
Domingo ao princípio da noite, àquela hora em que as preocupações da próxima semana se condensam e corroem a pequena paz ganha no fim-de-semana, descobri que o magistral Professor Arnold J. Toynbee nunca poderia ter sido sportinguista.
Em Alvalade é fácil a mente divagar, tão melancólico costuma ser o futebol que por lá acontece, feito de tímidos passes no meio campo, num baloiçar sem ousadia ou norte, incapaz de atingir a profundidade dos míticos, senão místicos, “últimos 20 metros” – até que alguém tropeça ou se engana, a bola se perde e o carrossel recomeça. Um funesto enredo que voltou a suceder neste domingo, ao qual se acrescentou a fascinante performance do wolverine Nuno André Coelho, que em 2 jogos esteve envolvido na cedência de 3 golos, com o prejuízo de 5 pontos – auguram-se ainda maiores feitos deste atleta.
Donde a ocorrência de Toynbee, rememorando “A Study of History” acerca da origem, apogeu e queda das civilizações.
A verdade, é que presos no nosso tempo histórico, estamos impossibilitados de distinguir se isto é a decadência, na sua irreversível marcha, ou se não passa de uma crise, aguda por certo, mas com saída. Ou como dizia o outro: vemos já uma luz ao fundo do túnel, esperemos que não seja um comboio a vir na nossa direção.
Não, professor Toynbee, nunca sabemos, quando devíamos e era preciso, para onde apontam os sinais que manifestamente se exibem. O declínio das civilizações, só nos apercebemos da sua inevitabilidade quando já tudo é pó, porque durante esse período histórico que nos foi dado viver, mais não temos do que a cegueira da crença e da vontade, a impedir-nos de desistir e a impelir-nos à procura da solução. Assim o Sporting.
São muito filosóficos os serões em Alvalade, não são? Que outros clubes, desses enraivecidos pela necessidade de vitórias, propiciam igual alimento para o espírito e estímulo para os nervos?

















Zé, partilho da teu desalento: a civilização sportinguista está a entrar na fase ‘mamute’. A pírrica esperança é a de que a civilização benfiquista entre depressa na sua fase ‘archeoptérix’.
Queria ter tal estoicismo pra analisar o desempenho do meu time. Ainda estou apegada a rituais primitivos como uhhhss e ahhhhsss e bater a cabeça na parede. Devo confessar que não funciona nada, nadinha, mas pelo menos a dor muda de lugar…
Meu caro José Navarro, companheiro de infortúnio. Como qualquer bom escolástico diria, é preciso distinguir. Eu sou do Sporting. Mas aquilo não é o Sporting. Logo, eu não sofro quando o Oliveirense perde ou empata um jogo.
A única coisa que fica por explicar é porque é que o Oliveirense agora joga de verde e branco e no estádio de Alvalade!?
Seja como for, mandem lá embora aquele senhor do cabelo branco para eu poder voltar a gostar do meu Sporting.
Ontem (mais exactamente ante-ontem, domingo), ao fim da tarde, em plena actividade materno-recolectora por duas vezes passei (ida e volta) pela zona do Campo Grande, no espaço de poucos minutos. Dei por mim, parada nos semáforos, a espreitar interessadíssima os estabelecimentos de restauração sobre rodas — a ver se descobria o tal do Sagitário e também se avistava V.Exa., de sandes na mão, a dissertar. Depois ocorreu-me que ao jogo se seguiria mais um destes seus textos sobre bola e fiquei em grande expectativa.
Nada disto é evidentemente normal. E a culpa é sua, JNA. E da elevada sofisticação com que escreve (ainda que não no tom celebratório sugerido pelo nosso editorial) sobre este específico conjunto de mortos.
Eu dou-lhe a “elevada sofisticação”: considere-se convidada para uma sessão de melancolia sportinguista ao vivo (tem é que ser da fé, senão é batota) e no fim ofereço-lhe a bifana com a mine debaixo do viaduto — só para ver como elas doem…