Erotismo — Parte 1

Uma das meninas que se prestou a ajudar Jorgen Leth

na sua busca da essência do erotismo

 

Fui atraído pela proposta, a de um ensaio cinematográfico sobre o erotismo. Em forma de documentário, em que um homem – o próprio realizador – dá a volta ao planeta à procura da verdadeira natureza do erótico. O facto de o realizador — Jorgen Leth, apresentado como grande mestre do cinema documental dinamarquês dos últimos quarenta anos, e a quem o doclisboa dedicou uma retrospectiva na edição deste ano – ser também poeta com obra publicada mais estimulou a minha curiosidade. Convém dar um passo atrás para explicar que vai para vinte anos que embirro com teorizações e ensaios sobre erotismos e afins. Mais precisamente, desde que tomei consciência de que o Sr. Francesco Alberoni se transformara num mercenário quase da laia de um Paulo Coelho (vade retro), insistindo em escrever o mesmo livro vezes sem conta com embrulhos ligeiramente diferentes, de títulos tão sugestivos como Erotismo, Enamoramento e Amor, Amizade, etc. (eu disse quase, porque, justiça lhe seja feita, o Sr. Alberoni escreve muito melhor do que o impostor Coelho, o que nem é especialmente difícil). Mas enfim, culpa minha, quem me mandou ler o Erotismo do Alberoni em vez do outro do Bataille, que marcou tanto o nosso MSF mais ou menos pela mesma idade? Quanto muito, isso era coisa que, a assumir forma de palavra, devia ser deixada só aos poetas. Ou então a prosadores, como Vargas Llosa ou Philip Roth, capazes de por os seus personagens a pensar sobre os mecanismos do desejo.

Estava eu neste estado de repulsa por tudo o que fosse ensaio sobre o erótico, quando me apareceu o tal Sr. Jorgen Leth e o seu Erotic Man. É certo que a ideia do filme, a de captar a essência do erotismo do corpo feminino, me parecia dificilmente realizável – e podia, até, ser confundida com pura manobra de marketing. Mas, sendo Leth poeta para além de realizador/documentarista, e remetendo-nos a proposta para o território das imagens, lá lhe concedi o benefício da dúvida, esperando ultrapassar de vez a minha difícil relação com a racionalização de um fenómeno que pertence ao mundo das sensações, da pele, dos cheiros, dos desejos, e me continuava a parecer pouco compatível com cogitações do cérebro.

Cedo percebi, no entanto, que o método usado por Leth não podia conduzir senão a mais um logro. Ao longo de uma boa hora e meia, não faltaram corpos femininos, bem nuzinhos como se impunha. Mas deu logo para perceber que, salvo algumas honrosas excepções, as meninas não estavam à altura dos altos desígnios do mestre. Recrutadas através de um pouco exigente processo de casting (que no filme nos era dado a conhecer), ficou evidente que não havia nelas a mais leve sombra de preocupações artísticas, e que aquilo de ficaram prostradas, deitadas nuas numa cama, à frente do mestre, a “pensar” (como este lhes pedia) numa maravilhosa noite de sexo que tinham vivido ou iriam viver, não podia levar à descoberta de essência nenhuma a não ser a do dinheiro que as movia. E, não fosse a provecta idade do mestre – que deveria ter uns cinquenta anos de idade a mais do que qualquer uma delas –, ficaria mesmo a dúvida se ele próprio não estaria à procura, antes da essência de coisa alguma, das sensações fortes que os corpinhos das meninas lhe inspirassem, ou pelo menos da recordação das que experimentara no passado com corpos tão frescos e jovens como aqueles.

Moral da história: de uma vez por todas, não quero que me expliquem onde está a essência do erotismo. E se quiserem fazer de mim um voyeur, deixem-me escolher o alvo do meu olhar à vontade. Sem palavras a acompanhar. A não ser, claro, se vierem da contemplada. E, quanto a tentar saber o que pensa uma mulher antes, durante ou depois do tempo que passa com o seu amante, digam lá os cavalheiros se não preferem que esse mistério se mantenha insondável. Aliás, sem querer dar o dito por não dito, não estará aí mesmo, nesse mistério, a própria essência do erotismo feminino?

Comentários a “Erotismo — Parte 1” (19)

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Gostei muito, pois claro.
    Em crua forma, um porno pode ser mais honesto.

    • Diogo Leote diz:

      Obrigado pela simpatia, António. Quanto a pornos, como sabe, por mais honestos que sejam, temos aqui um firewall que não nos permite grandes aventuras…

      • António Eça de Queiroz diz:

        Cruzes, não estava a promover! Se eu fizesse uma coisa dessas até o MSF se alistava nas forças armadas da Sardenha para uma acção punitiva.
        Agora há uns soft-muito-soft do Tinto Brass, cheio de italianas capitosas e reboludas, que são do melhor no género. E desses eu sei que MSF até lhes gaba os guinoistas…

  2. Joana Vasconcelos diz:

    Letal e certeiro, como tem mesmo de ser nestes casos — Alberoni e Coelho, amen, e pelos vistos também Leth, o dinamarquês.
    Gostei muito, Diogo. E fiquei realmente curiosa quanto à Parte 2.

  3. Turmalina diz:

    Considero o erotismo importante em qualquer relação e penso que ele deva ter uma aura de mistério, daquilo que não se revela totalmente. Tive um colega diretor nos moldes de Leth, que logo foi afastado do grupo pois sua personalidade acabou se revelando.Ele era um bom cineasta, com uma técnica apurada e muito potencial, mas que acabava sempre se deixando trair pelos impulsos, por uma fixação incontrolável e nada seletiva pelo sexo oposto. O que acabava prejudicando suas produções, exatamente por causa do duvidoso processo de casting.

    • Diogo Leote diz:

      Cara Turmalina, eu não sei se esse é o caso de Leth. Até prova em contrário, e sendo ele um autor de grande prestígio em certos meios, prefiro acreditar que não. Mas fica a dúvida se não estamos perante uma crise de senilidade.

  4. edinaldo diz:

    erotismo e tudo de bom

  5. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Fartei-me de gostar. E assentir.

    • Diogo Leote diz:

      Isso é uma enorme honra vindo de quem vem. Para que saiba que estou sempre do lado do universo feminino. Com uma condição: desde que ele se mantenha misterioso.

  6. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Diogo, gostei muito. Mas ainda assim, talvez haja algo de essencial na fotografia da menina á em cima… :)

    • Diogo Leote diz:

      Ainda bem que gostaste, Gonçalo. Se olhares bem para os olhos da menina, verás neles o reflexo de umas notas com que o Leth lhe acenava…

  7. Teresa Font diz:

    Também gostei muito, Diogo.
    Por mais que viesse à ideia a imortal frase do Ricardo Araújo Pereira:
    “Essência do erotismo, oh Leth? O que tu queres sei eu.”

  8. Manuel S. Fonseca diz:

    Diogo fui espreitar aqui e também acho que o trabalho do Leth é insípido. Deve, todavia, reconhecer-se que as meninas são lindas e pelo menos um dos planos do venusiano arbusto da Ana Flávia, moradora julgo em São Paulo, faz de seda qualquer olhar.

    • Diogo Leote diz:

      Manuel, já depois de ter visto o filme também fui espreitar melhor o venusiano arbusto em causa, aí mesmo onde o viu. Mas o receio de represálias impediu-me de lhe dar dignidade de post. Aqui que ninguém nos ouve, é mesmo uma delícia. Mas fico irritado só de sentir o Leth, em cada plano, perto da Ana Flávia e das outras meninas.

      • António Eça de Queiroz diz:

        Áh! Isso é ciumeira, Diogo… Coitado do velhote, não quer ir embora sem dar uma última vista de olhos, para não esquecer — não se dê o caso de alguma imprevisível reencarnação…

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