Alexandre da Cunha, Skateboarderistismatronics (fan), 2004
Pelo Tempo do Agora
Isso vem de um tempo em que seus amigos eram ruídos. Como o da sineta do distribuidor de gás, em sua motocicleta, cedo, numa manhã de sol. Ou o rumor distante da televisão sempre ligada, na sala. Os bem-te-vis. Os sebites. As turueís. As lavandeiras. A buzina de um carro passando lá, abaixo. A corrente da bicicleta do entregador de água mineral. O martelar em algum prédio a erguer-se nas redondezas, envolto em um daqueles imensos véus verdes. Espectrais. O circulador de ar tentando minorar os calores de quase todo mês, que não julho e agosto.
Vem de um tempo de muito café, cigarros. De provar com insipidez o gosto dos alimentos. Mesmo o sumo das frutas que mais apreciava: cajarana, maracujá, murici, açaí. De não sentir o calor. O suor. De uma sensibilidade extrema ao banho frio em madrugadas sem dormir. Os sonhos recorrentes. A custo lembrados.
Há dois anos se tinha separado. E havia dois filhos pequenos, que encontrava cada vez menos. Ele distanciara-se por completo da ex-mulher. Sentia certo alívio de não viver mais sob a tensão que os cercara nos últimos tempos, e morava sozinho em um pequeno apartamento na Aldeota de onde saía apenas para dar aulas na Faculdade de Arquitetura ou para longas errâncias a pé, pela cidade.
Desde o início daquele ano, por alguma razão, passou meses sem ir em direção ao mar. Ele sabia o que cabia nesse alguma. Um breve interlúdio. Uma lacuna preenchida por um nome. Um nome de mulher que lhe tocara forte, quando ele já havia concluído: na meia-idade tal sorte de entusiasmo já não mais punha frêmito no corpo. Ou então, adolescentemente convoca um nome assim. Tão forte que ele simplesmente evitava passar pelos mesmos espaços que passara com ela só uns poucos meses antes. E porém já para trás há séculos. Não se deve crer tão firmemente numa vida que pode dissipar-se fácil.
Queria esquecê-la. E, claro, o esquecimento não é uma determinação que se toma de forma consciente, porque somos muito mais escolhidos pelas lembranças que o contrário. E, então, mesmo sem circular pelos mesmos espaços em que ela andara com ele, ele sempre lembrava dela, ainda que remasse contra.
A primeira vez que viu seu rosto, num café, ao modo de sucessivos véus sendo retirados em frações de segundos para uma nitidez quase espectral: os olhos de uma azul lavado, não profundos como em mar alto. Porém plácidos espelhos d’água. Rasos lagos. De ver a areia ao leito. Ligeiramente amendoados, oblíquos. Piscinas. Precisos em contraponto aos cabelos presos, com um ou outro fio ligeiramente dissonando. Os ombros nus traspassados pelas alças do vestido. A imaculada pele branca. Tudo que a alma podia sentir sendo corpo. E atrás do vestido, da compleição frágil, da reticente serenidade de ouvinte, ela pulsava em vulcão prestes a lançar lavas para todas os pontos cardeais deste mundo.
Certa madrugada, acordou duas vezes de sonhos profundos, na noite quente, suando frio. E nos dois lá estava ela, inscrita: as feições muito nítidas, o corpo bem delineado e, algo, franzino à primeira vista. Porém nada franzino depois de tocado.
E, porém, o quanto o calendário é breve sendo longo para humanos. E ele, certa manhã, não resistindo ao apelo de um dia expeditamente claro, em um quente outubro, o céu, quase translúcido de haver sido lavado pelas pequenas chuvas, em setembro, se pôs na direção do mar: uma inevitável reta desde o pequeno prédio em que morava.
Aquilo agregava a aventura de uma cruzada. De uma travessia de deserto. De um veleiro a caminho de Java. Que coisa. Que quase nada. Era apenas uma caminhada de uns dez quarteirões na descida da colina à praia:
–O passado, que se dane! – pensou.
Caminhando ao longo do píer, prosseguia lentamente. E eis que de repente, à sua destra viu. Viu uma garota que se equilibrava sobre uma espécie de prancha. Semelhante a uma prancha à vela, só que sem vela fincada. Ela cravava os pés ao centro, sobre um anteparo negro, antiderrapante. Oscilando sobre as ondas de após a rebentação com um remo à mão, auxiliada por uma outra garota, que agarrava-se à proa, e de quem só se via a cabeça e os braços para fora da água. Suas mãos delicadas sobre o metal do remo reluzindo ao sol. A tentar uma forma de prumo para o corpo oscilante, as ondas à medida de causar trôpegas inércias, os cabelos a flutuar ao vento como bandeiras despregadas.
Seu corpo era brônzeo, esguio, semi-atlético. E insistia naquela lenta navegação, um tanto desajeitada, porque a preamar empurrava-as para a praia. Com um semblante compenetrado, ela prosseguia, naquele esporte aparentemente inócuo. Contida, em parte, pela necessidade de se equilibrar. Assim que quase não saíam do ponto de onde se encontravam, uns trinta ou quarenta metros da praia. Ele, escorado á balaustrada, um pouco à sombra de uma luminária contemplava a coisa toda.
Contemplava a coisa toda até, súbito, reconhecê-la na garota que se equilibrava. Às vezes, abrindo um pequeno sorriso para a outra, na proa. Ou indicando com o dedo algo, à esquerda, na estrutura amarela da prancha. Então, sacou do bolso uma pequena câmera digital e, buscando discrição, fez uma dúzia e meia de fotos. Algumas em zoom.
Ao tornar para casa, sentou-se à bancada e, após transferir as fotos para o computador, analisou-as uma a uma na tela de cristal líquido. Não havia dúvidas: era impossível decretar se era ou não ela. E, de repente, até entendia que a moça mergulhada na água, a segurar a proa era a que era ela por contraposição à outra, se a cena era vista a partir de um cromo onde tudo surgia ligeiramente de um ângulo mais oblíquo. Em plano médio, nenhuma das duas era ela. Em plano mais fechado, ambas eram ela. Em close extremo apenas a que se equilibrava era ela. Numa das panorâmicas, somente a prancha era a prancha, porque ambas haviam mergulhado àquele instante.
Enxerga-se além da conta, quando se segue imerso até o pescoço numa situação assim. Mesmo sem querer.
Mas isso veio de um tempo em que seus amigos eram ruídos. Como o da sineta do distribuidor de gás, em sua motocicleta, cedo, numa manhã de sol. Ou o rumor distante da televisão sempre ligada, na sala. Os bem-te-vis. Os sebites. As turueís. As lavandeiras. A buzina de um carro passando lá, abaixo. A corrente da bicicleta do entregador de água mineral. O martelar em algum prédio a erguer-se nas redondezas, envolto em um daqueles imensos véus verdes. Espectrais. O circulador de ar tentando minorar os calores de quase todo mês, que não julho, agosto.
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Aquilo agregava a aventura de uma cruzada, é frase de abertura de romance apetecível.
opa, Eugénia,
um romance nunca esteve fora dos planos. apenas, com 47 anos ainda não sinto que tenha vivências o suficiente para escrevê-lo. ou talvez nem isso, mas um melhor manejo delas. ou maturidade mesmo como escritor. a coisa da forma, do domínio da forma, etc.; e, além de não estar nem aí para isso de precocidades, sempre gostei de não programar demais as coisas. mas sua intuição feminina bateu na tecla. quem sabe nos próximos anos, não sai algo mais largo, como um romance?
Nessas horas os ruídos são mesmo os melhores amigos :o)
de fato, Carla, os ruídos são mesmo os melhores amigos nessas horas.
e, no entanto, ressalvo que isto é ficção. e como toda ficção tão-só agrega alguns dados da dita “vida real”, né?
É Ruy…agrega um pouco aqui, um tanto lá e outro acolá.São sonhos recorrentes, antigos caminhos, velhas e novas fotografias, nomes que nos soam familiares e etc. Desses fragmentos vai surgindo a ficção ou então, a vida real.E sempre os ruídos, continuam nos fazendo uma boa companhia.Como as músicas!
I had a conversation that was very similar to this with my wife last week. Despite my conviction that typing a few letters in the urlbar is as easy, if not easier than navigating an app store (and I’ll only install an app if its something I’m really passionate about having handy all the time), she feels the exact opposite. Its one of the major things that makes me really hopeful for open web marketplaces. i.e. Anything that isn’t a highly graphical set of search results with big plush install buttons seems doomed to be declared “too hard” by a large subset of users.