A breve vida e obra de David Foster Wallace — que pena!
Queridos Mortos


No dia 13 de Setembro de 2008, recordo ser um plácido Sábado, fui passear à Amazon. Há muito tempo que não ia lá clicar em busca de novidades dos meus autores favoritos. Um deles era David Foster Wallace (DFW), cuja última saída fora “Consider the Lobster”, datado já de 2005.
Caíu-me o coração aos pés: DFW suicidara-se na véspera.

Em 1996, com uns simples 34 anos, DFW debitou “Infinite Jest”, um cartapácio de 1104 páginas, das quais mais de 100 eram notas de rodapé. O desvairo editorial foi compensado com instantânea consagração, num fôlego o rapaz entrava no galarim dos grandes escritores americanos, ao nível de Bellow, McCarthy, De Lillo, Roth et. al.
E, abono da verdade, sou obrigado a confessar que nunca ousei aproximar-me de “Infinite Jest”, intimidado pela grossura e pela massa do tijolo, sequer me deu vontade. Também foram titubeantes as incursões pelos seus volumes de ficção: “Broom of the System” (1987), “Girl With Curious Hair” (1989), “Brief Interviews With Hideous Men” (1999), “Oblivion: Stories” (2004) – tenho-os todos, mas não os frequento assim tanto.
Então do que estou a falar?
Do DFW que me deslumbra, o ensaísta, cujas peças foram recolhidas em dois livros de médio curso: “A Supposedly Fun Thing I Will Never Do Again” (1997) e “Consider the Lobster”.
Vergados pela tradição francesa, em Portugal o ensaio nunca ganhou raízes como género literário. Talvez por ter uma extensão imprópria para os periódicos onde cabe ser publicado, talvez por exigir uma permanência maior do que a espuma dos dias, talvez por obrigar ao exercício da reflexão, em detrimento do lusitano impulso judicativo, o ensaio soçobrou ao peso da Crítica. Pelo contrário, fora da órbita francófona, sobretudo na tradição anglo-saxónica, o ensaísmo é o belo compromisso entre as penetrações filosóficas ou científicas e a escrita cuidadosa, com arte, da literatura – pensar bem, em boa prosa, eis o melhor dos mundos, o ensaio.

No meu santuário privado e pagão, DFW alinha-se ao lado de Gore Vidal e de Tom Wolfe.
Também de Vidal, confesso de novo, não me lembro ter lido uma página de ficção. Mas antes de ser o atual velho vitriólico a ressumar ódio contra o mundo, antes do desastre que o 9/11 lhe provocou na obra, embora já então com poses de um patrício snobíssimo, gay e de esquerda, Gora Vidal entregou-nos o monumental “United States” (1992), onde reuniu os seus melhores ensaios. Todos eles são de uma argúcia e de um discernimento formidáveis e assim juntos, projetam uma sombra sobre o sonho americano, que ninguém havia ousado.
Tom Wolfe, romancista interessante, é sobretudo o prócere do New Journalism que hoje se banalizou até ao bocejo subjetivo, quando não capaz de provocar urticária ao vermos principiantes escreverem na primeira pessoa como forma de iludirem as penas da investigação. O ensaio “The Last American Hero” de 1962, um perfil de Junior Johnson, corredor de automóveis da NASCAR, é um ângulo da história do jornalismo e da literatura americana.

É ao pé deste monstros que ponho DFW e regresso muitas vezes a alguns dos seus textos:
“A Supposedly Fun Thing I Will Never Do Again”: a descrição de um cruzeiro, que me tirou a vontade de alguma vez embarcar nessas viagens.
“Big Red Son”: uma noite (bem?, mal?) passada na cerimónia de entrega dos “Óscares” do cinema pornográfico. 
“The View From Mrs. Thomson’s”: o relato do 11 de Setembro, visto ao lado de uma ingénua e pacata senhora do mid west (donde DFW é natural), num compromisso com o que pensam e sentem as pessoas comuns.
“Up, Simba!”: escrito on the road na caravana eleitoral de John McCain, quando em 2000 defrontou George Bush nas primárias republicanas.
“Host” faz o perfil de um radialista de onda média, da direita mais radical.
Prefiro-os acima doutros, só um pouco menos preclaros.
DFW escreve envolto em auto ironia, sem complacência consigo mas sinceramente curioso acerca daquilo que se passa à volta, recolhendo as minúcias que desorganizam as coisas, isto num estilo de falso bloco de notas, numa escrita precipitada, sem aparente ordenação. O resultado é um sentimento de entropia, no qual o próprio DFW participa, observando a acompanhando as pessoas, sem nunca perder uma genuína generosidade.
Sabem que mais? Leiam-no.

Comentários a “A breve vida e obra de David Foster Wallace — que pena!” (10)

  1. Ruy Vasconcelos diz:

    foster wallace é, de fato, um escritor que deixa saudade.

    para os que já se habituaram a ler na tela há este ensaio ‘online’ sobre televisão, voyeurismo e literatura nos estados unidos que é um primor:

    http://jsomers.net/DFW_TV.pdf

    • Turmalina diz:

      Obrigada, Ruy! Não sei se é implicância minha, mas o mercado editorial brasileiro, ao meu ver, anda péssimo.Sempre foi assim ou só agora que eu estou percebendo? Quando não faltam autores, faltam títulos.Aonde estão os distribuidores de literatura de qualidade?

      • Ruy Vasconcelos diz:

        não é impressão sua, não. falta critério. boas escolhas. tudo anda baseado num bestsellerismo de dar náusea. e, mais, a qualidade das traduções deixa muito a desejar. no penúltimo ‘queridos mortos’, p. ex., falávamos de jean vigo. a cossacnaif, que produz livros belíssimos graficamente, adotou a tradução de uma francesa para o português brasileiro que é uma lástima. é que a biografia de vigo foi originalmente escrita em francês pelo crítico brasileiro paulo emílio sales gomes. ainda bem que eu a havia lido antes numa tradução para o inglês. isto é só um exemplo. as traduções que temos do poeta alemão paul celan são de lascar. já houve, em certa época, de fato, uma quase escola de grandes tradutores no brasil. especialmente em são paulo e no rio, mas não só. com uma marcante presença de imigrantes judeus, como paulo rónai (que também foi um teórico da tradução), boris schnaiderman (a quem tive o prazer de conhecer pessoalmente), jacó guinsburg, otto maria carpeaux (este de uma formidável erudição, e belos livros dele próprio), vilém flusser (que é hoje crescentemente estudado como teórico da comunicação na alemanha e nos eua, numa linha que desdobra para bem mais além o pensamento de walter benjamin e da tal reprodutibilidade técnica)… mas também, p. ex., o potiguar câmara cascudo, q., entre outras, tem uma tradução modelar de um livro delicioso chamado ‘viagens ao nordeste do brasil’, escrito por um inglês chamado henry koster originalmente aí por 1811. o livro é uma delícia. mas, bem vou ficar por aqui, antes que esta conversa vire tratado…

        • Turmalina diz:

          Pois eu adorei a conversa! Por mim pode virar um tratado…
          Conheço muito pouco dos meandros editoriais brasileiros, embora lá atrás, nos primeiros anos de faculdade, eu tenha sonhado em ter uma editora, justamente para ter acesso e divulgar os não bestsellers. Eu pensava que devia haver muito mais coisa para se ler do que aquilo que nos empurravam. Eu sempre que podia participava de Congressos de Comunicação, como o Intercom.É um tema que me atraía muito. Coisa de adolescente idealista que acabou sendo engolida pelo sistema e tomando outros rumos…

        • José Navarro de Andrade diz:

          tenho uma amiga que está a fazer doutoramento em filosofia sobre Flusser. É uma descoberta a fazer.

  2. Pedro Norton diz:

    Zé: não basta o PMS para me fazer contribuir para a Amazon? Fiquei francamente tentado.

  3. Joana Vasconcelos diz:

    Vou ler vou. E acho que vou começar pelo do cruzeiro. Uma daquelas coisas por que tenho um misto de horror e de fascínio: jamais me meteria num, eestando no meu perfeito juízo, claro, mas conheço várias pessoas que são fãs e — confesso — adoro ouvir as descrições e os relatos, que me deixam completamente arrepiada, das maravilhosas férias que se passam a bordo!

    Gostei muito de tudo, Zé. E também da referência ao Tom Wolfe, que conhecia apenas como escritor e que, depois do Bonfire of the Vanities, de que gostei muitíssimo (talvez por andar na altura a estudar Processo Penal) me desiludiu muito com o A Man in Full e o I am Charlotte Simmons … Pelos vistos o ramo dele é outro. Ainda bem, mas vou ter de tirar isso a limpo.

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