Portrait of a Lady I

Perfectly hideous … and yet quite recognizable. É o que terá escrito acerca deste quadro, quando da sua primeira exposição pública, em 1915, a sua autora. Satisfeitíssima, pois fora justamente esse o resultado pretendido.  

Vanessa Bell (1879−1961) gozava já por essa altura de amplo reconhecimento como um dos mais talentosos e activos elementos do inovador e irreverente Bloomsbury Group – o qual integrava artistas e escritores como Roger Fry, Clive Bell, Duncan Grant, Leonard e Virginia Woolf (sua irmã mais nova), E.M. Forster, Maynard Keynes, Lytton Strachey e Dora Carrington. E que se rebelou abertamente contra os rígidos padrões vitorianos, em matéria de arte, de estética e também de costumes. Os Bloomsberries pensavam, escreviam, pintavam e viviam playfully and lightheartedly.

Vanessa e Clive Bell mantinham, desde o nascimento dos seus dois filhos, um open marriage, que não impedia cada um de fazer a vida que bem entendesse. São conhecidos o breve affair de Vanessa com Roger Fry e a sua ligação duradoura com Duncan Grant, de quem teve uma filha, em 1918. Quanto a Clive, a well renowned womanizer, teve a sua mais que  fair share de relações extraconjugais. Mary St John Hutchinson, mulher de um conhecido advogado, patrona das artes e aspirante a escritora foi uma das suas incontáveis amantes.

E era-o ainda, quando encomendou este retrato e posou para Vanessa. Esta sabia evidentemente. Mas, tudo leva a crer, não gostava. Mesmo nada. Daí a unflattering nature of the portrait, o qual não deixa margem para dúvidas quanto aos seus feelings para com a modelo. Os especialistas destacam a forte influência fauvista deste quadro, traduzida na exuberância e audácia das non-naturalistic cores utilizadas. Opção justificada pela grande admiração que Bell tinha por Matisse. Quanto à concreta selecção de tons, as motivações terão sido bem outras — digo eu. Verde é verde. E logo este tom, é sabido, não favorece ninguém. O lilás também não ajuda. A combinação das duas,  fatal. Para não referir os  demais detalhes.

Agrada-me este quadro. Gosto do que evidencia de normalidade por parte de quem o pintou. Porque mesmo nas mais extraordinariamente moldadas relações, há-de haver limites. O que vale por dizer que some things never change. E ainda bem: afinal, quem não se sente, não é filho de boa gente. E gosto, sobretudo, da deliciosa forma — tão subtil quanto eficaz — com que resolve o eterno problema da outra, do ciúme, da vingança. Quais faca, na liga ou na mão. Quais alguidar. Quais banhos de sangue. Tela, pincéis e tinta, numa mistura absolutamente letal de repulsive colours e fabuloso talento…   

Comentários a “Portrait of a Lady I” (6)

  1. Teresa Teixeira Motta diz:

    Gostei muito!
    Não conhecia o quadro nem, consequentemente, a história por detrás dele que aqui descreveu tão bem. Gostei do quadro, mas gostei particularmente do “enredo” e da atitude desta artista cheia de classe!

    • Joana Vasconcelos diz:

      Teresinha, fico contente por ter gostado! Divertem-me imenso as histórias behind the pictures, porque nos permitem percebê-los e desfutá-los melhor e, mais vale dizê-lo, alimentar a curiosidade que no meu caso é sempre muita …

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Letal, aquele olhar de esguelha, marca da desconfiança total. Mas a mulher ou era parva ou queria armar-se em dura: pedir a uma ex do concreto e objectivo para lhe pintar o retrato é desafiante… Estava mesmo a pedi-las.
    O desenho é fantástico e não conhecia a excelente Bell, não era das minhas relações — agora já é.
    Obrigado, Joana-a-Bemvinda.

    • Joana Vasconcelos diz:

      António, o que eu gostei de o ter surpreendido e das calorosas boas-vindas!

      A Vanessa Bell tem alguns retratos da irmã (que por princípio se recusava a posar) — em jovem e já mais velha, este suponho que pertencente a uma colecção privada — e do cunhado Clive que são abolutamente stunning pelo que revelam de afecto, de intimidade, de empatia. Esta criatura é que, como muito bem sublinha, se pôs a jeito … e a coisa correu-lhe mal.

  3. Turmalina diz:

    Verde, verde amarelada, também é a cor da bile que o fígado secreta, que em excesso fica armazenada na vesícula.Acho que saiu daí a inspiração da cor…

    • Joana Vasconcelos diz:

      Turmalina, que associação genial … Só não sei se foi a da Mrs. Bell que saiu se a da Mrs. St John Hutchinson que foi posta a nú (ainda que sobre a forma de um tailleur), se a de ambas, que aquantidade de verde é muita … Depois deste retrato ninguém terá ficado a duvidar de que ambas teriam maus fígados … ;)

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