Podia ser assim

Se me pedissem como seria o filme da minha vida ou vice versa, não me embaraçava.
Por exemplo:
1.
Abria com uma situação impossível, deliciosamente anacrónica e dissonante, tal como Lubitsch (olha quem…) abre o seu To Be Or Not To Be. Não conheço filme que comece de um modo tão disparatado e meticuloso, ou seja: tão bem. É uma forma de pôr as coisas nos seus devidos lugares.
Quem quiser sair do meu filme para ver o resto, fique sabendo que nele consta Carole Lombard que só não foi a melhor atriz de sempre de Hollywood porque um avião lhe roubou o tempo. Morreu aos 33 como Cristo, mas à vista de Las Vegas.

2.
Aquela parte das coisas a que se chama “o meio”, onde acontece tudo o que há para acontecer, onde o início já vai longe e o fim ainda está distante, esse troço da vida foi perfeitamente descrito pelo retorcido Hitchcock na celebérrima sequência repleta de silêncio, solidão e desamparo do campo de milho de North By Northwest. Mas tal é o toque de midas de sir Alfred que desarma do drama toda a tragédia e inocula nas aflições por que passa Cary Grant – a epítome da elegância middle age – o veneno da comédia.
É mesmo assim: o mal que passamos faz rir os demais; ninguém se deve levar a sério.
A mais bela passagem da história do cinema

http://www.youtube.com/watch?v=npMQ7FD2m1g
[o Youtube não deixa copiar o trecho, decerto por uma questão de direitos. Fica aqui o endereço]

3.
Se conseguir, hei-de querer encerrar os dias que por aqui passei podendo perguntar como Anna Magnani no sossego de quem não espera resposta: “Where is truth? Where does the theater ends and life begins?” É o monólogo final, num plano apoteótico mas povero, com a boca de cena do teatro transformada em superfície de cinema, de Le Carrosse d’Or de Jean Renoir.
Façam o favor de conceder que não é a pergunta, a qual é um cúmulo de petulância e vulgaridade, mas é conseguir fazê-la como se fosse pela voz de Magnani e pelos olhos de Renoir, nesse estado superior da consciência inscrito na singeleza e no cansaço por ambos demonstrados.
Não ficaria nada por dizer.
Para quê evitar ser hiperbólico-reptitivo?: o mais belo filme de sempre.

Comentários a “Podia ser assim” (12)

  1. Luciana diz:

    Zé, quem tem uma idéia assim não há de imaginar que ela ficará só sua. Roubo-a e é já. Quanto ao seu filme, o fim é o que mais me move. É-me impossível desviar os olhos de Anna Magnani em qualquer tempo ou cena, por exemplo, chegando, madrugada, em casa (http://www.youtube.com/watch?v=eCMADbRXOco).
    Só para constar, que excelente gosto para atrizes (para mulheres?), Carole foi alvo de minha inveja por tempos pelo amor que que lhe votou o sempre charmoso Gable. E Mr. e Mrs Smith é, pra mim, um dos melhores e mais divertidos filmes sobe relacionamentos.
    Vou agora tratar de fazer pipoca e recostar-me no sofá.

  2. Joana Vasconcelos diz:

    Pois sim, mas e as fotos do menino Zezito? O relato dos feitos pretéritos do pequeno Navarro?

    Como é? Calções, fisgas, carrinhos, franja ou caracolitos, dentes em falta, óculos ou ainda não, primeiro dia de escola, primeira comunhão … Remexa gavetas e caixas, revisite e saqueie os álbuns, surripie temporariamente uma moldura que seja … que ESTAMOS À ESPERA E MORTINHOS DE CURiOSIDADE

    Dito isto, gostei muito. Sobretudo da fabulosa cena do meio.

    • Luciana diz:

      Joana, até os vivos estão se coçando de curiosos esperando as prováveis peraltices do Zé (de quem começa a vida com To Be or Not To Be não se pode esperar menos). E, ah, fizemos sanduíche em nossas preferências, eu curtindo começo e fim e tu com o recheio…

    • José Navarro de Andrade diz:

      Parece-me que a fase das fotos de infância foi oficialmente encerrada.

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Que maravilha de programa, só conhecia o Northwest e esta cena é uma delícia: estava-se mesmo a ver que ia levar com o DDT no toutiço.
    O semblante permanentemente apaixonado da Magnani e Renoir, união perfeita. Do Renoir guardo o clássico Boudu sauvé des eaux, com o Gabin e 20 anos de diferença. Também uma união perfeita.
    O humor é uma garantia de sobrevivência a vários níveis.
    Que nunca te falte, Zé Navarro, e já agora a todos nós.

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