Infâmia2
História Particular
da Infâmia

Sigmund Rascher

Sigmund Rascher foi um dos infâmes médicos Nazis. Médico das SS, usou os prisioneiros do campo de concentração de Dachau para as suas brutais experiências científicas, em particular para estudar os efeitos adversos a que os pilotos alemães eram submetidos, quando abatidos sobre o gelado mar do norte.

Neste aspecto, Rascher não foi nem mais, nem menos infâme que qualquer outro maníaco médico das SS, nomeadamente o famigerado Josef Mengele. E no entanto, quis trazê-lo aqui para esta nossa nova secção porque até mesmo os Nazis consideraram-no desprezível. Talvez as prioridades não fossem as mesmas que as nossas, mas fica a história.

Rascher deteve um considerável poder entre os seus pares e superiores pela sua proximidade ao Reichsführer SS Heinrich Himmler. Chegou a ele através de, ou devido a, uma relação com uma cantora de Munique, Karoline “Nini” Diehl, provavelmente uma antiga amante de Himmler. Este acabou por ver o casal com bons olhos, talvez por ainda ter afecto por Nini, e acolheu de forma positiva o entusiasmo com que Rascher se dedicava ao seu ofício. Himmler recebeu com interesse as propostas daquele tendo-lhe concedido autorização para realizar as experiências com cobaias humanas, depois de Rascher se ter queixado que era difícil encontrar voluntários (carta abaixo)

Carta a Himmler lamentando a ausência de cobaias humanas, não sem antes reiterar que também o seu segundo filho é forte.
Tradução, arquivo dos processos de Nuremberga

No entanto, o que Himmler não autorizava, era o casamento entre Rascher e Karoline, já que Karoline era quinze anos mais velhar que Rascher e isso não se enquadrava nos princípios raciais e de pureza a que as SS se submetiam. Uma família das SS havia de produzir os melhores exemplares arianos. E no entanto, o amor, mesmo nazi, tudo supera, pelo que passado algum tempo, o casal trouxe ao mundo um filho. Rascher não perdeu tempo em fazer do seu caso um exemplo e agora que tinha mostrado que não ficavam atrás de outros puros arianos mais novos, recebeu de Himmler a anuência para poderem contrair matrimónio.

A família exemplar, que serviu até para efeitos de propaganda, teve, entretanto, mais dois filhos e o casal gozava da maior admiração do Reichführer. Até que em 1944, chegou a Himmler uma notícia que havia de despedaçar a família. De facto as crianças não eram seus filhos biológicos; Karoline pagou para que as crianças fossem raptadas dos pais em estações de comboio de Munique. Himmler ficou furioso e mandou prender os dois, sendo que Rascher foi internado em Buchenwald e mais tarde, ironicamente, em Dachau. De lá não saíu, tendo sido executado pouco antes da chegada dos aliados. Karoline foi enforcada. E assim passou à história um facínora que nem os nazis conseguiram acolher na sua plenitude.

Comentários a “Infâmia2” (8)

  1. Henrique Pontes diz:

    Muito intrigante. Ainda ontem, de noite, me deparei com essas criaturas no Der Untergang (Downfall).

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Que figura sinistra o Francisco nos apresentou. E o que assusta é que descobrimos que estamos de acordo com Himmler na reprovação moral que faz deste clínico Sigmund, quase esquecendo a imoral premissa de que a moral de Himmler parte.

  3. Turmalina diz:

    Que belo desfecho! Gosto de ironias assim.

  4. Joana Vasconcelos diz:

    Fantástico, Francisco!
    O que neste particular recanto do nosso cemitério significa verdadeiramente hediondo.
    E se é certo que o seu (dele) deplorável curriculum profissional chegaria e sobraria para o enterrar bem fundo nesta vala da infâmia, gostei que tivesse trazido este tenebroso episódio que carrega ainda mais os tons da grotesca caricatura do que eram os alegados códigos de honra e de moral por que se regiam estas criaturas …
    Por isto e só por isto, o casal Sigmund e Nini irá bem para o fundo do buraco, com umas valentes pazadas de terra em cima. E por lá gozará da companhia do “justiceiro” Himmler — cuja reacção, suspeito, pouco ou nada teve que ver com escândalo ou reprovação ante tão sinistros actos, mas apenas com fúria e vexame, ao saber-se enrolado como um tanso…

    PS — Estes episódios que metem nazis e crianças viram-me por completo do avesso. Enquanto lia o seu texto lembrava-me de Der Untergang, que logo depois vi referido no primeiro dos comentários. E daquela cena de que aos fin de vários anos ainda não recuperei, de Magda Goebbels a envenenar os seis filhos adormecidos forçando-os a trincar cápsulas de cianeto e aconchegando-lhes depois a roupa. Foi uma das primeiras vilãs que me ocorreram para enterrar aqui. Não fui capaz.

  5. António Eça de Queiroz diz:

    É, este gajo é bom que fique bem enterrado. Só há uma figura do nazismo que considero interessante: Rommel.
    Um infame bem escolhido e melhor enterrado, Francisco.

  6. José Navarro de Andrade diz:

    É perversamente divertido ver torcionários a morrer às mãos dos seus camaradas. No entanto há que afirmar que o nazismo era uma ideologia profundamente moral. Totalmente moral. É o problema dos virtuosos, que de tanto o serem e quererem o mundo conforme á sua vistude, obliteram o que a eles não é passível de ser adequado.

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