Faz um ano que me encontro vivamente morto

Pierre Roy, “Danger dans l’escalier”, 1927/28

Não sou dado a lágrimas nem a públicas indiscrições, mas vejo-me obrigado a confessar.
A minha situação aqui é precária, fiz-me convidado, pus o pé na porta e forcei a entrada. Entrei de peito feito, qual júnior em dia de convocatória à equipa principal, com a pose toda estudada, o penteado para surpreender, pronto para as cerimónias e salamaleques preliminares, mas indisposto a concessões e críticas. Toiro em loja de porcelana, agora é que eles iam ver como dói, com um par de fintas intelectuais arrumava-os, um punhado de argumentos bem colocados e não demoraria que venerassem, no mínimo, o meu estro e a minha arte – “eles” não eram estes, mas o mundo em geral.
Ora, sem reconhecerem em mim um intruso, os legítimos convivas receberam-me primeiro com cortesia e depois, entendendo como conivente o silêncio dos anfitriões, com manifesta amabilidade. Vi-me assim forçado a comportar-me sem indecências, quanto mais não fosse para não envergonhar a educação que me deu minha mãe.
Foi o primeiro revés.
Movido por uma torpe bisbilhotice vasculhei o Linked In, o Facebook e outras fontes autorizadas, a saber quem eram aqueles tipos. O resultado da pesquisa deixou-me petrificado: era gente de alto coturno, elevado gabarito e sólido cartel. Pior: não tinham nada a perder; muito pior: nada a ganhar. Estavam ali só mesmo pelo gozo que lhes dava irem a jogo. Como poderia eu, de vaidade insuflada, proceder ao número do truculento de serviço, do enfant terrible siderante, do furibundo da espada de fogo, perante uma plateia vazia?
Entretanto, sabia que o tempo iria trabalhar contra mim, pois sem estofo para Ripley, a fraude seria desmascarada mais tarde ou mais cedo. Presumi, então, a cara de poker de quem ganha micro-fortunas em casinos, dando ares de levar a vida sem as cautelas a que me vejo obrigado. Erro crasso, pois embora seja uma curiosidade para adornar jardins, o pavão é ave assaz inofensiva; não é temível, não é risível, sequer irritante – apenas dá gosta vê-la de cauda aberta e dizer: “lindo bicho, não haja dúvida”.
Ainda não percebi bem o que se passou a seguir, mas quando dei por mim estava em alto mar, flutuando sobre uma fossa vulcânica, daquelas que são um poço a pique de 8000m até ao mais denso, negro e mudo leito da Terra. A verdade, vou então dizer-vos, é esta: pretendi ser lobo do mar e não passo de marinheiro de água doce. Valeu-me a companha da nau, a qual, sem condescendência nem sobranceria, sem a delicadeza dos sonsos nem a petulância dos carentes, apenas com a lhaneza dos livres e a simplicidade dos sensatos, me tem amparado e permitido fazer parte da tripulação.
Daqui resultaram grandes felicidades, inimagináveis em tempos tão negros. Escrever neste blog tem sido o equivalente a uma tarde de Sábado bem passada, com a vantagem de coincidir com qualquer dia.

Obrigado.

Rineke Dijkstra, “Park portraits”, 2005

Comentários a “Faz um ano que me encontro vivamente morto” (9)

  1. Vasco Grilo diz:

    Zé, Como já aqui o disse referindo-me ao Capitão Haddock, contigo ao leme e com uma garrafa de rum, iria de nau até ao fim do mundo.
    Forte abraço e obrigado a ti.

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Eu diria mesmo mais: até ao fim do mundo!
    Grande declaração.

  3. Turmalina diz:

    José Navarro, só o meu silêncio, que é raro, pode manifestar o profundo respeito e admiração por essa sua belíssima declaração.….….….….….….….….….….….….….….….….….….….….….….….…..
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  4. Joana Vasconcelos diz:

    God Almighty! JOSE HAS GONE SOFT!!! Can hardly wait for his next post!!!

    É claro que também vou na dita nau. Alguém tem de manter a ordem a bordo e controlar os dois intrépidos marujos já embarcados — o desassossegado e inventivo António Benedito e o terrível Vasco Luís, sobretudo este último, que descaradamente se declarou disposto a exercer péssima influência no nosso afável e inofensivo Zé (dando-lhe rum e incitando-o a proferir todo o tipo de impropérios em francês).

  5. Luciana diz:

    Eu, no barco ao lado, envio sinais de luz elogiosos e, vez por outra, mando buscar garrafas de rum que bebo sempre com coca-cola e limão. Nem sabes quanto gosto tenho em lê-lo (aliás, sabes, que sempre digo, mas não custa repetir). Fico torcendo que sua semana tenha sempre, pelo menos, umas quatro ou cinco tardes de sábado…

  6. Pedro Norton diz:

    Grande Zé. Se houver lugar para mais um, conta comigo para lavar o convés. Obrigado por navegares connosco!

  7. Diogo Leote diz:

    Zé, já o és de facto, mas ficas oficialmente nomeado o nosso enfant terrible de serviço. Eu posso dar uma mãozinha no abastecimento da loja com porcelana à altura. Grande abraço.

  8. José Navarro de Andrade diz:

    Não se preocupem, estou bem. Estive só ali a cortar cebola…

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