Tanto dobrou que partiu


Acabei de enfiar um barrete chamado The Last Airbender. Para todos os efeitos ainda me serviu para cravar mais um prego no caixão nesse paradigma caduco de ver o cinema que é o autorismo.
O facto de os produtores Kathleen Kennedy e Frank Marshall – uns semi-deuses de Hollywood – nunca o terem abandonado, prolongou a expectativa de que M. Night Shyamalan seria um fiel sucessor de Spielberg. Uma ilusão para europeu acreditar. O protagonismo deslizando para as crianças, as famílias naturalmente disfuncionais, a reverie do um mundo perfeito se fosse um conto de fadas; sim, se juntarmos os ingredientes como quem põe as compras num carrinho de supermercado, estão muitos elementos do mestre. Faltava o resto, claro, e o resto é tudo.
Mas The Last Airbender dissipa as derradeiras dúvidas de que Shyamalan só foi interessante enquanto a Disney o defendeu, tendo a estrela passado a cometa e o cometa a meteorito, desde que o estúdio se indispôs com as vaidades do realizador. O filme tem o fervor, a variedade e tensão de uma placa de gelo, que é onde, por acaso, uma boa parte da ação decorre. Para mais resolveramcovertê-lo em 3D depois de filmado, o que teve o efeito de fazer duvidar das  dioptrias dos nossos óculos quando o vemos. Como James Cameron tão bem percebeu, não bastam uns contra picados de 90º para fazermos uau com o 3D e aqui reside a diferença entre o Avatar a sério e este avatarzinho. Sendo também verdade que na ideologia naturalista de fancaria os filmes até nem se distinguem por aí além; revolução industrial = má, planeta Gaia = bom; agora é só ir arrumando as personagens nestas caixas e esticando a história neste
O estilo narrativo de Shyamalan sempre foi tão solene e tão protocolar que muitos viram nisso a irrisão do formalismo. Um auteur! Exclamaram, porque só um auteur seria capaz de porfiar tamanha subtileza de filme em filme, sem desmanchar a sisudez num sorriso cúmplice, ao menos numa piscadela de olho para mostrar que não se levava assim tão sério. Ora um dos melhores sinais para sabermos quão verdadeiro é um auteur é, precisamente, a ausência de piscadelas de olho. E assim se garantiu o embuste.
Agora percebemos que a cara de pau que William Hurt mantinha ao longo de The Village era mesmo de enfado, ou então foi de propósito, um belo truque para condensar o estado gasoso do drama do filme. E vendo bem, assim tudo bate certo com as poses de Mel Gibson em Signs, de Paul Giamatti em Nossa Senhora da Pisicna do Condomínio ou de Mark Wahlberg em The Happening. A todos Shyamalan deve ter dado a mesma instrução que Mamoulian disse a Greta Garbo na célebre cena da dança em Queen Christina: “não penses em nada!” e o que ficou para a posteridade foi um rosto supinamente impassível, ou seja, intrigante, capaz de receber todas as profundidades que nos apeteça atribuir-lhe. O maroto do Bruce Willis é que bem nos enganou com a soberba interpretação em The Sixth Sense, no qual, como bem se lembram, só no fim percebemos o significado daquelas nuances no seu olhar inquieto.
Olhando melhor para trás, já me tinha sobressaltado quando apareciam de repente os extraterrestres em Signs, e tão verdes, pelados e de maus fígados como rezava a lenda; mas ainda concedi que a volta de 360º era para trocar as minhas curvas de 180º, num golpe ao género de eu sei que tu sabes que eu sei. Para mal dos meus pecados deixei-me convencer que era inteligência onde só havia literalidade. Aquilo a que se foi chamando o estilo de Shyamalan, não era estilo, mas apenas falta de flexibilidade e se tudo ficava em suspenso, seria porque afinal não tinha onde cair.
Tal como Samuel Fuller, M. Night Shyamalan acreditou que o estúdio o atrofiava quando dizia protegê-lo e que sobreviveria fora do aconchego que lhe proporcionava. Enganou-se. Na verdade nós é que o enganámos quando o convencemos que era ele quem controlava os filmes.

Comentários a “Tanto dobrou que partiu” (2)

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Esse é o fim pindérico ideal para certos contos de fadas modernos.
    Não vi o filme, não vi acho que nenhum dos que aqui remetes, mas a verdade é que já vi esse filme em muitas outras circunstâncias, personagens, latitudes e suportes.

  2. Turmalina diz:

    É uma pena…eu punha um pouco de esperança nesse filme. Meu filho cresceu assistindo, entre outros, Avatar — A lenda de Aang, e também Dragonball.
    A tentativa de filme de Dragonball foi um verdadeiro fracasso na opinião dos fãs do desenho.Mesmo assim ele arrecadou algo em torno de 9 milhões nos EUA.E ganhou até um prêmio de “Best Comic Book Movie” em 2009. Eu não gostei, achei a trama fraca e mal explicada. E o trabalho dos atores ficou bem abaixo do desejado. Eu particularmente acho que séries assim, muito longas, são difíceis de serem condensadas em um único filme.Mas enfim, eles tentam.

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