazigo. Será sempre bem vinda, Ana.
Em tempos assaz remotos dei aulas na esc. sec. olivais 2. Depois eu e a escola crescemos e foi cada um para seu lado, tendo ela mudado de nome para Herculano de Carvalho. Pelos visto, muito boa gente continuou a passar por lá.
Ana:
Sou um admirador incondcional da sua prosa suburbana. Além de si não conheço quem mais fale dessa pequena vida que é enorme e até hoje silenciosa. É um grande prazer tê-la agora aqui diante de mim, em palavras e luz.
Seja bem vinda. Gostei muito da ideia de pedir colo a quem nos ama, mas sem que disso nada nos expliquem, ali, bem às portas do céu.
Seja bem chegada, Ana. Gostei particularmente da sua resposta ao sinónimo de amar. Não há nenhum, não é?
Confesso-lhe a minha curiosidade casuística, que me leva por vezes a passar olimpicamente por coisas importantes: nunca a li a não ser hoje.
Gostei muito.
Excelente escolha, que não podia deixar de comentar, numa oportunidade única, dado que no blogue não permite que se faça. Digo apenas que a acho genial.
Bemvinda ao nosso cemitério Ana. Leio-a ocasionalmente e é sempre uma descoberta. Consigo posso estar sempre seguro de ficar a pensar em qualquer coisa de uma forma nova e diferente.
Por isso obrigado.
Matas-me a sede do infinito.
Com o devido respeito mas para quem conheça o blog da ana de amsterdam, classificar o que escreve de ‘prosa suburbana’ parece-me redutor. E não me parece que escreva algo novo e diferente. Escreve os que muitos tentam, apenas fá-lo muito bem, de forma admirável, as palavras sempre aparecem no tempo certo, com a intensidade e densidade na exacta medida. E conhecendo, minimamente, o panorama literário nacional, espanta ainda não ter editado.
Com frequência leio o Ana de Amsterdão e gosto da escrita, umas vezes muito, outras nem por isso. Mas há uma coisa de que não consigo gostar: é quando a autora declama, do alto da sua arrogância (ou preconceito), que “desprezo os homens em geral, mas não lhes quero mal…” Olha se fosse um homem a escrever isto…