Para assinalar os cinquenta anos da publicação de To Kill a Mockingbird, de Harper Lee, em Julho de 1960, a edição online da Time passa em revista The Top 10 Books You Were Forced To Read in School. Ei-los:
- To Kill a Mockingbird, Harper Lee
- Of Mice and Men, John Steinbeck
- A Separate Peace, John Knowles
- The Catcher in the Rye, J. D. Salinger
- Animal Farm, George Orwell
- Lord of the Flies, William Golding
- The Great Gatsby, F. Scott Fitzgerald
- A Farewell to Arms, Ernest Hemingway
- The Scarlett Letter, Nathaniel Hawthorne
- Macbeth, William Shakespeare
Contra o que poderia sugerir o título, são positivas e deeply heartfelt as reviews dos livros que integram esta lista. Li-as todas e gostei muito, tanto que fiquei com vontade de reler, ou de finalmente ler, vários deles.
Seguiu-se o inevitável — e eu? que lista faria? que livros lidos na escola, estudados nas aulas, nela incluiria?
Fiz por me lembrar. E, ao fazê-lo, abri, mais que o baú das memórias, a própria caixa de Pandora. Porque se dos livros que I was forced to read in school, boa parte se habilitaria sem problemas ao Top 10, outros há que, sem pestanejar, eu remeteria para uma lista negra, de livros de que não gostei, porque me maçaram, me exasperaram, me incomodaram.
Em tempo de regresso às aulas, proponho-vos um pequeno desafio. Que nos apresentem a vossa lista dos 10 Melhores Livros Lidos na Escola. Ou, caso optem por seguir o meu péssimo exemplo, que nos revelem os 5 Melhores e os 5 Piores, desses mesmos livros. Então aqui vai:
OS 5 MAIS*
- Os Maias, Eça de Queiroz
- Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente
- El Rei Junot, Raúl Brandão
- Contos Exemplares, Sophia de Mello Breyner Andresen
- A Queda de Um Anjo, Camilo Castelo Branco
OS 5 MENOS**
- Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos, Alves Redol
- Viagens na Minha Terra, Almeida Garrett
- A Sibila, Agustina Bessa-Luís
- Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco
- Menina e Moça, Bernardim Ribeiro
Sobre estas minhas escolhas, direi apenas que, tirando um ou outro caso em que o livro é tão bom que resiste a tudo*** ou tão mau que não tem remissão****, a inclusão numa ou noutra destas listas (ou o envio para o limbo dos indiferentes) tem muito a ver com a forma como foi abordado e analisado nas aulas. Muitos destes e vários outros livros foram dissecados, esmiuçados e submetidos a uma exegese ainda hoje para mim incompreensível de espaços e tempos, físicos e psicológicos, de refeições e vestuário, de meios de transporte e de alusões autobiográficas que me levava ao desespero. Quem nunca os tivesse lido, quem não conhecesse já Eça, Júlio Dinis, Torga ou Herculano juraria para sempre manter-se longe de tais autores. E não tinha de ser, não foi felizmente, sempre assim: a diferença faziam-na evidentemente as professoras. Como a que tive no 9.º ano e graças à qual fiquei para sempre encantada com Camões e Gil Vicente. Ou, quite the opposite, a do 11.º ano, que irremediavelmente traumatizou toda uma turma com a forma como esquartejava diante dos nossos olhos (quase sempre a quererem fechar-se…) todos e cada um dos livros incluídos no programa. Enquanto citava, a propósito e a despropósito, Lope de Vega — era espanhola, a setôra — que nós não fazíamos nem ideia de quem fosse, mas que de imediato passámos (também) a abominar.
Mas mesmo esta delirante experiência***** teve um lado realmente positivo: não a tivesse eu suportado e decerto não desfrutaria tanto esta cena, uma das minhas em absoluto preferidas, que não me canso de ver e rever …
* É claro que ao reduzir a lista para 5, tive de deixar de fora uns quantos de que também gostei, como Eurico, o Presbítero, de Alexandre Herculano; Bichos e Novos Contos da Montanha, de Miguel Torga; Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente; Dom Casmurro, de Machado de Assis; A Castro, de António Ferreira
** Suponho que me ficaria bem professar a intenção de, older and wiser, os reler a todos nos tempos mais próximos: faço-o, pois, aqui e agora, para que conste …
*** Caso dos tão maltratados e resilientíssimos Os Maias … não tivesse eu por essa altura já bem avançada na leitura dos Eças e teria sido lindo …
**** O quê? A sério que achavam que eu ia dizer? Acaso não me desgracei já que chegue por hoje?
***** Devo dizer que as houve mais, do mesmo género e qualidade, se bem que não tão marcantes.


















Joana, grande desafio. Eu alinho. Sei que tivemos Camões, Garrett, o insuportável Herculano, não sei quantos Gil Vicente, Eça. Mas tinhamos mais antologias e menos títulos obrigatórios — está a ver como eu sou velho… Não interessa, vou à luta.
E com mais uma fotografia, não é, Manuel Fonseca?
Eugénia, fotografia de quem? Da Joana ou sua? Ou uma com as duas? Não esta a pensar que publiquemos fotos do Eça ou do Camilo em bebés, pois não?
Sua! De quando os leu, ou já fechou o álbum?
Manuel, gosto muitíssimo que tenha gostado e que alinhe no desafio! Fico, mortinha de curiosidade, à espera — da sua lista e/ou listas, mas também da linda foto, claro (excelente ideia, as always, Eugénia…)
Partilho de alguns dos seus 5 mais (Os Maias, Auto da Barca do Inferno e Contos Exemplares) e 5 menos (Viagens na Minha Terra, A Sibila e Amor de Perdição), aos quais — a um grupo e a outro — acrescento outros tantos livros obrigatórios. Alguns dos que indica, porém, não eram obrigatórios no meu tempo.
Tem toda a razão, deve-se muito à forma como foram analisados e aos professores de Português o maior gosto quanto a uns e o desenvolvimento de uma boa dose de aversão em relação a outros… Apesar de ter tido sempre óptimos professores de Português — quase todos novos, divertidos e com uma forma um bocadinho invulgar (mas bem mais cativante) de ensinar — momentos houve em que, não sei bem porquê, viam enorme interesse em notas biográficas e gigantescas descrições como as que refere que, claro, me deixavam e aos meus colegas a ponto de arrancar cabelos de desespero e me levavam — particularmente faladora e cheia de lata como sempre fui — a perguntar “Stôr(a), ainda falta muito?”.
PS: Gostei da fotografia! :)
Teresinha, que óptimo que gostou, do lindo post & da linda foto! E gosto muito de saber que partilhamos gostos e desgostos e experiências de inolvidável seca nas aulas de português … mas o que eu queria mesmo era uma lista de 5+ e -, ou seja, a sua resposta ao desafio está incompleta! Muito incompleta mesmo.
Mas como sou realmente justa, dou-lhe ainda oportunidade de se redimir: tem até logo à noite para apresentar aqui a listinha completa dos 10+ ou dos 5+ e 5– … Andor trabalhar, é o que é …
Cumprindo com o que foi pedido (ora tome que já levou com o Professoral — obrigada, António!), cá deixo a minha lista, não de 5, mas de 8+ e 8-. Cá vai:
Os 8 mais:
- Memorial do Convento, José Saramago;
– Os Maias, Eça de Queiroz;
– Felizmente há Luar, Luís de Sttau Monteiro;
– Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente;
– O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, Jorge Amado;
– Contos Exemplares, Sophia de Mello Breyner;
– Folhas Caídas, Almeida Garrett.
– Os Lusíadas, Luís Vaz de Camões (só mesmo graças às fantásticas aulas em que a Professora, apesar de nos obrigar a analisar tudo ao pormenor, nos explicava recursos de estilo, ensinava a classificar orações e a dividir em sílabas métricas — entre outras coisas igualmente maçadoras — com recurso a músicas que cantávamos nas aulas e a pequenos teatros e trabalhos engraçados que íamos fazendo).
Os 8 menos:
- Manhã Submersa, Vergílio Ferreira;
– A Sibila, Agustina Bessa-Luís;
– Peregrinação, Fernão Mendes Pinto;
– O Romance de Amadis, Afonso Lopes Vieira;
– Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco;
– Viagens na Minha Terra, Almeida Garrett;
– Sexta-Feira ou a Vida Selvagem, Michel Tournier;
– A Vida Mágica da Sementinha, Alves Redol.
Outros há que poderiam engrossar mais as duas listas, mas, para já, parece-me que fica cumprido o desafio!
Belas listas, Teresa.
Eu também gostei muito do Felizmente há Luar e muitíssimo do Memorial do Convento, que li, não na escola, mas em férias …
A sua secção sombria é deveras impressionante: hão-de ter sido anos bem duros … três dos que me amarguraram a vida e, ainda, Virgílio Ferreira, Deus do Céu, o Amadis, misericórdia, e a Vida Mágica da Sementinha … isso existe??!
Agora que superou com distinção este desafio, a SURPRESA!!!
Teresa, parabéns, passou à fase seguinte: reler todos os livros da lista de menos para ter a confortante certeza, de que é lá que eles estão bem.
Sim, eu sei que são oito, mas quem é que a manda ser uma exagerada?
E além disso é para aprender (eu estou sempre a ensinar, já se sabe) a não implicar comigo e a deixar-se levar pela péssima influência do AEQ.
PS — Quando acabar de reler a tal da Sementinha, acha que ma pode emprestar? Eu posso mandar-lhe o Constantino, por essa altura já o terei todo reldinho … Tipo Alves Redol, por Alves Redol …
Oh não!!! Reler todos aqueles livros (viu mesmo bem quais eram????!) é um verdadeiro suplício!
Sim, A Vida Mágica da Sementinha existe e não é mesmo nada agradável (algo que me obrigaram a ler algures pelo 6.º ano). Julgo até que já deixou de ser leitura obrigatória porque o meu irmão — 6 anos mais novo — já não teve que o ler (sorte a dele!).
Levo-lhe A Vida Mágica da Sementinha quando quiser :)
Tenho uma contraproposta para esta nova fase… Acho que temos que nos adaptar aos novos tempos, pelo que proponho reler os livros que integram a categoria dos menos mas só aqueles que ainda são de leitura obrigatória. Não lhe parece justo? Olhe que os que ali estão foram todos lidos há menos de 10 anos.… haja piedade!
Jeanne! Que igual a si e à sua filha Madalena é a menina bonita da fotografia.. porque será?
Trata-se de uma antepassada minha e da Madalena, não muito remota — a foto, creio, é de 1977 ou 1978, andava a dita na 3.ª ou 4.ª classe…
Mas em matéria de parecenças, Eugénia, se a Madalena as tem e cada vez mais pronunciadas, o verdadeiro clone — tirando a parte da canhotice — regressou hoje à escola, importantíssima por ir para o agora chamado 3.º ano …
Joana, que grande desafio (2)! Tenho certeza que minha lista de leituras para os fins-de-semana e férias aumentarão substancialmente. E que foto incrível.
PS. Também não me canso de rever este filme, ou ainda, esta cena.
Luciana, fico muito contente por ter gostado! E espero, realmente curiosa, a sua ou suas listas … ou pensa que um oceanozito pelo meio serve de desculpa??? ;)
Joana, estava passeando só a apreciar. Não tinha percebido que me cabia trabalho. Lépida e fagueira, pego do alguidar e passo ao labor. Amanhã de manhã (minha manhã, bem explicado), pode procurar e lá estará. Já sabe que não pedes, ordenas.
Que cara malandra! Mais um bocadinho e metia o dedo no nariz, aposto…
Como eu sou mais antigo que o Manuel, uma autêntica carcaça, nem antologias nos davam — era assim mais uns excertos.
Mas apanhei o chatíssimo Frei Luís de Sousa inteiro, Lusíadas em cascata recitante, e coisas de Camilo e Eça — de quem gostei logo (mais do Eça, claro).
Cara malandra?!?! Um ar sério e compenetrado num qualquer exercício que metia conjuntos com peixes ou relógios sem ponteiros, a tentar disfarçar o incómodo causado pelo fotógrafo melga que não parava de nos flashar — isto depois de nos ter martirizado no recreio a exigir que fizéssemos coimboiozinhos e rodinhas em ambiente de grande felicidade (e não, é claro que não vou mostrar tão lamentáveis imagens …) … Ó valha-me Deus!
Agora os livros, António Benedito, isto não é uma lista em parte nenhuma do mundo! E eu quero uma lista grande só de bons ou duas pequeninas, uma de bons e outra de maus — e sim pode ser de excertos, trechos, bocados, fatias, nacos de livros … o que até lhe facilita a vida … E depressinha, sim? Mas que coisa …
PS –Mas que ideia mais peregrina, essa de se autodenominar carcaça: dragão dava mais ou menos a mesma ideia de vetustez, mas sempre disfarçava …
Shiu, Joana Maria, que dragão é coisa sagrada. E «carcaça», «velha carcaça», foi como você considerou o meu amigo Arsénio Lobão — e nós somos exactamente da mesma idade!
Quanto à lista tenha lá calma — que a memória não é tão elástica assim. Você é muito professoral: primeiro a ‘short’já que o mês vai a meio; agora faz listas e quer que todos façam listas…
E se eu não me lembrar?!…
Como é?
Esta do professoral agora matou-me! Até fiquei comovida, juro: finalmente alguém reconhece as minhas naturais sabedoria, autoridade e gravitas … ao fim de anos e anos de incompreensão de irmão, primos, amigas (sim, as grandes ingratas), colegas e até filhas, a chamarem-me mandona e outros mimos que não vêm agora ao caso … Inda dizem que os dragões não são sábios!
Só por isso, António Arsénio, dou-lhe até amanhã de manhã! Desembrulhe-se!
Este post tem sumo demais para uma respostazeca assim. Vou ver se consigo dar réplica decente. Aliás já tínhamos começado a dsicussão à roda do Cosntantinio, não foi? Só não lhe perdôo que tenha posto o mais belo livro da língua portuguesa na lista dos menos.
Zé, veja lá se por amor de Deus me organiza essa réplica! É que desde a discussão sobre o Constantino que fiquei mesmo, mesmo, mesmo curiosa para saber o que daí sairia …
Quanto ao sacrilégio que me recrimina … é que não estou mesmo a ver … não sendo o Constantino … será a Menina e Moça? o Amor de Perdição? Esclareça-me, por caridade, e assim escuso de os reler a todos os 5, que esta vida é demasiado curta para desnecessários sofrimentos auto-inflingidos …
É A Sibila, Joana…
O texto que mais me marcou no meu percurso Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho foi um texto de Helberto Helder que a a professora de Fisolfia nos fez comentar no 1º dia sw filosofia. Bloqueamos completamente e eu entendi que podia dizer para além do que era consentido. O texto está no meu blog
emendou: não foi a professora de filosofia mas a de História.
Ana, fiquei curiosa e não serei caso único … será muito abuso pedir-lhe que deixe aqui o link?
Aqui fica o link
http://bloguesennome.blogspot.com/2010/09/no-regresso-as-aulas.html
Joana, a despropósito como diria a EV. Aceito o desafio só não sei quando salvo a dívida. E deu-me para citar Calvino (Italo, porque o outro era um chato): “ninguém deve achar que os clássicos devem ser lidos porque servem um propósito. A melhor razão que pode ser aduzida a seu favor é a de que ler um clássico é sempre melhor do que não lê-lo.” A tradução, paupérrima, é responsabilidade minha, bien entendu.
Pois sim, aceite lá o que quiser e salve esta dívida quando bem entender.. Mas saiba que a outra dívida já está corada do atraso: onde está o seu eu por crescer?!