Ai sim…, eu sabia que tinha de voltar para a minha casa do momento, ao sítio que apesar de tudo melhor me podia ajudar e proteger dos incontáveis perigos dotados de capacidade suficiente para me porem fora da face do planeta de vez.
Na verdade bastava ver à volta o cenário caótico: qualquer uma daquelas pessoas que se atropelavam no cais de embarque podia perfeitamente desencadear uma pequena catástrofe local. Talvez tivessem armas – era mesmo muito natural. Mas eu tinha de entrar e seguir para o meu destino, e afinal toda aquela gente era humilde até onde a humildade se consegue ver.
Nem havia onde comprar cigarros, que merda!…
Como quem toma folgo para mergulhar bem fundo agarrei o varão da entrada e esgueirei-me para dentro do comboio, não sem provocar algum espanto em futuros companheiros de viagem – que me olharam de alto a baixo, a roupa aceitavelmente cara, os rayban escuros e o ar obviamente enrascado por ser alguém diferente de todos eles.
Era o único branco naquele comboio de refugiados e, como eles, aproveitava a aurora ainda tímida e calma para me pôr na alheta, para fora do inferninho generalizado. Exactamente como todos eles.
Por vezes um ou outro apontava-me e perguntava o que estava a fazer ali. De imediato um outro respondia por mim, apercebendo-se talvez da minha frágil posição e da eventual dificuldade que eu teria em defender a minha unidade humana em semelhantes condições:
– Está a fazer o mesmo que você, qué que é? Algum problema?… Deixa o homem em paz, vá!, ande!…
Esta é uma boa altura – como qualquer outra, afinal – para agradecer a esses meus velhos defensores de ocasião. Porque realmente precisei doutros nas quase quinze horas de suplício para cobrir os escassos 250 quilómetros que separavam Luanda de Malanje em 1975.
Vejamos: ajoujado de gente e tralhas, o velho comboio não dava mais de 40 km/h e parava em todas as estações. Em cada paragem havia venda de peixe seco, água, frutas, além de, se bem me lembro, nas cinco ou seis primeiras o facto de ser branco (cruzes, nunca me senti tão branco!) ter gerado alguma agitação. E lá voltavam à carga os meus defensores do momento, neste caso uma família de pai e anafada mãe com filho, grande saco redondo e duas galinhas atadas pelas patas:
– Qué nada, está com nós aqui e não vai sair nada!…
E a coisa acabava ali.
Seguia agora sentado no único sítio sentável que existia no exíguo WC que dividia com os meus amigos de ocasião: o lavatório.
Não me lembro de ter adormecido, antes uma vigília entre mundos que durava sem o tempo passar.
Tinham acabado os poucos cigarros que levava e lembro-me de a partir de certa altura encarar a questão da seguinte maneira: iam ser várias horas de viagem, daquela viagem, e tinha de as aguentar o melhor que pudesse. Desatei a rezar. Não que estivesse com particular medo das circunstâncias – a senhora dera-me entretanto duas laranjas (Deus do Céu!) e o marido assegurava a segurança do grupo –, mas achei razoável contribuir com algo para a minha salvação imediata.
Por isso rezei. Fez-me bem, acalmou-me, e talvez até tenha contribuído para me dar alguma coragem numa rápida saída que fiz do meu posto de combate para aliviar de inadiáveis absolutos.
Acho que já muito no fim, em zona de mata total, atirei para o éter uma maldição celestial e mal agradecida, que apenas serviu de legenda ao aborrecimento profundo e incómodo que me inundava há já tantas horas.
Estou convencido que os Céus me compreenderam não levando a mal os claramente impróprios impropérios que dirigi a parte proeminente do Panteão Cristão. Porque a vida tem destas coisas e os Céus sabem disso muitíssimo bem – e se não sabem fazem-no na mesma com imensa categoria.
Agora a cereja em cima do bolo.
Quando cheguei a Malanje tinha gente à espera. Fui preso por estar fora da sede do Batalhão durante seis dias sem licença. O que é um eufemismo amável, pois a minha licença simplesmente terminara sem que eu conseguisse voltar ao quartel porque toda a rede transportes angolana entrara em colapso total: não havia aviões ou autocarros, e comboios era quando era.
O Nabais, rubicundo capitão de lar-e-terra mas gajo porreiro também, tinha mandado um Jeep com dois supostos PM’s para me apanharem e prenderem-me no meu quarto por dois dias – que por sinal foi só um. No caminho fumámos um charro e trocámos uma data de impressões excitadas. A guerra civil aproximava-se da cidade, só não se sabia quando iria chegar.
Estava preso e não podia sair, eram as ordens dum falsamente furioso Nabais: «nem para comer, ouviste ó meu melro? Trazem-te a comida ao quarto»…
E eu, que já esfregava as mãos de contente, insisti como só eu sei insistir:
– Ó capitão, e para cagar trazem-me o penico também, é?…
Desta vez o sacana riu-se.
E eu também, claro.
Paz à sua alma.





















Também estive preso em Malange. Recusara-me a integrar coluna com o rádio RACAL ao abrigo do RDM mas especialmente ao abrigo da grande pedrada do momento, podia lá eu atinar com aquilo naquele estado. Tu estavas de Sargento de dia.
–Ó Eça, vou preso, como é que é?
–Preso?!!
–Sim, quem é que me prende afinal?
–Epá, toma lá a chave da ‘pildra’, orienta-te!
E lá fui eu auto-prender-me, sozinho com chave na mão.
À noite, porta aberta, decoração e conforto aprimorados, cão deitado na entrada, música alta e 6 ou 7 companheiros comigo a jogar à batota em grande algazarra. Parecia um pub.
Chega o Nabais, rasgando a núvem de fumos.
–Eu só mandei prender o Nogueira!! Mas o que é isto, uma tasca?!
–Mais ou menos… — gargalhada geral.
Do que te foste lembrar, caneco! Nem sei se não te fui lá visitar, mas tenho ideia que sim, com o Zé Vicente e o João. E whisky e mais qualquer coisa…
Creio que sim, aliás tornei-me ave rara em cativeiro, talvez no único Zoo em que os macacos estavam todos cá fora!
No entanto, o mais engraçado é que todos os dias disfarçava um volume na minha cama como se lá estivesse a dormir e a coberto de portas e travessas ia ao café do centro da cidade almoçar a minha sandocha de fiambre.
Alberto, obrigado por noster contado uma boa história. Melhor ainda, uma das raras histórias de prisão em que se levou a sério a reinserção social do delinquente. Um abraço
Pena não ter sido detido antes da partida!
Relativamente a si, Luanda era feudo muito meu, coisa de direito consuetudinário…
Só os estragos (enfim… bons estragos…) que por lá fez… Bom, juntos teria sido pior!!!
Todavia, por essa altura, eu andava em idêntica indumentária por terras de Cabinda, com a mesma oficiosa ordem de missão — e provocando idêntica agitação — mas sem nunca ter sido preso (uma folha de serviços limpinha, salvo seja), cuidando sempre da viabilidade do itinerário de regresso…
Grandes memórias. Incontáveis histórias…
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Eu fui preso mas na minha folha só há coisas boas, que o Nabais mandou-me prender para: justificar-se perante o Comando e deixar-me descansar…
Grandes e inesquecíveis tempos, Orcama, sem dúvida.
António já me tinhas contado a esplêndida viagem nesse comboio em que uma vez estive no lugar do condutor (juro que não era eu que ia a conduzi-lo nesses teus dias). É magnífica. Em comum contigo, a viagem do Huambo ao Lobito num comboio pré-independentista e a prisão militar. Mas eu não foi só um dia, que entre levantamentos de rancho e aliciamento à revolução a coisa foi muito pior — bem sei que foi em nome dos mais nobres ideais, mas o que queria era a folha limpinha de Mr. Orcama. Malhas que o império tece. Gostei mesmo muito, meu melro!!!
Manuel, já disse antes que a minha folha é lindinha como um alvo lençol lavado a Tide.
Estou-te mesmo a ver a espernear revolução! Ó se estou!
Desconfiava que ias gostar.
Hoje vou falar como Luciana:
– Quanto que aprende-se aqui!
Agora dá para rir, Turmalina, mas ao tempo aquilo foi muito complicado.
Entretanto descobri uma foto destes tempos, por mero acaso, que explica a minha paixão por cobras.
Na minha vaidade desmedida sempre pensei que se mostrasse esta foto a um realizador de cinema entrava logo para a tela. Vou tirar a do camião para substituir.
E vou já!
Já tinha saudades das suas histórias e episódios feitos histórias, António. Gosto sempre quando as escreve.
Ontem, acredite se quiser, depois de recordar a da Granja e a anterior que a desencadeou, tinha pensado dizer-lhe, hoje, isto. E também, porque me ficou na ideia desde que contou aquela extraordinária decisão de seu pai, que talvez pudesse pensar uma crónica de árvore de Natal no degrau.
Que bom, Eugénia.
Mas sabe uma coisa? Essas histórias estão escritas, tenho três reunidas numa espécie de conto que poderei dividir em peças mais pequenas. Entre elas está o pinheiro, claro. Mas essa deix o para o Natal.
Porque agora que vou uma semana para o Algarve vou ‘recortar’ o episódio da estrela e metê-lo aqui.
Vai ver que a troca é boa.
Com intuitos meramente provocatórios, absolutamente reprováveis, concedo, aqui deixo o “sitiozinho” onde era o meu quartel da tropa, no morro fronteiro a esta praia… nada mau, digo eu…
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Mr. Orcama, what a shame. Não admira que a FLEC queira o petisco só para seu conforto e respaldo.
A gozar com o pessoal da picada, hein, Orcama?…
P.S.
Admira-me não me terem perguntado nada sobre o “pau de cabinda”. Antevendo a curiosidade aqui deixo elucidativo documento…
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Gostei muito deste seu texto, António e dos vossos comentários, Alberto, Orcama e Manuel. Todos extraordinários, pelas peripécias que nos contam (e também pelas que nos deixam apenas imaginar…), mas sobretudo pela maneira como o fazem. You’ve all surely come a long, long way…
PS — Encantou-me o título: é uma das minhas preferidas dos Beatles e não podia ser mais adequada a tão surreal sequência de eventos …
Essa é boa, nem me lembrava dessa dos Beatles, mas é muito bem apanhada. Na verdade saiu assim porque não encontrei nada melhor… E saiu bem.
Ainda bem que gostou, Joana, foram tempos épicos que gosto de partilhar sem pieguices, e é óptimo ter quem também os viveu a lê-los. Surge sempre mais quyalquer coisa, lembrava-me lá que tinha ‘prendido’ o Alberto. Sabe porque fala ele nos macacos do lado de fora do zoo? Por ser verdade: alguns tinham macacos e eles ficavam fora de portas por serem atrevidos e porquíssimos.
Eu tinha um macaco que me revistava os bolsos da farda sempre que eu vinha do café e quando encontrava a garrafa de Coca Cola dava saltos mortais de contente pois sabia que era para ele.
Era o único sem corrente ao pescoço e seguia-me para todo o lado o que me deixava orgulhoso.
Quando acendiamos um charro, não sei se te lembras, ele aproximava-se fechava os olhos e fazia boquinhas, nós sopravamos-lhe e ele aspirava. Depois fazias as macacadas mais hilariantes ainda antes de fazer efeito pois sabia que estava a dar show e nos fazia rir imenso.
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Faltou-me dizer que gostei muito do teu texto.
Claro que me lembro, Alberto, com os do João Mário era a mesma coisa. Havia um que se deitava de papo para o ar, olhos fechados e boca aberta. E quando alguém lhe atirava fumo de tabaco ele entrava em fúria.
Ainda bem que gostaste.