Tennesse, 1997
- I don’t drink alcohol, Doc! Twenty three years and two months! Not a single drop!
Fico com o Pitcher de cerveja suspenso no ar. Quem numa profunda voz de barítono acaba de me confessar a sua abstémia é um negro de nome Samuel. Sorri perante a minha estupefacção. – The good lord Jesus showed me the way, you know Doc? — Há mais de uma semana que insiste em chamar-me Doc.
- And I´m a preacher too… — remata orgulhoso com um brilho nos olhos.
Estamos em Março mas está calor. Viemos todos jantar a East Memphis. No Corky´s Ribs & BBQ. — Best ribs in the Country! We ship everywhere! We supply the White House! — Acredito que sim. E não é difícil imaginar o Presidente Clinton sentado nos sofás da West Wing, a chupar dos seus dedos anafados o delicioso e espesso Corky´s Special Hickory Sauce, enquanto discute com o seu Chief of Staff se as melhores ribs são perhaps as do Tennessee ou indeed as do seu estado natal, o Arkansas. Aqui, longe desses requintes intelectuais de Washington, à mesa somos doze, encafuados numa sala fumarenta nas traseiras do estabelecimento. Sou o único branco. Todos negros à excepção do Sandeep que, na sua magreza e natural delicadeza indiana, sentado ao lado de um dos operários das linhas de enchimento, um enorme negro de pura raça mandinga, parece um galão tirado à pressa, descolorado e insípido. Vê-se que está exausto e eu também. Trabalhámos juntos toda a semana. Quinze horas por dia. Os operários que nos ajudaram a levar avante o nosso bizarro projecto de engenharia, e com quem agora jantamos, foram incansáveis. Como recompensa, deles e nossa, viemos aqui obstruir as artérias com as famosas ribs do Corky´s e também, e sobretudo, beber uns copos valentes, de cerveja e Burbon. Porque merecemos. É nestes momentos que acho que a vida vale a pena. E sobretudo que vale a pena vivê-la aqui, longe do meu mundo, longe de tudo, mesmo no meio das vidas que vivem os outros, aqui ou onde quer que seja que a vivem. E só mesmo o facto de o Samuel não beber é que me perturba. Decido por isso ajudá-lo e beber pelos dois. Espero que não se esqueça de rezar por mim amanhã de manhã.
O que é que andavas por ali a fazer, pareceu-me ouvir perguntar? Explico. Sou uma espécie de desenhador de fábricas. Trabalho para uma empresa de consultoria e concebo Lay-outs para as operações industriais de meia dúzia de multinacionais. Na realidade a empresa sou eu e o meu amigo, irmão e anjo da guarda Sandeep. Neste momento, temos de facturar o mais possível pois estamos a planear uma viagem à Índia em Novembro e durante os dois meses que por lá andaremos, não temos qualquer intenção de trabalhar. O nosso Principal, que era também Indiano e que era também um emérito professor de Harvard, morreu o ano passado num acidente de montanhismo. Na verdade, quase todos os meus amigos aqui são indianos embora estas amizades durem pouco pois a maior parte destes transfere-se para a costa Oeste ao fim de meia dúzia de anos. Vão trabalhar para as empresas de IT que por lá crescem como cogumelos. O Sandeep e eu, decidimos manter a nossa base em New England e depois da morte do Kumar, temos andado por conta própria, a amealhar as nossas hourly fees com alguns projectos já em curso ou com alguns novos accounts que vamos conseguindo abrir graças aos nossos contactos com a Harvard Business School. Tenho um pequeno apartamento em Cambridge mas vivo sobretudo em hotéis, motéis e aeroportos. Quase não tenho oportunidade de gastar o dinheiro que ganho. Compro roupa onde calha e sigo uma dieta gourmet, rica em take out chinese food e garrafas de Snapple Iced Tea. Acumulo centenas de milhares de milhas aéreas e consumo malas de viagem ao mesmo ritmo que consumo a sola dos meus sapatos.
Mas que life-style simpático, estão talvez a pensar com um sorriso trocista. Têm razão. Talvez não o seja. Mas olhem, tenho andado a ver o mundo aos bocadinhos. Tenho trabalhado em cidades onde nunca pensei alguma vez pôr os pés, como Monterrey no México ou Gwangju na Coreia do Sul, junto á costa do mar amarelo. E também em cidades mágicas como Manaus, o Cairo ou Istambul. Ou ambientes de estranhos contrastes como Afula no norte da Galileia ou Jeddha na Arábia Saudita. E com tudo isso, nestes últimos tempos tenho-me cruzado e sentado à mesa com todo o tipo de humanidade. Gente como o anafado dono de uma fábrica na Arábia Saudita que, sentado num luxuoso restaurante de Jeddha, com um sorriso fininho e as unhas bem tratadas, me descreveu orgulhoso o imenso valor acrescentado dos recursos humanos que, ao preço da chuva, importava do Paquistão e do Sudão. Ou o dedicado director de qualidade de uma empresa no Cairo que a um palmo do meu nariz, em árabe e aos berros, me informou que na sua fábrica mandava ele e que eu podia voltar para a América com os meus planos de aumento de produtividade. Ou o Plant Manager que me convidou para jantar em sua casa em Tiberias, nas margens do mar da Galileia em Israel e onde conheci a sua filha que, nos seus 18 anos e enquanto nos servia o jantar, me contou que tinha acabado de completar um turno do seu serviço militar como espia infiltrada numa célula de resistência armada palestiniana. Ou os dois gestores Ingleses que, expatriados e já para lá da meia idade, viviam encurralados em Seul, entre trabalho, bebedeiras e sonolentas conversas com as namoradas de turno, essas beldades jovens e anónimas, que aos magotes frequentam os bares dos melhores hotéis asiáticos. Ou ainda os simples, mas educados e sempre sorridentes operários egípcios, com quem dividi pedaços de frango frito, enquanto sentados em bidons ferrugentos nas traseiras de uma fábrica plantada no meio do deserto, fumámos shisha de um cachimbo de água improvisado.
Admito. Por vezes vou parar a destinos menos cosmopolitas ou exóticos. Neste preciso momento, há já mais de um mês que ando pelo sul dos Estados Unidos. Collierville, Arkadelphia, Texarkana, Tyler, Shreveport. Cidades e vilas desta América profunda, primitiva, inculta e segregacionista mas por vezes tão solidária, generosa e surpreendentemente cordial. Cidades com aeroportos onde chego por vezes já noite funda, no ]ultimo vôo e onde um segurança octogenário vem, cambaleante de sono, abrir a porta para que os passageiros possam sair do terminal. Algumas são verdadeiras vilórias onde num pequeno balcão rent-a-car, me estendem as chaves de um veículo de modelo indefinido, ao volante do qual, mergulhando na escuridão de uma qualquer auto-estrada secundária, vou procurar o Holiday Inn mais próximo. São também cidades que há muito perderam o centro e o nexo. Em que a main street já só alberga discount marts, liquor stores e gente sem casa nem rumo. Cidades onde nos arredores encontro fábricas irremediavelmente condenadas à morte, de onde empresas, que há muito as esqueceram, tentam tirar ainda algum lucro que investem depois nas maquilladoras do México e na Índia e na China. Fábricas populadas exclusivamente por duas raças: os African Americans e os exemplares dessa outra raça que os americanos de classe média definem cruelmente como White Trash. Pretos e Lixo Branco, em suma, que com os seus bonés de basebol, as botas cardadas e a roupa comprada nos thrift stores que como ervas daninhas nascem e morrem na borda das autoestradas, se batem duramente para que ao fim do dia consigam ainda acreditar nessa escorregadia ilusão que por vezes parece ser, o American Dream.
Olho para as minhas mãos. Estão vermelhas de pimentão. Tenho os dedos e as unhas impregnadas do tal Corky´s Special Hickory Sauce de que o Clinton tanto gosta. Tento, sem sucesso, limpá-los com um toalhete perfumado que retiro com dificuldade de um sachet com o logótipo do restaurante. É um Porky-Pig que sorri amavelmente e me convida a encomendar uma dose de ribs pelo telefone, da próxima vez que não podendo sair de casa, me assolar uma incontornável gana de as comer. Em cima da mesa, pitchers de cerveja vazios, pilhas de ribs roídas com afinco e restos de pulled pork, beans e corn on the cob são testemunhas da nossa voracidade. Pergunto aos meus companheiros de mesa como é que se vai para Graceland. Amanhã, antes de voltar para Boston, quero lá ir. Olham-me com alguma circunspecção e ouço de novo a voz quente de Samuel, o operário pregador, – Elvis Presley is a white man´s invention, Doc! – Acenos de cabeça. — They coudn´t deal with us being on top, you know? Primeiro olha-me sério e logo a seguir abre de novo um grande sorriso. Sorrio-lhe também. Levanta-se então, e apoiando os punhos fechados no tampo da mesa, como imagino que faça um verdadeiro preacher no momento da prega, afirma quase cantando — Now! Are you interested in listening to some serious southern music? — Atordoado pelo cansaço e pelos vapores do álcool, não estou seguro se Samuel se dirige a mim, ao Sandeep ou ao seu Good Lord, mas pelo sim pelo não, respondo-lhe afirmativamente.
Entramos por uma porta entreaberta nas traseiras de um edifício que dá para um parque de estacionamento. Descemos dois lances de escadas. O ambiente lá em baixo é quente e húmido. O espaço está cheio. A sala é pequena. As paredes pintadas de vermelho. De músicos não há vislumbre e eu continuo a ser o único branco. Já não sei em quantos bares entrámos antes de aqui chegar. Mais um shot de burbon e uma cerveja. As têmporas batem-me agora alternadas, sincopadas, ora a direita ora a esquerda. São duas e meia da manhã e devia estar a dormir á horas. O Sandeep fala ininterruptamente com dois dos nossos homens. Tenta-lhes explicar aquilo que andámos a fazer toda a semana. Ouço-o falar de design of experiments, control variables e statistic process control. Naturalmente já ninguém o ouve. Há excepção do Samuel, bebemos todos demais e começo a não saber onde estamos nem como ali viemos parar. Entram finalmente os músicos. Metem-me mais um shot de burbon na mão. Samuel está agitado, nervoso. O guitarrista senta-se numa cadeira em cima de um palco improvisado e faz-me um gesto com a cabeça. Não é para mim, era para o Samuel. Conhecem-se. Despejo o burbon pela goela abaixo. O Samuel sobe para o palco. Afinal também é um pecador. Não bebe mas canta o pecado dos outros, penso. O calor é insuportável. Samuel canta agora. Como um diabo. Qualquer coisa que envolve um comboio e um escravo e uma loja de penhores. È enfezado mas tem uma voz incrivelmente potente. Um Howlin’ Wolf, pregador e operário. A sua voz ribomba contra as paredes vermelhas e parece acelerar o latejar das minhas têmporas. A guitarra metálica que fere. A batida ritmada, como um comboio de carga que atravessa o delta do Mississípi. Preciso de ar. Urgentemente. Dirijo-me para as escadas ouvindo ainda ao longe uma guitarra e um lobo que canta. Já cá fora, o ar fresco da noite atordoa-me. Acendo um cigarro. Sento-me na borda do passeio e apoio a cabeça sobre os joelhos.
Acho que amanhã já não vou a Graceland.
Fuck ! Talvez seja altura de mudar de vida.
How Many More Years — Howlin’ Wolf


















Sauda-se o regresso de Sandeep. E o excelente texto, tão bom a cruzar a verdade dos ambientes com o tocante patético existencial. Love it.
De Memphis não sei, mas isto é New Orleans por todo o lado. Se quisesse descrever a cidade seria assim (se conseguisse…)
Vasco, que fabuloso dois em um! Fiquei realmente overwhelmed com os relatos do opíparo jantar e da night out em Memphis, intercalados com o do intenso e colorido globe-trotting!
PS — Aos anos que me não me lembrava do simpático Porky Pig …
Vasco: fartei-me de gostar.
Muito obrigado, Vasco. Isto é o que se chama viajar sem sair de casa. Perfeito para estes tempos de crise. E com direito, no fim, a um grande momento musical.
Um luxuoso quinteto de críticos a serem demasiado simpáticos é o que voces são…
Grazie amici!