E dizer: ó ceu, ó mar, ó clã, ó destino!

George Stevens, Swing Time, 1936

Filósofos franceses & as Auto-Peças O Fialho

[com o pensar em David Foster Wallace, apesar da ausência de notas de rodapé]

“Então passei a contemplar a sabedoria, e a loucura e a estultícia. Pois que fará o homem que seguir ao rei? O mesmo que outros já fizeram”.

[Eclesiastes, 2,12]


Parece que a diferença de perspectiva entre os 20 e os 40 hoje em dia não é assim tão grande. Vejamos, a distância entre essa perspectiva é, às vezes, menos de uma década. E as décadas encolheram, uma vez que a perspectiva de vida aumentou no mundo todo. E essa vida virtualizou-se. Verdade, que aos vinte, o mundo é mais novidade. Aquela luz que se vê no rosto da menina, também se reproduz, em ilusão, refletida nas dobras da cortina, quando você volta para o quarto, bêbado e feliz, cheio de sonhos e projetos, depois de gastar sua mesada comprando tratados de pensadores franceses ou exilados romenos, que posam para fotos com ares e bicos fatais, mas que você acha que são muito legais. A luz do sol – maior em dias de estio, menor nos de chuva – sempre guarda um matiz aprazível. Afinal, você não tem contas a pagar. Ex-mulheres para encher teu saco. Ainda não meteu o nariz para fora do casaco de papai. E conferiu um pouco do que este vasto mundo tem, de fato, a desoferecer ou oferecer, sem ser propriamente teu retrato. Não tem filhos para cuidar. Porque é você que ainda é cuidado. Não tem aquela menininha que quer porque quer ouvir pela décima primeira vez a mesma história. E se revolta, se você não contar a historinha do mesmo jeito, com o mesmo entusiasmo e ca-pri-cho-sa-men-te as mesmas pausas, entonações, onomatopeias. Até com aquele sopro bufado no meio, que ela tanto gosta. E aí você tem de ser leitor e sonoplasta. Senão ela chora. E, por uma misteriosa razão, você não quer que ela chore. Mas, indo adiante, você ainda não teve projetos profissionais, que você sabia bons ou ao menos normais, arrasados por imbecis que galgaram para a sub-chefia do teu departamento a custa de muito puxa-saquismo e falta de visão – mas entendem que você deve trabalhar dobrado para a glória da firma, dos cofres e, sobretudo, do patrão que está logo acima dele – e que é seu deus e senhor (que ele, anjo decaído e travesti de Silvério dos Reis nas horas vagas) está doido para depor na primeira ocasião. E para depois arrotar: eu sou o melhor. Tenho uma Hilux e namoro uma das dançarinas dos Aviões do Forró. Aos vinte, você tem a mamãe para passar a mão no cabelo quando você sente certas dores no cotovelo. E um cão sem pulgas a levar a passeio. Todos os teus amigos são solteiros, gastam suas mesadinhas, estágios e parcos salários de primeiros empregos, bolsinhas de pós-graduação, com cinema, cerveja, futebol, praia, putas e um brinquinho de aros para a eleita no Dia dos Namorados. Ou comem-se entre si feito loucos. Mas seu fetiche maior é simples. Não vai muito além de traçar aquela coroa recém-separada que nunca olha para você no elevador — enquanto outras coisas se elevam, involuntariamente. E você pondera: será tarde para ser surfista? Talvez ela goste de um tipo mais… esportista. Será preciso mudar de look? Mas outra coisa que você quer mesmo é ser amigo daquele escritor famoso, no Facebook. E quanta especiaria! Fumar uns baseados, cafungar umas carreiras e sentir-se um gênio deslocado, incompreendido e solitário, o ser humano mais desgraçado de todo Dionísio Torres. Aos vinte ainda se pode ser de garçom a alto-executivo. E com muito menos insônia do que se imagina. E muito menos castigo. Pode-se pôr uma mochila nas costas e pegar carona até a Patagônia. E achar que o mundo gira em torno do teu umbigo. Pode-se ser irônico. Ter seu ritmo. Deslizar. Fazer isso, dizer aquilo. Sorrir após a aprovação de tuas frases de efeito. Tentar cativar os mais velhos com suas piruetinhas para ganhar o pirulito do elogio. E sentir-se a revelação da vez. Você tem códigos próprios, gírias, gestos tribais e acha isso muito bacana. Ter convicções inarredáveis. Ídolos. Porta-vozes. Aquele guitarrista que exprime o que você sente. Aquela cantora que escande com tamanha veemência os versos que, com toda certeza, foram feitos sob medida para quando você está curtindo aquela deprê por causa da menina dos brinquinhos de aro, que ora lhe passou para trás e anda de namoro com um robusto ferrabrás, um personal trainerqualquer dessa vida mais saudável, a que todos aspiram. Ou, se do contrário, está contente, ao ouvir a cantora, dá pulos de alegria quase em estágio de epitalâmio como quando você foi na Disneylânia. Você pode sonhar com uma ampla geografia. E querer passar uns meses na Groenlândia. Mas resolve seus problemas sexuais mesmo é com aquela filha de um funcionário do fórum que mora na Gentilândia. Agora, numa noite de sorte, pode até deitar com uma hippie argentina e depois uma deusa de ébano soteropolitana. Por turnos ou simultaneamente. Pode assistir filmes de Bertolucci e achar que a vida não é assim tão diferente. Escolher uma menina para namorar que guarde nem que seja uma nesga de semelhança com Liv Tyler. E tentar roubar-lhe a beleza. Embora você seja tão purista que acaba por achar que a sua Liv, bem, tem algumas espinhas a mais no rosto e uns lábios não tão carnudos. Ainda que o rosto fosse da maciez da espuma-do-mar e os lábios duas polpas de pitanga antes de você gozar. E, fora da alcova, brigar muito com seus pais, com seus professores. Faz parte. Cavar polêmicas tão altissonantes quanto ocas. Contestar os “coroas”, os “caretas”, as “patrulhas”. E curtir a galera. Tudo isso para escapar da tua louca e vera vontade de comer a mamãe. Comprar uma guitarra e sequer aprender a tocar “Sunshine of Your Love”. Aos vinte você é uma promessa. É mercurial como o sol de abril desabando em finas aparas de luz sobre as ruas de Fortaleza às duas da tarde, quando, à sombra, sente-se a brisa roçar o rosto feito um afago. Há algo de semi-deus grego em você. E ainda não de Otelo e de Iago. Você está para terminar a faculdade com aquele vago sentimento de haver feito o curso errado. Mas para e pensa: ainda dá tempo. E, com as engrenagens a mil em tua cabeça, inventa logo três diferentes futuros: monge budista, proprietário das Auto Peças O Fialho – o sobrenome da família – ou comissário da ONU para assuntos estratégicos no Alto Volta. E isso não parece sanha, mas a coisa mais sã. De repente, você está comendo em Paris e cagando em Amsterdam. Mesmo sem sair da Aldeota. É um pouco o colateral de tanto pó. De tantos Ciórans e Benjamins da estante pra cachola. Do tanto que você deixa sua mesada com o traficante. Tudo semelha um feature. E, no filme, claro, você é sempre o mocinho, o centro do mundo, todos se curvam ante sua passagem mesmo sem saber. Ainda que você seja aquele anti-herói mal-barbeado com um cigarro ao canto do lábio, tipo Albert Camus ou Mickey Rourke, o jovem; aquele que todos desprezam e anda sempre olhando para o chão com cabisbaixos olhos fatais, chutando latas, o nada ou algo mais. VOCÊ tem elã,VOCÊ é demais. O cultivo dessa auto-adoração sob forma do solitário maldito é a sua tara. Os outros é que não notam. Mas VOCÊ sabe: VOCÊ é o cara! Agora, a câmera nota. Pois deixa os outros sempre em segundo plano e desfocados. Aos vinte, a câmera adora VOCÊ e VOCÊ se sente adorado por ela. Mesmo nos momentos mais violentos. Mesmo nos mais fatais. 
O problema é que tudo isso esgota sem mais. O filme, súbito, acaba antes mesmo de ser editado. Sem aviso prévio. E quando se olha para trás, de volta para o espelho, já não se tem muito remédio. E então se solicita uma troca, um corte para a próxima cena, e — que acinte! — a câmera já não está mais lá, passou para a geração seguinte. De início, você se revolta, tenta voltar ao proscênio, volver a los vinte! Como pode, logo você, virando figurante!? Um extra que passa tão desapercebido quanto um asceta essênio. E era tudo do que você mais temia. Ser uma daquelas figuras deslustradas, desfocadas, em segundo plano, perto da coxia dos tempos em que VOCÊ era o galã. Então desanda a malhar feito louco, maromba pesado, corre quilômetros, toma suplementos alimentares e açaís, implanta reservas capilares sobre os pampas da calva, submete-se ao terrível exame de próstata, tinge o gris nas costeletas. Mas, nas Auto Peças O Fialho da vida, mesmo o botox que se enxerta no rosto não substitui a selvageria de ter vinte anos. Como o tempo pode ter passado assim tão sem você se sentir entrando pelos canos? 
E agora, aos quarenta, é você quem vende canos de escape, bobinas e calotas, atrás do balcão. E o fato de voltar a ter mais cabelos na cabeça de novo parece não haver melhorado as ideias dentro dela. Mesmo passando rápido, os dias são quase o mesmo. A mesma esparrela. Ao fim de um deles, você coça o ventre, já proeminente, ou as partes menos eminentes. Fecha o caixa. E pede para o Anísio descer a porta corrediça, porque já são seis e meia da tarde e você tem que pegar a Emília na aula de francês e o Fialho Jr. na capoeira. E, então, ao chegar no condomínio, responder uns imeios desejando aos clientes, fornecedores e amigos: “Felicidades!”, a época é de festas. E, por fim, sem erro, tomar seu uísque e falar da vida alheia no bar do Ideal Clube. Que ninguém é de ferro.


appendix: DOIS POEMAS DE LEMINSKI COMEÇANDO COM “UM DIA”

um dia quero ser 
um grande poeta inglês 
do século passado 
dizer 
ó céu ó mar ó clã ó destino 
lutar na índia em 1866 
e sumir num naufrágio clandestino

* * *

um dia 
a gente ia ser homero 
a obra nada menos que uma ilíada

depois 
a barra pesando 
dava pra ser aí um rimbaud 
um ungaretti um fernando pessoa qualquer 
um lorca um eluárd um ginsberg

por fim 
acabamos o pequeno poeta de província 
que sempre fomos 
por trás de tantas máscaras 
que o tempo tratou como a flores

* * *

Comentários a “E dizer: ó ceu, ó mar, ó clã, ó destino!” (8)

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Ruy, este seu impiedoso périplo pela rua da ilusão, deixou-me meio de sorriso cínico e de saudade descabelada. E lá por isso não julgue que me deixei seduzir menos, frase a frase, pela galeria feminina que pintou: se o o seu herói de 20 anos permite, roubo-lhe a hippie argentina.

  2. Luciana diz:

    Fui dormir no desassossego, abraçada com O bandido que sabia latim (a biografia do Leminski). Acordo com ele, aqui, mas antecedido por palavras e lugares que me são tão caros porque já foram próximos e hoje distantes: Dionísio Torres, Aldeota, Gentilândia (meus tantos, oh, tantos desatinos)…antecedido pela mais divertida reflexão.
    As coisas inesperadas que encontro neste extraordinário blog!

  3. Teresa Font diz:

    Um dia ai um dia eu ia ser tão linda — e as malditas sardas iam desaparecer.
    E que bem que havia de pintar. E que bem que havia de escrever
    e todos a olharem enquanto dançava com o principe
    e que doce ia ser aquele filho só meu.
    Que coisas inesperadas há por aqui, Luciana, pois é.
    E tão melhores que a inesperada conta da Vodafone que o principe abanava aos gritos. Mesmo em frente do meu sardento nariz.

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Esta rapsódia a vinte passos de um ano cada tem um canto fatalista (cínico?) que enleia e obriga a viajar com ela (e com o Ruy, que a escreveu). As «máscaras que o tempo tratou como flores», fugazes declarações de princípios e fins que não se conheciam bem até ao momento em que tombaram, esquecidas para quase sempre.
    Um delícia ao pormenor.

  5. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Olá Ruy, é sempre um gosto lê-lo.

  6. Minas Novas diz:

    Ruy…pausa para recuperar o fôlego…e como será aos 60? E quando se é feliz?

  7. Ruy Vasconcelos diz:

    Boa pergunta. Porém ao que parece aos 60, será tudo ainda mais divertido. A não ser se se for feliz, quando obviamente a coisa toda fica mais sem graça. Gente feliz, a rigor, não escreve romances. É mais passiva: são leitores. (Isso é mera provocação!) Escritores tem de ser infelizes ainda quando são tremendamente felizes. Faz parte dos “fingimentos”. Fingimentos? Sim, e aí todos pensam em Pessoa. Mas Camões já falava deles: “Oh! bem-aventurados fingimentos,/ Que nesta ausência tão doces enganos/ Sabeis fazer aos tristes pensamentos!”. Parece que aqui cabe um vice-versa para a adjetivação de enganos & pensamentos…

  8. Turmalina diz:

    Lembrei-me de Vinicius e seu grande e triste amor em Eu não existo sem você!

    “Que todo grande amor
    Só é bem grande se for triste”

    e

    “Assim como o poeta
    Só é grande se sofrer”

    mas enfim

    “Não tenha medo de sofrer
    Que todos os caminhos
    Me encaminham pra você”

    Acho que sou romântica, não tão passiva, mas enfim…leitora…e gostei muito dos fingimentos de Camões :o)

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