
Não tenho alternativa. E a culpa é minha. Fui eu que lancei o desafio à Joana. E agora que a coisa atingiu proporções que nunca imaginei, não tenho como fugir. O melhor mesmo é acabar já com a chinfrineira de portas a bater com estrondo na manif que se organizou espontaneamente nas traseiras deste cemitério, às ordens do potente megafone da (quem havia de ser) justiceira Joana.
Aqui fica então toda a verdade sobre a “Daniela”:
- A tela apresentada é um auto-retrato (um díptico a óleo) da própria artista, Daniela Krtsch, de nacionalidade alemã e radicada em Portugal desde 2001;
- A Daniela Krtsch, embora não seja ainda uma estrela de primeira grandeza no circuito da arte contemporânea portuguesa, é uma talentosíssima artista (em múltiplos suportes, embora com predominância da pintura) que para lá caminha a passos largos;
- Tenho o privilégio de ter a referida tela no meu quarto, bem à frente dos meus olhos quando me deito e quando acordo;
- Embora tenha, também, o privilégio de conhecer pessoalmente a Daniela (uma belíssima mulher, por sinal), a dita tela não me foi oferecida pela própria; foi, sim, por mim adquirida, e por uma razão muito simples: um irresistível “love at first sight” – pela tela, e não pela Daniela, para que não haja dúvidas;
- Não vou jurar – como muitos de nós, provavelmente – nunca ter pronunciado o nome errado num momento menos conveniente, mas posso jurar, sim, que o nome, certo ou errado, nunca foi “Daniela” e que, se o fiz, não terá sido certamente – para bem do meu pescoço — num momento de tanta intimidade;
- A Daniela Krtsch serviu de inspiração para a short pelo mérito exclusivo da obra em causa, e não por qualquer atracção de outro tipo que a autora me tenha provocado – e, nada de confusões com a matéria ficcional, pois que os meus laços com a Daniela nunca foram além da admiração pela artista e da cordialidade e simpatia no trato;
- Tudo o mais não especificamente ressalvado é do domínio da mais pura fantasia; mas já que alguém se atreveu a lançar para o ar a ideia, estou certo que a Daniela (que compreende e se expressa bem em língua portuguesa) não desdenharia as shorts aqui postadas, ou pelo menos algumas delas, como possíveis ilustrações da sua obra, e que, se algum dia chegar à Tate ou algo de vagamente aproximado (estou a fantasiar, atenção), quem sabe não se esquecerá de as reunir numa publicação única, com o apoio e produção de uma editora que eu cá conheço.
E, agora que foi divulgada toda a verdade, o que me dizem de eu mostrar o produto do nosso labor ilustrativo à própria Daniela?

















Meu resultado não foi, de todo, insatisfatório:
- o amor tem, mesmo, um preço (não foi discutido, logo não pode ser considerado erro nem acerto)
- há um livro dos autores do ETGM a ser lançado breve, inclusive no Brasil (ora, não faz mal desejar, faz?); (Há uma chance, mesmo que distante, logo também não é um equívoco)
–há um quadro no quarto do Diogo e foi presente de uma mulher (o quadro está no quarto mas não foi presente, 50% de acerto não é de se jogar fora).
Gostei muito Diogo, do desafio e de suas inesperadas consequências…
Diogo, não me quero armar em psicólogo e analista, mas há muito tempo que não via um exercício de denegação tão esforçado. Seja como for, apresentar à Daniela um cemitério e prosas a sair de caixões parece-me o passo certo para reforçar uma relação (de amizade, bem entendido) não traumática. Abraço-o daqui do meu jazigo.
É um ramo de palavras em vez de flores, Manuel Fonseca! É bonito, Diogo, a sua amiga vai gostar.
(sorriso)
Sim-sim, sem dúvida. E já agora contar o que ela dirá sobre tal acontecimento.
Com certeza, queremos saber tudinho, mas não, ó não, porque sejamos cuscos..
LIIIIINDOOOO!!!
MENINAS, EI-LOS FINALMENTE — O DIOGO E A PROMETIDA VERDADE, TODINHA!!! VALEU A PENA ESPERAR, E PROTESTAR, CLARO, OU AINDA LÁ ESTARÍAMOS …mas adiante!!!
Agora nós, Diogo: pedi pão, recebi bolos! Tanta e tão detalhada é a verídica informação fornecida, tão minuciosas as explicações que a pontua e, last but by no mean the least, tão tranquilizadores — para nós, que lhe queremos bem -, certos, vá, esclarecimentos, acerca da limitada incidência, no seu caso, do embaraçoso lapsus linguae, que tão amargurado trazia o seu protagonista!
PS1– Parece-me excelente a ideia de nos apresentar, sob essa forma, à Daniela: passado o choque inicial, estou certa de que só pode achar graça!
PS2 — Não faça caso do que diz o atazanador Manuel — que se cortou ao desafio e aos palpites, mas que logo aqui veio cuscar, ó se veio …! É óbvio que é cauteloso, quase de disclaimer o tom desta sua revelação … mas um homem tem de velar pela sua reputação, não?
Ó Joana, e se o nosso Diogo velou!!!
Ó Se!!!
Mas Manuel, como o nosso gentil e comum amigo reconheceu, diante das proporções que a coisa tomara, que mais podia ele fazer … veja bem que chegou a aventar-se ter sido ele a pintar o quadro! Não tivesse posto os pontos nos iis quanto a esse e a outros aspectos … e lá levava com outro estrondo de porta a bater!
Diogo, mas tantas são as explicações e tão alongadas… quem muito explica … está bem, pronto, Diogo …
E que bom que os autores fantasiam!!!
Querido Diogo
Lembras-te quando tudo era mais simples e definido no que respeitava aos códigos sociais … neste caso, quanto às palavrinhas que naturalmente se usavam ou não? Nesse tempo, jamais diriamos “tela”, não era?
O Norton exercita mais este controle em outros fóruns mas eu, acobardado no meu (quase) anonimato, tenho aqui que o substituir neste ingrato papel.
De resto, como sabes, adoro as telas da Daniela …
Pois é, atento Anjo Negro, mestre dos códigos sociais, saberás melhor do que ninguém, do alto da tua posição de grand connaisseur do milieu da arte contemporânea, que é uma heresia neste mesmo milieu usar a palavra “quadro” — que foi aliás a que usei na short, e não “tela”, para não confundir os leitores menos familiarizados com a gíria dos artistas, galeristas e por aí fora.
Saberás que, para um artista, é quase ofensivo (e seguramente depreciativo) usar “quadro” em vez de “tela”. Assim, quando apareci sem o meu disfarce de ficcionista para esclarecer as curiosas leitoras sobre a verdade da short, optei justamente pela linguagem mais “verdadeira” — ou seja, “tela” e não “quadro”.
E agora, ala que se faz tarde que tenho de me por a andar para o Belcanto. Como sabes, temos um brinde ao Vargas Llosa à nossa espera e tu fazes lá muita falta.
E viva a Daniela.
Caro Diogo,
a partir de agora, de cada vez que disser o raio do quadro está torto, pensarei em si e pedirei perdão à arte. E estou aqui estou a escrever à Paula Rego, que é uma moça que, vá, por ter a mania que pinta, se farta de falar em quadros sem achar que estão a fazer pendant com as cortinas e o cordão do sofá: cuidadinho com a língua, ó menina Paulinha..