Arquivo | Outubro de 2010


Outro Morto em Visita

Amanhã mudamos de morto em visita. Até hoje, a Ana Cássia Rebelo, autora do Ana de Amsterdam, acompanhou-nos. Escreveu aqui e aqui. Muito bem, como esperávamos. Agradecemos-lhe a visita. E que tenha sido gentil connosco, fazendo deste cemitério um cemitério legível.

Amanhã anunciaremos o novo “Um Morto em Visita”. Quando dissermos quem é, nem vão acreditar. Porque é que um “Master of Science” haveria agora de vir à bloga? Mas vem porque a inteligência, quando o é, é sempre despretensiosa. Amanhã por esta hora faz-se o anúncio. No dia 2 e 3 publicam-se os posts. Vai ser um acontecimento.

Para já e só para o recebermos pedimos a ajuda de Glenn Gould. Música, por favor.

Uma boa moldura

Fora a última fotografia que Eva lhes tirara. Junto ao lago, os quatro em traje de banho com o olhar imerso na revista que a fizera saltar, de vez, para a ribalta dos holofotes e passerelles do mundo da moda e, daí, para o estrelato de Hollywood. Mal sabiam eles, naquele momento, o triste destino que iria ter aquele orgulho que cada um deles sentia em ver a sua querida Eva assim exposta aos olhos do mundo. Triste destino para eles, porque para o dela, Eva, eles não passaram de uma nota de rodapé na vertiginosa escalada para a fama que se iniciou com a reportagem da revista. Pobres coitados, estavam longe de imaginar que ela apenas se serviu deles, que se limitou a retirar de cada um o necessário para nunca mais ter de por os pés no Midwest. Um pelo dinheiro, outro porque era filho do Principal, outro ainda porque tinha primos influentes nas majors, e o último porque – tinha de admiti-lo – lhe dava um prazer sexual nunca antes experimentado. Cada um se julgava único no amor que lhe merecia, e cada um guardava para si, a pedido dela, o segredo da exclusividade das brincadeiras lascivas a que ela se entregava. Nenhum deles suspeitava não ser o único da vida dela. Cada um acreditara sem pestanejar naquela história mal amanhada do hímen que se rompera acidentalmente durante um exercício na aula de educação física.

Depois daquela tarde da fotografia, não só nunca mais os vira como nunca mais quisera saber deles. Afinal de contas, já tinha o que queria deles. A conta bancária que um deles lhe abrira para tratar a doença do irmão imaginário, a High School concluída sem nenhum esforço, as portas abertas em Hollywood. E quanto ao prazer sexual, estava certa que, dali em diante, não lhe iriam faltar amantes de qualidade em NY e em LA. Embora fosse grande o desprezo pelos seus provincianos amigos de ocasião da vilória onde cresceu, chegara-lhe vagamente aos ouvidos, anos mais tarde, que nenhum deles se recompusera da sua súbita partida. Claro que, como ela previa, nenhum deles saíra do Midwest. Parece que um se suicidara, outro, pobre infeliz, mergulhara na voragem das drogas, e os outros dois acabaram funcionários de uma daquelas insuportáveis seitas evangélicas a vender bíblias de porta em porta.

Apesar de já não se lembrar sequer do nome deles, a fotografia lá estava, ainda, na estante da sala em LA. Na verdade, dava-lhe muito jeito naquele mundinho de ficção onde ela agora vivia. Os rapazes davam uma boa moldura. Ficava sempre bem dizer que eram os seus muito cool amigos gays. Se a Naomi Campbell e a Kate Moss os tinham, ela não lhes podia ficar atrás. E, nas festas lá de casa, era difícil não reparar neles, desde que ela se lembrou de os transformar em tabuleiro de linhas de coca.

Menos o Ribamar que ele nunca deixou de ser

O poeta Ferreira Gullar, Prêmio Camões, em 2010



Biliático Ribamar


Não se pode fugir a alguma náusea depois de se ler certa entrevista de José Ribamar Ferreira — aliás, Ferreira Gullar — ao diário português O Público.

Gullar é isto mesmo. O retrato de parte de nossos intelectuais. A forma como defende José Serra e ataca Dilma Rousseff é, entre outras coisas, deliberadamente falaciosa. Se nos fosse dado criar um neologismo para o caso: “biliática”.

Eleições. Um assunto que desperta paixões. Em geral, mais em pessoas ou extremamente jovens – e portanto ingênuas – ou em velhos mal intencionados, como Gullar, que com certeza tiraria alguma vantagem pessoal no caso de uma improvável vitória de Serra.

Toda a entrevista é uma coleção de resmungos. Alguns chulos. De resmungos típicos daqueles esquerdistas de gabinete. Daqueles ex-comunistas que jamais dispensaram viver sob ar refrigerado. Os mesmos que até hoje se entrepoupam. Como, por exemplo, ao referir-se ao apoio dado pelos amigos Oscar Niemeyer e Chico Buarque a Dilma Rousseff, Gullar faz ressalvas a ambos. E pensar que esse escritor, que possui um magro, bom volume de poemas (seu segundo, A Luta Corporal [1954]), e nada muito além disso (seus livros sobre estética e artes plásticas são mais do que datados), recebeu o prestigioso Prêmio Camões este ano…

Há na entrevista de Gullar não só aquele tom de velho debochado, que acumulou prestígio e poder ao longo da vida. Mas, ainda mais expressamente, o tom do jovem inescrupuloso, que não media o esforço de o quanto sua militância política implicaria em algum bem-estar material sobre qualquer custo. Acima de qualquer escolha ideológica. Que talvez se sentisse humilhado até no nome — Ribamar - que ele sempre quis apagar de seu nome em prol do afrancesado, embora gralhado Gullar [Goulart, Goulard?]. Em sua entrevista vem tudo de volta, à tona, menos o próprio Ribamar que ele nunca deixou de ser. [1] Ou, quem sabe, ele também omita que começou na literatura tendo por parceiro, aliás, outro Ribamar: José Sarney. E que juntos até editaram uma revista, A Ilha. Pois sim. Nessas horas, a memória não aflora tanto quanto quando ele informa à exasperada repórter portuguesa que foi preso na ditadura.

Há mesmo um momento em que ele diz que “do povo vem tudo”: Lula e Ferandinho Beira-Mar. Até se pode concordar com ele. E pode-se dizer, em suplemento, que de um povo que tem uma elite intelectual onde se sobressai um certo Ferreira Gullar vem mesmo tudo, até os Josés Ribamares, Sarneys e Gullares da vida.

 

Para a íntegra da entrevista:


http://bit.ly/bbQhtP


[1] No Brasil, o nome Ribamar é automaticamente associado a gente pobre. Em especial, do estado do Maranhão, cujo padroeiro é São José de Ribamar. É de lá que provém Ferreira Gullar. Daí que tanto Ferreira Gullar quanto o ex-presidente José Sarney — cujas aspirações literárias são levadas à piada aqui no Brasil, apesar de, pelo prestígio político, ele haver ingressado na Academia Brasileira de Letras — levem no nome de “José Ribamar”. A família Sarney exerce grande influência política em dois estados brasileiros, governando-os como feudos. O próprio Maranhão, desde a década de 60 — Glauber Rocha inspirou-se na demagogia despótica de Sarney para filmar um documentário no Maranhão — e o Amapá, já na região da Amazônia, e pelo qual José Sarney elegeu-se senador. O Maranhão é um estado historicamente muito rico. Potencialmente muito rico — há reservas e mais reservas minerais (sobretudo minério de ferro); ao sul há extensas plantações de soja.  Mas apesar de tudo isso, o Maranhão é o segundo estado mais pobre do país — e, aqui ressalvo, não pelo PIB, mas pelo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).

 

* * *

Imerso até o pescoço

Alexandre da Cunha, Skateboarderistismatronics (fan),  2004



Pelo Tempo do Agora

 

 

Isso vem de um tempo em que seus amigos eram ruídos. Como o da sineta do distribuidor de gás, em sua motocicleta, cedo, numa manhã de sol. Ou o rumor distante da televisão sempre ligada, na sala. Os bem-te-vis. Os sebites. As turueís. As lavandeiras. A buzina de um carro passando lá, abaixo. A corrente da bicicleta do entregador de água mineral. O martelar em algum prédio a erguer-se nas redondezas, envolto em um daqueles imensos véus verdes. Espectrais. O circulador de ar tentando minorar os calores de quase todo mês, que não julho e agosto.

 

Vem de um tempo de muito café, cigarros. De provar com insipidez o gosto dos alimentos. Mesmo o sumo das frutas que mais apreciava: cajarana, maracujá, murici, açaí. De não sentir o calor. O suor. De uma sensibilidade extrema ao banho frio em madrugadas sem dormir. Os sonhos recorrentes. A custo lembrados.

 

Há dois anos se tinha separado. E havia dois filhos pequenos, que encontrava cada vez menos. Ele distanciara-se por completo da ex-mulher. Sentia certo alívio de não viver mais sob a tensão que os cercara nos últimos tempos, e morava sozinho em um pequeno apartamento na Aldeota de onde saía apenas para dar aulas na Faculdade de Arquitetura ou para longas errâncias a pé, pela cidade.

 

Desde o início daquele ano, por alguma razão, passou meses sem ir em direção ao mar. Ele sabia o que cabia nesse alguma. Um breve interlúdio. Uma lacuna preenchida por um nome. Um nome de mulher que lhe tocara forte, quando ele já havia concluído: na meia-idade tal sorte de entusiasmo já não mais punha frêmito no corpo. Ou então, adolescentemente convoca um nome assim. Tão forte que ele simplesmente evitava passar pelos mesmos espaços que passara com ela só uns poucos meses antes. E porém já para trás há séculos. Não se deve crer tão firmemente numa vida que pode dissipar-se fácil.

 

Queria esquecê-la. E, claro, o esquecimento não é uma determinação que se toma de forma consciente, porque somos muito mais escolhidos pelas lembranças que o contrário. E, então, mesmo sem circular pelos mesmos espaços em que ela andara com ele, ele sempre lembrava dela, ainda que remasse contra.

 

A primeira vez que viu seu rosto, num café, ao modo de sucessivos véus sendo retirados em frações de segundos para uma nitidez quase espectral: os olhos de uma azul lavado, não profundos como em mar alto. Porém plácidos espelhos d’água. Rasos lagos. De ver a areia ao leito. Ligeiramente amendoados, oblíquos. Piscinas. Precisos em contraponto aos cabelos presos, com um ou outro fio ligeiramente dissonando. Os ombros nus traspassados pelas alças do vestido. A imaculada pele branca. Tudo que a alma podia sentir sendo corpo. E atrás do vestido, da compleição frágil, da reticente serenidade de ouvinte, ela pulsava em vulcão prestes a lançar lavas para todas os pontos cardeais deste mundo.

 

Certa madrugada, acordou duas vezes de sonhos profundos, na noite quente, suando frio. E nos dois lá estava ela, inscrita: as feições muito nítidas, o corpo bem delineado e, algo, franzino à primeira vista. Porém nada franzino depois de tocado.

 

E, porém, o quanto o calendário é breve sendo longo para humanos. E ele, certa manhã, não resistindo ao apelo de um dia expeditamente claro, em um quente outubro, o céu, quase translúcido de haver sido lavado pelas pequenas chuvas, em setembro, se pôs na direção do mar: uma inevitável reta desde o pequeno prédio em que morava.

 

Aquilo agregava a aventura de uma cruzada. De uma travessia de deserto. De um veleiro a caminho de Java. Que coisa. Que quase nada. Era apenas uma caminhada de uns dez quarteirões na descida da colina à praia:

 

O passado, que se dane! – pensou.

 

Caminhando ao longo do píer, prosseguia lentamente. E eis que de repente, à sua destra viu. Viu uma garota que se equilibrava sobre uma espécie de prancha. Semelhante a uma prancha à vela, só que sem vela fincada. Ela cravava os pés ao centro, sobre um anteparo negro, antiderrapante. Oscilando sobre as ondas de após a rebentação com um remo à mão, auxiliada por uma outra garota, que agarrava-se à proa, e de quem só se via a cabeça e os braços para fora da água. Suas mãos delicadas sobre o metal do remo reluzindo ao sol. A tentar uma forma de prumo para o corpo oscilante, as ondas à medida de causar trôpegas inércias, os cabelos a flutuar ao vento como bandeiras despregadas.

 

Seu corpo era brônzeo, esguio, semi-atlético. E insistia naquela lenta navegação, um tanto desajeitada, porque a preamar empurrava-as para a praia. Com um semblante compenetrado, ela prosseguia, naquele esporte aparentemente inócuo. Contida, em parte, pela necessidade de se equilibrar. Assim que quase não saíam do ponto de onde se encontravam, uns trinta ou quarenta metros da praia. Ele, escorado á balaustrada, um pouco à sombra de uma luminária contemplava a coisa toda.

 

Contemplava a coisa toda até, súbito, reconhecê-la na garota que se equilibrava. Às vezes, abrindo um pequeno sorriso para a outra, na proa. Ou indicando com o dedo algo, à esquerda, na estrutura amarela da prancha. Então, sacou do bolso uma pequena câmera digital e, buscando discrição, fez uma dúzia e meia de fotos. Algumas em zoom.

 

Ao tornar para casa, sentou-se à bancada e, após transferir as fotos para o computador, analisou-as uma a uma na tela de cristal líquido. Não havia dúvidas: era impossível decretar se era ou não ela. E, de repente, até entendia que a moça mergulhada na água, a segurar a proa era a que era ela por contraposição à outra, se a cena era vista a partir de um cromo onde tudo surgia ligeiramente de um ângulo mais oblíquo. Em plano médio, nenhuma das duas era ela. Em plano mais fechado, ambas eram ela. Em close extremo apenas a que se equilibrava era ela. Numa das panorâmicas, somente a prancha era a prancha, porque ambas haviam mergulhado àquele instante.

 

Enxerga-se além da conta, quando se segue imerso até o pescoço numa situação assim. Mesmo sem querer.

 

Mas isso veio de um tempo em que seus amigos eram ruídos. Como o da sineta do distribuidor de gás, em sua motocicleta, cedo, numa manhã de sol. Ou o rumor distante da televisão sempre ligada, na sala. Os bem-te-vis. Os sebites. As turueís. As lavandeiras. A buzina de um carro passando lá, abaixo. A corrente da bicicleta do entregador de água mineral. O martelar em algum prédio a erguer-se nas redondezas, envolto em um daqueles imensos véus verdes. Espectrais. O circulador de ar tentando minorar os calores de quase todo mês, que não julho, agosto.

 

 

* * *


Ao Norte

                                                                                                                                              - à Lurdes J.

Os calvinistas sempre mostraram horror à sujidade e aos brocados. Foram por isso fiéis comerciantes mas fracos colonizadores, estranharam a nudez coloquial dos pretos e o seu convívio ameno com o pó, as feras carnívoras que desconhecem a severidade divina, as matas repletas de sombras quentes – regiões sem refúgio e, sobretudo, incompreensíveis, pois deus não erra. A terra vermelha africana e negra das américas também não ajudaram.
O branco não existe, a luz conspurca tudo, até a neve. Mas pode e deve ser tentado, pois nada é mais belo e humano do que uma parede sem atavios. Além disso uma parede é sinal de virtude porque separa a mulher do pecado. E foram elas que trouxeram o pecado ao mundo, os seus corpos são líquidos e fabricam impurezas, deitam cheiros azedos. As mulheres têm uma irremediável queda para o luxo e para o barulho. Só uma parede as pode deter de pecarem ainda mais.

Johannes vermeer, “Staande virginaalspeester”, 1670

Vilhelm Hammershoi, “Interior, Strandgade 30″, 1901

Hendrik Kerstens, “Bag”, 2007

Yo, El Sicario


Chegou a hora de vos fazer uma confissão. Ando a enganar-vos há mais de um ano, desde que por aqui apareci com um nome, um perfil e uma fotografia falsos. Pois é, não sou quem pensam que sou. Infelizmente, não vos posso, por enquanto, revelar a minha verdadeira identidade. Se o fizesse, teria rapidamente à perna aqueles que me perseguem pelo mundo inteiro e que oferecem pela minha cabeça uma considerável recompensa. Posso dizer-vos, sim, que estou profundamente arrependido pelas malfeitorias que cometi no passado na minha anterior pele de sicário. Se não sabem o que é um sicário, vão ao dicionário, que eu não me atrevo a explicar-vos, assim à frente de tanta gente. É verdade, um sicário a soldo de uma organização que actua lá para os lados de Ciudad Juarez, no México. Julgo que, mesmo sem a ajuda do dicionário, já estarão a imaginar o que fazia eu para essa gente abominável. Um dia, com calma, conto-vos com os detalhes todos. Mas o que interessa é que já não o faço agora. Vim para aqui, para este cemitério à beira-mar plantado, que me acolheu sem me fazer muitas perguntas sobre de onde vinha. Através do conhecimento que o mesmo me proporciona, tenho procurado expiar os meus pecados passados e atingir a via da redenção que espero, um dia, poder levar-me à absolvição. Espero que não levem a mal que passe a apresentar-me, assim encapuzado, como na fotografia lá de cima. Enquanto não puder andar de cabeça destapada, prometo, no entanto, não vos faltar com nada que seja compatível com o meu estatuto de anonimato.

Perante esta confissão que acabo de vos fazer, compreendo que só tenham uma de duas alternativas. Ou vão a correr participar o facto às autoridades competentes, para que elas apurem rapidamente quem é este impostor que andou a enganar-vos e o façam pagar pelas atrocidades que cometeu até ser iluminado pela graça deste cemitério. Ou – segunda alternativa – procuram uma sala de cinema onde passe o filme que, mais coisa menos coisa, corresponde à história que vos contei lá em cima. Dá pelo título de El Sicario, Room 164 e foi realizado por Gianfranco Rosi. Só têm de substituir a parte da iluminação através do conhecimento pela revelação (e redenção) através da religião. E, quanto aos detalhes do que faz um sicário em Ciudad Juarez, está lá tudo, com a grande vantagem de me pouparem ao embaraço de ser eu a fazer-vos o relato em primeira mão.

É certo que, caso optem pela segunda alternativa, terão de ter alguma paciência, a equivalente ao tempo de espera até que alguém se decida a exibir o filme no circuito comercial, sabendo nós que, tratando-se de um documentário, isso talvez nunca venha a acontecer em Portugal. Mas, caso tenham o privilégio de assistirem a El Sicario, Room 164, estou certo que irei merecer o vosso perdão. É que o filme – Prémio da Crítica Internacional do Festival de Veneza 2010 e Melhor Longa-Metragem do DocLisboa deste mesmo ano — é mesmo um extraordinário momento de cinema.

Infâmia2

Sigmund Rascher

Sigmund Rascher foi um dos infâmes médicos Nazis. Médico das SS, usou os prisioneiros do campo de concentração de Dachau para as suas brutais experiências científicas, em particular para estudar os efeitos adversos a que os pilotos alemães eram submetidos, quando abatidos sobre o gelado mar do norte.

Neste aspecto, Rascher não foi nem mais, nem menos infâme que qualquer outro maníaco médico das SS, nomeadamente o famigerado Josef Mengele. E no entanto, quis trazê-lo aqui para esta nossa nova secção porque até mesmo os Nazis consideraram-no desprezível. Talvez as prioridades não fossem as mesmas que as nossas, mas fica a história.

Rascher deteve um considerável poder entre os seus pares e superiores pela sua proximidade ao Reichsführer SS Heinrich Himmler. Chegou a ele através de, ou devido a, uma relação com uma cantora de Munique, Karoline “Nini” Diehl, provavelmente uma antiga amante de Himmler. Este acabou por ver o casal com bons olhos, talvez por ainda ter afecto por Nini, e acolheu de forma positiva o entusiasmo com que Rascher se dedicava ao seu ofício. Himmler recebeu com interesse as propostas daquele tendo-lhe concedido autorização para realizar as experiências com cobaias humanas, depois de Rascher se ter queixado que era difícil encontrar voluntários (carta abaixo)

Carta a Himmler lamentando a ausência de cobaias humanas, não sem antes reiterar que também o seu segundo filho é forte.
Tradução, arquivo dos processos de Nuremberga

No entanto, o que Himmler não autorizava, era o casamento entre Rascher e Karoline, já que Karoline era quinze anos mais velhar que Rascher e isso não se enquadrava nos princípios raciais e de pureza a que as SS se submetiam. Uma família das SS havia de produzir os melhores exemplares arianos. E no entanto, o amor, mesmo nazi, tudo supera, pelo que passado algum tempo, o casal trouxe ao mundo um filho. Rascher não perdeu tempo em fazer do seu caso um exemplo e agora que tinha mostrado que não ficavam atrás de outros puros arianos mais novos, recebeu de Himmler a anuência para poderem contrair matrimónio.

A família exemplar, que serviu até para efeitos de propaganda, teve, entretanto, mais dois filhos e o casal gozava da maior admiração do Reichführer. Até que em 1944, chegou a Himmler uma notícia que havia de despedaçar a família. De facto as crianças não eram seus filhos biológicos; Karoline pagou para que as crianças fossem raptadas dos pais em estações de comboio de Munique. Himmler ficou furioso e mandou prender os dois, sendo que Rascher foi internado em Buchenwald e mais tarde, ironicamente, em Dachau. De lá não saíu, tendo sido executado pouco antes da chegada dos aliados. Karoline foi enforcada. E assim passou à história um facínora que nem os nazis conseguiram acolher na sua plenitude.

A confissão

Uma brisa morna, cheirosa de Primavera, ondulava nas cortinas num movimento transparente que parecia simular o rodar estático dum parafuso sem-fim. O olhar permanecia ali, não hipnotizado. Zargo sentiu prazer em constatar pela infinitésima vez a mecânica simples das coisas. E não sentia dores, o que era definitivamente bom!
O devaneio foi interrompido pelo lento e cuidadoso abrir da porta do quarto, que, sem mexer a cabeça um milímetro sequer, o velho pintor detectou junto à cerca esquerda do seu campo de visão.
Atirou um «entra» quase vigoroso, pensando tratar-se da mulher que o vinha acordar. Na sua quieta grande-angular acamada, Álvaro Zargo, o octogenário pintor expressionista tardio (segundo a crítica geral, por norma elegíaca, que nunca encontrara outras palavras para dizer dele que começara tarde como pintor) semi-moribundo pela sexta vez em seis anos, viu avançar com cautela a sombra da mulher projectada em frente. Como raio era isso possível?!… Piscou os olhos com força numa operação automática de limpa pára-brisas, focando então a visão assim melhorada no padre que se aproximava com vagar, seguido de Luísa, a sua terceira mulher.
Mas não é possível…, murmurou Zargo, num misto de desalentado gozo.
Tu vais-me fazer o favor de falar cinco minutos aqui com o meu amigo, o sr. Padre Juvenal, o António Juvenal…, disse a mulher com a voz pedindo. – Promete-me isso, Álvaro, por favor!…
Dirigindo-se apenas ao padre, o expressionista tardio enormizou o drama:
Primeiro, não tenho nada para confessar e se tivesse não confessava. Nem às paredes! Por isso, senhor padre, desculpe lá a Luísa mas ela…
Eu sei bem que o senhor não é confessável, se me posso exprimir assim – interrompeu o religioso, que entretanto se sentara numa das várias cadeiras dispostas como que em plateia à volta do grande e maciço leito de madeira adornada a embutidos onde jazia o pintor. – Na verdade eu gostaria muito de ter a possibilidade de falar um pouco consigo, gosto muito do seu trabalho… o rictus humano…
Soerguendo-se e apoiando-se melhor nas grandes almofadas que Luísa entretanto lhe arrumara junto ao espaldar da bela cama Império, Zargo olhou atentamente para o jovem padre – um miúdo!, antes isso, pensou. E embora tivesse a certeza que aquilo do rictus era bom engodo para ego de vaidoso, concordou com a entrevista, não sem antes pedir à mulher que lhe arranjasse um chá de folhas de anona.
Zargo… Não é o mesmo que Zarco?…, inquiriu o padre Juvenal.
Arcaísmo…, há quem diga que é a mesma coisa. Eu conheço uns quantos Zarcos, descendentes do navegador. Já tivemos essa conversa mas nunca deu em nada. Na minha família havia o mito de que descendíamos dum marinheiro, sim, mas do contramestre do corsário Brás de Montluc, que se chamava Zargo por ser vesgo.
O pintor estava agora praticamente sentado, o que permitiu ao padre comprovar aquilo que já sabia: Zargo era ligeiramente vesgo.
Depois de bem acomodado e de dois goles numa grande caneca de cerâmica decorada com a imagem dum veleiro de três mastros – que prontamente a mulher lhe trouxera –, o velho rearrancou:
Juvenal lembra sátiras, caro padre… Não acha que está a perder o seu tempo?…
Eu tenho por hábito achar que o meu tempo nunca é perdido, meu filho…
Deixe-se disso, padre! «Meu filho»… Tenho idade para ser seu avô e o senhor não é de todo meu pai!, seja lá qual for a sua equação espiritual. Bem…, desculpe lá, não tem qualquer importância…
Também acho que não, pela parte que me toca. Mas gostava de lhe refazer a pergunta que já fez por mim: não tem mesmo nada para confessar? Nunca lhe aconteceu nada que o pusesse em dúvida consigo próprio?…
… Morfina… Ora veja aí nessa caixinha…, aí! Tem umas pastilhas amarelas, grandes… Dê-me duas por favor…
Zargo tomou os comprimidos, um de cada vez, com grandes golos de chá de folhas de anona, e por fim encolheu uns ombros desdenhosos:
E isso que tem de especial? Nunca matei ninguém, nem roubei… E quanto à mulher do próximo isso dependeu mais do próximo e da mulher dele que de mim… Até os passarinhos gostam, meu caro padre Juvenal, e os passarinhos são obra da Criação, não é assim?…
Nada de que se arrependa, portanto…, concluiu o jovem padre, exibindo um sorriso quase divertido.
O velho devolveu-lhe o sorriso, um mesmíssimo sorriso, antes de confidenciar:
Só me arrependo do assalto ao banco, disso sim, arrependo-me…

O senhor assaltou um banco?!…, espantou-se vivamente o religioso. – Quando, Meu Deus?… Há muito tempo, não?…
Bem, isso tinha de ser assim, basta olhar… Olhe, está a ver ali aquelas molduras em cima da cómoda grande? Traga para aqui aquela que tem a armação aos quadrados…
Essa mesmo… Está a ver estes quatro?, eu ali, de cigarro?… Nós todos planeámos assaltar um banco, tinha eu uns 20 e os outros andavam perto. Para tal roubei o Minor da minha irmã, que para assaltar era preciso um veículo para fugir… Ela quando soube do caso disse-me que eu era um parvo… Porque é que não pediste por favor, dizia ela…
O padre António Juvenal estava incrédulo:
Mas… eram todos gangsters na família?, perguntou a medo, já achando que estava a ser gozado pelo velho pintor, que a cada nova palavra parecia menos moribundo.
Não, homem! É uma questão cultural, mais nada…, uma graçola. Mas não me interrompa agora.
Eu devia ficar no carro para dar o sinal quando o balcão estivesse sem ninguém… Eram onze da manhã, quase não havia movimento. Foi em Aveiro… Eu devia sair do carro e acender um cigarro, que era o sinal para eles avançarem…
Com as mãos cruzadas nas pernas e um ar de incredulidade atenta, o padre Juvenal debruçava-se de olhos bem abertos sobre estranha divagação do velho.
O momento tinha chegado, e eu saí do carro. Puxei dum cigarro e do meu Dupont de laca e ouro – que roubara a uma outra irmã (eu era o querubim da família, quero dizer, o mais novo…) – e acendi o sinal. Ou por outra, não cheguei a acender…
Arrependeu-se!… atirou o padre ao mesmo tempo que dava um saltinho em frente na cadeira.
Nããã, nada disso! Apareceu um sacana dum bufo e fui parar à esquadra… Sem o meu sinal os outros ficaram em terra, não houve abordagem…
Um bufo? O quê?, da PIDE?!…, espantou-se ainda mais o pobre António Juvenal.
Bem, se era da PIDE ou não, não faço ideia. Mas não é impossível: naqueles tempos ser bufo era uma actividade multidisciplinar e bastante liberal. Este era bufo da Fosforeira Nacional, andava à caça de quem não tinha licença de isqueiro. Uma manha do Salazar para assegurar o monopólio do estado na área das acendalhas e afins… E foi isso que me tramou!…
Tudo se encadeia, já viu bem, mestre Zargo? Quis roubar, roubou para roubar, e acabou preso…
Não acabei nada preso nem nunca seria preso por isso…, paguei a multa e fui ter com o gang para levar o pessoal todo de volta para casa…
Eu…, desculpe mas eu não acredito nisso…, o senhor está só a brincar comigo…
Áááh!… E se fosse assim já dava o seu tempo por perdido, então?… E se não fosse?, não lhe interessaria saber o que aconteceu ao resto dos teddyboys? Eu fui o da ideia, o que roubou o carro, o isqueiro… e acabei a pintar…
Os outros…
O que está deitado de papo para o ar foi para a Legião Estrangeira e morreu capitão pára-quedista no Tchad, em 61; o bonitão da direita deu em bicha – a família era riquíssima e ele depois também ficou; o outro acabou na política, mas não lhe vou dizer quem é – nunca conseguirá saber quem é, está muito diferente da imagem conhecida…
Levantando-se sem pressa, António Juvenal soltou uma curta gargalhada, declarando em seguida:
De certa forma isto foi uma confissão…
Álvaro Zargo olhou para o padre demoradamente, sempre com um leve sorriso na cara. Por fim aquiesceu:
É, tem razão, de certo modo foi.
Incomoda-lhe que o benza?…
De todo, padre, benza-me à vontade.
Luísa ia ficar toda contente, pensou Zargo com um sorriso interior, ao mesmo tempo que se deitava para baixo e fechava os olhos.

Desencantada esperança


Walker Evans, Truck and Sign. New York. 1930


1 — Pertenço a uma geração de portugueses que se privatizou. Não fomos chamados a “fazer” a revolução — o que em si mesmo é coisa boa porque um país não se constrói aos solavancos e a Inglaterra, por exemplo, nunca verdadeiramente precisou de fazer uma — nem nunca sentimos a urgência ou o verdadeiro imperativo de dar parte de nós à coisa pública (expressão, de resto, requintadamente hipócrita porque de hipocrisia se fez, obviamente, esta esfarrapada desculpa que sempre legitimou as mais interesseiras de todas as “generosidades”). Mais por comodismo e soberba do que por real impossibilidade, mais por confiar em nós do que por confiar em quem fazia oposta escolha, fomos acreditando que era possível deixar a César o que é de César. Não que não percebêssemos que os partidos já quase só se faziam de gente sem real alternativa ou pinga de cívico interesse. Não que não percebêssemos que se fechavam, cada vez mais, sobre si mesmos, desconfiados de si e do mundo, perdidos numa paranoia intestina já sem qualquer adesão ao real. Não que não adivinhássemos que a política se fazia, a cada ano que passava, mais irreformável de tão voraz, mais suicida de tão impune.

Acontece que, mesmo sem o saber, mesmo sem o verbalizar, ambicionámos fazer de nós um pouco de Itália. Imaginámos um país que podia dispensar a política, que podia desprezar a política, que podia fazer-se apesar da política. Está bem de ver, enganámo-nos. Redonda e estrepitosamente. Temos, nesta crise que é financeira e económica mas que é sobretudo crise de ética e de decência, tanta ou mais responsabilidade que todos os outros. O Portugal que deixarmos aos nossos filhos é também culpa nossa. Percebê-lo é uma questão de honestidade e de sanidade, mas é sobretudo pré-condição essencial para qualquer assomo de uma imprescindível mudança.

2 — A economia não é mais do que uma ciência de agregados. Uma soma impessoal de decisões, todas elas, cada uma à sua maneira, pessoalíssimas. É por sabê-lo que verdadeiramente me preocupo quando me apanho a desejar, para os meus próprios filhos, um futuro que se faça de emigração. Um futuro que não esteja condicionado, muito menos condenado à partida, por um país em que medra a mediocridade, por um país que faz das relações perversas entre interesses públicos e privados todo um paradigma de (sub)desenvolvimento, por um país sem justiça nem real igualdade de oportunidades, por um país, em suma, que lhes seja um peso absurdo. E é por saber esse desejo feito, apesar de tudo, mais de privilegiada desesperança do que de real desespero (que é, infelizmente, o que sentem cada vez mais portugueses), que mais verdadeiramente me preocupo. Por cada português que desiste de uma certa ideia de pátria, há mais um pouco do país que se deixa morrer. Portugal, mais não é do que a soma das nossas desesperanças e dos nossos desencantos. É isso que verdadeiramente preocupa. E é portanto isso que estamos eticamente obrigados a inverter. O tempo, paradoxalmente, reclama esperança. Nem que seja desencantada esperança.


Publicado na Visão em 28.10.2010

Apesar de tudo

- Foi ele o amor da tua vida, não foi? Quero dizer, apesar de tudo …

Sentiu o olhar das duas amigas fixo nela. Diante de si a fotografia que a apanhara desprevenida, ao virar da página do álbum que uma delas trouxera para o almoço das sextas-feiras. Fui ajudar a minha mãe a esvaziar o sótão, por causa das obras no telhado e já viram o que encontrei?  

O amor da tua vida. Muito gosta esta boa alma de etiquetas, rótulos, letreiros. Como se tudo fosse assim tão simples. Se calhar é, para ela. Que sorte. Ou então, não.

Apesar de tudo.

Apesar de tudo o que acontecera?

Lá está ele, à esquerda. Mesmo ele. As mãos esguias. A melena loura e desgrenhada. O ar de miúdo. Com ele vivera tudo o que sonhara – paixão, casamento, filhos, projectos, desafios. E também um longo pesadelo de incompatibilidade, distanciamento, desconfiança e raiva. Eram muito novos e tinham crescido — ela, pelo menos, que ele jamais o faria — em direcções opostas. Tinham jurado ser fiéis – e ele não o fora. Respeitar-se – e ela não conseguira. Amar-se – e Deus, como se tinham chegado a odiar! Os anos haviam atenuado ressentimentos e mágoas. Já conseguiam estar juntos e até conversar. Fazia, ainda assim, por não se rir das piadas dele, não se deixar arrastar nos seus empolgantes relatos. Impressionante como nele nada mudara. Como ele mantinha inteiras a irreverente despreocupação e a alegre irresponsabilidade. E a irresistível graça que, sabia-o bem, fora – e, deixasse ela, seria de novo — a sua desgraça…         

Apesar de tudo o que poderia ter acontecido?

Ao centro. Ele. Forte e consistente, por fora como por dentro. Sereno, sensato e generoso. Profundamente bom. Sempre gostara dela. Por amor, como dizem os miúdos. E ela sabia. Nunca lhe dera falsas expectativas. Mas abusara, isso sim, das suas infinitas dedicação e paciência. Todas as vezes que o seu mundo desabara – e haviam sido tantas -, fora nele que se refugiara. Para chorar desgostos, bradar revoltas, ouvir conselhos. Várias vezes, ao longo dos anos, se perguntara porque não aceitava o amor incondicional daquele homem extraordinário. Seriam decerto felizes: ele seria incapaz de a magoar. Não, não seríamos: porque não basta só um amar, têm de ser os dois. E ela não o amava, não dessa maneira. Foi então que tudo mudou: ele estivera fora, pouco soubera dele por uns tempos. No regresso, vira-o com outros olhos. Teve a certeza de que iriam ser felizes, muito felizes. Ainda hoje tinha. Não fora a morte dele, naquele estúpido acidente. Já lá iam dois anos e raro era o dia em que não pensava nele, no tempo que tinham perdido, no que teria sido a sua vida.   

 Apesar de tudo o que (ainda) não acontecera?

À direita. Ele. Cabeça baixa, reservado, esquivo. Começara por embirrar. Como não? Giro e com pinta de sedutor, um sucesso junto das meninas, que lhe caíam todas aos pés. Sem sorte, coitadas, porque definitivamente ele não se deixava prender. Tontas, não vêm que ele é um pateta? Até que chegara a sua vez. Fora tudo muito rápido: a muralha de desconfiança, má vontade e certezas absolutas ruíra diante do que apercebera por detrás de tanta pose. Apaixonara-se perdidamente. Tentara conquistá-lo. Em vão. Ele ou não percebia ou fingia não perceber. Persistiu, sofreu, penou. Até que, desesperada, desistiu. Declarou-o assunto encerrado, listou-lhe defeitos, fez por o esquecer. Só não tinha como. Era uma doença crónica: se os seus amores corriam de feição, a coisa mantinha-se dentro de um certo controlo; se estava fragilizada, e ele aparecia, sorridente e afectuoso, recaía. Sempre na mesma vexante versão teenager, feita de palpitações, devaneios e esperanças infundadas. Obsessão, será isto uma obsessão? Ou um mero caso mal resolvido, de que no jantar de há dias tantas se queixavam? Fosse o que fosse, ele fora, era ainda, um problema. Um belo dum problema.            

Sorriu e encarou as amigas, do outro lado da mesa.

- Ele, o amor da minha vida? Claro que sim! Apesar de tudo, dizes bem …

Adão e Eva

Apresento-vos um post escrito a quatro mãos. Começou numa pergunta que a Marta Costa Reis, muito legitimamente, colocou a este meu post sobre o mito adâmico em que eu sustentava que a solidão de Adão foi a mais angustiante que algum ser humano algum dia já conheceu, contrastando-a com a de Eva que, quando “foi criada”, já encontrou outro ser vivente e humano. O diálogo prosseguiu e acaba na resposta que a Marta dá no último texto e que eu já só vou ler depois de estar aqui publicado.
Agradeço à Marta o desafio (que provocou e depois aceitou passar para esta forma) bem como a inteligência da argumentação (que é de resto seu timbre nos comentários neste blog).

Marta Costa Reis
Como pode Adão saber-se só antes de conhecer a alteridade?

 Manuel S. Fonseca
Marta, se o Ocidente se tivesse rendido ao mito do Adão hermafrodita, a simultaneidade da solidão e da alteridade teria mudado os dados do problema. Mas não foi essa a tradição que se impôs.
Só que a tradição que se impôs, também obliterou o mito literário que é o Génesis num ponto. Experimenta ir ler no Génesis 1, 27 este excerto: “Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou”. Se homem e mulher Ele os criou à sua imagem, então esta passagem postula a bissexualidade de Deus. Consciente dessa bissexualidade, Adão percebe a sua incompletude e vai sentir a falta – a solidão primordial. Tão impressionante que (Génesis, 2, 22) Deus a reconhece: “Não é bom que o homem esteja só”.
Outra hipótese, ainda que eu ache muito mais fracturante, digamos, a bissexualidade de Deus: Deus modela Adão com a argila do solo. Fá-lo “carne nova” como Milton o canta no “Paraíso Perdido”. Mas insufla-lhe o seu hálito nas narinas. Ou seja, a alma do homem contem o sopro de Deus no qual vem inscrito o conhecimento – ou seja, toda a informação necessária para se ser humano, o que inclui a consciência de si e a necessidade do outro. É politicamente correcta e enquadrável cientificamente a ideia de que Adão não seria tabula rasa.

 Marta Costa Reis
A história da criação acaba em Gn 1,27. Depois disso começa a humanidade. Mito de origem como tantos outros do Médio Oriente em tudo semelhantes, o Génesis foi escrito pelo homem e não o Homem pelo Génesis. A infinda beleza que nele encontramos é a nossa e de Deus queremos esperar que veja o que é “bom” em nós.
O Génesis explica-nos: o penoso labor do homem, as dores da parto da mulher, a ausência e a saudade que têm tanto de nossas como de hebraicas. O Génesis é a matriz, lá encontramos o que somos e muito mais: um pecado original que não existe até Santo Agostinho e que continua assim a não existir no Oriente cristão — como pode Eva pecar se não conhece o bem e o mal? Uma costela que era a “tsela”, a metade do homem, e que de língua em língua e século em século se transformou em osso e pelo caminho fez da Vivente-Ewa — a ajuda de Adam, o seu “ezer” (complemento, aliado, igual) — uma fêmea dominada pelo homem, culpa e castigo. E voltamos a Gn1,27: um Deus que se reclame criador tem de ter todos os sexos ou nenhum. O “antropon” primevo, que talvez seja ou não seja o hermafrodita platónico, mas do qual temos a marca em nós.
Muito se consegue explicar …mas a solidão permanece. Ela é primordial, sim, e adâmica, mas não masculina. Esse outro que vislumbramos e nos faz conhecer a solidão é a distância de um Outro maior, Aquele do qual somos imagem e está em nós, essa infinita Alteridade abissal que sempre nos escapa…e que os místicos e os amantes conhecem porque reencontram na União, nesse êxtase no qual Eva gerou Adão.

Manuel S. Fonseca
1. O Génesis foi escrito pelo homem, mas também o homem pelo Génesis, como por Édipo, como por Antígona. Quando o Génesis ecoa no “Il Mondo Creato” de Torquato Tasso, no “Paradise Lost” de Milton, no “Adão e Eva” de Rainer Maria Rilke, no “Children of Adam” de Whitman e podia ainda citar Byron, Victor Hugo, Paul Claudel, Paul Valéry, percebemos, na proporção em que o homem seja mais do que simples genética, como os mitos escrevem o homem e formam a sua idiossincrasia.

2. No Génesis, ao contrário do desiderato platónico, o homem não é hermafrodita. E está, num momento inicial, só.

3. A Marta propõe que o objecto do sentimento de solidão seja um Outro maior. Estou totalmente de acordo, é essa a raiz da nossa solidão. Na sua solidão inicial, Adão estava na Presença do Outro maior. E ainda assim estava só, numa funda solidão de procura de um mesmo que fosse outro, como a Presença reconheceu. Hoje, num mundo hiperpovoado de alteridade é a Presença do Outro Maior que nos falta.

4. A Marta diz e bem que não há pecado no mito edénico. O pecado chega tarde, do Norte de África, escrito por Santo Agostinho. Mas há no episódio de expulsão do Paraíso um elemento também obliterado pela interpretação judaico-cristã, a saber. Falo da violência arbitrária de Deus. A violência é um elemento essencial de todos os mitos fundadores. No mito constitutivo do Ocidente essa violência é a da mão de Deus que se estende, imperativa, e expulsa Adão e Eva do paraíso fundando a humanidade errante e errática que somos.

5. Discordo, e é um desacordo literal, é que Eva tenha gerado Adão. Marta, não está lá escrito e a interpretação desfigura o mito. Deus modela Eva de um osso de Adão. Em Génesis 2,23 lemos: “Esta sim é osso de meus ossos, e carne da minha carne.”. O que as interpretações hebraica e cristã calaram, e o que as modernas interpretações dos mitos, para as quais as relações de parentesco são essenciais, é que Adão deu à luz Eva (carne da sua carne) e a humanidade se funda num incesto primordial.

 Marta Costa Reis
A beleza dos mitos está nas quase infinitas camadas de sentido que deles podemos extair. Para o sentimento de um ocidental poucos serão tão apelativos como os do Genesis. São mitos que ainda hoje nos questionam e interpelam no mais profundo de nós e – embora sabendo já tanto sobre a condições históricas, geográficas e culturais em que foram escritos –continuamos a procurar neles a nossa razão de ser. Como compreender o Genesis ? Como posso eu – e é de mim mesma que falo – aceitar esse destino de Eva que a história, talvez mais do que o mito, me traçou? Rejeito em bloco a história da “maçã”? Ou consigo lá encontrar o que eu sei: que não sou parte menor da humanidade, que sou filha de Deus e não de Adão?
Em todos os mitos tem de haver incesto, mas normalmente é entre irmãos, porque “macho e fêmea os criou, abençoou-os e deu-lhes o nome de Adam no dia da sua criação” (Gn 5,2) – adam (אָדָ֔ם ) “o da terra” é o nome do ser assim criado.  Depois da separação, de macho e fêmea transformam-se em homem e mulher: a mesma carne, os mesmo ossos, para que voltem a ser uma só pessoa (Gn2,24). Com a separação se cria o momento antropológico: quando o “antropon” sem sexo, se transforma em “aner”(homem) e “gyne” (mulher). Por isso Eva dá à luz Adão, é quando a mulher nasce que nasce o homem. Sem ela, quando se abririam os olhos dele?
Também no “Gilgamesh” é quando o selvagem Enkidu conhece (sim, nesse sentido!) a mulher que se torna um homem e come o pão e bebe o vinho: os primeiros frutos da civilização humana, que não existem como tal na natureza.
Os mitos de origem servem para explicar quem somos hoje e não necessariamente o principio. Que diz de nós, hoje, o Genesis? Como podemos falar dele aos nossos filhos, sem ficarmos presos na armadilha da história literal, quando a origem já não admite mitos, sacrificados no altar da ciência? Os nossos mitos são ficção científica porque é com a ciência e já não com a religião que explicamos o universo.
Podemos ainda acrescentar sentido ao Genesis ou restam-nos como mitos de origem os do futuro ou da distância universal que nos liga a outros possíveis mundos: “a long time ago in a galaxy far, far away”?
“De onde proveio esta criação, se foi Ele quem a ordenou ou não, só Aquele que no mais alto céu tudo governa o saberá. Só Ele o sabe; ou talvez nem ele o saiba…” (Rigveda, Livro X, hino 129)

Onde está a Europa, essa belíssimna princesa da Fenícia!?

Em 1651 escrevia Thomas Hobbes que «aquele que é suposto governar uma Nação inteira deve ler em si mesmo (*) não este ou aquele homem particular, mas o género humano (man kind).» (**)

Esta afirmação ocidental feita em nome de todos os homens é aquilo que, para o bem e para o mal, na história moderna mais caracterizou a Europa – e, a partir dela, aquilo a que poderá chamar-se o Ocidente. Seguiu-se-lhe de um modo muito evidente a Bill of Rights, em Londres, em 1689, a Declaração da Independência da Virgínia, na Virgínia, em 1773, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, em França, em 1789, e a Declaração Universal dos Direitos Humanos, escrita por diferentes personalidades de todo o mundo e adoptada pela ONU, em 1948, logo após a II guerra mundial. Começa assim: «Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo…»

Ora, o que pergunto é: Onde está esta afirmação, hoje, na Europa? E onde está, hoje, a Europa, sem esta afirmação? Os alemães, que nos lideram, para onde nos levam? Os franceses, para além de melhores condições de vida – só para eles… o que propõem? Os ingleses, que outro nascimento (alter + nativa) sugerem para a Europa e para o mundo? E os ibéricos, portugueses e espanhóis, que contribuição querem trazer para essa Europa de que apenas dizem conhecer a cauda!?

(*) Ler em si mesmo, isto é, ler dentro, quer dizer: inteligir (do latim intelegere, de intus + legere).
(**) HOBBES, Thomas, Leviathan, or the Matter, Form and Power of a Common Wealth Ecclesiastical and Civil, Londres, 1651, Introdução.