Como em tudo na vida, há bons e há maus filósofos. Tenho-me, evidentemente, na conta dos segundos. Não obstante, ser filósofo, bom ou mau, é ser da filosofia e, nesse sentido, ser de algum modo discípulo de Sócrates, assim como os cristãos o são de Cristo.
Mas não é fácil, neste mundo, a tarefa dos filósofos. Desde o início da filosofia, na Grécia, que o filósofo, cuja alma se exercita constantemente em abstrair voluntariamente de tudo o que em si é apenas corpo, contemplando desinteressadamente as coisas tal como são, sabe que filosofar consiste essencialmente em preparar-se com agrado para a morte (Platão, Fédon, 80c-81a).
Por esta mesma razão, porém, porque se preocupa não consigo, mas com a verdade, é considerado por todos aqueles com quem partilha a sua existência numa determinada sociedade como um excêntrico perverso e inútil (Platão, República, VI, 487d e 499b), para quem estão guardados apenas dois tipos de tratamento: ou o riso, por ser desajeitado no mundo dos negócios (Platão, Teeteto, 174a); ou a morte, por ameaçar alguns interesses particulares (Platão, República, 517a).
No entanto, não há outra hipótese, a não ser não-ser – o que, como tão bem mostrou Parménides, não é uma verdadeira hipótese. E é talvez isto o que, mais do que toda a vã erudição, distingue verdadeiramente o bom e o mau filósofo: a entrega radical de nós mesmos a um ser inteiramente bom e belo que apenas limitadamente nos é dado contemplar — sejam quais forem as consequências.
Por isso o bom filósofo não é aquele que escreve tratados difíceis e eruditos, mas aquele que vive de acordo com os princípios do ser verdadeiro tal como lhe foram dados a contemplar. E quando dele se riem, ou quando o querem matar – porque se assim não for ele não é filósofo –, ele sabe — como só um sábio o sabe — que aquilo a que verdadeiramente pertence de nenhum modo lhe podem tirar. E é por isso que não desanima.


















Oh pá, o gajo que vá lá filosofar para a Grécia, que aqui já estamos nós lixados… E quanto à Verdade, ele sabe é nada!…
Um dia vai, Orcama… Um dia vai.
Vai, vai… e é treinar o AEK. Lá não são tão mansos…
Caríssimo Orcama, por estranho que possa parecer, mas como aqui ficou demonstrado, duas pessoas podem longamente falar uma com a outra a partir de um ínfimo referente comum sem que, no entanto, nenhuma delas compreenda o que a outra está a dizer. Para além deste nosso exemplo, é também frequente acontecer entre casais, pais e filhos, colegas de trabalho, etc. De maneira que, sem nenhum mal — e ainda que também sem grande bem -, podemos também nós continuar. O Orcama dança!?
Sem nenhum mal, como bem realça, trata-se de uma pergunta ou de um convite?
Se à pergunta a resposta é afirmativa, já ao segundo direi — como por este blog já foi afirmado — prefiro contemplar…
Caríssimo Orcama, os filósofos são seres a caminho. Quer isto dizer que são metódicos. Ora, sendo metódicos, não fariam nunca um convite sem primeiro saber se ele é possível. Assim sendo, fiz-lhe, de facto, uma pergunta, à qual o Orcama me respondeu afirmativamente. Sabemos agora os dois, portanto, que o Orcama dança.
Quanto ao convite, porém, como dizer-lhe, foi coisa que não me passou pela cabeça, como certamente não me virá a passar pelos pés. Fico, no entanto, francamente lisonjeado com o facto de tal convite lhe ter tão prontamente vindo à ideia. Obrigado.