Vacâncias campestres


Jonathan Brand, “Fallen”, 2007


Da cozinha elevaram-se umas falas altas com o grão de alarme capaz de penetrar a frequência sonora do i-pod e perturbar os acordes airosos do Ben Goldberg. Não ia para dizer “o que foi porra”, embora pensasse nisso, porque entretanto chegou a informação – a Teresa caiu da bicicleta.
E então? É próprio das crianças malharem das bicicletas, faz parte do crescimento e da descoberta das leis da vida, que não são justas nem injustas, apenas se impõem. Parece que é mau, exclamou a minha sogra, a pessoa mais bondosa do mundo, mas que tem uma paixão pelo drama, capaz de converter o menor incidente numa aflição. Levantei-me do sofá que tão bem me conhece das sestas estivais e conduzi em direção ao eventual sinistro.
Agora tudo começa a correr mais depressa.
O estradão do olival bloqueava-se com um inusitado congestionamento de três carros, mulheres gesticulavam, um homem agia e o meu cunhado Manuel digitava o telemóvel no exato momento em que o meu começa a tocar. Poeira levantada, dando um aspecto palestiniano à cena. Desta escuridão emerge a Margarida com a Teresa ao colo, em pose de pietà; um braço bem esfolado, com a pele toda raspada e logo abaixo do joelho uma cratera do tamanho de uma hóstia onde faltava um bife de carne.
Falhei duas batidas cardíacas à vista do sangue filial, aquele fiozinho que me pareceu correr em jorros.
O relógio começou a contar:
Centro de Saúde de Monforte – 5 minutos depois estava uma enfermeira a limpar as feridas; 5 minutos depois já o médico escrevia o diagnóstico: “posso coser mas ia ficar mal, vai para Elvas”; 5 minutos depois o bombeiro a bater à porta do gabinete: “tenho a ambulância lá fora à espera”.
A estrada é uma fita a direito na peneplanície riscada até ao horizonte, a vibrar debaixo de uns heróicos 42 graus.
Em Elvas – a médica das urgências liga ao cirurgião e o cirurgião entra na sala como se estivesse atrás da porta à espera de ser chamado. Olha para o descalabro e profere a sentença: “Nem osso partido, nem tendões contundidos, nem vasos afetados. Podia fazer uma plástica mas a menina é forte e brava. O melhor é deixar o corpo regenerar-se – a carne sabe sempre o que faz e faz sempre melhor do que nós.” Ficámos assim.
Tempo? O percalço começou às 17h20 e às sete e meia estávamos em casa. Há que descontar os 60 km da ida e volta a Elvas.
Balanço:

  1. A bicicleta não se escangalhou, ficou bem obrigado.
  2. A Teresa quer é mimo.
  3. O Serviço Nacional de Saúde funcionou na perfeição, assim mesmo: na perfeição. Que bem gasto nisto é o dinheiro dos meus impostos.

PS – nada me foi cobrado pelo episódio, a não ser hoje de manhã, que fui ao quartel dos bombeiros como prometi, pagar o transporte. “Foi aquilo ontem da Teresa?” perguntou a escriturária como se fosse família.

Comentários a “Vacâncias campestres” (9)

  1. Joana Vasconcelos diz:

    Delicioso e emoconante relato.

    Muito nele me recordou outro, ocorrido há uns três anos, e que meteu um golpe profundo numa perna pequena e gordita, causado por um sinistro e retorcido ferro enferrujado, daqueles que se cravam no chão para segurar as tendas das feiras, sangue a jorros, a ensopar as calças brancas da pietà carregadora — moi. O local, Lamego, em plena Senhora dos Remédios. Quanto à rapidez, eficiência e simpatia da assistência que recebemos do SNS, as mesmíssimas constatações, no próprio dia (30 minutos entre a entrada de rompante na urgência do hospital e a saída, já com a pernita bem cosida) e nas vezes subsequentes em que foi preciso mudar pensos e tirar pontos. Impecáveis.

  2. José Navarro de Andrade diz:

    obrigado, Joana. Às vezes somos injustos com os serviços.

  3. Turmalina diz:

    José e Joana…nessas horas vê-se como é bom morar em Portugal. Por aqui seria uma espera interminável, tanto de socorro quanto de atendimento hospitalar. É comum colocarmos nossos rebentos em carro próprio e levar ao hospital, de preferência, particular. É uma triste realidade que faz com que os convênios médicos particulares se multipliquem a cada instante.Por sorte o anjo que tenho aqui em casa nunca precisou ser socorrido dessa forma.Ele já se ralou feio diversas vezes com a bicicleta, o skate e a bola, mas meninos são diferentes. E as mães de meninos tb.
    Mas essa coisa toda de sangue escorrendo me fez lembrar de uma vez, quando ele tinha uns 6 anos, e cantando e pulando no chuveiro, meteu a testa no box de vidro blindex. Escutei o barulho da pancada e depois um longo e profundo
    — Mãeeeeeeeee.
    Cheguei no banheiro e o vi de olhos fechados com um talho na testa de onde escorria bastante sangue. Mas não que fosse grave e sim porque é uma área muito irrigada (eu sou formada em instrumentação cirúrgica tb). Eu pedi que ele colocasse a cabeça para trás, porque é óbvio que ele estava mantendo-a abaixada para frente e enrolei uma toalha em volta da sua cabeça. Ele segurava na minha roupa e dizia:
    – Mãe, eu tô cego, eu tô cego…não enxergo nada…eu tô cego…
    E eu calmamente falei:
    – Filho, abre os olhos!
    E pronto, estava feito o milagre, o sangue havia sido estancado e ele voltou à enxergar. Deixei-o deitado na minha cama por uma meia hora até ele recuperar-se do susto.

  4. Turmalina diz:

    P.S. muitos beijinhos para a Teresa, porque ela está certíssima, é preciso muito mimo :o)

  5. António Eça de Queiroz diz:

    Além de realisticamente divertida esta sua história comprova uma coisa que eu já sabia — a eficiência generalizada do serviço de saúde. Já constatei isso tanto a norte como a sul e lá pelo meio.
    Há verdadeira dedicação e profissionalismo — particularmente com crianças (mas não só, claro).

  6. Eugénia de Vasconcellos diz:

    A da pietá é linda! Fartei-me de gostar, mas, verdade seja dita, gostei logo nos malhanços e no sofá.

  7. S. diz:

    Vc a mimou, n?
    Coração de menina qd pede tb sabe o que faz…

  8. vasco grilo diz:

    Viva a Teresa e o SNS!

  9. José Navarro de Andrade diz:

    Obrigado, gente. Ainda bem que os acidentes no nossa vida são tão pequenos.

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