Portrait of a Lady II

É o meu lit de mort preferido – se é que se pode ter um, ponto relativamente ao qual acalento ainda algumas dúvidas. Aquele que eu teria escolhido, em resposta ao desafio aqui lançado pelo Pedro, não fossem as múltiplas e extenuantes actividades de férias que por essa altura absorviam parte substancial do meu tempo e energia.   

Gosto do exuberante cenário verde e das flores, tão variadas e coloridas — mesmo sabendo que algumas delas simbolizam, neste contexto, realidades tão pouco alegres como o amor não correspondido, a dor, a tristeza ou a própria morte. Gosto também da serenidade do rosto de Ophelia e do modo como jaz no leito do rio — faz-me sempre lembrar a Bela Adormecida ou a Branca de Neve, mortas-mas-não-tanto…   

Elisabeth Siddal (1829−1862) foi um dos modelos preferidos dos pintores da Pre-Raphaelite Brotherhood, fundada cerca de 1848 por John Everett Millais, William Holman Hunt e Dante Gabriel Rossetti. Descrições da época referem-na como a most beautiful creature, tall and slender, com greenish-blue unsparkling eyes, large perfect eyelids, brilliant complexion and a lavish heavy wealth of coppery golden hair.

Tinha 19 anos quando posou para Millais. Este, fiel ao cânon pré-rafaelita, queria o quadro as truthfull as possible naquilo que retratava. Por isso, pintou-o em duas etapas e em diferentes cenários. Toda a parte da natureza, outside in the open air, nas margens do rio Hogsmill, no Surrey, directamente para a tela (sem esboços ou apontamentos). A figura de Ophelia, naturalmente no seu estúdio … ao longo de incontáveis horas durante as quais Elisabeth, com um vestido antigo, bordado a prata, permaneceu mergulhada numa banheira cheia de água, teoricamente aquecida por lâmpadas colocadas por baixo. As quais, com frequência, se apagavam sem que o artista, absorto no seu trabalho, reparasse. Resultado: um enorme sucesso artístico para Millais, na Royal Academy Exhibition, de 1852. E, pelo menos, uma pneumonia para Elisabeth.

Foi esta a primeira e também a única vez que Elisabeth serviu de modelo a Millais. Por razões totalmente alheias às extreme working conditions: terá sido outro, e bem mais comezinho, o motivo. Dele vos falarei num próximo Portrait, se tiverem a gentileza de o aguardar e de o ler, claro…

Comentários a “Portrait of a Lady II” (15)

  1. Teresa Teixeira Motta diz:

    Gostei muito!
    E não se faz agora deixar uma pessoa assim cheinha cheinha de curiosidade até ao próximo Portrait!…
    Lá aguardarei (impaciente) para saber por que motivo foi esta a única vez que Elisabeth serviu de modelo a Millais — claro que já estou a imaginar mil possibilidades!

    • Joana Vasconcelos diz:

      Ora, ora, Teresa, uma blogoescrevedora faz o que pode para manter os seus leitores interessados, motivados, ávidos de novos posts … Que surgirão muito em breve, com novos e — espero — surpreendentes enredos, envolvendo Miss Elisabeth e não só: tenho para aqui mais duas Ladies, mortinhas por lhe passarem à frente … Nem imagina o mau ambiente que vai aqui pelo meu pc …

      • Teresa Teixeira Motta diz:

        Não tenha a menor dúvida de que a estratégia dá frutos… Passei o dia a vir, sorrateiramente, ao Blog para ver se se tinha mostrado sensível à argumentação dos seus leitores (nos quais me incluo) e, assim, satisfeito tamanha curiosidade.
        Enfim, sabendo como gosta de aguçar a curiosidade alheia, já calculava que nos fizesse a todos esperar. Assim será, esperarei (louca de curiosidade como sempre!) pelos próximos posts e pela solução do mistério…

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Não que o neo-gótico desses ingleses malucos me fascine, mas a história desta Ophelia é uma delícia. A menina Siddal deve ter ficado constipadíssima!
    Mas fiquei curioso, isso fiquei.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      A menina Siddal, caro António, quase morreu.

      • Joana Vasconcelos diz:

        António Benedito, não seja assim implicativo e reconheça que o quadro é mesmo muito lindo!

        Só para acirrar essa sua curiosidade lhe vou dizendo: prepare-se que depois das interessantíssimas revelações sobre a menina Siddal, virão mais dois extraordinários Portraits, o último dos quais, espero, o divirta …

        E fique sabendo, homem sem coração, que a Eugénia tem, como sempre, toda a razão (credo, rimou!): as intermináveis sessões de imersão em água alegadamente tépida, em pleno Inverno (pois Millais gastara a Primavera e o Verão a pintar ao ar livre … ) tiveram graves repercussões na saúde da pobre da Elisabeth …

  3. Turmalina diz:

    Estou no aguardo também :o)

  4. Luciana diz:

    Joana, queria ter mais tempo do que o que agora uso para apreciar quadro e texto. As cores aprisionam meu olhar e eu não queria partir, mas tenho que. Antes, só o último dizer: mortas-mas-não-tanto é uma expressão tocante e tão real quando contemplo o tranqüilo rosto…

    • Joana Vasconcelos diz:

      Luciana, ainda bem que veio, que leu, que gostou e que deixou o seu sempre gentil comentário, mesmo com pressa e sem o tempo que gostaria, mas que um destes dias decerto vai ter! Vá rápido e volte depressa!

  5. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Joana, estes seus posts sobre quadros têm sido uma delícia. Obrigado.

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