O nariz de A. Schicklgruber Hiedler
História Particular
da Infâmia

Por mera questão de logística é-me impossível trazer para a galera da Infâmia mais do que o nariz de A. Schicklgruber Hiedler. Não só a lotação da galera logo ficaria esgotada como seria bem natural que se afundasse com tamanho peso.
Por isso limitei-me ao seu nariz.
Mas quem foi afinal A. Schicklgruber Hiedler? Para que a respectiva penca pese tanto ou mais do que alguns dos infames mais cotados mundialmente?
Um pouco de genealogia leva-nos a ele com facilidade. A sua avó, Anna Schicklgruber, pariu um Alois de pai incerto, tendo casado mais tarde com um certo Hiedler – de quem teve mais dois filhos. Os anos foram passando, Hiedler morrera já, e Alois Schicklgruber consegue convencer as autoridades do registo civil local que ele, afinal, também era filho do falecido.
No entanto, por razões aparentemente desconhecidas, o grafismo do seu novo nome nasceu alterado para Hitler. Era funcionário dos costumes, apicultor nas horas vagas, e o seu terceiro filho recebeu o nome de Adolf.
Como apenas quero enterrar o seu nariz, vamos lá falar com quem o conheceu de perto (ao nariz) e sobre ele teceu as mais variadas considerações.
O narrador é um dos filhos do escritor Thomas Mann, ele próprio escritor e homossexual assumido, aventureiro por princípio e repórter de guerra pelos Aliados, que se suicidou em 1949 com barbitúricos.
Eis o que Klaus Mann escreveu sobre o infame apêndice nasal de A. Schicklgruber Hiedler.
(A tradução do francês da obra autobiográfica Le Tournant é minha, o que nem foi nenhuma complicação já que tanto a forma como a linguagem do autor não são de exigência complexa)

Não me podiam meter na cabeça que os alemães fossem seriamente capazes de tomar Hitler por um grande homem – pelo Messias! Ele, grande? Bastava olhar para ele!
Eu tive, por várias vezes, oportunidade de estudar aquela fisionomia. Uma vez de muito perto, durante cerca de meia hora. Foi em 1932, cerca de um ano antes da tomada do poder. Ele era um frequentador assíduo do salão de chá do Carlton, facto que então eu desconhecia em absoluto quando uma tarde ali entrei para tomar um café.
Decidira-me por aquele lugar porque o café Luitopold – situado mesmo em frente, do outro lado da Briennerstrasse – se tinha recentemente tornado no ponto de encontro das SA e das SS: as pessoas decentes já não o frequentavam. O Fϋhrer, como então se percebia, partilhava a minha aversão à proximidade dos seus bravos; preferia, ele também, a intimidade e a distinção do salão de chá.
Ali estava ele, sentado, rodeado por alguns dos seus favoritos, saboreando uma tartelette de morangos. Eu sentei-me numa mesa vizinha, a menos de um metro dele. Ele comeu outra tartelette de morangos, coberta de creme batido (os bolos do Carlton eram bons); e depois uma terceira – talvez, de facto, já fosse a quarta. Eu próprio gosto de guloseimas; mas a visão da sua gulodice semi-infantil, semi-carniceira, cortou-me o apetite. Além do mais, já que o acaso me levara até ali, eu queria concentrar toda a minha atenção no pequeno guloso da mesa vizinha, o que não seria de todo possível se eu próprio, como ele, me estivesse a regalar tanto.
Dois assuntos, sobretudo, ocuparam-me durante os cerca de trinta minutos passados em tão desagradável companhia. Primeiramente, onde residiria o segredo da impressão que ele produzia, do fascínio que exercia? Em segundo lugar, quem me lembrava ele, com quem se parecia? Sem qualquer dúvida, ele parecia-se com um homem que eu não conhecia pessoalmente, mas de que vira o retrato por várias vezes. Quem seria então? Charlie Chaplin não. Deus não brinca assim! Chaplin tem de facto o bigodinho, mas de forma alguma o nariz, aquele nariz carnudo, ordinário, aquele nariz obsceno que imediatamente me bateu como o detalhe mais vil e mais característico da fisionomia de Hitler. Chaplin tem encanto, tem graça, espírito, uma grande força interior – tudo qualidades de que se não encontrava o menor traço no meu vizinho, o devorador de creme batido. Pelo contrário, este parecia de substância e constituição das menos nobres, um pequeno burguês mau de olhar turvado pela histeria numa cara pálida e inchada. Nada que fizesse acreditar em grandeza, ou sequer talento!
Certamente, não era divertido estar sentado perto de semelhante criatura; e no entanto eu não conseguia saciar-me da visão daquelas ventas repugnantes. Seguramente nunca o achara minimamente atraente, nem em efígie, nem numa tribuna iluminada; mas a fealdade que então se me apresentava ultrapassava todas as expectativas.
A vulgaridade dos seus traços tranquilizava-me, fazia-me bem. Olhava-o e pensava: tu não vais vencer, Schicklgruber, quando muito vais escacar a tua alma à força de tanto berrar. Tu queres dominar a Alemanha? Tu queres ser ditador – aí, com esse nariz? Não me faças rir! Tu tens tão mau aspecto que quase suscitas piedade – se a tua mediocridade não fosse justamente duma espécie tão especialmente repulsiva… Encomenda mais uma tartelette de morangos, Schicklgruber – é mesmo a quinta? – que daqui a uns anos não poderás mais permitir-te a tanto; um mendigo, esquecido por todos, eis o que serás dentro de poucos anos. Tu nunca chegarás ao poder!
Então ainda não havia a auréola de sangue à volta da sua cabeça, que me pusesse em guarda? Nem inscrição nas paredes do salão de chá do Carlton? Nada de inquietante se via. Nada a não ser a discreta iluminação rosada, a música em surdina, os pastéis e bolos empilhados e, no meio deste quadro idílico duma doçura de creme batido, um pequeno homem antipático mas certamente inofensivo, com um pequeno bigode cómico e ar de teimoso, que bebericava da sua chávena de chocolate, rodeado de companheiros tão insignificantes como ele.
Eu ia apanhando pedaços da sua conversa. Discutiam a apresentação duma farsa musical que ia pela primeira vez ser executada, nessa mesma noite, nos Kammerspiele de Munique.
Uma das nossas amigas mais chegadas, Thérèse Giehse, uma comediante especializada em papéis de composição, era a personagem principal. O Fϋhrer declarou que se divertira muito com esta representação. Em primeiro lugar porque as operetas em geral eram uma coisa encantadora («… um humor são… rimo-nos, por uma vez, com toda a vontade…»); segundo, e sobretudo, por causa da Giehse, que ele, o Fϋhrer, achava «muito simplesmente formidável». «Uma artista popular, como só se encontram na Alemanha», afirmava em tom provocante, assombrando-se de imediato quando um dos seus camaradas – não seria talvez o Streicher? – assinalou com cautela que a senhora, tanto quanto ele sabia, não era uma pura ariana. «Um pequeno defeito… raça não completamente irrepreensível…» murmurava desajeitado o acólito – ao que o pequeno bigodudo, que tinha falado até aí com uma circunspecção um pouco forçada, elevou a voz de forma ameaçadora. «Isso são insinuações maldosas! cortou ele franzindo as sobrancelhas. Como seu eu não fosse capaz de ver a diferença entre um talento natural germânico e a falsidade judaica!»
Eu tive de fazer um grande esforço para não me escangalhar a rir. Que pena a Giehse não estar ali para ouvir aquilo!
Tu nunca chegarás ao poder, pobre idiota Schicklgruber! pensei mais uma vez, agora muitíssimo divertido. Enquanto chamava pela empregada para pagar a minha despesa, lembrei-me de repente em quem este tipo me fazia pensar.
Haarmann
, evidentemente. Como é que a ideia não me chegara mais cedo? Vejamos, sem dúvida ele era parecido com o assassino de miúdos de Hannover, cujo processo causara sensação pouco tempo antes. E ele, o austríaco, o frequentador de operetas, sentado na mesa ao lado, seria tão eficaz como o seu duplo da Alemanha do Norte? Esse Barba Azul homossexual conseguira atrair trinta ou quarenta adolescentes à sua acolhedora alcova onde, no decorrer do acto sexual, lhes abria a garganta à dentada para depois transformar os cadáveres em deliciosas salsichas. Uma performance estupidificante, sobretudo se se imaginar que este diligente amigo das crianças era locatário numa casa exígua onde vivia rodeado de vizinhos atentos! Querer é poder: se se persegue um objectivo com tenacidade, superam-se as coisas aparentemente mais impossíveis. Eu sentia-me varado com a semelhança entre estes dois homens de acção. O bigode e a melena, o olhar velado, a boca ora triste, ora brutal, a fronte marcada, e o mesmo nariz indecente. Tudo era igual!
Isto, isto nunca chegará ao poder! Estava perfeitamente seguro do meu juízo, enquanto me dirigia para a saída. Tu és um falhado, Schicklgruber. Chegarás no máximo ao crime sádico!
Nada de auréola a sangrar? Nenhuma inscrição? Nenhum sinal de alarme? Uma nação que sempre fora tão orgulhosa dos seus poetas, dos seus pensadores, aceitava apanhar uma punaise para o homem do destino.

E realmente apanhou, essa e muitas outras.

Comentários a “O nariz de A. Schicklgruber Hiedler” (26)

  1. Turmalina diz:

    Que bela perspectiva traçada por Mann à partir de um nariz e umas poucas linhas de expressão. É uma pena que ele tenha se enganado sobre o futuro de tão repugnante figura. Aliás muitos devem ter se enganado para que ele chegasse aonde chegou.Obrigada Manuel, por revelar aqui um pouco mais da história por trás da história.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      É assim mesmo Turmalina, ainda bem que denunciou o descarado gamanço que o António fez do meu texto. Anda um homem a investigar aturadamente, passe três horas a fazer apuros sintácticos e quando chega aqui tem o texto usurpado por um autor que mete o nariz no primeiro salão de chá que lhe aparece.

      ps — muito bem esgalhado Monsieur Anthony. E a “tradução” nem parece de tão “assumida” (salvo seja) na língua nossa.

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Turmalina, a menina não seja tão distraída! Agradece ao Manuel porquê? Por ele me ter trazido para o blog? Só se for…
    Ele enganou-se mas foi só durante uns tempos, porque como era homossexual teve de fugir da Alemanha no ano seguinte. Esta autobiografia, mais do que uma história do próprio Klaus é uma verdadeira viagem entre as duas grandes guerras. Muito interessante e até divertido, poor incrível que pareça.
    Ainda bem que gostou.

    • Minas novas diz:

      Vamos lá, vou tentar colocar este comentário aqui pela enésima vez…estou tentando desde às 13:30( hora daí). Mas desta vez vou usar a lógica e tentar um novo approach.
      Antônio Benedito…perdão…confesso que não li o nome do autor..
      Mas pela introdução ou mesmo pelo nariz tive a certeza que estar lendo um texto do nosso querido Manuel.Parece que minha lógica venusiana me pregou uma peça.
      Voltando ao princípio, que texto m a r a v i l h o s o nos trouxe, rico em detalhes que eu nunca imaginei que pudessem ter existido.Muitas vezes já estive de frente para pessoas repugnantes e meus pensamentos não foram muito diferentes dos de Mann.

  3. Luciana diz:

    Antonio, sempre se pode contar contigo pra trazer os olhares mais inusitados e interessantes. Eu me repito e me repito, mas é necessário: as coisas que aprendo e com que me divirto neste extraordinário blog!

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Obrigado Luciana, ainda bem que gostaste. Este livro, Le Tournant, é fascinante pelo ambiente em que se desenrola.

  5. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Sequer tinha ouvido falar ou lido sobre Le Tournant. Mas, por ironia, sabe quem acreditava na frenologia, antropometria e afins? Os nazis.

  6. António Eça de Queiroz diz:

    Sei disso muito bem, a medição dos crânios e tudo o resto. Essa era uma das bases ‘científicas’ para a classificação rácica.
    Já falei deste livro aqui, logo depois daquele jantar a que se escapuliu… Se quiser saber mais procure nos meus textos um ‘À atenção do JNA’.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Merci, António. Acabo de reler esse seu texto que até a capa do livro tem.. mas sabe, não o associei a este. De todo. E nem sequer posso atribuir isso à minha memória medíocre, só ao desconhecimento total de KM.

  7. Orcama diz:

    E a minha Santa Ignorância a julgar que o apêndice característico era o bigode, já que de narigudo ariano o adolfinho pouco teria…
    O que o meu amigo, M. Antoine, se lembra de nos assinalar…

    • António Eça de Queiroz diz:

      Orcama amigo, o Antoine está contigo!
      Gosto muito desta descrição, além de que acho realmente que o nariz diz muito do seu utente…

  8. pedro marta santos diz:

    Esta secção começa a ganhar qualidade literária. Edição à vista ?

  9. António Eça de Queiroz diz:

    Why not?…

  10. Turmalina diz:

    Afff Antonio Benedito…perdão…confesso que não li o nome do autor..
    Mas pela introdução ou mesmo pelo nariz tive a certeza que estar lendo um texto do nosso querido Manuel.Parece que minha lógica venusiana me pregou uma peça.Achei que até o francês fosse dele tb.
    Voltando ao princípio, que texto m a r a v i l h o s o nos trouxe, rico em detalhes que eu nunca imaginei que pudessem ter existido.Muitas vezes já estive de frente para pessoas repugnantes e meus pensamentos não foram muito diferentes dos de Mann.

  11. Turmalina diz:

    Acho que é décima sexta vez que tento colocar um comentário aqui.Mas eu sou teimosa! Então vamos lá outra vez:
    António Benedito…perdão…confesso que não li o nome do autor..
    Mas pela introdução ou mesmo pelo nariz tive a certeza que estar lendo um texto do nosso querido Manuel.Parece que minha lógica venusiana me pregou uma peça.
    Voltando ao princípio, que texto m a r a v i l h o s o nos trouxe, rico em detalhes que eu nunca imaginei que pudessem ter existido.Muitas vezes já estive de frente para pessoas repugnantes e meus pensamentos não foram muito diferentes dos de Mann.

  12. Joana Vasconcelos diz:

    António, o que eu gostei da pérfida (e por isso mesmo adequadíssima) maneira como enterrou esta figura, no local onde tanto e tão eficazmente se esforçou por vir parar.

    O ridículo, já se sabe, mata e este texto é absolutamente letal. São devastadoras as reflexões sobre o grosseiro nariz do dito. Mas mais devastadoras ainda, se possível, são a descrição e as considerações sobre e a insaciável sofreguidão com que o em-breve-Fürer devorava em série tarteletes de morango cobertas de natas. Fez-me lembrar algo que li em tempos sobre o deplorável gosto musical deste seu morto, a quem puxava muito o pézinho para a opereta — em especial para a obra de Leher, com destaque para A Viúva Alegre, descrita com grande frequência pelos críticos da especialidade como um monte de chantilly …

    • Teresa Font diz:

      Joana, gostei tanto do seu comentário. Não diria melhor porque diria pior.
      Aquele nariz a chafurdar nas natas…
      A parafrasear o outro Mann — “Quem assassina bolos, acaba a assassinar pessoas”

  13. Minas Novas diz:

    Antônio Benedito…perdão…confesso que não li o nome do autor..
    Mas pela introdução ou mesmo pelo nariz tive a certeza que estar lendo um texto do nosso querido Manuel.Parece que minha lógica venusiana me pregou uma peça.
    Voltando ao princípio, que texto m a r a v i l h o s o nos trouxe, rico em detalhes que eu nunca imaginei que pudessem ter existido.Muitas vezes já estive de frente para pessoas repugnantes e meus pensamentos não foram muito diferentes dos de Mann.
    Esta é a enésima tentativa de postar um comment aqui. Mudei até o approach prá ver se funciona…

  14. António Eça de Queiroz diz:

    Bate certo, não é?
    A Viúva Alegre além do mais é uma estopada pirosa — o que também bate certo.
    Ainda bem que gostou, Joana.

  15. Teresa Font diz:

    António, copy paste das palavras da Luciana.
    Que bem que se escreve aqui.
    Lá vou à procura do outro texto.

  16. António Eça de Queiroz diz:

    Ainda bem que gostou, Teresa.
    Quanto à avó Schicklgruber, bastava ter estado quietinha naquele dia, fechada a sete chaves…

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