Postais de Viena (III)

Em Viena, fugidas da distante Betúlia, vivem duas Judites. Duas bíblicas Judites de se perder a cabeça. Holofernes que o diga porque a perdeu, muito bem perdida. Para Cranach, em 1530 e para Klimt, corria já o ano de 1901. A primeira, de decote generoso e empunhando, ameaçadora, a arma ainda erecta, vive, toda vermelhos, no magnífico Kunsthistorisches Museum. A segunda, sensualíssima, que ninguém imagina a disferir “com toda a força, dois golpes no pescoço de Holofernes” (Jt 13,6), mora no decadente Belvedere. A primeira é ruiva e é filha de inspiração incógnita. A segunda, morena, tem a boca entreaberta de Adele Bloch-Bauer que Klimt viria a beijar, em tons de dourado êxtase, seis anos mais tarde. Entre as duas, mon coeur balance. Não sei se prefira a que os peitos sugere, se a que o peito revela.



Lucas Cranach, Judite com a cabeça de Holofernes. 1530





Gustav Klimt, Judite I. 1901.

Gustav Klimt, Judite I. 1901.





Gustav Klimt, Adele Bloch-Bauer I, 1907






Comentários a “Postais de Viena (III)” (8)

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Lindas as maminhas de Adele. Quem é que não se rende à voluptas pré-decadentista de Klimt!

  2. José Navarro de Andrade diz:

    Grande, grande Lucas Cranach, que já não me lembrava dele. E aqueles cabelos rasta dela? E a espada limpinha? E a mão afagando a cabeça degolada? E olha só o olhar dela, um olhar assim…

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Gosto das duas: vendia a de Cranach (não liga com o décor da minha caverna) e ficava com as maminhas do Manuel, perdão, com as do Klimt (chiça, com as da Adéle!…).
    Sou decadente, muito decadente, cada vez mais…

  4. Turmalina diz:

    Mas a expressão da primeira é sensacional!

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