Uma gaiola para Carlos Relvas
Queridos Mortos

Golegã, Fevereiro de 1977 — Entro no enorme jardim com alguma apreensão e receio. Atravessamos um grande portão verde de ferro forjado. Retorcido. Carcomido. Enferrujado. Ameaçador. Lá dentro espera-nos uma selva densa, escura e húmida. — Está tudo abandonado desde o início do século — diz-me o meu pai. Eu, a minha irmã e a minha prima Maria, que tem quatro anos menos que eu, percorremos vagarosamente velhos caminhos de gravilha, desenhados por entre uma anacrónica amálgama de cactos, palmeiras, eucaliptos e acácias. Tudo sombrio e gigantesco e mergulhado numa atmosfera de penumbra e mistério. Como num filme, guiados por um longo e delicado travelling que percorre uma sinuosa alameda em torno a um triste charco seco, vejo-a aparecer finalmente. É extraordinária. Nunca vi nada do género mas também só tenho oito anos e ainda não vi muita coisa. – Um verdadeiro joguete fidalgo — tinha-a definido peremptório de manhã, ainda em frente à lareira, o meu querido avô José Elias, que não é meu avô mas é como se fosse, – Um verdadeiro prodígio saído da criatividade do melhor sangue que o Ribatejo jamais produziu! – tinha rematado, atirando para o fogo mais um enorme toro de madeira. Recordo estas palavras aproximando-me dela silencioso. Reverente. A brisa fria que percorre a avenida lá fora, passa em frente à câmara municipal, aquela que para meu orgulho, é presidida pelo Avô Elias, entra pelo portão, e atravessando o jardim vem por fim enregelar-nos as costas. Agora que a vejo melhor, não se pode bem dizer que aquilo que temos ali, diante de nós, seja uma verdadeira residência. Parece-se mais com uma enorme e bizarra casa de bonecas. Um jogo decrépito deixado ali a apodrecer sob o denso musgo que cobre o fundo do jardim. Um antigo brinquedo, abandonado por uma gigantesca criança, excêntrica e precoce. Uma estrutura mágica, idealizada num outro tempo, para vestir um qualquer estranho propósito. Ou uma qualquer estranha ideia. Ou talvez mesmo e somente, um muito pessoal sonho de grandeza e iluminação.

O andar térreo é inteiramente em alvenaria, bem como a fachada do primeiro andar e as duas escadarias externas que lateralmente o envolvem. Decorada com motivos manuelinos e arabescos, alvos bustos em relevo e pontiagudos minaretes, parece uma decadente vivenda otomana, daquelas que abandonadas, juncam as margens do Bósforo. Apoiada na fachada e cobrindo todo o primeiro andar, uma delicada estrutura de ferro forjado e vidro. De alguma forma lembra o Petit Palais embora em vez das grandes vidraças reflectirem um muito azul céu parisiense, espelhem aqui, num obscuro jardim Goleganense, um invernal céu de Fevereiro, pincelado de nuvens cinzentas, que lá no alto sobrevoam pesadas a lezíria Ribatejana preanunciando chuva e tempestade. — Foi ali em cima que ele viveu os últimos anos da sua vida – diz o Avô Elias agora ao frio, envergando um pesado capote de pele. — Ele tinha-a construído com o propósito único de aqui fazer fotografia. Mas acabou por vir aqui morrer em finais do século dezanove nos braços da sua Mariana, depois de uma grande viagem pela Europa e Estados Unidos onde fotografou um pouco de tudo e onde participou em inúmeras exposições. Diz-se que já de regresso à Golegã se viu envolvido num estúpido acidente a cavalo. Era diabético e a ferida nunca sarou! – Virando-me de novo na direcção da casa e interrogando-me sobre de quem serão aqueles dois bustos que decoram a fachada, oiço-o ainda dizer num sussurro aos outros membros da comitiva familiar que nos acompanha – Imaginem que no seu testamento final, pedia que quando lhe confirmassem o óbito, lhe fossem cortadas as artérias carótidas para que não pudesse ser enterrado vivo. Estranhas as susceptibilidades dessa época, não acham? – Apercebo-me agora que não vamos poder entrar. A casa está fechada. Pelo que percebo da continuação da conversa, pertence a uma senhora, descendente da dita Mariana e que vive em Lisboa, num hotel. Percebo também que lá dentro está toda a vida daquele que foi o proprietário daquela casa. Sinto falar de milhares de negativos, de chapas e de impressões. De livros e de equipamento valiosíssimo. Falam de um espólio riquíssimo, de um património de interesse mundial e de um plano para o salvar. Voltamos para casa e para o calor da lareira. Fica-me uma pedra de gravilha na sola dos meus Arthur Ash. Fica-me também a curiosa sensação de ter acabado de visitar um cenário de um filme, de onde a qualquer momento poderia ter saído um coelho falante, um pterodáctilo ou a sombra chinesa de um príncipe oriental.

Descrevo tudo isto de memória e com mais de 30 anos passados sobre essa data. No meu imaginário pessoal, nunca esqueci a visita a essa casa, nem o jardim, nem o ambiente peculiar que me ficou dessa espreitadela ao mundo desaparecido do Carlos Relvas. Sim, porque é dele que falo. Esse ilustre fidalgo Ribatejano que foi agricultor, cavaleiro, toureiro, arquitecto, engenheiro, inventor e violinista. Mas que foi sobretudo e para sempre, aquele que no seu pioneirismo, considero um dos mais inovadores e talentosos fotógrafos de todos os tempos.

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Golegã , Agosto de 2010 — Os meus filhos e os filhos da minha prima Maria, que continua a ter menos quatro anos que eu, correm à nossa frente pelos carreiros impecavelmente limpos do jardim do Museu-Casa-Estúdio Carlos Relvas. Como forma de os aliciar a deixarem os mergulhos de piscina e virem dar uma volta, foi-lhes descrita uma enorme casa de vidro, uma espécie de gaiola gigante com uma grande escada feita de uma raríssima madeira vinda da Índia e belas fotografias de cavalos lusitanos penduradas nas paredes. Estão excitadíssimos. Entramos sem pagar bilhete. – Entrem depressa que já começou o filme! Pagam depois à saída – diz-nos uma curadora sorridente. Só podemos estar em Portugal, penso. No interior, uma holografia projectada sobre um manequim de Carlos Relvas, ressuscita-o e fá-lo falar de si, da arte da fotografia, da sua vida e da sua casa. Olhos e bocas abrem-se em estupefacção. Percorremos os laboratórios de revelação e impressão e entramos numa sala de espera que, no seu barroco, soube fazer esperar príncipes e mendigos. Subimos uma prodigiosa escada de madeira em caracol, e ascendemos ao estúdio sempre na companhia da simpática curadora. É um palácio de vidro e de encanto. É tudo luz. Um fantástico templo dedicado à fotografia. Um mecanismo de regulação de cortinas altera a luminosidade do espaço permitindo brincar ao jogo do chiaroscuro de que Carlos Relvas era mestre. Fazemos agora uma roda. - Era aqui, — inicia a nossa guia — que ao longo dos anos, Carlos Relvas se banhava no seu mundo de chapas de vidro e de colódio seco. De algodão-pólvora e de iodeto de potássio. Era aqui que orquestrava os seus modelos, com os seus costumes pitorescos e o bric a brac que caracterizava os seus famosos Quadros Photographicos. Foi aqui também que fotografou e amou a sua segunda mulher, Mariana do Carmo Pinto Correia, também ela fotógrafa e musa inspiradora. Era daqui que saía em expedições pelo Ribatejo e pelo mundo fora, em busca de novas paisagens, de monumentos e de povo que lhe permitisse experimentar com essa sua paixão, acabadinha de inventar pelos seus precursores e ídolos, Niépce e Daguerre — (descubro que são deles os bustos de mármore que decoram a fachada). As crianças, divertidas, correm agora e para aflição de todos, por entre antigos espelhos, reflectores, telas e adereços. Olham depois atentos através da lente de uma muito antiga máquina fotográfica e riem-se alegremente das pomposas vestimentas endossadas pelas gentes antigas das fotografias em exposição. Acabam por fim encantados, a olhar, de novo de boca aberta e através da magnífica estrutura transparente, para o céu lá em cima, hoje resplandecente de azul e de sol.

Voltamos a descer. Compro um livro sobre a vida e a fotografia de Relvas na pequena loja do museu. Olho de novo para os miúdos que correm agora para um bonito charco coberto de nenúfares. Depois de um manequim falante, uma visita guiada, e um postal colorido na mão, pergunto-me que recordação lhes ficará deste dia. A minha continuará para sempre aquela de 1977, num mágico dia frio de Fevereiro, pela mão do meu pai e embalado pela voz grave e quente do meu querido Avô José Elias, aquele que afinal não era meu avô mas era como se fosse.

Vasco Grilo

Carlos Relvas 1838–1894

Comentários a “Uma gaiola para Carlos Relvas” (7)

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Que viagem fantástica, Vasco!
    E há uma coisa curiosa nesses belos edifícios com história e alma: quando os vemos abandonados ficamos com uma dor pelo estrago, mas vemos algo único dotado da magia com que o tempo os retocou.
    Depois, quando os vemos já adaptados à nova realidade é bem mais esta que está presente, quase eclipsando a memória mágica que nos ficou agarrada lá atrás, nesse mesmo tempo parado.
    São sensações muito… separadas, por muitas coisas.
    Belo rewind em aproximação.

  2. Joana Vasconcelos diz:

    Que maravilha Vasco! Encantou-me a tua narrativa em dois tempos, entre as memórias e o relato recente, sempre de tardes muito bem passadas, porque em boa companhia e num local fascinante. E, claro, gostei, gosto sempre, do final feliz!

    Já sei onde vou levar as girls num próximo — e espero que luminoso — sábado deste Outono … Fiquei completamente mortinha de curiosidade!

    • Vasco Grilo diz:

      Leva que vale a pena! E aconselho vivamente a Golegã como uma das vilas portuguesas mais bem conservadas que conheço. Uma terra que talvez me poderia convencer a viver em Portugal num sítio que não fosse Lisboa…

  3. José Navarro de Andrade diz:

    adorável a comparação entre a memória e o visto.

  4. Maria diz:

    Adorei Vasco e aposto que o nosso Zé Elias adoraria ter lá ido connosco e com a criançada, com a casa finalmente recuperada e “viva” de novo. É um lugar mágico desde a nossa infância que apanhaste a 100% ! bj m

  5. Ana Marçal Grilo diz:

    Gostei muito Vasco e, a propósito das redondezas da Golegã, digo-te que há cerca de um mês comprei uma casa na Barragem do Castelo de Bode, um sítio que me fará sempre lembrar de vocês sobretudo de ti porque devido a uma “amona” que, parafraseando o meu pai, “deu mau resultado” tendo deixado, para todo o sempre, uma cicatriz na perna esquerda! (Admito que não te lembres disto…) Bj

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