John

Nobody controls me. I’m uncontrollable.

The only one who controls me is me, and that’s just barely possible.

John Lennon, The Playboy Interview, Setembro de 1980

John and Paul and George and Ringo. Just like that. The Beatles. Nasci com o Sargent Pepper’s e cresci a ouvi-los. Começou por ser a música dos meus pais, até que me apossei dela e a fiz minha. Até hoje. Era dos Beatles o único poster que alguma vez pendurei no meu quarto — uma preciosidade dos early sixties, on temporary loan da minha mãe, a quem fora oferecido em Londres por um grupo de fãs, condoídos do desgosto dela e dos irmãos, que a intransigência do meu avô (que deplorava o quarteto de “cabeludos”) forçara a sair da fila  onde estavam prestes a conseguir comprar bilhetes para um concerto deles. Conheço todas as suas músicas, grande parte de cor — o que não espanta, ao cabo de mais de quatro décadas a ouvi-las em repeat… Having let them into my heart*, são muitas delas que ainda agora me ocorrem e que, tantas vezes dou por mim a trautear, para dentro ou a alta voz, consoante o caso, claro. O sábio don’t carry the world upon your shoulders*, que prego a familiares e amigos mas que ando ainda a aprender como se faz. O demolidor how could she do this to me, how could she treat us so thoughtlessly*, com que procuro evitar o tentador self-centered approach aos dramas que marcam o quotidiano de uma casa com duas adolescentes, tipicamente agravadas com o mundo em geral, as amigas, os professores, a mãe, a criatura insuportável (leia-se irmã mais nova) e uma com a outra. O it’s been a hard days night and I’ve been working like a dog*, que me ocorre amiúde. O so happy together* e o will you still need me when I’m sixty four*, diante de felizmente tantos amores felizes que me rodeiam. Ou o we all want to change the world*, em face de certos iluminados, tão impetuosos quanto insensatos … 

Sempre fui mais team Paul, confesso. Foi sempre ele o meu preferido — o certinho, solar, hard-working  e, claro, canhoto, Paul. Deliciosamente irónico em Michelle (ma belle), When I’m sixty four ou Lovely Rita. Irresistivelmente optimista no fabuloso Hey Jude. Também gostava muito da serenidade e da sensibilidade de George — o belíssimo Something, que compôs, escreveu e cantou, permanece – digo eu — imbatível na categoria any-woman’s-heart-melting-music.  

And then there was John. Intenso, complexo, carismático, desconcertante, controverso, contraditório, incompreensível. Nas suas letras, criativas e geniais – como Lucy in the Sky with Diamonds, Come Together, I am the Walrus, to mention just a few. Nas suas tiradas — como a do we are now more famous than Jesus Christ, que desatou, na altura, uma bela polémica, magistralmente rematada pelo próprio com o delicioso “I wasn’t saying whatever they’re saying I was saying (…) but if you want me to apologise, if that will make you happy, then OK, I’m sorry”. Na sua absorvente e, até ao fim, controversa relação com Yoko Ono, nos seus bed-ins for peace, nas suas provocatórias imagens e fortemente engaged intervenções públicas, que o imortalizaram como ícone pacifista, mas lhe trouxeram alguns dissabores com a administração Nixon, que tentou em vão deportá-lo dos USA.

John intrigava-me e fascinava-me. Mais que tudo pelas fragilidade e pela imperfeição, que a sua voz tão bem reflecte nos sublimes A Day in the Life, Lucy in the Sky with Diamonds, I Want You, Strawberry Fields Forever, e que o tornavam único. A sua morte, brutal e incompreensível, escassos dias depois de outra, igualmente brutal e incompreensível, marcou-me para sempre. Tinha treze anos e senti que parte no meu universo se desmoronava. Aquele negro Dezembro de 1980 confirmou-me da pior maneira a suspeita, que por mais de uma vez me assaltara já: de que este mundo nem sempre é um lugar bom para se viver.

Impressionam, ainda hoje, as entrevistas que deu à Playboy e à Rolling Stone, em 1980 (esta última, três dias antes da sua morte). Preparava e antecipava um regresso em grande. Após cinco anos de retiro — como househusband de Yoko e pai a tempo inteiro de Sean, explica. Uma opção que procura justificar como de liberdade — após anos e anos de compromissos com espectáculos e tournées, de pressões para compor e gravar-, mas a qual, percebe-se claramente, o deixou saturado e frustrado. Daí o azedume com que se refere aos seus ex-companheiros Paul, George e Ringo e às respectivas carreiras a solo. John está contente, animado, desejoso de get back to where he once belonged*. A sua morte, é sabido, fez disparar as vendas de Double Fantasy, tornou Imagine, Woman e (Just Like) Starting Over eternos overnight e aumentou de forma exponencial a aura de mito que tinha já em vida.  

Penso às vezes no que se teria seguido, se não fosse o acto cruel e imperdoável daquele que aqui não merece sequer menção. Como John nos teria supreendido, chocado, quem sabe desiludido, decerto tocado. E tenho pena, muita pena. Porque aos quarenta anos John tinha ainda muito para viver. E uma desmedida vontade de o fazer.

Faria hoje setenta anos. 70.

* Pertencentes, evidente (para alguns) e respectivamente, a Hey Jude, She’s Leaving Home, Hard Day’s Night, Me and You, When I’m Sixty-Four, Revolution e Get Back.

Comentários a “John” (20)

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Muito bom, Joana, também gosto muito dele e da sua loucura racional.
    Nummer neun? Nummer neun?…
    Agora veja isto: na noite da morte de Sá Craneiro eu estava no cinema a ver o ‘Shinning’ do Kubrik. No intervalo fui ao WC e ouvi os empregados falarem do acontecimento. Recusei-me a acreditar que aquilo fosse possível e voltei ao filme.
    Quando saí estava tudo em pé de guerra na Baixa do Porto…
    Dias terríveis.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Foram mesmo dias terríveis, António.
      Para nós, que éramos umas miúdas e decerto muito pior para os mais crescidos!
      Ainda há dias falava nisso com uma amiga desse tempo, do colégio — que levámos primeiro um e logo depois outro valente abanão no nosso pacífico e previsível quotdian. Nessa noite de que fala, lembro-me de chegar de um treino de natação, já atrasada para jantar, e de estar a pensar que seria bom ir rever a matéria de fisíco-química para o teste do dia seguinte … e de repente, o telefone de casa que não parava e, depois, a televisão, ainda muito prudente. Lembro-me de o meu pai sair disparado de casa, eu atrás, curiosa — e de chegarmos à sede de candidatura do Soares Carneiro, do outro lado da rua, onde o ambiente estava de chumbo: já se sabia!

  2. Teresa Teixeira Motta diz:

    Era dos Beatles o primeiro CD que recebi de presente, tinha 6 ou 7 anos. Só mais tarde a coisa descambou lá para os lados das Spice Girls, tão na moda durante o final dos meus tempos de primária.
    Continuo a ouvir sem me cansar um sem número de verdadeiras obras de arte que por eles foram escritas, compostas, tocadas, cantadas.
    Impressiona-me a morte trágica de John Lennon — que, quando nasci, já tinha morrido -, como a de outros a quem a possibilidade de viver é tirada de forma abrupta e cruel. E é realmente curioso pensar como teria sido a vida dele (e a consequente influência na nossa) se tivesse permanecido entre nós, com todas as suas (dele), tão bem descritas por si, características.
    Gostei muito!

    • Joana Vasconcelos diz:

      Olha uma Beatlemaníaca de nova geração! Também cá tenho disso em casa, mas em mais novo! Que bom!

      Uma das muitas e grandes vantagens da música dos Beatles é que perdura e marca sempre mais que toda essa música atroz, que vai variando e passando (pudera, tal é a velocidade de saturação …) em todas as gerações. Por isso é bom misturá-los, aos FabFour e a outros, com tais sons, para que não seja total e irreversível o descambanço (um bocadinho nunca fez mal a ninguém, além de ser muito divertido …)!

  3. Teresa Font diz:

    Joana, que belo texto.
    E que bela homenagem.
    Por muito que goste de outros grupos e de outros cantores-eu sou mais de solistas — tambem volto sempre aos fab’four, às suas musicas e às suas letras.
    E acho que se devia acrescentar aos muitos questionários que aí andam:“qual dos Beatles prefere?“
    O António lembrou-ma a dupla orfandade, partidos e gostos à parte, dessa época de mortes.
    Para mim, o dia assassinio de Lenon foi “the day the music die”. blue day.
    E, em honra daquele que nunca é escolhido, deixo uma coisa de que muito gosto-mas eu sou saloia.
    http://www.youtube.com/watch?v=sf_FX7dVMWU

    • Joana Vasconcelos diz:

      Obrigada, Teresa, gosto muito que tenha gostado! Foi tão duro aquele início de Dezembro de 1980 … e faz já trinta anos, custa a crer!

      Acho um encanto ter-se lembrado do Ringo — a música é uma delícia: não conhecia. Sabia que ele, para os Beatles escreveru e compôes e, creio, cantou o Octopus Garden.
      O Ringo é, sempre foi, uma figura simpática — mas, de facto, tal não chega, ao pé daqueles três colossos, o carismático e complexíssimo John e os encantadores e talentosíssimos Paul e George …

      Mas … é ele o seu Beatle preferido?

  4. Ruy Vasconcelos diz:

    belo texto, joana!

    na juventude mais tenra, john era o beatle por excelência para mim. mas, ainda hoje, ele me soa o mais intuitivo. pode não ter a versatilidade musical de ‘macca’. ou o refinamento da guitarra de harrison. e, no entanto, as coisas em john saem das profundezas, como ‘strawberry fields’, ‘a day in the life’, ‘across the universe’, e por aí vai.

    tive o privilégio de passar um ano novo em liverpool cantando essas coisas com um grupo de amigos ingleses. obviamente nada, nada sóbrio: pints and pints of guiness afterwards. bons tempos!

    beijos,

    ruy

    • Joana Vasconcelos diz:

      Ruy, muito obrigada! Fico muito contente de saber qu gostou! John era realmente intenso, excessivo até, mas por isso mesmo, one of a kind! Essa sua passagem de ano em Liverpool, no meio de cantorias de Beatles deve ter sido qualquer coisa! Belo programa, totalmente do meu agrado — mesmo sabendo de antemão que toda essa Guiness estaria morna …

  5. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Os beatles, nome improvável, coisa fantástica. E a sua música é boa, de tal maneira que permanece. Quem não a conhece e continua a cantar? Belo texto, Joana.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Obrigada Gonçalo, ainda bem que gostou. Achei graça ter referido aquilo que muitas das músicas dos Beatles, além de belíssimas, são — cantáveis, sempre cantáveis, por qualquer um. Por isso as fazemos e as sentimos tão nossas!

      • Diogo Leote diz:

        Muito bem lembrado, Joana. Não tenho dúvida alguma quanto ao meu Beatle preferido: Lennon pois claro. E confesso-lhe a minha profunda embirração pelo McCartney. Sobretudo por causa da sua lamentável carreira a solo, cheia de pirosadas e lamechices, que até me faz duvidar que muitas das grandes canções que lhe são atribuídas nos Beatles tenham sido mesmo compostas por ele. Mas enfim, não ligue, é mesmo ódio de estimação meu.

        • Joana Vasconcelos diz:

          Diogo, tinha mesmo de chegar e de pôr o dedo na ferida, não tinha?
          É justamente esse o meu grande problema com Macca: a sua luminosa, versátil e consistente carreira enquanto Beatle* — como compositor, letrista, cantor (Hey Jude, Let it be, Penny Lane, Eleanor Rigby) — e depois … aquilo, com especial destaque, se de desastres falamos, para os Wings … Compreendo o seu ódio de estimação, mas não vou tão longe: prefiro centrar-me na parte dos Beatles e fingir que o resto não existiu. Mesmo.

          * Se esquecermos o O-bla-di-O-bla-da (eu nem sei escrever isto …), claro …

          • Teresa Font diz:

            há uma frase que redime o infame obladi oblada-e eu até simpatizo com o desmond e a molly.
            (sou mesmo saloia, está visto)

            ‘girl I like your face’

  6. Turmalina diz:

    Lennon era também o meu favorito…e quando escuto A Day in the Life sempre me dá um aperto no peito.Simples assim, sem mais , nem menos.

    • Joana Vasconcelos diz:

      É impressionante, não é, Turmalina? Sinto exactamente o mesmo em relação a A Day In The Life. E não há como explicar.
      Embora o facto de ser de 1967 ajude, claro ;)

  7. Manuel S. Fonseca diz:

    Joana, quando ouvi Sgt. Peppers, embora não o soubesse exprimir, o que hoje penso que pensei foi que The Beatles, depois do que ali tocavam e cantavam, tinham chegado a um point of no return. Superaram-se ainda algumas vezes, mas a marca da diferença e daquele caminho único, perdeu-se por impossibilidade criativa ou por dispersão afectiva.
    Gostei da sua maneira de gostar deles e de gostar de John Lennon, a quem a morte — cruel embora, mas talvez artisticamente não prematura — fica miticamente tão bem.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Manuel, o que para mim permanece um mistério é como é que, depois do Sgt Peppers e com a crescente deterioração das relações entre os quatro membros do grupo (são de estarrecer os relatos), eles conseguiram não apenas produzir mais uma quantidade imensa de música, mas, como diz, várias em que ainda conseguiram superar-se. Mas sim, algum dia teria de chegar o fim, quanto mais não fosse da inspiração e da sintonia. Foi assomborso e decerto muito desgastante o ritmo deles naqueles doze anos (http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_The_Beatles_songs): o Lennon ainda se queixava disso nas entrevistas de 1980 …
      Gosto muito de que tenha gostado.

      PS — Agora vou ler o seu Faulkner, que estive a tarde toda laboriosa, mas a pensar no que lá me espera …

  8. Ana Marcal Grilo diz:

    Eu tenho que comentar! Texto fantástico (sem surpresa) O meu Beatle é o the quiet one (acho eu). Estes 4 sao da minha família, nasci com eles, cresci com eles, sempre foram os meus grandes companheiros nos momentos bons e sobretudo nos maus! Sou uma beatlemaniac desde que me conheco. Curiosamente, a minha mae ligou-e a dizer: Venho dar-te os parabens pelo anos do John Lennon… O Beatle da infancia traumática, louco mas genial! Como seria hoje? Que mais teria composto? Ainda estaria casado com Yoko (tenho algumas dúvidas!!)?

    • Joana Vasconcelos diz:

      Nós aqui no ETGM não temos (ainda) o hábito de dedicar os nossos posts. Mas se o tivéssemos, este teria uma dedicatória que diria mais ou menos isto:

      Para a Ana, a maior e mais entusiasmada fã dos Beatles que alguma vez conheci, nos quarenta anos do nosso primeiro encontro, de franja e bibe às riscas azuis e brancas.

      Ainda bem que gostaste. Foste tu a grande impulsionadora — e a divina providência, contra o meu habitual despistanço, que por um triz não trocava a data — por detrás deste post. Um beijo

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