Postais de Viena (I)

Amaram juntos uma vida inteira. Gastaram Verões sem fim a remar os sonhos de tamanho muito azul do lago Attersee. Ele desenhou-lhe 399 postais. Ilustrados de quotidiano. Os tudo e os nada de que se fazia a vida. Ela sabia-lhe os filhos, as amantes, as misérias. Sabia cada um dos detalhes de cada uma de todas as noites. Ofereceu-lhe a família que nunca chegaram a formar e fez-se musa silenciosa para que a liberdade se fizesse, também ela, plena de tão sua. E ele retribuiu em arte o que lhe terá recusado em beijos. Em cada um dos beijos que pintou, lubricamente dourados, em todas as outras bocas do Mundo.

Dela, ele terá sido o único. Mas dele, foi ela certamente a mais mulher de todas as mulheres que eram suas e que eram tantas. Porque só ela, renunciando a ser, se fez verdadeira e unicamente sua. E foi por sabê-la única, foi por saber o amor concreto de tanta renúncia, que quis fosse único o único retrato que dela pintou.

Gustav Klimt. Emilie Floge, 1902

Gustav Klimt. Emilie Floge, 1902

Comentários a “Postais de Viena (I)” (5)

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Espero que, mais tarde ou mais cedo, apareça um postalinho sobre a Valerie “Wally” Neuzil. Ou pelo menos um post sobre a “adoração à vulva” em Schiele (sim, que Schiele não era lá muito de adoração de pastorinhos e reis magos). Deste gostei muito e à boca desta Emile nenhum beijo se recusa.

  2. pedro marta santos diz:

    Curioso. Tenho uma pequena reprodução desta Emilie, em tela, comprada em Florença, na minha sala de jantar. É dos meus Klimt favoritos. Tenho ideia que foi na Pinakothek de Munique que a conheci. Mas posso estar enganado.

  3. Turmalina diz:

    Eu não via Klimt desta forma…mas achei bonita e honestamente mudou meu olhar sobre ele. São aqueles detalhes…

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