A pé para o céu

Anjinhos papudos

É, esta é a primeira imagem objectiva dum aspecto muito concreto da minha jornada espiritual: nunca a caminho da Igreja.
Retrato inequívoco duma parcela não muito remota do salazarismo? Talvez, mas isso não é importante nesta fotografia, ela vale por si em suficiência: o centro iluminado e virginal, as mulheres à direita, os gajos à esquerda, e nós, os ganapos, com interiorização de magalas.
Falo no mínimo por mim, para quem o episódio seria em tudo idêntico ao formalíssimo exame de admissão aos liceus: não se podia fugir…
Gosto particularmente dos dois ponta-de-lança: o da esquerda, que desconheço em absoluto, tem a cara mais patusca que se pode imaginar (mas só um pouco aumentada se percebe bem a expressão, porque há luz em excesso); o da direita, dum branco imaculadamente seminarista, é muito mais importante porque sou amigo dele. Hoje sim, não no anteontem da vida, mais concretamente à data da cerimónia aqui ensaiada.
Nesta época nem sequer o conhecia.

Um dia, já nos jornais, encontrei o personagem. Mas sem fazer qualquer ideia de que alguma vez estivéramos em conjunto no documentado ajuntamento eclesial. Onde vislumbro agora um certo simbolismo divergente.
Chamava-se Joaquim Fidalgo e era jornalista na delegação do Porto do Expresso.
Por razões que de extensas que são se tornam escusadas, estabeleceu-se entre nós uma serena amizade baseada no respeito mútuo — que depois se solidificou e desmultiplicou num tempo de cumplicidades várias e pequenas patifarias de índole romanesca e/ou gastro-peripatética.
E foi devido a uma noitada épica, depois dum jantar lauto cheio de copos e de mais copos cheios de música e feminis chilreios, que conheci a minha actual mulher. Da noite lembro-me apenas que acabou com o Quim num belo dum pifo (e eu também, claro) deitado no sofá da minha sala, garantindo-me que ia dormir «só um bocadinho» — porque era suposto acordar em casa, no seio forte e coerente da família. Depois de muito insistir que havia uma cama para ele dormir o que quisesse, desisti e fui eu dormir para o meu quarto.
Eis senão quando, batia brônzeo o meio-dia algures pelas serranias e certamente nas fábricas, e toca também o telefone da cabeceira!…
A senhora, muito profissional, perguntou-me se eu existia realmente com aquele nome e — depois da confirmação à qual retirei o falso e desnecessário Dr. — se, por acaso, não saberia onde poderia ela encontrar o jornalista Joaquim Fidalgo.
Que sim, que capotara no meu sofá escassas seis horas antes — disse eu galhardamente, sem olhar às consequências.
Se não me importava de ver se assim continuava a ser… Que não, claro, vou já!
E num cambaleante tagadap, tagadap, tagadap,  lá fui a trote até à sala constatar que do Quim nem sinal. De volta ao telefone, que ainda vivíamos dos fixos:
O Joaquim sumiu-se, e é estranho porque eu fecho a porta à chave e inadvertidamente tirei a chave da porta… Deve ter saído por uma janela, imagino eu … - o que era aceitável porque a minha casa na época era um andar térreo.
É claro que ao visualizar a cena desatei a rir ao telefone, transmitindo à minha subitamente muda interlocutora a figureta que ele teria feito em tal peripécia. Quase gélida, a senhora agradeceu-me a informação e desapareceu pelos sonoros silêncios do cobre.
Anos depois conheci-a pessoalmente, e, ainda mais tarde, fiquei a saber que já tínhamos falado antes, ao telefone. A propósito do Quim e da noite em que ele capotou no meu sofá. Era ela a secretária no Expresso/Porto que me telefonara, depois de ter passado a manhã a ligar para os hospitais da região à procura do jornalista escapista.

Depois ele mandou-me esta foto.

E eu depois casei com a Teresa.

Que lindinho!… (por acaso até é)

 

Comentários a “A pé para o céu” (20)

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Não sei o que é melhor, se a o post, se a fotografia. Com um e com outro, tanto faz, ganhaste o céu.

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Obrigado, Manuel, foi longa a caminhada mas já lhe pressinto as resplandescências e, ao fundo, ouve-se o angelical e afinadíssimo coro…

  3. Pedro Norton diz:

    António: a história é deliciosa. Tem de descobrir o nome do patusco!

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Não posso, Pedro, isto foi há 50 anos e eu nem sabia da existência da foto antes de ma darem…
    Ainda bem que gostou.

  5. Joana Vasconcelos diz:

    António Benedito, publicidade enganosa, é o que é.

    Não que não tme tenha agradado o texto — gostei muito da delirante cena do telefonema matinal (para si, claro) e sobretudo do extraordinário turbilhão de memórias em que, a partir de uma inofensva foto, nos conseguiu envolver a todos e mais ao patusco, ao Quim, às suas inúmeras mas sempre épicas noitadas, à sua Teresa e ao vosso casamento …

    Tudo isto depois de nos andar há semanas a prometer UMA foto SUA da Primeira Comunhão. CADÊ A DITA?

  6. António Eça de Queiroz diz:

    Joana Maria, ponha os ókulos já!, que coisa…
    A única foto da minha 1ª comunhão é esta, e eu estou lá para confirmar.
    Homessa!

    • Joana Vasconcelos diz:

      Pois sim, mas onde, onde? Ou a referência a ókulos é uma pista??? Vai-se a ver e é … ANTÓNIO … NÃÃÃÃO … não pode ser … será??? O PATUSCO???

      • António Eça de Queiroz diz:

        Você andou na adega, Joana!… Bonito.
        No garboso grupo de escurinhos, contradizendo a perspectiva, o que está mais longe é o mais alto.
        & toclas!

        • Joana Vasconcelos diz:

          No pomar, António, no pomar — a apanhar maçãzinhas Bravo de Esmolfe para trazer para Lisboa … e que boas elas estão este ano!!!

          Então toclas lá a ver o garboso rapazinho. Já cá volto.

          • Joana Vasconcelos diz:

            Nao está mal, não senhor: o contraste com o Patusco é realmente favorecedor. Se bem que em matéria de franja, quero dizer rêpas, a coisa esteja próxima do empate …

            • António Eça de Queiroz diz:

              As rêpas são marca d’época, Joana — como aliás a foto bem documenta. A rêpa é um dado histórico, como aliás o seu tio-avô Paul Mc Cartney o comprova em vários documentos genericamente publicados. Por todo o lado.
              Rapariga pouco atenta…
              Esmolfe-se lá de maçãs e regresse a casa depressa que o ar do campo obnubila-lhe a visão — e não sei se também mais qualquer coisa.

  7. António Eça de Queiroz diz:

    O defesa esquerdo…

  8. Turmalina diz:

    Que lindinho!!! Tão comportadinho…e aonde estava Teresa nessa época? Não vá dizer que lá atrás vestida de branco…

  9. António Eça de Queiroz diz:

    Minas-Novas! Olá!
    Rezam as crónicas que a Teresa ainda nem sequer era um projecto de vida nesta altura. Temos 9 anos de diferença…
    Tão comportadinho?!…
    Bem, sim…, mas durou pouco! Muito pouco.

  10. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Ó António.. gosta-se tanto, comunhão ao início, amor feliz ao fim, humor no meio, e nem se pode dizer: que lindo!, porque até o lindinho sabido de sê-lo o postou?! Protesto. Vá, pouco.

  11. isabel castro diz:

    Tarde e más horas (que raio de expressão esta) aqui vim e li: deliciei-me. Precisava mesmo deste exercício de humor que vem de um passado verdadeiro e que quase sempre nos faz sorrir ou rir, ainda que os figurantes sejam anjinhos patuscos ou meninos bonitos que já prometem patuscadas várias. Não avancei na leitura até descobrir quem seria o futuro marido da Teresa. E descobri. Amanhã vejo as outras e as mais que vierem.

Comentar