Arquivo | Setembro de 2010


Daniela


Daniela. Mais uma vez saíra-lhe. Mais uma vez sussurrara o nome maldito na altura mais inconveniente. Porque é que era sempre ali, no pico do prazer da intimidade de dois corpos feitos um só, que o nome lhe saía? A papel químico das outras vezes. Quantas foram antes? Três, quatro, cinco, já não se lembrava, porque a verdade é que só dela se lembrava, sempre ela em todos os corpos que o enganavam. Sempre a mesma cena, a porta a bater com estrondo a anunciar o fim daquilo que nunca começara. E, a seguir, o mais absoluto vazio no quarto cheio dela. Cada vez mais cheio dela. Sim, ela estava lá sempre, omnipresente mesmo nas breves ilusões que se intrometeram quando conheceu as outras. Estava presente, sabia ele, só para ter o prazer cínico de o fazer soltar aquele maldito Daniela que fazia cair por terra todas as ilusões com que procurava enterrar a Daniela que via em todas as outras.

Maldito nome. E maldita noite em que insistira – por amor louco, já o sabia então e agora sabia-o mais do que nunca – em ficar com o quadro no quarto, bem à frente dos seus olhos quando se deitava, quando acordava. Fora um presente dela, sim, de um tempo em que aquele auto-retrato dela, na brancura imaculada do roupão e na serenidade do pensativo cigarro, anunciava uma promessa de amor eterno. Culpa sua, o ter decidido, no momento em que ela saíra para não mais voltar, ficar com ela, a encher o seu quarto em cada uma das noites, das muitas noites, das centenas, milhares de noites que se seguiram depois de ela o ter deixado à sua sorte. Entregue à imagem dela, no seu roupão branco que ele já não vestia, no seu cigarro que ele já não fumava, mas que continuavam ali, a atormentá-lo em cada corpo sem outra vida que não fosse a dela que por ali passava, e ficava, até à noite em que lhe saía o maldito Daniela.

Maldito sorriso. Maldito sorriso cada vez mais rasgado. Não, não era impressão dele, ele tinha a certeza que aquele sorriso não era o que lá estava quando ela se foi. A cada porta que batia com estrondo, o sorriso crescia. De centímetro em centímetro o sorriso passou a riso. Riso descarado. Gargalhada. Ensurdecedora. E ele, no mais absoluto vazio de um quarto cheio dela, mergulhado no silêncio ensurdecedor da sua gargalhada.

…………….

Acabou, pensou ele. Finalmente iria refazer a sua vida. Ainda hoje viriam buscar o quadro ao quarto. Hoje já não adormeceria com ela. Amanhã já não acordaria com ela. E – tinha a certeza – nunca mais a porta de casa se fecharia com estrondo. Afinal de contas, o amor tinha mesmo um preço. O dela, Daniela, se ter transformado numa estrela de primeira grandeza do meio artístico. O dele se ter lembrado de a tornar pública numa short story lá do blogue. Tornara-a pública para acabar com o segredo que o destruía por dentro. Tão pública que agora até ela, Daniela, estrela de primeira grandeza do meio artístico, iria expor o agora famoso auto-retrato na Tate, imagine-se. E, com o auto-retrato, lá iam também as short stories, a dele e a de todos os companheiros lá do blogue, transformadas em livro catálogo da exposição. E até já se imaginava lá com ela. A sorrirem um para o outro com o sorriso de uma tranquilidade que nunca tiveram. Ela com um pensativo cigarro. E ele sem portas a bater com estrondo. E um nome, Daniela, que nunca mais por ele será sussurrado. A ouvido nenhum. Nem da própria.

Chá à Portuguesa

O leitor dirá que o fenómeno “Tea Party” é mais uma bizarria americana que jamais encontrará eco na Europa civilizada. Muito menos no nosso idílico Portugal dos brandos costumes. E não me parece, de facto, que o país esteja particularmente empenhado em discutir o pecado da masturbação, magna questão que, como se sabe, parece obcecar Christine O’Donell, a grande vencedora das primárias republicanas do Delaware. Nem tão pouco me parece provável ver, a curto prazo, uma versão lusa da inenarrável Sarah Palin sentada num qualquer cadeirão em Belém ou em S. Bento. Tudo razões para que olhemos o fenómeno com o habitual desdém com que costumamos desprezar as excentricidades políticas da direita radical americana? Não tenho a certeza.

É bom perceber que o movimento “Tea Party” (em bom rigor não se pode falar de um partido organizado) é essencialmente um fruto da crise económica e financeira que se abateu sobre a América e o Mundo. O seu discurso populista, patriótico, fiscalmente ultraconservador, encontra um inegável apelo numa classe média que viu desabar o sonho de uma riqueza aparente, que vive o presente com ansiedade, que desconfia do futuro, que sonha com um passado de prosperidade fictícia e sobretudo que vai perdendo toda a esperança nas lideranças políticas tradicionais. É de resto este o caldo onde sempre medraram as propostas políticas anti-sistémicas e de base populista. Será exagerado olhar para o fenómeno com redobrada preocupação? Não tenho a certeza.

Aqui chegados, perguntará o leitor: e que raio tem isto a ver com a situação portuguesa? A resposta é, parece-me, relativamente óbvia. Em Portugal, o caldo social e político é, provavelmente, mais propício ainda a aventuras como as do “Tea Party”. A crise económica e a crise financeira são mais graves e mais profundas. As respostas que, mais tarde ou mais cedo, lhes serão dadas vão ser mais drásticas e mais dolorosas. As camadas mais desfavorecidas da população estão porventura ainda mais desprotegidas. Mas, e este é talvez o aspeto mais determinante, a irresponsabilidade das lideranças políticas ultrapassa os limites do bom senso e o seu crédito é, cada vez mais, nenhum. A anunciada crise política que o chumbo do orçamento de 2011 pode precipitar é apenas mais uma acha para uma fogueira que chamusca PS e PSD por igual. À arrogância autista do solitário José Sócrates junta-se a inabilidade política de um Pedro Passos Coelho visivelmente mal acompanhado. O país assiste, impávido, de braços caídos, a um triste espetáculo político que lhe hipoteca o futuro. Estará a coisa a ficar pronta para cair de madura? Está Portugal a salvo de se entregar nos braços de um líder populista redentor? Será, apesar de tudo, ofensivo estabelecer paralelos históricos com, por exemplo, a República de Weimar? Não tenho a certeza.

Eis aquilo de que tenho a certeza: não está escrito nas estrelas que a Democracia portuguesa vigorará para todo o sempre. E se eu tiver de apostar, direi que o perigo vem menos de uma intentona de militares cabeludos do que um demagogo capaz de transformar o descrédito e o desespero numa alternativa política que a desmantele.

Publicado na Visão a 30.9.2010, escrevi este artigo antes da comunicação ao país do PM. Sabendo o que agora sei, voltava a escrevê-lo.

Easy Peasy Lemon Squeezy!

Éramos pobres, sim. Mas ali por ali, tínhamos encontrado o poço sem fundo. Eles? Quem são eles? Esqueçam-se deles! Não precisamos deles para nada. Sem esforço, sem ideias, sem trabalhar, sem investir, sem aprender nada de novo: chocolate para todos; festas de anos com palhaços; tardes de shopping furiosas, que o mau tempo é lá fora. Somos modernos. Sushi, sushi. Fácil, fácil. Easy Peasy, Lemon Squeezy!

Agora o buraco negro comeu-nos e vamos lá ficar dentro um bocado. A emagrecer. Eles são os culpados de tudo? Claro que sim. Foram eles! Esqueceram-se de nós, que estávamos de férias na neve e não demos por nada.

Agora, já de castigo para a cama e sem jantar que é para aprendermos a estar mais atentos nas aulas.

A avenida e o discurso

Quando decidi postar este texto verifiquei que o Francisco e o José Navarro também “andavam às voltas” com a crise recente e já cá moravam. Acompanho-os.

 

Desço a avenida e vejo que cortaram um bocadinho a quase todos os transeuntes. Uma lasca de 3,5% na face, para aí 10% de uma redonda nádega. A avenida está mais infeliz, mais pobre e, no jardim, atrás dos arbustos, escondem-se pequenos escândalos, envergonhadas corrupções municipais, uma oleada influência, algum indisfarçado nepotismo. À mesa do café, ingentes funcionários de institutos inúteis culpam os outros, sempre os outros, dos universais males do mundo e dos terríveis erros da nossa particular governação. Na mesa ao lado, um trio de puros espíritos, retemperado pelo subsídio que recebeu com espiritual condescendência, vitupera o materialismo alheio, a avidez de empresários, a ganância da indústria. À porta de uma delegação do partido, há um tipo a tomar banhos frios, a ver se os nervos se lhe acalmam e volta a escutar o ronrom de mordomias, o clandestino roçagar das notas numa mala fria. Adiante, passando a porta, há um longo corredor sem orgulho, de conversas escusas e de financiamentos torpes.

É tão fácil o diagnóstico. Sobretudo, é conveniente. O diagnóstico tira-nos sempre do problema. Passa-nos para o confortável lado de fora. O diagnóstico, somos nós a olhá-los a eles. Acumulamos inteligência e mapeamos impecavelmente o problema. De que, bem entendido, não fazemos parte. Sabemos muito bem da inovação tecnológica, do empreendedorismo, da excelência necessária da educação, de dar mais braços à ciência, exportar para a China e descobrir outra vez o caminho marítimo para a Índia. Ó se nos deixassem!

Deixam. É só querermos. Lamento, mas não é um caminho de pompa e circunstância. É o humilde caminho de cada um fazer o que tem a fazer. Eu. Nós. O que faço que some valor a esta comunidade? Tu. Tens uma ideia nova e vais bater-te por ela?

Um discurso que comece por “eles” e não acabe em “nós” é um discurso diletante.

Notas apressadas acerca da catástrofe em curso


Goya, “Desastres de guerra”, 1810–1815



[bem sei que o ETGM não é um blog assim, mas há dias piores que outros]

1.
O que se está a passarem Portugal é o exato equivalente a uma guerra. Faltam as casas a arder e os mortos na rua. Não é pouco, é verdade, mas o resto é igual: uma brutal, colossal, gigantesca (mais adjetivos?) destruição de valor.

2.
Portugal é um bom exportador de ………………… (complete quem saiba, por favor).
Não vale rir se alguém disser: cortiça, azeite a granel, sapatos.
Ou seja: o nosso aparelho produtivo é ridículo.

3.
Qual é a realidade mais desagradável e que mais se escamoteia? É assumir que a qualidade da força de trabalho portuguesa é calamitosa.
Parte por pura e simples desqualificação: abandono escolar, analfabetismo, baixa literacia. Já não é o obscurantismo salazarista, mas ainda estamos bem na cauda, junto ao carro vassoura da Europa.
A parte seguinte é a pior: a força de trabalho que se julga qualificada e que investiu no ensino, foi, na verdade, vítima de uma fraude. Cursos de todo inúteis, ou curricularmente ineptos, sobretudo nas ditas ciências sociais, um corpo docente de alto a baixo capaz de cometer erros de ortografia, doutoramentos de pacotilha em universidades de “urinóis” (private joke académica), tudo isto e o que mais aqui não cabe, fez do ensino massificado em Portugal um monumental fiasco. O resultado começa a emergir agora, uma geração depois de se ter ido por aqui.
Conclusão: se por milagre o ensino iniciasse hoje um novo rumo, daqui a uma geração (20 anos) teríamos os frutos.

4.
Todo, mas todo o peso dos gastos do Estado tem sido suportado pela classe média que trabalha nas empresas privadas, os quadros médios e altos que não podem fugir aos impostos, impossibilitados de criar Fundações ou SGPSs e que têm ordenados “interessantes” — presas vulneráveis e gordas .
Conclusão 1: Já não chega. O cancro comeu tudo e quase, quase, quase, já não há mais onde colher.
Corolário: é preciso reformar o Estado, agora à bruta e sem contemplações.

5.
Diz-se: “É preciso emagrecer drasticamente o Estado”. Certo. Que dê o primeiro passo em frente quem lhe pareça executável despedir cerca de 100000 funcionários públicos e autárquicos de uma penada, tal como as circunstâncias exigem.
Só para facilitar o exercício, vamos supor que a contestação seria nula (uma fantasia, portanto). Que impacto isto teria na Segurança Social? Que impacto teria isto na economia (cmércio, circulação de moeda, produção de bens, etc.)? Que impacto isto teria no equilíbrio social?
E nem sequer se entrou aqui em linha de conta com o fundamental: que impacto político isto teria no partido que tomasse semelhante medida?
Conclusão: o Estado não é reformável de um dia para o outro.

6.
A tese seguinte é: o Estado português não é reformável. Ponto.
O Primeiro-Ministro José Sócrates, com maioria absoluta parlamentar, e com o manifesto apoio do recém eleito presidente da República Cavaco Silva, avançou, logo nos primeiros dias da sua governação com 3 reformas importantes na Justiça, na Saúde e na Educação. Esta última teve o desenvolvimento mais espetacular (o termo vem de espetáculo, recorde-se) e a primeira os resultados mais funestos (ou julgam que este ping-pinga de suspeitas judiciais contra Sócrates é um acaso, uma coincidência ou uma disfunção).
O resultado destas reformas reitera e confirma a tese supra. Qualquer outra leitura é, expressão adorável, encanar a perna à rã.

7.
Somos capazes de ter liquidado em 2010 todas as hipóteses de os nosso filhos terem uma vida melhor.

8.
Diz-se: “Os fabulosos lucros da banca”. Muito bem: vamos taxar a banca como deve ser, o que quer que isto queira dizer. Façam-no à Sexta, para quando acordarmos na Segunda descobrirmos que eles foram todos comprados por entidades financeiras “estrangeiras”. É isto que se quer? Lembram-se daquela conversa de manter em Portugal os “centros de decisão”?

9.
Só há dois partidos com alternativas radicais à crise. Um é explícito, coerente e histórico: o PCP. Outro é dissimulado e eufórico: o BE. Para ambos, tudo o que se passa são sinais de “algo mais profundo”. O quê? A natureza mesma do capitalismo. Solução? Acabar com ele. Por isso, quem quiser seguir este caminho faça o favor de os apoiar. Tem 3 modelos à escolha: Chavez, Fidel ou Kim Jong Il. É por aqui que devemos seguir? É pegar ou largar.

10.
Quem não pretender ir por este caminho, o melhor é proceder segundo a proclamação do Almirante Nelson antes de Trafalgar: “England expects that everyman will do his duty”.
Se cada um fizer a parte que lhe cabe o melhor possível, talvez nos safemos.
Não sei.

farto de merdosos incompetentes*

Chegou o FMI, 
uí, uí, uí.
Do que compro,
Ao Estado dou um quarto;
farto, farto, farto. 
Para o Porto e p’rá Trafaria
Já só há uma e outra via.
Ficámos sem a terceira
E o TGV? Não há maneira!

*Eu sei, este blog não é dado a insultos, mas o regular funcionamento das instituições (a das siglas) assim o impôs.

Um miúdo. Faz hoje anos

um miúdo, claro

Tem um olhar limpo. Tem um olhar lindo. Uma vontade de rir por cima das agruras que a vida entrega, mesmo com remetente trocado. Luta como um gigante para ser sempre feliz, como se ser feliz fosse o recado que a mãe e o pai o mandaram fazer à rua. É um miúdo, claro, um puto do caneco e faz hoje anos. O António faz para aí 150 anos, praticamente os mesmos que eu. Um puto do caneco. Um miúdo de todo o lado, da rua, de vales e planícies, do mar e do céu, de estar em casa a fazer perigosas e explosivas bricolages com o filho, de ter sido visto há muitos anos em iates só rodeado de ninfas e sereias. (Agora já não: só uma deusa. A deusa.)

Traz no nome mais peso do que o duma Torre e Espada, mas vive só António; é só António como se fosse um anódino Fonseca.

Gosto-lhe dos caragos para aqui e para acolá que, em boa verdade, são sonoros caralhos para aqui e para acolá – menino e tão educado quando diz o Pai, a Mãe! E gosto tanto de o ver levantar, do alto de um metro e noventa, as aventuras de avós e pais, de irmão e amigos, a roupa debaixo da Emília a esvoaçar no céu. Ele que é o mais acabado animal de aventuras que conheci neste últimos anos, quando já pensava extinta a espécie. Aventureiro do último comboio do katanga, de jibóias e boas mortíferas (as ofídias, Teresa, as ofídias!), de raposas na praia. Aventureiro de fumos, aventureiro de folhas, gourmet psicadélico, gourmet da escrita, sempre a fazer esquindiva ao sentimento.

a roupa debaixo a esvoaçar no céu

É um miúdo, claro. Faz hoje quase mil anos, mais 500 do que eu. Xi, podia ser meu avô! O único avô de me ensinar a jogar o xadrez índio com que já nos fez chorar um dia. Também queria que fosse meu orgânico irmão angolano, de mascar gengibre, de ver florestas e fins do mundo, a enorme solidão das turbulentas praias ou de uma baía ao sul de Benguela, o cheiro tão bom e negro de subir o morro da Quibala.

Um puto do caneco. Faz hoje anos. Já sei que vai aparecer aí como um turbilhão e, logo a seguir, a suavidade de uma borboleta. O torrencial, tão gentil António. O meu amigo!

PARABÉNS, CARAGO

 

Efeito especial

Sou bastante avesso à inflação de efeitos especiais nesta nossa digital era. Por essa razão, quando me aparece uma coisa como esta fico perfeitamente maravilhado.
O filme chegou-me com o título melífluo de «preliminares» e carregado de atormentados x’…
É mentira, e muito divertido.
Eis Birth-day, uma coreografia do grande Jiří Kylián, um checo que desde 1973 dirige o Nederlands Dans Theater com enorme sucesso.
Acho que se percebe porquê (por momentos pensei estar a ver uma cena de Bugs Bunny ou de Tom & Jerry

Aviso aos visitantes deste Cemitério

 

Estimados visitantes, este cemitério completa um ano de vida na próxima 6ª feira, dia 1 de Outubro. Imagino que tenham de nós ideia mais ou menos estabelecida: um cemitério, uma quadrícula geométrica de campas e jazigos, alguns cipestres, nem uma ponta de vento. Nada mexe ou, se nós fossemos poetas arcádicos: nem uma humilde folha bule.

Redondo engano, claro. Para além de termos antecipado uma rubrica comemorativa a que chamámos “História Particular da Infâmia” – onde se esganam alguns dos seres mais desembestados ou macabros ou mórbidos da história humana – vamos alterar e sistematizar a participação de figuras externas ao blog. Todos os meses vamos ter um autor convidado (não é original!) que aceita cumprir duas obrigações (já é um bocadinho original!): responder a um inquérito e publicar um post de tema livre. E como já sabem que, neste blog, ao substantivo morto juntamos qualificativos como melhor, excelente, sábio, a nova rubrica chamar-se-á “Um Morto em Visita”. O primeiro “Morto em Visita” será anunciado com a fúnebre euforia que nos é própria, no dia do aniversário. Na 2ª, dia 4, publicaremos a resposta ao inquérito. No dia seguinte, o post livre. De alta patente na blogosfera portuguesa, o primeiro convidado vai ser, garantimos, uma surpresa dos diabos.

Para variar das reprimendas europeias

Já tínhamos a Cidade Branca do Tanner e a Lisbon Story do Wenders. E, embora desconfiemos que pouco devem à nossa Lisbon mas a uma sua homónima americana, as irmãs Lisbon virgens suicidas da mui em voga Sofia Coppola e, mais recentemente, a agente Teresa Lisbon da série de culto The Mentalist. Agora, temos também o recentemente premiado Mistérios de Lisboa, realizado pelo chileno Raul Ruiz (embora com produção nacional de Paulo Branco, tal como os filmes de Tanner e de Wenders).

Mas ou muito me engano ou nunca um álbum vindo de fora tinha sido inteiramente dedicado à cidade de Lisboa. Os Durutti Column não foram tão lisboetas com o seu Amigos em Portugal. E Devendra Banhart limitou a sua homenagem portuguesa a uma canção, e bem nortenha, o delicioso Santa Maria da Feira que já aqui ouvimos.

Façam então favor de receber bem estes americanos de gema, The Walkmen, que nos visitarão muito em breve (14 de Novembro, no Coliseu dos Recreios), para promover o seu último álbum. Nem mais nem menos do que Lisbon de seu nome. A avaliar pelo que já ouvi, e que vos deixo em baixo, é uma bela vénia a Lisboa. Só para variar, durante uns minutos, das reprimendas europeias.

 

A Factura

Já conhecem o Herói, errático africano que faz o favor de ser meu amigo. Escreve-me com a informalidade que calha bem para um blogue. Publico-o com muito gosto, juntando, da minha lavra, fotografias e umas invejosas notas de rodapé, só para poder dizer que vão umas letras minhas ao pé das dele.

Vêem sonhos, sonham sonhos

 A Factura
Um post do Herói

Que saiba, não há nada parecido em nenhum lugar deste mundo. Mongóis, os três. Sonhadores. Não faço é ideia de como vou explicar a factura que tive de lhes pagar.

O céu é azul e nunca acaba por cima de Ulan-Bator, a capital da Mongólia. Não vim às compras, apesar da camisa Zegna listrada com que saí dos 20 ultra andares de Louis Vuitton, Nokia e Prada da Central Tower. Verdade: nos últimos anos, a cidade sofisticou. Oyou, o meu anfitrião, não se resigna e jura, no conforto dos estofos branquinhos de um Bentley, que há-de fazer um grupo tão grande como o líder Chinggis. Quer vender tudo. Pode produzir tudo.
O que sei é que, por todo o lado, vou rubbing shoulders com russos e chineses, de vez em quando sul-coreanos, um discreto francês. Não andam por cá os meus amigos da Sinopec*, apostados em fazer-nos a cama lá nos trópicos. Não lhes cheira a petróleo. A mim cheira-me. Aqui, tudo o que se vende, vende-se do fundo do poço.
Não é petróleo? Pois não. É carvão e é cobre. Nem me digam que os mongóis são ou foram cavaleiros. Vejo, e vejo que nasceram para ser mineiros. Furam a terra por todo o lado e sonham. Vendem sonhos e têm o melhor cobre do mundo. (Compra acções, muadié!)**
Estou-te a dizer, meu: amanhã, urânio. Vão ficar podres de ricos. Lembras-te das Zundaps*** a zunir na Alberto Correia****? A riqueza destes tipos vai zunir 10, 20 vezes mais. O velho casco da cidade, a pulular de novidades, já ostenta. E tu sabes como o meu lado africano aprecia o luxo, uma certa banga***** que se atreva a ostentar. À volta da Ulan-Bator que os monges tibetanos inventaram há 300 anos, um cinturão de miséria. 250 mil almas em transumância. Fogem do leste gélido e da estepe madrasta. Amontoam-se nas gher, as tendas de pano que cercam de paliçadas para cortar a inclemência do vento. Olham pobres e perplexos o dourado das luzes e das vitrinas. Vêem sonhos, sonham sonhos.

A mim, venderam-me um. No hotel, duas mulheres e um homem. Sonhadores profissionais. Recebem numa moderada suite. Cada um especializado num género de sonhos. Ele só sonha pesadelos. Uma das mulheres os sonhos de desejo, a outra sonhos de completa quietude. Sonham para outros os sonhos de que os outros precisam. Uma hora, um sonho. Com pesadelos resolvem conflitos. Satisfazem vontades com sonhos de desejo. Com os de quietude oferecem o sublime, nirvana, a quem queira tentar a fuga de puro espírito. O cliente escolhe o género e deita-se ao lado do sonhador. Adormece. A mão do sonhador sobre o braço.
Negociei num inglês rude, de pau. Pedi o sonho de desejo, a pensar: não acredito e se houver sonho vai sair tudo em mongol e retalhos de mau inglês. Dormi. Fundo, meu. Quando acordei, a mongol tinha-me sonhado em português. Sonhou o que pedi. Podia confessar, contar tudo. Não digo. Nunca imaginei viver tão nítido o que não sei se sonhava eu ou, com precisão matemática e música obscura, sonhavam por mim. Depois, sentada, a mulher tinha um ar banal – criada de hotel, dir-se-ia. Dera-me a mais arrepiante aventura da vida. Não sei se sonharam dentro de mim. Não sei se saí de mim para ir sonhar em corpo alheio. Comprei o meu sonho. No bolso, os dedos tocam no papel rugoso da factura. Estremeço.

paisagem de almas em transumância com zundap à esquerda

 Glossário de msf

*Sinopec – companhia petrolífera do Estado chinês. Tem fundadas pretensões tentaculares.
**A conselhos de Herói não se olha o dente
***Zundap – marca de estridentes veículos motorizados de duas rodas a que devo parte apreciável da minha perda auditiva.
****Alberto Correia – rua de bairro de que eu, mais do que Herói, guardo memórias enternecidas. Foi casa dos Negoleiros do Ritmo e deu pelo menos um embaixador ao Vaticano.
*****Banga – estilo, um estilo de que é legítimo ter-se uma certa vaidade. Por exemplo, o PN e o António têm banga — não lhes fica nada mal.

Número errado

O país é pequeno e tudo se sabe. Publicamos com apreço estas confissões que a Teresa Font encontrou. Para ficarmos a saber que uma rapariga nova não tem medo.

Número Errado
Short story de Teresa Font

Gostava do branco, da luz, da arrumação, da escassez de mobília, toda ela cara, cara como o roupão de seda que usava, cara como a roupa, os sapatos, as carteiras que tinha nos armários, impecáveis, arrumados por cores. Fácil. Branco, preto , cinzento, um ou outro toque de cor, encarnado, gostava de encarnado, mas só um toque mesmo, uma chamada de atenção.
E se ela chamava a atenção. Bonita, com classe. Charlotte como a rampling com quem era às vezes comparada, mãe francesa, pai português, diplomata. Mundo. Bons colégios. Poucos amigos em Portugal, infância e adolescência nómada.
Sorriu à  rima. Nómada/cómoda. A versão.
Lembrou-se da casa suburbana, da pobreza envergonhada, do cheiro constante a fritos. Os quartos pequenos e atravancados com moveis de má qualidade, o pai com o fato-macaco que tanto custava a lavar, as unhas sempre  sujas, a mãe  cansada, velha antes de tempo. O barulho do bairro, a gritaria dos vizinhos.
Livrou-se daquilo  tudo assim que pode. Inventou-se. Claro que para isso era preciso dinheiro e neste país pequenino, em que tudo se sabia,  tinha que ter cuidado. Fora um acaso que lhe pusera o futuro nas mãos.
Talento não lhe faltava, sempre soube  que a sua vida seria escrever. Mas ia começar por cima, sem precisar de mendigar, de arranjar segundos empregos para sobreviver até, um dia, talvez, se calhasse, ter enfim o reconhecimento merecido.
Aquele engano fora a coisa mais certa que lhe acontecera na vida. O numero errado a meio da noite, a voz de homem irritada e, depois cada vez mais simpática, mais untuosa. Está sozinha? Uma rapariga nova, não tem medo? Daquela vez desligou.
Mas já sabia o que ia fazer.
Agora, com os best-sellers vendidos quase antes de serem escritos, a mistura de êxito comercial e qualidade,  que começara por irritar os críticos, até que ela os fizera, um a um, cederem. Era “uma jovem e promissora…”, “uma lufada de ar fresco…”, “o subtil sentido de humor…”.
Não sabia bem quando é que a necessidade de por aquilo no papel começara. Confissões? Nem pensar. Brincadeira ou talvez mais do que isso. Aquela convicção cada vez forte de que podia fazer tudo.
Apagou o cigarro e sentou-se à frente do computador sempre ligado. Começou a escrever. 

“Acordou com o telefone a tocar e a voz sexy da  mulher a pronunciar um nome que não era o dele.
–Terry? Terry, é a Brenda.
–Eu não me chamo Terry…

–Sim, sim. O Ray avisou-me que diria isso. Pode ter confiança, sou mesmo eu. As andorinhas voltam na primavera. Está certo?
–As andorinhas…? Que conversa é essa?
- Terry, as-andorinhas-voltam-na-primavera. Esteja tranquilo, já não tenho duvidas. Quero matá-lo.
Vocês resistiam? Eu não fui capaz. E depois, ela tinha cá uma voz. Rouca mas feminina, percebem?
–Sim Brenda. Diga. Preciso de saber mais. Então está decidida.
–Estou. Já não aguento mais. O Ray disse-me que são cinquenta mil. Só posso arranjar trinta mil agora, mas vou pagando o resto como puder. Aceita? Por favor aceite. Já não aguento, ele está cada vez pior!
–Aceito, aceito. Mas conte-me mais. É o seu marido?
–O meu marido? Então o Ray não lhe disse? O meu marido? Coitado. Claro que não. É aquele monstro. Aquele pervertido. Já não aguento. Sabe o que ele me faz agora? Todas as noites? Até tenho vergonha de contar…
–Conte, Brenda, conte…e… como é que a coisa vai ser feita?
–Bem, você é que sabe. Por cinquenta mil… Eu acabo o meu número ás 11h30, depois estou na mesa com clientes até á 1h30, 2h00. Não posso ser suspeita, mas o resto é consigo. Ele está no escritório, à minha espera. Monstro!
–Então, diz que ele está cada vez pior?
–Sabe o que me obrigou a fazer ontem? Sabe? O Ray disse-lhe?
–Não, conte-me a Brenda…um pervertido? Assim tanto? Conte-me mais.
–Porquê? O que é que isso tem que ver com o seu trabalho? Ou gosta de ouvir? São todos iguais…
Aí aborreci-me. Falei-lhe a sério. Como um homem.
–Brenda, o profissional sou eu. Se lhe digo que preciso dos pormenores é porque preciso. Quero que me conte tudo.
–Desculpe. Tem razão. Pois, ainda ontem…
(…)
–Brenda, continue. Ai, continue. E depois, o que é que a Brenda fez? Obedeceu? Se calhar debateu-se…conte.
–Oiça, Terry, estamos há meia hora nisto, não posso estar tanto tempo ao telefone. Se o meu marido vê a conta…pobre Bruce, como é que eu fui capaz de lhe fazer isto!
–Eu ligo-lhe, não há problema. Meia hora! Tem a certeza? É que ainda vamos precisar de esmiuçar muitas coisas.
–Tenho tanta vergonha. Depois ainda é pior.
–Deixe lá a vergonha, agora vergonha numa altura  destas…preciso de saber tudinho. Isto se quer o trabalho bem feito, claro.
–Está bem, você é que sabe. O numero é  xxxxxxx. Fico à espera que ligue. Tomou nota?
–Tomei, tomei…espere lá! Isto é um número de valor acrescentado! Mas que história…quem é você, afinal? Que aldrabice é esta?
–Aldrabice? Não é aldrabice nenhuma. Quem é que eu havia de ser? Sou a Brenda. Você não é o Terry?”

Escreveu FIM. Como fazia sempre. Gravou e arrumou o texto juntamente com os do próximo livro, ia fazer um volume de short stories, não era costume mas a editora não lhe negava nada há muito tempo. Depois soltou uma gargalhada. E outra. E outra. Ela, tão controlada. Não conseguia parar de rir, mesmo com as lágrimas a correrem-lhe pela cara, até mancharem a seda imaculada do roupão.