Alto e pára o baile

Paula Rego — A dança. 1988

Quando Pedro Passos Coelho chegou ao poder no PSD, o futuro próximo do país parecia ter ficado decidido. Acabara-se a balbúrdia na oposição e José Sócrates, que só se aguentava em pé por falta de comparência desta, tinha finalmente os dias contados. Sabia-se que os tempos eram difíceis, que existiriam orçamentos «de guerra» para apresentar e sabia-se que, com as eleições presidenciais de permeio, o país viveria um limbo político forçado de meia dúzia de meses. Era, como um dia disse António Guterres, uma questão de fazer as contas: Passos chegaria a S. Bento até final do 1º semestre de 2011. No círculo mais próximo do futuro Primeiro-Ministro a confiança era tal que a data se adiantava à boca cheia. E a verdade é que as primeiras sondagens vieram dar sustentação a esta científica tese. Passos provava ser um político responsável, era ponderado e educado, dava-se ar de estadista, vivia, em suma, em estado de graça.

Eis senão quando passou alguma coisinha má na cabeça dos conselheiros políticos do líder do PSD. Sem que nada o fizesse esperar, Passos Coelho iniciou uma série masoquista de tiros no pé. Paradoxalmente, não tanto porque estivesse errado o conteúdo das suas propostas (faço parte do quase extinto leque dos neoliberais furiosos capaz de subscrever boa parte das ideias subjacentes ao seu projeto de revisão constitucional). Mas sobretudo porque errou clamorosamente no timing e na forma. Na questão da Constituição, como na do Orçamento de Estado, revelou ingenuidade política, insensibilidade social e sobretudo um inexplicável desnorte. O resto é sabido. As sondagens fizeram marcha atrás, José Sócrates foi buscar ao baú mais uma das suas sete vidas e, num ápice, aconteceu o que todos julgavam ser já impossível: a dúvida reinstalou-se. Será desta?

A coisa tem, é inegável, um lado dramático. Portugal precisa desesperadamente de mudar de vida e de encerrar este ciclo político de governação socialista. Mas como o Verão ainda não chegou ao fim, vale também a pena olhar para o lado divertido (ainda que grotesco) da questão. É que, num país onde a confusão entre as esferas política e económica é total, onde grassam promiscuidades e corrupções de toda a ordem, onde o Estado é simultaneamente fraco e imenso, não é suposto que as coisas funcionem desta maneira. Há meses que no país «empresarial» tinha já começado o baile, sinistro, subterrâneo e costumeiro que sempre antecipa a dança de cadeiras no topo da hierarquia política. Desde que (prematuramente?) se decretou a morte de Sócrates, a azáfama era mais do que muita. Contrataram-se assessores, nomearam-se administradores, iniciaram-se avenças, retomaram-se «amizades», redescobriram-se até velhas cumplicidades ideológicas que a governação socialista obnubilara. E agora, sem que a sombra de um aviso, a orquestra pára e a música cala-se? As coisas não se fazem assim! O baile pode tornar-se um tumulto! Temo pelas pisadelas, pelos encontrões, pelas traições variadas e pelas quedas estrepitosas. E receio bem que os próximos tempos sejam tempos de muitas espargatas. Pelo menos enquanto não voltar a perceber-se em que sentido vai dançar-se o corridinho.


Publicado na Visão a 2.9.2010

Comentários a “Alto e pára o baile” (12)

  1. Aan Rita Seabra diz:

    Pois é… a dança não vai pelo bom caminho! Prevejo o pior para o país. “Eles” são sempre os mesmos, o que é uma falta de graça… Nem os mais novos que vão aparecendo não convencem ninguém. Uma mudança radical é o que o país precisa urgentemente. Vá-se lá saber se existe alguém com perfil para pôr o país em condições.

    • Pedro Norton diz:

      ana rita: também eu estou a ficar um ceptico. Não me orgulho particularmente disso, mas esta rapaziada não tem feito nada pelo meu optimismo.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Ainda hoje, Pedro, ainda hoje. “Nunca será por iniciativa do PSD que o Governo vai cair”, afirmou, com relativo derrapanço sintáctico, Miguel Relvas, secretário geral do maior partido da oposição. Pergunto: cai de podre? não cai porque é bom e o psd só quer o bem do país? Caramba, também não é preciso ser tão politicamente redondinho a exibir cautelas e caldos de galinha.

  3. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    O pior de tudo, Pedro, é que a política por cá já pouco pode e povo bem o sabe. Amanhã, com a continuação do processo Casa Pia a voltar à ordem do dia, as pessoas vão de novo lembrar-se que é impossível acreditar em Portugal, que não podem ter qualquer crença na justiça, que ela tarda e ainda por cima falha, que é diferente para ricos e para pobres, para poderosos e para não poderosos, que mais vale fugir aos impostos do que pagá-los, que ser português não é nada e~que não ser também não. Passos Coelho não mudará nada disto. Mudará, julgo que sim, para melhor, também o creio, mas dentro disto!

    • Pedro Norton diz:

      Mudar dentro “disto” é não mudar nada, caro Gonçalo. E é o que andamos a fazer há vinte ou trinta anos. Andamos a cozinhar um caldo de onde, ensina a história, nunca sai coisa boa.

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Com o apetite apocalíptico que me caracteriza e assiste, digo apenas que ainda não vimos nada…
    Não há qualquer indicador que não reaja ao segundo, nenhuma previsão faz sentido e a nossa política interna já não interessa nem para nós: reduzir défice ao mesmo tempo que se sobem os impostos, em co-responsabilização honesta? Aqui?!…
    Pago para ver. Aliás, pagamos todos…

  5. Orcama diz:

    Ninguém oriundo dos aparatchiks partidários será capaz de governar coisa nenhuma. Aprenderam a governar-se e a fazer retorcidos cálculos políticos apenas para benefício particular. Governar um país não é sequer governar uma empresa ou um grupo. Ganhas as eleições há que governar para todos… E falta cabelo branco nisto tudo. Oh se falta!
    Acordei hoje com uma deliciosa notícia de terras brasileiras. Numa cidade bem do interior, TODA a governação foi detida. Comiam TODOS do mesmo saco (ficou um juiz(!) a tomar conta da prefeitura…). Até lá já entenderam isso. E cá, haveria, ao menos juiz, para tomar conta da coisa?!…

    • Pedro Norton diz:

      Caro Orcama, só não concordo consigo num ponto. É certo que muita coisa vai bem no Brasil, mas na matéria que aqui nos ocupa não estou segundo que tenham entendido alguma coisa. Aliás, outra coisa me preocupa: já reparou que os países que elegemos como modelares eldorados (e por onde, diz-se, passará todo o nosso futuro) não correm minimamente o risco de nos fazer desviar deste paradigma de promiscuidades e corrupções a que chamamos como modelo económico?

  6. Orcama diz:

    Foi só uma ironia. Mas que gostei da notícia, gostei. Estamos de pleno acordo.
    Não há modelo que nos valha com semelhantes executores. E modelos, são apenas muito ténues sugestões, já que nisto, cada caso é um caso.
    Há que alterar primeiro que tudo o quadro de referência, de valores, em que nos movemos. Tudo terá de começar na educação e demorará várias gerações.
    Já reparou que por cada geração mal formada serão necessárias pelo menos três para remediar o mal?
    Hernâni Lopes indicava, há tempos, os dez pontos que urgia mudar, desenrascanço, mentira, etc.
    Eu, já há muito que venho insistindo: documentemo-nos sobre a primeira República… está lá tudo…
    Contudo, urge agir JÁ. Como? Não estou seguro de saber, mas tenho cá as minhas ideias…

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