
Daniela. Mais uma vez saíra-lhe. Mais uma vez sussurrara o nome maldito na altura mais inconveniente. Porque é que era sempre ali, no pico do prazer da intimidade de dois corpos feitos um só, que o nome lhe saía? A papel químico das outras vezes. Quantas foram antes? Três, quatro, cinco, já não se lembrava, porque a verdade é que só dela se lembrava, sempre ela em todos os corpos que o enganavam. Sempre a mesma cena, a porta a bater com estrondo a anunciar o fim daquilo que nunca começara. E, a seguir, o mais absoluto vazio no quarto cheio dela. Cada vez mais cheio dela. Sim, ela estava lá sempre, omnipresente mesmo nas breves ilusões que se intrometeram quando conheceu as outras. Estava presente, sabia ele, só para ter o prazer cínico de o fazer soltar aquele maldito Daniela que fazia cair por terra todas as ilusões com que procurava enterrar a Daniela que via em todas as outras.
Maldito nome. E maldita noite em que insistira – por amor louco, já o sabia então e agora sabia-o mais do que nunca – em ficar com o quadro no quarto, bem à frente dos seus olhos quando se deitava, quando acordava. Fora um presente dela, sim, de um tempo em que aquele auto-retrato dela, na brancura imaculada do roupão e na serenidade do pensativo cigarro, anunciava uma promessa de amor eterno. Culpa sua, o ter decidido, no momento em que ela saíra para não mais voltar, ficar com ela, a encher o seu quarto em cada uma das noites, das muitas noites, das centenas, milhares de noites que se seguiram depois de ela o ter deixado à sua sorte. Entregue à imagem dela, no seu roupão branco que ele já não vestia, no seu cigarro que ele já não fumava, mas que continuavam ali, a atormentá-lo em cada corpo sem outra vida que não fosse a dela que por ali passava, e ficava, até à noite em que lhe saía o maldito Daniela.
Maldito sorriso. Maldito sorriso cada vez mais rasgado. Não, não era impressão dele, ele tinha a certeza que aquele sorriso não era o que lá estava quando ela se foi. A cada porta que batia com estrondo, o sorriso crescia. De centímetro em centímetro o sorriso passou a riso. Riso descarado. Gargalhada. Ensurdecedora. E ele, no mais absoluto vazio de um quarto cheio dela, mergulhado no silêncio ensurdecedor da sua gargalhada.
…………….
Acabou, pensou ele. Finalmente iria refazer a sua vida. Ainda hoje viriam buscar o quadro ao quarto. Hoje já não adormeceria com ela. Amanhã já não acordaria com ela. E – tinha a certeza – nunca mais a porta de casa se fecharia com estrondo. Afinal de contas, o amor tinha mesmo um preço. O dela, Daniela, se ter transformado numa estrela de primeira grandeza do meio artístico. O dele se ter lembrado de a tornar pública numa short story lá do blogue. Tornara-a pública para acabar com o segredo que o destruía por dentro. Tão pública que agora até ela, Daniela, estrela de primeira grandeza do meio artístico, iria expor o agora famoso auto-retrato na Tate, imagine-se. E, com o auto-retrato, lá iam também as short stories, a dele e a de todos os companheiros lá do blogue, transformadas em livro catálogo da exposição. E até já se imaginava lá com ela. A sorrirem um para o outro com o sorriso de uma tranquilidade que nunca tiveram. Ela com um pensativo cigarro. E ele sem portas a bater com estrondo. E um nome, Daniela, que nunca mais por ele será sussurrado. A ouvido nenhum. Nem da própria.



























