I jumped in the river and what did I see?
Black-eyed angels swam with me
A moon full of stars and astral cards
And all the figures I used to see
All my lovers were there with me
All my past and futures
And we all went to heaven in a little row boat
There was nothing to fear and nothing to doubt
Conta-se que, para compor e escrever esta fabulosa canção, Thom Yorke se inspirou em Hermann Hesse e no seu Siddharta, onde um rio (ou todos os rios do mundo em sentido metafórico) desempenhava(m), com o próprio Siddharta (ou o Gautama Buda, se preferirem), papel central na narrativa, e que se transformou, em certos tempos da adolescência e pós-adolescência, uma espécie de guia iniciático filosófico/místico/religioso de muitos de nós (embora, no meu caso e de quase todos com quem partilhei a descoberta do livro, com poucas ou nenhumas consequências nos tempos que se seguiram).
Tenha ou não fundamento essa inspiração, não se pode negar que, para além do rio em que Thom mergulha, há qualquer coisa no som envolvente e misterioso de “Pyramid Song” que nos leva a uma dimensão transcendental. Como se, de cada vez que se ouve a canção, todo o universo nela estivesse contido e nada mais contasse para além do que ela tem para nos dizer. Como se, mesmo quem não acredita em qualquer forma de comunicação com o Além, fosse forçado, nos cinco minutos da canção, a vergar-se à evidência da espiritualidade para que ela nos remete. Como se, de súbito, uma iluminação caísse sobre nós, sem que outra alternativa nos restasse senão rendermo-nos à sua força conversora.
Será esse um dom exclusivo de “Pyramid Song” e dos profetas Radiohead? Talvez não. Há quem diga que é esse o traço distintivo de toda a Grande Arte. Que seja.

















Como não posso usar linguagem nortenha adequada resta-me um pouco apelativo FANTÁSTICO! Além da letra e da música em si, impressiona-me sempre quem consegue tocar em tempos quebrados.
Também li Siddharta e quase todo HH, esta homenagem é lindíssima, Diogo.
Diogo, este texto é o lugar certo para a fotografia do seu eu adolescente. É só editar e fazer uma photoadendazinha. Sim?
Eugénia, o Siddharta faz parte, definitivamente, da minha adolescência. Mas os Radiohead surgiram, já, com a idade adulta bem avançada. E daí talvez não. Talvez façam parte de um eterno prolongamento da adolescência. A fotografia virá. Só não prometo que seja para já.
António, pela parte que me toca, que é muito diminuta, agradeço. Agradeça, sobretudo, ao Hermann Hesse e aos Radiohead.
Limitadíssimo musicalmente, só cheguei aos Radiohead através das inúmeras e sempre admiradas referências dos protagonistas do único género em que me empenhei a ouvir: os jazzmen, tão difícies que são em apreciar o que esteja fora do seu mundo. E assim, passei a conhecer e a ficar converso dos Radiohead.
É verdade, Zé, o Mehldau, então, é louco por eles. E haverá melhor legitimação ou caução artística do que aquela que os jazzmen prestam a outros universos musicais? Mas para isso também contribui, e muito, o facto de as fronteiras da música dos Radiohead serem muito fluidas e indefinidas (o que se nota, sobretudo, no quase experimentalismo de albuns portentosos como Amnesiac e Kid A).
Sinto exactamente o mesmo, mas quando ouço a You And Whose Army? (do mesmo álbum, o Amnesiac — registo brilhante e normalmente desvalorizado). Apesar de também gostar muito da Pyramid Song (e de nunca ter lido Siddharta, falha minha).
Caro João, vamos sempre a tempo do Siddharta. E terá uma vantagem indesmentível em relação a todos os que, como eu, o leram há mais de 20 anos: poderá lê-lo ao som dos Radiohead. E quando terminar as pouco mais de 100 páginas, vai ver que ainda tem muita música dos Radiohead para ouvir.
Gosto de devaneios ligados à agua. Acho que ela por si só já é transcendental. É meu elemento de afinidade e esta música muito nos conduz à ela. Suas palavras fizeram a exata ligação entre o que sentimos e o que pensamos ao ler este post.
Turmalina, fico honrado por ter contribuído para essa rara ligação, para nós pobres humanos, entre o sensorial e o racional…