Uma boa moldura

Fora a última fotografia que Eva lhes tirara. Junto ao lago, os quatro em traje de banho com o olhar imerso na revista que a fizera saltar, de vez, para a ribalta dos holofotes e passerelles do mundo da moda e, daí, para o estrelato de Hollywood. Mal sabiam eles, naquele momento, o triste destino que iria ter aquele orgulho que cada um deles sentia em ver a sua querida Eva assim exposta aos olhos do mundo. Triste destino para eles, porque para o dela, Eva, eles não passaram de uma nota de rodapé na vertiginosa escalada para a fama que se iniciou com a reportagem da revista. Pobres coitados, estavam longe de imaginar que ela apenas se serviu deles, que se limitou a retirar de cada um o necessário para nunca mais ter de por os pés no Midwest. Um pelo dinheiro, outro porque era filho do Principal, outro ainda porque tinha primos influentes nas majors, e o último porque – tinha de admiti-lo – lhe dava um prazer sexual nunca antes experimentado. Cada um se julgava único no amor que lhe merecia, e cada um guardava para si, a pedido dela, o segredo da exclusividade das brincadeiras lascivas a que ela se entregava. Nenhum deles suspeitava não ser o único da vida dela. Cada um acreditara sem pestanejar naquela história mal amanhada do hímen que se rompera acidentalmente durante um exercício na aula de educação física.

Depois daquela tarde da fotografia, não só nunca mais os vira como nunca mais quisera saber deles. Afinal de contas, já tinha o que queria deles. A conta bancária que um deles lhe abrira para tratar a doença do irmão imaginário, a High School concluída sem nenhum esforço, as portas abertas em Hollywood. E quanto ao prazer sexual, estava certa que, dali em diante, não lhe iriam faltar amantes de qualidade em NY e em LA. Embora fosse grande o desprezo pelos seus provincianos amigos de ocasião da vilória onde cresceu, chegara-lhe vagamente aos ouvidos, anos mais tarde, que nenhum deles se recompusera da sua súbita partida. Claro que, como ela previa, nenhum deles saíra do Midwest. Parece que um se suicidara, outro, pobre infeliz, mergulhara na voragem das drogas, e os outros dois acabaram funcionários de uma daquelas insuportáveis seitas evangélicas a vender bíblias de porta em porta.

Apesar de já não se lembrar sequer do nome deles, a fotografia lá estava, ainda, na estante da sala em LA. Na verdade, dava-lhe muito jeito naquele mundinho de ficção onde ela agora vivia. Os rapazes davam uma boa moldura. Ficava sempre bem dizer que eram os seus muito cool amigos gays. Se a Naomi Campbell e a Kate Moss os tinham, ela não lhes podia ficar atrás. E, nas festas lá de casa, era difícil não reparar neles, desde que ela se lembrou de os transformar em tabuleiro de linhas de coca.

Comentários a “Uma boa moldura” (5)

  1. isa maria zimermann diz:

    São os equívocos a que todos estão sujeitos, seja nos ides anos 20, 30, 50, 2000. A natureza humana é impecável e muitas vezes implacável.

  2. Joana Vasconcelos diz:

    Se Eva quisesse mesmo cortar com o passado, não manteria a foto na sala, tê-la-ia destruído há muito.

    Se a memória desses tempos não a assombrasse, não precisaria a esconjurar da forma como patentemente o tenta fazer.

    Acho que a fotografia e as memórias a ela associadas representam o último elo que liga Eva à realidade e aimpede de mergulhar no mundo que a própria reconhece (ainda) ser de ficção

    E claro que se lembra do nome deles.

    • Diogo Leote diz:

      Joana, eu bem que desconfiava que aquela moldura não podia servir só para compor a estante e para a dona dar uns cheiros. Mas fico contente que a minha história tenha vida própria. Ou melhor … que nas suas mãos tenha muito mais vida!

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