Um menino de Angola*
Queridos Mortos

Este Querido Morto justifica-se pelo facto de continuar a achar que ainda devo algo a Angola. Foi publicado há dez anos com o título que aparece depois da imagem, nos meus Contos Acrónicos, e, posteriormente, no site do meu batalhão – o BART 6323, que auto-intitulámos de Batalhão da Paz. Bem tentámos que assim fosse.


Aguarela de Neves e Sousa



A carta

Uma carta do Goma! Eu dei-lhe a minha morada quando fugi de Angola espavorido com a chacina que por ali se engendrava.
Adorei Angola em todo o seu esplendor crítico. Mas o enorme grito de dor ensaiado naqueles pedaços de guerra civil que presenciei, em Malange e Luanda, deixara-me preparado para a ausência da mata profunda e da imensa savana – que agora só vislumbro nas dimensões generosas do Alentejo. E aflito de desejo por regressar ao maternal puto[*].
Saí da Lua[†] em Agosto de 75. Mas tenho umas saudades corrosivas, cíclicas. Do que já não existe como era. Da enorme vala comum cheia de aparentados não muito vagos e de sonhos lancetados, encostados uns aos outros como pedaços de espelhos velhos partidos em geometria variável.
Passados mais de 20 anos o Goma escrevia-me do cú do mundo. Letra bem redonda, no português quase perfeito apreendido na escola agrária de Coimbra, que frequentou entre 71 e 73.
O 25 de Abril e a abertura à descolonização pregaram-lhe uma partida feia – como a muita outra gente, afinal. E o Goma, aos 17 anos, abandonou a sua vocação de engenheiro da terra para acudir aos apelos da mãe-pátria, que aparentemente se tornava maior.
Quando fazíamos parte das patrulhas mistas que tentavam controlar Malange, no primeiro trimestre de 75, disse-me que a sua ascendência étnica nada pesara na escolha do partido que aceitava servir. Nascera, veja-se lá a ironia, em Portugália, na mais longínqua Lunda Norte. E, para seu mal, sentia-se um progressista de veia liberal. Por isso, ingressara no ELNA[‡] da FNLA, convicto de que os americanos nunca deixariam cair o Holden.
Confiou.
E teve azar – porque, como é sabido, o vento da História é irregular e muitas vezes injusto para tantos.
Nas várias conversas que tivemos sobrou sempre a convicção inflexível de que uma paz concertada entre os dois partidos principais – a Unita à época era só um resquício colaboracionista do Exército Português e da África do Sul – seria a semente mista, cheia de genético engenho, para a manutenção de uma sociedade multi-racial, lusófona, de influência insubstituível no concerto das nações ao sul do Sahara.
«Ou isso ou o desastre», concordávamos. Estávamos tão longe e tão perto da realidade.
O meu rádio de ondas curtas debitava acordos, e no dia seguinte só se viam os desacordos. Já no final da primeira grande batalha de Malange – a única a que assisti nesta cidade –, Goma, Joaquim Pedro Sebastião de seu nome príoprio, não queria aceitar o descambar monumental que se avizinhava. Alvor era uma farsa, Soares fora imediatamente eleito vice da Internacional
Alvor servira para isso. Apenas.
E era tudo, além dos tiros – e dos roubos, violações e humilhações dos mais variados matizes. Em todas as direcções.
Um dia, de manhã, ao sentar-me ao lado do condutor da Berliet para mais uma infrutífera patrulha – íamos a Vila Matilde tentar sanar o insanável entre uns aquartelamentos do MPLA e FNLA, apenas separados pelo asfalto estreito duma estrada – notei que o meu amigo parecia chorar. Disse-me que era do sol, que de facto poderia ferir os seus olhos claros quase verdes, muito habituais num mestiço clarete. A mãe, natural de S. Tomé, refugiara-se já em Cabo Verde, muito menos remediada do que fora antes na Angola do seu marido branco já falecido.
Eu era amigo do Goma, acredite-se ou não. Dava-lhe prendas de vez em quando: uma caixa de ração, uma garrafa disto ou daquilo, uma toalha usada, uma t-shirt… Nos seus sensíveis e inteligentes 18 anos o Goma estava apavorado com o que via e, na realidade, chorava o desvio que a sua vida levara ao acreditar num sonho em dissipação crescente.
Dei-lhe os meus Ray-Ban de lentes verdes e apercebi-me que, a coberto da sombra artificial, aproveitava para deitar fora um caudal ainda maior de tristeza já mal contida. Talvez sentisse algum medo, coisa bem natural na sua conjuntura específica.
Depois da grande ofensiva que nos fez abandonar Malange perdi-lhe a vista – pensava eu que para sempre.
E ao fim destes anos todos uma carta endereçada ao Exmº Furriel Miliciano Manuel Bernardo de Mendonça Pereira Lamas, rua tantos de tal, número tal, Esmoriz… Como remetente, só o nome inteiro do Goma.
A minha mãe, que ainda lá vive, entregou-ma com um olhar intenso.
Foi, e ainda é, uma confidente de peso.

Querido maudié:

Espero que esta te vá encontrar bem de saúde, assim como aos teus.
A fórmula simplória usada era afinal uma sombra chinesa que escondia a intensa crueldade dos acontecimentos que preencheram parte da vida até então desconhecida daquele meu amigo já tão distante.
Fugi de Malange sem nada. Já não queria ser militar. Deixei o partido, a FN, as granadas e a farda. Fui para o Cafunfo, para os diamantes. Andei no rio, arranjei mulher e dois filhos.
Enquanto Goma peneirava e revolvia o leito dos rios à procura das camangas[§], a mulher cuidava dumas cabras e galinhas. A machamba[**] também a ela pertencia como responsabilidade. Com mais ou menos complicações, Joaquim Pedro Sebastião e família viveram na Lunda por quase dez anos.
Um dia veio a Unita e varreu o rio a tiro. A seguir vieram os Migues do MPLA e varreram a Unita e as nossas casas. Não sei da mulher e da filha. Não pude mais e fui para o caminho, para sul, com o meu filho Mané de seis anos que tem o teu nome, sempre fora da estrada, sempre longe da estrada por causa das minas. Tinha uma AK, uma fisga, uma faca, um dólmen e uns pancos[††] com sola de pneu bons para caminhar.
O Goma queria ir para a costa, para o Lobito, porque achava que para se viver na Lua ou noutra cidade grande era preciso ser-se mau – um adjectivo que só depois percebi ser duma ambiguidade circunstancial muito específica.
Andávamos sempre à noite e dormíamos muito de dia. Comíamos colas, banana, abacaxi, macacos e pássaros pequenos, que são fáceis de apanhar como tu bem sabes. Um dia cruzámos uma estrada, é que não há hipóteses. Tínhamos de passar ali. Quando íamos a correr eu e o meu Mané, havia uma Toyota parada cheia com uns irmãos. Uns eram da Unita, com farda e emblemas, outros do MPLA, e outros não eram nada. Todos juntos era esquisito. Riam-se muito.
Um saiu e pediu-me a AK que ainda tinha três balas. Depois disse para eu tirar os pancos e arrancou-me uma garrafa de plástico com a nossa água e um saco com um restinho de fuba[‡‡]. Despejou tudo para o chão e eu sem perceber. O Mané começou a chorar baixinho e eles riram-se mais.
O que estava fora afastou-me e todos dispararam no Mané! Não para ele sofrer, que não sofreu nada, eu é que sim! E foram-se embora a rir. Nem sei dizer. Já não choro mais, já nem sei como fazer.
Cobri o meu Mané de terra fina, para ensopar o sangue. Depois tirei o dólmen que os ‘irmãos’ não levaram, e meti o meu Mané lá dentro. Dei nós nas mangas para fazer um cesto e fui-me embora até Xysa, perto de Caculama, naquele sítio que me mostraste onde está o Zé do Telhado que era bandido no puto mas por aqui ainda é como um santo. Afiei um pau e fiz uma cova bem funda, mesmo ao lado do Zé do Telhado. Meti lá o meu cestinho e cobri com pedras grandes e muita terra e mais pedras. Não gosto de hienas.
Não sei quem faz isso mas ali ainda há lá folhas de palmeira e flores que já estão murchas mas são flores. Já não sei chorar Mané, o coração já só tem as balas do meu Mané.
Descalço e sem mais na vida, o Goma prosseguiu pela estrada para sul, a que vai por Calucinga e Mussende.
Mas agora tudo tem nomes que mudam conforme o dia.
Já não saía da estrada que não tenho nada para esconder a não ser a vida e essa mesmo
Um dia, Goma apanha outro susto:
Ouvi um motor longe e ainda pensei esconder-me. Mas para quê!? Que me matassem de vez era o que eu queria já… Em dois dias nem comi!
Era uma mota, uma scrambler[§§] velhinha e bem carregada, com um irmão em cima.
Ele parou, desligou a mota e encostou-a numas árvores. Como eu estava longe de tudo, perguntou-me para onde ia e eu disse-lhe que queria ir pescar para o Lobito. Ele riu-se e eu tive medo outra vez.
Afinal tinha comida, cucas[***] e até papel e caneta, que é assim que te escrevo. Ouviu a minha história e riu-se. Era mesmo mau.
Ia para a Lua pela Quibala, mas levou o Goma até Mungo. Depois foi-se embora para norte.
Disse-me para fugir do Huambo, mas isso eu já sabia. Levou a minha carta para ti. Disse que ela um dia chegava. Ele era mesmo mau, mas eu ainda não sou. Mas vou ser. E vou trabalhar nos barcos do Lobito, na pesca – no mar, que já não quero a terra. Se acaso a receberes e se quiseres, manda-me umas botas de lona, papel e lápis para eu te escrever e alguns ferros[†††] se puderes que eu nem posso comprar nem nadinha.

Assina

Teu único irmão Joaquim Pedro Sebastião Goma.

Eu, que já estava doente há um pedaço, tive um ataque de histeria tão grande que o meu amor pensou por momentos que o seu amor não chegava para me travar. O saltitar sonoro do meu filho revolveu-me de angústia, e as lágrimas chegaram desenvergonhadas. Telefonei à Luísa, para saber se tudo estava bem. Estava, claro!
No dia seguinte consegui falar com um velho amigo, executivo de uma empresa portuguesa que eu sabia ter interesses na área das pescas angolanas. A sede da joint-venture era no Lobito. Umas semanas depois soube que o Goma estava vivo e bem de saúde. Sempre calado, era respeitado por todos. Trabalhava no arrasto.
Não saía do barco.
Jura que nunca mais volta a pôr os pés em terra
Mesmo quando a guerra chegou ao Lobito ele lá ficou no barco, a ver tudo de longe – disse esse meu amigo, a quem pedi mais um favor.
Estou agora a fazer um grande embrulho com muitas coisas.

Só não sei o que dizer ao Goma.

[*] Portugal

[†] Luanda

[‡] ELNA – Exército Nacional de Libertação de Angola, braço armado do partido de Holden Roberto

[§] Denominação popular do diamante em bruto

[**] Lavra, pequena exploração agrícola

[††] Sandálias artesanais

[‡‡] Farinha de mandioca

[§§] Moto Honda, modelo 350 TT

[***] Marca de cerveja angolana, qualquer cerveja

[†††] Dinheiro

(*) Este é um texto ficcional



Comentários a “Um menino de Angola*” (21)

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    António, é mesmo ficção? Pareceu-me um menino de verdade. E acho que tem mais, muitos, irmãos de sangue.
    Gostei bastante, no texto, do olhar de bondade resignada que lhe subjaz. E apetecia-me ficar a conversar contigo depois de o ler.

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Podia ser, Manuel, mas eu nunca recebi esta carta. A minha Mãe achava que sim. E outras pessoas também — o que é um belo elogio.
    Agora os condimentos, como bem sabes, esses são bastante exactos.
    E sim, tem muitos irmãos de sangue, inevitavelmente.

  3. Eugénia de Vasconcellos diz:

    António, este seu texto é um bocadinho comovente.

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Tinha de ser, Eugénia, foi assim que eu vi tudo aquilo.

  5. Joana Eça de Queiroz diz:

    Continua a ser um dos meus favoritos, a par do Velório Branco.

    • António Eça de Queiroz diz:

      É, querida, estou a pensar em refazer algumas desta histórias (esta já está mais ou menos) e juntar outras do género. Já leste aqui ‘Um dia na vida’? Se não procura e depois diz qualquer coisa.
      Beijão.
      Viva o Porto, caraças!!!!

  6. Joana Vasconcelos diz:

    Perturbador mundo ao contrário esse que nos conta através do seu Goma, em que os “irmãos” tiram cruelmente a vida a uma criança e a razão de viver a um homem e em que é um “mesmo mau” que pára no caminho para saber dele e o ajudar.

    António, este seu texto deixou-me virada do avesso, mas acho que gostei muito.

  7. Joana Vasconcelos diz:

    A aguarela do Neves e Sousa é um deslumbramento.
    Tenho uma queimada dele, fabulosamente vermelha, na minha sala. Era do meu avô, eram amigos.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Joana, ali o mundo era muito ao contrário, gostei muito da sua observação — e sabe porquê?, porque eu ainda não a tinha observado duma forma tão evidente: a contradição linear dessas denominações, via-as sempre individualmente.
      Que bom!
      Espero que tenha gostado muito.
      E curiosamente o NS também era amigo do meu pai…

  8. Alberto N. diz:

    Gosto bastante deste teu texto, aliás como bem sabes!

  9. gb diz:

    Gostei muito de seu texto por dois motivos. O primeiro e principal: o facto de ser bem escrito. O segundo porque tem muito a ver comigo. Pela minha vida passaram alguns Goma, amigos reais, com direito a carta e tudo. Os meus Goma não eram ficção. Estavam lá. E, tal como o seu Goma que “Mesmo quando a guerra chegou ao Lobito ele lá ficou no barco, a ver tudo de longe –”, eu também, depois de ter visto tudo de perto, fui para muito longe .… não fiquei no barco, fiquei em terra firme, não minha, com um oceano a separar-me dos homens maus, matadores de sonhos e devoradores de esperanças …
    Bela aguarela de Neves e Sousa a ilustrar seu texto.
    Saudações.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Saudações, caro gb. Você é dos que sabe como aquilo foi tudo ao contrário. Certamente entendeu, o que é ficção nesta história é a existência duma carta, porque presumíveis Goma de vários retratos tive alguns.
      A aguarela está publicada num livro/álbum do meu pai, que se chama Seara dos Tempos. Foi editado em 1967 e é uma espécie de imensa reportagem (de Cabinda ao Cunene) em tempo real acompanhada de respectiva perspectiva histórica.
      O seu comentário sensibiliza-me muito — porque apesar da guerra dei-me muito bem com Angola, com toda a Angola. Adorei Zala, adorei a mata, as variações diluviosas, as pessoas, os sítios, os bichos, a terra, as águas, o ambiente. Tudo mesmo.

  10. Turmalina diz:

    Benedito…precisei de uns dias para escrever qualquer coisa que fosse…pode ser até ficção, mas retrata uma realidade que me revira as entranhas.Me entristece e me revolta.Sou muito passional para separar as coisas.

  11. António Eça de Queiroz diz:

    Turmalina, se reparar bem este texto também é passional e não separa as coisas…

  12. Pedro Norton diz:

    Caramba António! Quer que eu chore? Que grande história. Gostei mesmo muito.

  13. António Eça de Queiroz diz:

    Ainda bem que gostou, Pedro.
    Quanto ao choro há um episódio estranho neste texto: quando o acabei de escrever, há mais de dez anos, eu próprio tive um inexplicável (ou talvez não) ataque de choro.

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