O olissipômago

Olissipófago, primeiro pensei em olissipófago.

Mas depois lembrei-me que corria sérios riscos de má interpretação por parte dos restantes membros do ETGM – que como toda a gente sabe é um blogue rodeado de lisboetas por todos os lados menos por um, chamado istmo. Mais a diáspora e ilhas adjacentes, bem entendido.
Que se descuidem os alfacinhas porque a situação dispensa cuidados – pelo menos pela parte que me toca: adoro Lisboa, sempre foi assim, já o disse e até já o escrevi em livro. E tudo.
Mas voltemos ao olissipófago e ao seu feliz substituto olissipômago: o primeiro representará algo ou alguém que objectivamente se alimenta de Lisboa. O rol de exemplos é imenso, mas vou apenas citar aqui o que já em tempos disse sobre o assunto: «Lisboa é, à semelhança de outras capitais, refém do poder que alberga».
Com os olissipófagos já arregimentados em su sitio passemos agora ao olisspômago e derivados. Por decomposição associativa com o anterior vocábulo, rapidamente se chegará à evidência gástrica do segundo: olissipômago é aquela parte de Lisboa – individual ou colectiva – que serve de pança à ruminante capital.
Porque a capital volta e meia dá-lhe para isso, rumina – e bastante, como se irá a seguir fazer prova.
Convém antes de mais afirmar, just for the record, que nada me move contra o conhecido olissipógrafo a que me irei referir – mas o facto é que afirmações suas veiculadas no sempre amável e diário Público provam que também ele é elemento activo do agora celebrizado olissipômago. Será assim como que uma espécie de enzima.
O artigo a que me refiro viu luz no suplemento Cidades do dia 22 de Agosto, a um domingo – curiosamente no mesmo dia do ano em que cheguei de Angola , faz agora 35 anos, e, numa coincidência quase suspeita, também no mesmo dia em que faz anos a mãe da minha filha Joana (que raio de ideia a minha de meter isto aqui – mas é assim que tem de ser).
A chamada ao tema principal, com um título a puxar para o fadista – «A triste agonia das casas com histórias para contar» –, leva-nos ao trabalho da jornalista Cláudia Sobral, que assina um texto pertinente e bem documentado onde discorre e ouve discorrer sobre os vários pecados da capital em termos do seu património imobiliário ligado a figuras históricas da cidade.

Já a meio do texto, mais concretamente no subtítulo «Quando uma casa pode tornar-se num museu», ficamos a saber onde ficavam as casas de Wenceslau de Moraes e de Camões e de como a intervenção do Estado nesta matéria é notavelmente desastrosa – ou seja, uma não-notícia. Logo a seguir surge a questão da existência de um espólio interessante que consiga transmitir o espírito necessário à constituição de uma casa-museu – solução universalmente utilizada e que em Portugal tem alguns exemplos bem sucedidos e conhecidos.
Ficamos depois a saber que a casa-atelier de Alfredo Keil, na Avenida da Liberdade, não foi transformada em atelier-museu porque o respectivo espólio do poeta e pintor seguiam já viagem até Torres Novas, por decisão da família – que, segundo me informei, fartou-se de esperar por protocolos com as câmaras de Lisboa e Sintra.
Assim, embora tenha nascido em Lisboa, Alfredo Keil terá a sua casa-museu em Torres Novas – que foi quem se apresentou ao serviço.
Finalmente chegamos ao cerne da questão – mais concretamente à pança lisboeta.
Porque imediatamente a seguir ao desengonçado caso de Keil surge a seguinte afirmação:
«Infelizmente situações destas são muito frequentes”, comenta Appio Sottomayor. E dá outro exemplo: “O espólio de Eça de Queirós foi parar a Tornos, aonde ninguém vai, em vez de estar aqui numa casa digna desse nome».
Confesso que não sei o que me irritou mais, se os «Tornos» do insigne olissipógrafo, se o «foi parar» ou se a «casa digna desse nome», ou se o «aonde ninguém vai». Mas imediatamente passaram-me pelas meninges cenas cruas dum filme de zombies que conheço muito bem, chamado «O Terreiro do Poço» (já não tenho mais cópias para emprestar ou vender, desculpem lá)…
O que terá levado o sr. Sottomayor a pensar que Eça pertence a Lisboa é algo que me intriga imenso: Eça viveu em Lisboa bem pouco tempo, não nasceu lá nem lá morreu, e bem pouco ali escreveu. E o que escreveu sobre a cidade foi a desancar na capital do Império, no seu funcionalismo carrapatoso, nas suas pêgas esbotenadas, nos seus condes de fancaria, na sua ópera bufa e na mais ridícula corrida de cavalos que alguém poderá algum dia ter visto em toda a sua vida sobre a terra.
Será que o ilustre olissipômago, perdão, olissipógrafo gosta de punições?
Cruzes, será?!…
Obviamente, no Público–on line surgiram imediatamente pessoas que prestimosamente explicaram ao sr. Appio a evidência da sua desdita – acrescentando, por exemplo, que só faltava transportar a magnífica (a meu ver pouco menos que ímpar) Casa-Museu de S. Miguel de Ceide para Lisboa, pois Camilo também foi um grande português e como tal devia ser visível na capital.
E porque não, digo eu, rapinar Amadeo a Amarante e Grão Vasco a Viseu?…
É claro que também acrescentei lá o meu brevíssimo e modesto comentário. É mesmo modesto.
Aqui está ele:
«Appio Sottomayor nada sabe sobre a Fundação Eça de Queiroz.
O espólio não «foi parar a Tormes»*, como diz. Foi a família que o reuniu a partir do desejo da filha do escritor em abrigar naquela casa simbólica as memórias próximas do pai.
Além da casa e do espólio é bom não esquecer que Eça está sepultado em Santa Cruz do Douro, que existe um “Caminho do Jacinto” (a subida à serra) e toda uma função cultural visível nas inúmeras visitas escolares (e não só), bem como nas várias iniciativas de carácter nacional e até internacional.
Uma casa de Eça em Lisboa para quê? Emprego para amigos do centralismo parolo, como acontece em tantos casos?
Veja-se a Fundação Vieira e Arpad…
Eça só disse mal de Lisboa, não é de lá e viveu ali bem poucos anos. Tormes é considerada pelos queirosianos o ”sítio” mais alto do escritor, por razões de todos conhecidas.
Sr. Sottomayor: Eça não é um coche, por muito que o senhor o queira coisificado».

& toclas.

*Na secção “O Público errou” o nome de Tormes aparece rectificado. Erro de edição, parece.

Nota: não mostro fotos do interior da casa ou do espólio de Eça de propósito. Vão lá!


Comentários a “O olissipômago” (34)

  1. isabel monteiro diz:

    Comentário a quê? Ainda não vi nada

    • António Eça de Queiroz diz:

      Então Vó, ainda não viu?…

      • isabel castro diz:

        (Sabia lá, Antoninho, que o meu desabafo contra a máquina ia aqui ficar registado! Consola-me a ideia de que o seu bisavô, se tivesse lidado com computadores, não seria muito melhor do que eu.
        Entretanto soube que pelo universo dos blogues se passeia uma tal de Isabel Monteiro com quem não quero ser confundida. Optei pelo outro apelido que até rima melhor com Tormes).

        A questão que aqui se debate é mesmo de fundo, não só por respeitar a EQ e à sua/nossa Fundação, mas por ir buscar, e pelas mesmas razões, muitos outras grandes figuras. Ora aconteceu-me uma coisa inesperada. Gosto de ter opiniões firmes — mas não dogmáticas — sobre assuntos que me interessam. E não é que aqui não consigo?! Li-o, a si, e concordei logo.Lli o Pedro e também concordei. Que se passa comigo, Antoninho? Ajude-me: é melhor dedicar-me só aos netos? Mas a sério: vou passear pelos meus pinhais, serra de Sintra e verdes a guardar tão bem as palavras de Eça!, e vou pensar melhor e depois volto.

        • António Eça de Queiroz diz:

          Minha querida Isabel, a sua indecisão não é só sua: se reparar tanto eu como o Pedro — que temos opiniões distintas de princípio, acabamos a concordar em boa parte um com o outro. Mas a questão aqui é o que foi possível, não aquilo que cada um gostaria mais que tivesse acontecido…

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    E toclas, não é que gostei muito!!! Um dia tenho mesmo que ir a Tormes, eu que nunca visito casas-museu (zarpa meu, que a vida é curta!). Mas tenho curiosidade em duas, a do Borges e a do Eça. Para mim, faz sentido, de tão diferentes que são.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Zarpa meu, que a vida é curta. Quando vieres avisa, que te acompanho,
      Ainda bem que gostaste.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Nem moi, Manuel Fonseca. Mas a essas, sim. E há uma outra que gostava. Quando for, diga.

      António, gostei muito.

      • António Eça de Queiroz diz:

        Que bom, Eugénia, venha que eu faço de guia particular!

        • Eugénia de Vasconcellos diz:

          Há pouco tempo, um, dois meses no máximo, passou na rtp2 um documentário — fracote — sobre o Eça. Mas a parte boa era mesmo boa: uma entrevista, já antiga, uma peça ainda filmada a preto e branco, à sua tia avó Maria, tão inexplicavelmente menina a falar do pai, tão bonito amor admirativo. Fiquei encantada. A sua tia avó carregava nos r — estas pequeninas coisas concretas em que não se pensa -, fiquei a pensar se o pai também.

          • António Eça de Queiroz diz:

            Não, Eugénia, ele não. Os filhos todos carregavam nos érres porque a sua educação original foi a dos colégios parisienses onde estudavam. Lembro-me bem dessa entrevista — um ano ou dois antes dela morrer. Ela mantinha essa relação absoluta com o pai porque o conheceu até aos 15 anos. Eu adorava-a: mandava-me sempre uma carta pessoal no dia de anos — e sabia dos meus interesses quase tão bem como a minha mãe. Na introdução aos ‘clones’ falo bastante dela a propósito de Tormes.

  3. É assim mesmo, António. O país não tem de estar todo entre o Arcada e S. Bento. Muitas vezes, é Lisboa e anoitece.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Mas há gente que acha isso, o que é estranho pois prova apenas a velha e desgostosa frase do Eça: «Portugal é Lisboa, o resto é paisagem»…

  4. Turmalina diz:

    Perdoe a ignorânica geográfica, Benedito…mas aonde fica Tormes?

  5. Pedro diz:

    António, a expressão “foi parar a Tormes” será mal educada, a familia sentir-se-á ofendida, e com razão, e quer o espólio em Tormes. Tudo certo. Eu até me desloco mais rapidamente a Tormes do que a Lisboa. O que não podemos ignorar, e agora passamos para o plano do património literário (que é a única coisa que respeita aos que não são seus familiares) é que o lugar de Tormes conta relativamente pouco na obra do Eça. É o tal lugar desprezado e ridicularizado (e será mesmo assim?…), Lisboa, que deu ao Eça a projecção nacional e internacional que hoje tem. E que contribuiu para lhe aumentar o pecúlio, digo eu. Nem no “exílio” se esqueceu de Lisboa, porque é óbvio que esta lhe interessava, e porque o mesmo sabia perfeitamente quais os seus leitores, onde eles moravam e o que lhes interessava. Sobretudo, e acho que não há volta a dar, o Eça era um escritor de Lisboa, que em determinado momento se deixou seduzir pelo campo. A afeição que ele teria, ou deixaria de ter, por esta cidade, não tem nada a ver com isso. Balzac execrava Paris nos seus romances, chamava-lhe uma cidade corrupta, e nem por isso deixa de lá estar o seu espólio num museu. Mas pronto, por mim fique o espólio em Tormes, que até me dá jeito.

    • Pedro diz:

      Compreendo, António. Mas, não leve a mal, falando em “atmosfera”, eu preferia o Eça todo na Rua das Janelas Verdes, na Casa do Ramalhete. Não o colocaria, por exemplo, no velho Solar dos Mendes Ramires, por mais que goste (e gosto muito) da Ilustre Casa de Ramires. Isto é só uma fantasia sobre a atmosfera, porque, que eu saiba, não existe nem um nem outro. Eu concordo muito consigo numa coisa: nem tudo pode estar em Lisboa. E em havendo um lugar na “paisagem”, a que o Eça está ligado, e mesmo não sendo Tormes, como acho, a “atmosfera” mais representativa do Eça, que seja aí então, e todos confiamos que esse espólio será aí muito bem tratado e acarinhado.

  6. António Eça de Queiroz diz:

    Caro Pedro, percebo perfeitamente o seu argumento. Mas lembro-lhe que Guerra Junqueiro um dia disse de Lisboa e Eça: «Toda a gente aqui diz que já o leu, mas bem poucos são o que o fizeram». Não, não é Lisboa, Pedro, é mesmo o Eça só por si. É Lisboa, como é Leiria, Paris e Oliveira de Azeméis.
    Balzac viveu a maior parte da sua vida em Paris — o seu espólio estava lá, bem como a sua casa. Certamente que Tours não faria qualquer sentido.
    Shakespeare viveu em Londres, fez lá o seu sucesso, mas a sua casa-museu é em Strattford.
    E depois há a questão Portugal: nunca ninguém em Lisboa se lembrou do Eça para nada. Guerra da Cal, inúmeros estudiosos brasileiros (e não só), visitaram Tormes e lá contactaram a filha de Eça, minha tia-avó Maria — que ainda o conheceu bem.
    O que fez Lisboa da casa de Garrett? Um condomínio fechado…
    No tal «exílio» Eça não se esqueceu de Lisboa, nem do Rio (que não conhecia), nem do Afeganistão (idem) nem do seu Portugal menos cosmopolita.
    A questão que eu levanto aqui é uma espécie de suposta «autoridade moral» de Lisboa para reclamar de forma despótica aquilo que lhe interessa — para depois nem saber bem o que fazer com o reclamado.
    A FEQ é hoje fiel depositária dum espólio e memórias únicas de ‘A cidade e as serras’ — um livro que alguns leitores consideram menor ou mesmo escusado (Filomena Mónica). A sua atmosfera é um elo de ligação, que em Lisboa não existe a não ser na abstracção duma cidade que também já não existe como ele a descreveu.

    • Pedro diz:

      (desculpe, António, este meu comentário tinha lá ido parar acima primeiro. É para ficar aqui; que confusão)

      Compreendo, António. Mas, não leve a mal, falando em “atmosfera”, eu preferia o Eça todo na Rua das Janelas Verdes, na Casa do Ramalhete. Não o colocaria, por exemplo, no velho Solar dos Mendes Ramires, por mais que goste (e gosto muito) da Ilustre Casa de Ramires. Isto é só uma fantasia sobre a atmosfera, porque, que eu saiba, não existe nem um nem outro. Eu concordo muito consigo numa coisa: nem tudo pode estar em Lisboa. E em havendo um lugar na “paisagem”, a que o Eça está ligado, e mesmo não sendo Tormes, como acho, a “atmosfera” mais representativa do Eça, que seja aí então, e todos confiamos que esse espólio será aí muito bem tratado e acarinhado.

  7. Pedro diz:

    Um que eu nunca colocaria em Lisboa, mesmo que nujnca de lá tivesse saído, era o Aquilino. Casa Museu num solar de granito na Serra de São Macário, com fundo sonoro de lobos a uivar! (onde é, já agora, se é que existe?).

    • Joana Vasconcelos diz:

      Existe, pois, Pedro: fica em Soutosa, Moimenta da Beira. Funciona numa antiga casa de família (creio que dos avós), onde Aquilino passava as férias. Pertence à Fundação Aquilino Ribeiro.

      • Pedro diz:

        Obrigado, Joana. Soutosa, claro. Também serve muito bem. Já tenho pelo menos duas casas museu para visitar um dia quando o meu filho crescer mais um bocadito e não mexer nas coisas (ou saltar para cima da cama dos ilustres).

    • António Eça de Queiroz diz:

      A única casa que conheço ligada a Aquilino fica perto de Paredes de Coura. Seria o cenário d’ A Casa Grande de Romarigães — mas nada tem de Aquilino. É um viveiro de plantas e não está em bom estado.
      Mas o mesmo que diz se pode dizer de Pascoaes ou de Torga. Eugénio foi adoptado pelo Porto e amava o Porto. Está cá, logicamente.
      Em relação ao seu Ramalhete ideal, que percebo perfeitamente, existem uma data de ‘ses’ que, em Portugal, nada têm de condicional mas antes de paradoxal. A saber: Eça morreu, a República instalou-se e passou a desprezá-lo (por ter enjeitado os ideais republicanos, pelas histórias de santos e pelo abandono do realismo puro e duro). Eça conhecera de perto as ‘delícias’ da república, em França, e já só a via jacobina. No fim achava-se um velho anarquista desiludido…
      Ao tempo nenhum ou pouquíssimo interesse existia por estas coisas de património cultural. Havia sim uma família orgulhosa do seu maior, a quem editores e Estado conivente/ausente se fartaram de roubar anos a fio. Acresce que o afundamento do navio que trazia de Paris o grosso do espólio de Eça afundou à entrada de Lisboa — acho que em 1901. Do pouco que sobrou, a minha bisavó Emília de Castro distribui-o pelos três filhos ainda vivos.
      Nunca, em dias da vida, algum de nós aceitaria desfazer-se do que quer que fosse em favor do Estado e da sua cultura — a mesma que em 75 reduziu os direitos de autor de 100 anos para 75.
      Nunca, em dias da vida, o Estado ou Lisboa sequer quiseram saber do espólio para nada. Até ao dia em que no ‘Correio da Manhã’ saiu uma notícia a dizer que as ossadas dele corriam o risco de irem para a vala comum. Então, forçados pela opinião pública, já queriam muita pompa até ao Panteão. Nada feito — ia para Santa Cruz do Douro, para junto da filha, onde gostaria de acabar os seus dias (é sabido que sim).
      Nessa altura já a FEQ existia como fundação privada: a quinta e o espólio tinham sido vendidos à FEQ por um preço simbólico e nunca o Estado pensou que as coisas podiam ter sido doutra forma (mais um ‘se’ paradoxal). Por ano, o Ministério da Cultura contribui com a majestática soma de 25 mil euros.
      A Biblioteca Nacional possui os seus manuscritos, Lisboa uma estátua — por sinal bem bonita.
      Não há ‘ses’, como vê.

      • Pedro diz:

        António, o Eça conheceu tanto as “delicias” da monarquia, como da república. Já ele sabia muito bem em vida o que a casa gastava, com uns e outros. Cá, como é abundantemente descrito nos seus livros (seja quanto ao ar que cá se respirava, o abandono do país (a tal “paisagem), seja com os nossos republicanos, que ele caricaturizava) . Quanto a Paris, corrija-me se estou errado, mas não terá sido o horror aos jacobinos que o fez desiludir de Paris. Já ia longe a Comuna. Não terá sido antes a fartura de delicias, de civilização, tanta luz, tantos armazéns com tantos caixeiros e tanto banco atulhado de ouro, como dizia o Zé Fernandes? Eu acho que o Eça estava mesmo era a precisar de canja e de cabidela, como o Jacinto.
        Eu tenho pena que o Estado tenha agido assim, mas não falava das responsabilidades do Estado. O meu tópico era outro. De qualquer forma, não tenho como princípio achar que os (nossos) particulares cuidam melhor do nosso património do que o Estado. A Inglaterra, por exemplo, de que falava a Joana, é outra coisa. O património natural e histórico, paisagem, edifícios históricos e outros, é aí gerido por um National Trust, organização privada sem fins lucrativos. Os particulares têm aí um profundo respeito pelo que é património comum. Cá, é o que se vê. Vai-se à feira da ladra e encontra-se o nosso património ao desbarato. Azulejos, por exemplo, mudejares ou de Delft, arrancados a casas em ruinas, é mato. Temos filantropos para os salvar? Não. Os donos sabem sequer o que têm. Claro que não.
        A vossa familia, como se vê, cuida bem do seu (nosso) património. Nem sempre acontece. E é por isso que defendo que o Estado tem aqui um papel fundamental. Devia ter, devia.

        • António Eça de Queiroz diz:

          Claro que sabia, Pedro, mas eu não disse que o jacobinismo o desiludiu de Paris. O jacobinismo aplicado a Portugal teria certamente outras nuances. E o facto é que a 1ª república assentou nos pilares da Carbonária. Todos sabemos o que se seguiu até à ditadura: uma semi-guerra civil intermitente.
          E claro que estava farto do brilho excessivo da cidade, como muito bem diz. Não é por acaso que A cidade e as serras é o seu último livro.
          Mas diga-me uma coisa que ainda não percebi bem: já foi a Tormes ou não?…
          Se não, é um conselho que lhe dou vivamente.
          Vai ver que não se arrepende.
          É claro que para mim é um sítio mágico — como está bom de ver.

          • Pedro diz:

            Ainda não fui, António. Mas quero ir um dia. Interessam-me Tormes, a do Camilo e a do Aquilino, sobretudo.

            • António Eça de Queiroz diz:

              A do Camilo é um primor, e, lá está, não é privada: tudo aquilo foi trabalho da autarquia, bom trabalho, muito bom mesmo. A FEQ tem muito mais apoio da Câmara de Baião que do MC…

  8. Joana Vasconcelos diz:

    Gostei muito deste post e, sorte a minha, quando aqui cheguei para o ler, apanhei também esta vossa troca de comentários — António e Pedro -, uma extra feature de que muito beneficiei.

    Visitei há dias a casa-museu de Jane Austen. Fica em Chawton, numa pequena e lindíssima aldeia a cerca de 20 milhas de Winchester. A viagem, pelo meio do campo, na parte de cima de um daqueles fabulosos autocarros vermelhos de dois andares, é um deslumbramento. Apesar de Jane ter vivido, em Steventon, Bath, Southampton, Portsmouth, de ter passado breves períodos em Londres e de ter morrido em Winchester, onde está enterrada, foi aqui nesta casa que terminou os manuscritos dos seus primeiros livros e que escreveu todos os demais. E embora a sua memória e vestígios da sua estadia sejam evocados em todos os sítios por onde passou, é aqui que faz sentido que tenha sido instalada a casa-museu e guardada parte significativa do seu espólio. E parece-me irrelevante o facto de ser um bocadinho fora das principais rotas turísticas: quem quer mesmo, vai lá dar. Como eu. E como os milhares de visitantes que recebe ao longo de todo o ano.

    Quanto a Tormes, acrescentarei apenas a todas as pertinentes razões do António o facto de ficar na que é para mim uma das mais belas zonas de Portugal, pelo que quem se deslocar de Lisboa para visitar Eça, verá o seu esforço duplamente recompensado.

    Nunca lá fui, confesso, apesar de tantas vezes passar pertinho. Ainda o mês passado, estive mesmo por baixo, na margem do rio, do mesmo lado e tudo.
    Eugénia e Manuel, estava a pensar juntar-me ao tour ETGM … may I?

    PS — Fantástica, a foto.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Estou em crer, Jeanne, que o Manuel Fonseca não nos quer por companhia, nem ai nem ui.. Teremos de ir as duas desinquietar o nosso Antoine: o Inverno é bom para passeios porque contraria o pedido de casa, quente e quieto.

  9. António Eça de Queiroz diz:

    Mas quem poderia eu esperar que dissesse o que me faltou dizer?!…
    Touché!, Joana Maria, o duplo benefício!
    Vá, agora marquem data (o Outono é único), aluguem o autocarro que eu faço a logística para um fim de semana (saída sábado de manhã, chegada domingo ao fim da tarde).
    Para vocês, alfaces redomadas, ia ser uma aventura pura, dura (irra!) e, garanto-lhes, edificante.

  10. José Vicente Águia Imperial diz:

    Um povo que despreza os seus maiores despreza-se, no fundo, a ele próprio. Quando não existe uma ” conveniência ” directa, algum tipo de interesse material, de preferência… somos assim.
    Somos assim, meu irmão !

  11. António Eça de Queiroz diz:

    Zé, as coisas nunca ficam absolutamente paradas — quero crer.

  12. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Ó António, a casa grande de Romarigães, ao pé de Paredes do Coura, já nada tem lá para dentro, mas tem ainda um muro e portão imponentes, lindíssimos. Quanto à visita vamos a marcá-la que eu nunca fui a Tornos. A não ser de Algodres.

  13. António Eça de Queiroz diz:

    É bem verdade, Gonçalo, imponentes é o termo. Mas lá dentro é uma desilusão.
    Tornos de Algodres é ao pé de Aguiar das Bordas, não é?
    Avisem a data, que é para preparar a fanfarra dos esqueletos e o coro dos fantasmas.

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