
Apresento-vos um post escrito a quatro mãos. Começou numa pergunta que a Marta Costa Reis, muito legitimamente, colocou a este meu post sobre o mito adâmico em que eu sustentava que a solidão de Adão foi a mais angustiante que algum ser humano algum dia já conheceu, contrastando-a com a de Eva que, quando “foi criada”, já encontrou outro ser vivente e humano. O diálogo prosseguiu e acaba na resposta que a Marta dá no último texto e que eu já só vou ler depois de estar aqui publicado.
Agradeço à Marta o desafio (que provocou e depois aceitou passar para esta forma) bem como a inteligência da argumentação (que é de resto seu timbre nos comentários neste blog).
Marta Costa Reis
Como pode Adão saber-se só antes de conhecer a alteridade?
Manuel S. Fonseca
Marta, se o Ocidente se tivesse rendido ao mito do Adão hermafrodita, a simultaneidade da solidão e da alteridade teria mudado os dados do problema. Mas não foi essa a tradição que se impôs.
Só que a tradição que se impôs, também obliterou o mito literário que é o Génesis num ponto. Experimenta ir ler no Génesis 1, 27 este excerto: “Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou”. Se homem e mulher Ele os criou à sua imagem, então esta passagem postula a bissexualidade de Deus. Consciente dessa bissexualidade, Adão percebe a sua incompletude e vai sentir a falta – a solidão primordial. Tão impressionante que (Génesis, 2, 22) Deus a reconhece: “Não é bom que o homem esteja só”.
Outra hipótese, ainda que eu ache muito mais fracturante, digamos, a bissexualidade de Deus: Deus modela Adão com a argila do solo. Fá-lo “carne nova” como Milton o canta no “Paraíso Perdido”. Mas insufla-lhe o seu hálito nas narinas. Ou seja, a alma do homem contem o sopro de Deus no qual vem inscrito o conhecimento – ou seja, toda a informação necessária para se ser humano, o que inclui a consciência de si e a necessidade do outro. É politicamente correcta e enquadrável cientificamente a ideia de que Adão não seria tabula rasa.
Marta Costa Reis
A história da criação acaba em Gn 1,27. Depois disso começa a humanidade. Mito de origem como tantos outros do Médio Oriente em tudo semelhantes, o Génesis foi escrito pelo homem e não o Homem pelo Génesis. A infinda beleza que nele encontramos é a nossa e de Deus queremos esperar que veja o que é “bom” em nós.
O Génesis explica-nos: o penoso labor do homem, as dores da parto da mulher, a ausência e a saudade que têm tanto de nossas como de hebraicas. O Génesis é a matriz, lá encontramos o que somos e muito mais: um pecado original que não existe até Santo Agostinho e que continua assim a não existir no Oriente cristão — como pode Eva pecar se não conhece o bem e o mal? Uma costela que era a “tsela”, a metade do homem, e que de língua em língua e século em século se transformou em osso e pelo caminho fez da Vivente-Ewa — a ajuda de Adam, o seu “ezer” (complemento, aliado, igual) — uma fêmea dominada pelo homem, culpa e castigo. E voltamos a Gn1,27: um Deus que se reclame criador tem de ter todos os sexos ou nenhum. O “antropon” primevo, que talvez seja ou não seja o hermafrodita platónico, mas do qual temos a marca em nós.
Muito se consegue explicar …mas a solidão permanece. Ela é primordial, sim, e adâmica, mas não masculina. Esse outro que vislumbramos e nos faz conhecer a solidão é a distância de um Outro maior, Aquele do qual somos imagem e está em nós, essa infinita Alteridade abissal que sempre nos escapa…e que os místicos e os amantes conhecem porque reencontram na União, nesse êxtase no qual Eva gerou Adão.
Manuel S. Fonseca
1. O Génesis foi escrito pelo homem, mas também o homem pelo Génesis, como por Édipo, como por Antígona. Quando o Génesis ecoa no “Il Mondo Creato” de Torquato Tasso, no “Paradise Lost” de Milton, no “Adão e Eva” de Rainer Maria Rilke, no “Children of Adam” de Whitman e podia ainda citar Byron, Victor Hugo, Paul Claudel, Paul Valéry, percebemos, na proporção em que o homem seja mais do que simples genética, como os mitos escrevem o homem e formam a sua idiossincrasia.
2. No Génesis, ao contrário do desiderato platónico, o homem não é hermafrodita. E está, num momento inicial, só.
3. A Marta propõe que o objecto do sentimento de solidão seja um Outro maior. Estou totalmente de acordo, é essa a raiz da nossa solidão. Na sua solidão inicial, Adão estava na Presença do Outro maior. E ainda assim estava só, numa funda solidão de procura de um mesmo que fosse outro, como a Presença reconheceu. Hoje, num mundo hiperpovoado de alteridade é a Presença do Outro Maior que nos falta.
4. A Marta diz e bem que não há pecado no mito edénico. O pecado chega tarde, do Norte de África, escrito por Santo Agostinho. Mas há no episódio de expulsão do Paraíso um elemento também obliterado pela interpretação judaico-cristã, a saber. Falo da violência arbitrária de Deus. A violência é um elemento essencial de todos os mitos fundadores. No mito constitutivo do Ocidente essa violência é a da mão de Deus que se estende, imperativa, e expulsa Adão e Eva do paraíso fundando a humanidade errante e errática que somos.
5. Discordo, e é um desacordo literal, é que Eva tenha gerado Adão. Marta, não está lá escrito e a interpretação desfigura o mito. Deus modela Eva de um osso de Adão. Em Génesis 2,23 lemos: “Esta sim é osso de meus ossos, e carne da minha carne.”. O que as interpretações hebraica e cristã calaram, e o que as modernas interpretações dos mitos, para as quais as relações de parentesco são essenciais, é que Adão deu à luz Eva (carne da sua carne) e a humanidade se funda num incesto primordial.
Marta Costa Reis
A beleza dos mitos está nas quase infinitas camadas de sentido que deles podemos extair. Para o sentimento de um ocidental poucos serão tão apelativos como os do Genesis. São mitos que ainda hoje nos questionam e interpelam no mais profundo de nós e – embora sabendo já tanto sobre a condições históricas, geográficas e culturais em que foram escritos –continuamos a procurar neles a nossa razão de ser. Como compreender o Genesis ? Como posso eu – e é de mim mesma que falo – aceitar esse destino de Eva que a história, talvez mais do que o mito, me traçou? Rejeito em bloco a história da “maçã”? Ou consigo lá encontrar o que eu sei: que não sou parte menor da humanidade, que sou filha de Deus e não de Adão?
Em todos os mitos tem de haver incesto, mas normalmente é entre irmãos, porque “macho e fêmea os criou, abençoou-os e deu-lhes o nome de Adam no dia da sua criação” (Gn 5,2) – adam (אָדָ֔ם ) “o da terra” é o nome do ser assim criado. Depois da separação, de macho e fêmea transformam-se em homem e mulher: a mesma carne, os mesmo ossos, para que voltem a ser uma só pessoa (Gn2,24). Com a separação se cria o momento antropológico: quando o “antropon” sem sexo, se transforma em “aner”(homem) e “gyne” (mulher). Por isso Eva dá à luz Adão, é quando a mulher nasce que nasce o homem. Sem ela, quando se abririam os olhos dele?
Também no “Gilgamesh” é quando o selvagem Enkidu conhece (sim, nesse sentido!) a mulher que se torna um homem e come o pão e bebe o vinho: os primeiros frutos da civilização humana, que não existem como tal na natureza.
Os mitos de origem servem para explicar quem somos hoje e não necessariamente o principio. Que diz de nós, hoje, o Genesis? Como podemos falar dele aos nossos filhos, sem ficarmos presos na armadilha da história literal, quando a origem já não admite mitos, sacrificados no altar da ciência? Os nossos mitos são ficção científica porque é com a ciência e já não com a religião que explicamos o universo.
Podemos ainda acrescentar sentido ao Genesis ou restam-nos como mitos de origem os do futuro ou da distância universal que nos liga a outros possíveis mundos: “a long time ago in a galaxy far, far away”?
“De onde proveio esta criação, se foi Ele quem a ordenou ou não, só Aquele que no mais alto céu tudo governa o saberá. Só Ele o sabe; ou talvez nem ele o saiba…” (Rigveda, Livro X, hino 129)

















Muito bonito, um e outra, uma e outro. Belas intuições e reflexões. Concordam, se bem percebi, em que o objecto do sentimento de solidão é um Outro maior. E parece que também se inclinam para que o encontro com esse Outro maior não se faça fora de nós, mas em nós mesmos. Que o outro é em nós e nós somos no outro e que tal desencontro não se resolve objectivamente, problematicamente, cientificamente, mas apenas se compreende, ou integra, poética ou misteriosa ou religiosamente.
É o grande problema da filosofia dos gregos: o uno e o múltiplo. Platão resolveu-o cedendo a Heraclito um pouco de Parménides — e lá integrou o outro nos géneros do ser. Aristóteles, cá em baixo, continuou a tarefa e instituiu a lógica, fundada no princípio da identidade e da não contradição, mas de tal maneira que se pudesse também pensar o outro e o movimento e a mudança.
Mas hei-de voltar ao mito bíblico da criação. História magnífica entre as histórias magníficas. Agora inspirado por vós. Obrigado.
PS: Já repararam que nos quadros que representam a saída do paraíso quase nunca se encontra a serpente? Isto é, ela só aparece no momento da transgressão interior, sendo banida no momento em que essa mesma transgressão se objectiva! Ora aqui está talvez uma pista para pensarmos um desvio interpretativo sobre esta história de todos e de cada um de nós. E a pergunta que fica é esta: será que o castigo imposto por Deus aos homens (castigo, por falar nissso, vem de castus + agere, isto é, agir castamente: é esse o sentido da imposição de Deus: re-voltar à pureza original) pode realizar-se excluindo uma parte de nós!?
Só não tinha lido a parte final da Marta Costa Reis — que subscrevo talvez totalmente (o talvez deve-se apenas à minha vasta ignorância sobre os Livros, que pasma frente aos conhecimentos aqui trazidos).
Acho que foi Unamuno quem disse que «Deus é aquele que se calou desde o Princípio», o que faz um certo coro com as considerações do Rigveda.
Gostei muito.
Obrigado aos dois.
Joana Vasconcelos gosta deste diálogo entre Marta Costa Reis e Manuel S. Fonseca
Joana Vasconcelos gosta da ideia Manuel S. Fonseca de transformar o mesmo num post a quatro mãos
Joana Vasconcelos concorda com Manuel S. Fonseca quanto aos comentários de Marta Costa Reis
Joana Vasconcelos gosta de Genesis (Livro e Grupo rock)
Joana Vasconcelos gosta de Gilgamesh
Joana Vasconcelos gosta de frescos de Masaccio na Capella Brancacci, Florença
Muito obrigada pelos gentis comentários e sobretudo ao Manuel por ter aceite a minha “provocação”, provocando-me em retorno com este dueto. É uma honra frequentar tão excelentes defuntos.
Marta, foi um gozo, entre o diletante e o sério (agora que voltei a ler tudo, mais sério do que diletante), ter participado neste diálogo. Obrigado por teres aceite. Apetecia-me, como te disse, responder já à tua última tese, mas acho que vamos ter mais temas nos próximos tempos.
E aproveito para dizer que a ideia de “conversas destas” esteve na génese deste blog. Já houve várias, esta foi original no método, e outras, espero, hão-de vir.
Já li e já re-reli. Esta conversa é uma das razões para este lindo blog ser um gosto.