Um inteiro relógio de luz

Este é o terceiro post que O Herói escreve no Gente Morta. O Herói, como antes se disse, é o pseudónimo de um angolano que viaja pelo mundo. Tem responsabilidades e, a meu ver que sou amigo dele, a descabelada auto-ironia de quem finge que é céptico, mas ainda acredita em alguma coisa. É meu amigo, gosto de ser amigo dele. Desculpem lá qualquer coisinha. O post é dele, o título, a foto e o glossário são escolha ou responsabilidade minha. msf 

a cidade velha, foto de david marcus

Um inteiro relógio de luz
Um post do Herói

O avião era um daqueles modelos que dá arrepios frios aos portugueses – só por ser feito pela Bombardier, claro. Estás a ver como eu acompanho e não deixo de ser solidário com as agruras dos meus ex-colonizadores.
Aterrámos bem, dezoito passageiros e a mínima tripulação, em Yellowknife, no meio de um dia de seis meses. Já te conto, meu. Tínhamos saído de Québec, o tipo de cidade que deve fazer cócegas ao teu saudosismo lacrimal – eu, já sabes, sou mais “é o que é e o que é serve”. O aeroporto de Yellowknife é pequeno. Apanha-se um autocarro que nos leva à alfândega. Cá fora estavam à minha espera e poucos minutos depois tinha os meus sapatos italianos na small town. Já sabia que não, mas até por isso ainda fiquei mais frustrado por não ver nem um iglô. Era neles que se vivia aqui há menos de cem anos.
Nenhum angolano, pelo menos nenhum angolano assimilado (toma, que é para aprenderes), se lembra de sair da Mutamba e ir a Yellowknife. Se o planeta fosse uma menina vaidosa, Yellowknife era o brinquinho da cabeça do mundo que seria o Ártico. A cidade é uma coisa branca demais para o meu gosto, longe de tudo o que é a sacrossanta e cheirosa civilização subsahariana.
Mas trabalho é trabalho e se os imperialistas yankees mais os manhosos e agora encapotados sóvias andam a insinuar de mansinho o direito de pernada sobre a região, à conta de anunciado petróleo (gasosa da boa e não da betuminosa, ao que o Canadá dá graças) e dos diamantes, um tipo, por mais santo que seja, é bom que vá lá ver e converse com algumas pessoas. Curioso como sou, fui.
Cá estou (disse eu em Junho) e quero ir-me embora já (disse eu 24 horas depois). Gosto de sol, mas não gosto de um relógio inteiro de luz. Nunca tinha pensado nisso e tenho agora a certeza. Quero escuro. Nunca tive medo – vovó ameaçava-me com a dispensa tenebrosa e eu ria-me. Cheguei a Yellowknife ao fim da tarde e podia ter chegado ao começo do dia. A mesma luz. Sempre. Descobrimos – não viajei sozinho – que ainda não tínhamos jantado às 10 da noite.
Foi o estômago que nos explicou as horas. Os olhos e a cabeça, as batidas cardíacas estavam a dizer-nos o contrário. Não sabíamos em qual deles acreditar. Teve de ser um relógio a desfazer a dúvida. Durante 6 meses é dia, 24 horas por dia quase sempre (para o fim dos 6 meses começam a aparecer uma horas de duvidoso lusco-fusco, contaram-me depois). A mesa, os pratos, a cama, a escova de dentes transformam-se em objectos surreais. O sentido que fazem em Luanda, presumo que em Lisboa, deixam de fazer aqui. Aqui, aboriginam-se. A tua mão direita não quer segurar a faca quando a tua mão esquerda segura o garfo. A luz entra-te por todo o lado, acredito que mesmo no petit trou onde se diz que nunca a luz entra. Vais para a cama sem saberes o que vais fazer. Não sabes se vais dormir, se vais (perdoa-me a modorra da expressão) fazer amor, o que é um risco considerável. Em Luanda sabes, em Yellowknife não.
Juro, só queria um candongueiro que me vendesse escuro, luz preta, uma cortina negra para o céu. Sou calú e o calú, que já abdicou de tudo, tem um princípio de que jamais vai prescindir: precisa que cada dia acabe para fechar a contabilidade e ter a certeza de que viveu um dia de cada vez.
O mais certo é desiludir os teus camaradas do cemitério. Ouço-os: “anda meio mundo a querer ver o sol da meia-noite e vem este palhaço de Angola, alimentado a dólares de Cabinda, dizer que não tem dentes para a bela noz.” Não lhes levo a mal o devaneio turístico, mas eu levo uma vida de rigor e serviço (não se riam) que não se compadece com a psicose solar, meu kamba.
Deixei Yellowknife aterrorizado: saí quando nenhum dia acaba. Dali a poucos meses, extinta toda a luz, em Yellowknife nenhum dia começa.

P.S. — Ah, e vou cumprir o que te prometi. Responder aos teus avilos. Diz à charmosa Eugénia que dela aceito uma flor. Mas, que saiba, ela dá-me uma, eu esmago-a com um bouquet. À gentil e curiosa Joana convido-a para um dim sum em Hong Kong (esqueça lá Macau). Do nosso alferes Queiroz apreciei muito ter-me posto na sacristia. E a Mr. Orcama, que já vi ser sabedor de muitas coisas lá da banda, confirmo que “a oligarquia custa a todos”, mas mais a uns muitos do que a pouquíssimos outros. A todos um abraço. E a ti também, meu velho sabotador colonialista (está é para ficar, meu!).

Glossário

Mutamba — o mesmo que o Rossio em Lisboa, mas com movimento.
Sóvias — expressão carinhoso-insultuosa com que eram designados os soviéticos em Angola
Gasosa — A gasolina que se mete nos carros, claro. Em Angola, a palavra viu bastante ampliado o seu campo semântico e gasosa também é o que alimenta outras bocas que não necessariamente as de viaturas.
Aboriginam-se — liberdade de estilo com que, julgo, O Herói homenageia a jovem literatura angolana a que é tão sensível (digo eu, e esta também fica, meu).
Candongueiro — Vendedores clandestinos. Um factor de sustentabilidade do quotidiano luandense.
Calú — Habitante de Luanda, uma das espécies mais cosmopolitas da, copio O Herói, “civilização subsahariana”.
Kamba — O mesmo que Avilo. O kamba do meu kamba, meu kamba é. 
Avilo -  O mesmo que Kamba. O avilo do meu avilo, meu avilo é.

Comentários a “Um inteiro relógio de luz” (7)

  1. Turmalina diz:

    À partir de hoje esqueço tudo que já fantasiei sobre o Sol da Meia Noite, porque pensando melhor eu iria detestar um dia inteiro de luz intensa. Sou declaradamente um ser notívago e muita luz sempre me deu dor de cabeça.E tenho por hábito abrir a janela do quarto só para apreciar o escuro da noite.
    Muito obrigada por este post tão esclarecedor! Além de encantador, num sentido hipnótico.

  2. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Gosto sempre que venha, mais gostaria se viesse mais e não apenas por relógios inteiros de luz — raio de coisa clara e bem conseguida de não se saber fechar os olhos. Mas porque escreve muito bem para nos escrever tão pouco. A alegria das palavras, nos modos sub apreciados, e, é verdade, tantas vezes sub escritos, o conto, a crónica, o artigo, é das minhas mais felizes alegrias.

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Herói: ainda bem que não se ofendeu com a minha pouco esclarecida localização.
    E imagino que esse sol da meia noite seja coisa para fazer um jetlag bem esquizo, coisa de dar cabo das digestões e demais funções, aposto.
    Volte sempre que puder, um abraço.

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Pois eu quero ir ver o sol da meia-noite e passar lá uma semana. Só te digo, Herói, estás a ficar kind of sissy, todo píscologia e koisa & tal. Nem parece teu. Vê lá se metes mas é gasosa e vens aqui escrever like a man.

  5. O mais curioso do Sol da meia-noite, é que temos todos tendência a imaginar que é o mesmo sol da Caparica, e que daria praia todo o dia, houvera mar. Mas não, o sol anda sempre rasteiro junto ao horizonte, e portanto esses dias parecem-se mais com um longo pôr-do-sol do que um dia de veraneio interminável. E um longo pôr-do-sol é deprimente.

  6. Joana Vasconcelos diz:

    Gosto muito destas aparições-surpresa e sempre surpreendentes do agora nosso Herói.

    Até ler este relato, sempre me angustiou, relativamente a essa parte do mundo, a perspectiva de seis meses de noite: sou de natureza diurna, gosto da manhã, do sol, da luz e a falta de qualquer um deles no meu dia faz-me diferença. Fiquei realmente impressionada com a ideia de que tanta luz perturba, desorienta e desorganiza. Que estranho. Mas continuo a achar que escuro o tempo todo deve ser bem pior…

    Mas o que me agradou mesmo neste texto foi o fantástico é o que é e o que é serve, que desde que ontem o li não me larga e que — lamento, Herói — vou furtar. Vai fazer-me um jeitão, é o que é.

    E, Manuel, o que eu me divirto — além de aprender, claro — com os cada vez mais elucidativos glossários!!!

  7. Pedro Norton diz:

    Caro Herói, em tempos também andei a perseguir o sol da meia noite pelos confins do mundo. Acho que ainda nunca aqui o confessei mas agora fica dito. palmilhei a america do sul toda no rasto do guevara. E depois, para sair do roteiro, guiei até Ushuaya. Virei o carro do avesso (literalmente) mas lá cheguei. Acho que ao fim de três dias sem que o sol me desse descanso, “desejei um candongueiro”. Na altura não sabia, mas desejei.

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