Só Visto

É uma das hottest shops em Londres por estes dias. Para quem tenha entre 12 e 21 anos, mais coisa menos coisa, claro. Tinha-me sido muito recomendada por amigas, mães de  adolescentes que insistiam: “as roupas são o máximo, e a loja, bem, a loja … tens de lá ir” ou “esquece a GAP e vai mas é a esta, que é o que está a dar, é o que as miúdas usam agora …”.

Fui. Hoje. Ao fim de um dia de chuva torrencial. Encharcada e já exausta, de tanto input cultural, de tanto caminhar, de tanta e tão bela compra. Demorei a dar com o sítio, num labirinto entre Regent e Piccadilly. Por um triz não falhei a entrada: perante a multidão que do lado de fora convivia animada achei que se tratava de um pub, de um concerto rock ou coisa assim. Mas não. It was it.

A Abercrombie and Fitch é basicamente o que se obtém juntando, num mesmo sítio, a Zara (tirando a parte dos preços …) e o bar mais in do momento (tirando a parte dos copos …). Música de dança aos berros, escuridão total, pequenos pontos de luz nas prateleiras onde está a roupa que é suposto comprar-se. Cheira intensamente a perfume em todos os recantos. E depois há os vendedores. Têm todos, rapazes e raparigas, pelo menos 1,80 m de altura. São lindos de morrer. Mesmo. Elas magérrimas, com caras de anjo e cabelos compridos. Eles muito bem apessoados, com um físico que evidencia várias – muitas, muitas mesmo – horas de ginásio. De entre os eles, vários têm como única função permanecer na entrada da loja, de jeans e troco nú — impecavelmente moldado e depilado -, a saudar afavelmente quem chega e a deixarem-se fotografar com ofegantes adolescentes de todas as nacionalidades, diante de um fundo especialmente preparado para o efeito, cheio de logótipos, que com estas coisas do marketing não se brinca. Vários outros, aos pares, dançam, enérgicos e felizes, debruçados na varanda do andar de cima. Se não tivesse visto, não acreditava.

Entrei, saltei a parte das fotos extáticas com os moços semi-despidos e dirigi-me resoluta para o interior da loja. Queria uns atuendos giros e adequadamente griffés para levar às minhas filhas mais velhas. Rapidamente percebi que não iria ser tarefa fácil. Zonas havia em que simplesmente se não podia passar, tal a profusão de meninas a remexer nas roupas e a pedir conselhos aos giraços de turno. A situação era agravada, na secção girls clothing por onde andei, pela absurda quantidade de rapazinhos embasbacados, bem mais interessados em meter conversa com as vendedoras que nos jeans, leggings, tops e afins, e que só estorvavam. O ambiente era de festa, de garagem ou de praia. A média de idades rondava os 18 anos. Senti-me um verdadeiro dinossauro. A princípio, um daqueles grandes, afáveis e inofensivos. Mas isso foi antes de tentar desincumbir-me da missão que me levara até ali.    

Porque se tratava de comprar roupa, procurei inteirar-me dos modelos, cores, tamanhos e preços das várias peças. O problema é que pouco ou nada conseguia ver às escuras. Pareceu-me tudo relativamente banal — muita camisa de algodão em xadrez ou às riscas, muita mini-saia farfalhuda com flores, muito short de ganga, muita sweat shirt com capuz, em versão com e sem zip, e profusos dizeres alusivos à marca. Hot, só mesmo os preços. Red hot. E gente, gente, gente. Por todo o lado. Cheguei a ponderar vir-me embora, de mãos a abanar. Mas uma mulher nunca desiste – nem mesmo, ou sobretudo, num sítio destes. Tratei, isso sim, de ser mais proactiva. Por outras palavras, transformei-me num dinossauro muito mau, daqueles assassinos, com várias fileiras de dentes. Dirigi-me a um menino e a uma menina que dobravam peças de roupa que a turba atirara pelo ar e anunciei-lhes que I was freaking out, pelo que tinham de me ajudar. Muito. Os dois. Right away. Foram do mais simpático e prestável: mostraram e provaram modelos, adivinharam tamanhos, deram palpites e sugestões, aventuraram-se nas overcrowded partes da loja onde me recusei a voltar, para buscar peças que eu havia vislumbrado. Acabei contentíssima, numa fila interminável para pagar, entre uma muçulmana de cabeça coberta de negro e piercing no nariz e de duas francesas que tentavam por todos os meios passar-me à frente até que lhes rosnei que era escusado o esforço. A menina da caixa, gentilíssima, meteu todas as minhas aquisições e mais as compras que trazia comigo (e cujos sacos de papel estavam desfeitos por causa da chuva) nos emblemáticos sacos da loja — que ostentam o garboso torso acima publicado, mas com mais dois palmos à vista.

Percorri toda a Regent Street até ao metro e, depois, toda a estação de Paddington e vários quilómetros de comboio, até ao carro do meu irmão, transportando em cada mão dois sacos. Ou seja, um conspícuo total de quatro homens em tronco nú.  Cuja visão, se no centro de Londres suscita olhares cúmplices e aprovadores por parte de mães e filhas iniciadas, vai gerando um genuíno e crescente embaraço à medida que dele nos afastamos em direcção ao countryside. Não tenho como descrever a cara estupefacta da idosa que viajava ao meu lado no comboio quando baixei os meus quatro-sacos-quatro e me despedi desejando-lhe all the best… Ou o estado de agitação em que ficaram os dois “cromos” locais que, beberricando cervejitas ao balcão do bar da carruagem, controlavam e comentavam, jocosos, quem entrava e quem saía …   

Muito pode o amor de mãe, é o que é.   

Comentários a “Só Visto” (14)

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Jo Ana T. Rex! Com quatro biscoitos pela trela!
    Adorava ser mosca para lhe tirar umas fotos nesses preparos…

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      O que é que quer que a Jane faça, António? Olhe que ainda assim é muito boa vontade: quatro destes gaiatos não fazem um rapaz de jeito.

      Gostei, mãessaurus regina!

      • António Eça de Queiroz diz:

        Claro que não, Eugénia. Por isso lhes chamei biscoitos.
        Agora ver a Joana sem saber onde esconder os vários ‘corpus delitus’ (é assim, Joana?…) dos indiscretos olhares campesinos deve ser de morrer a rir!

        • Joana Vasconcelos diz:

          António, foi lindo, mesmo, mesmo lindo! Ainda agora fico com uma vontade louca de rir, cada vez que me lembro da cena todinha — sobretudo da minha figura, a passear o sugestivo quarteto. E as suas achegas, claro, a “ajudar à festa” — do T rex aos corpos de delito, passando pelos biscoitos …

          Coitados dos moços estampados, tive de os pôr a secar, da tanta chuva que apanharam. Não sei se alguma vez recuperarão o viço …

      • Joana Vasconcelos diz:

        Eugénia, o que eu gostei da mãessaurus regina! Vou invocá-la na primeira oportunidade junto de um certo trio de velociraptorinas que eu cá sei, embora antecipe resultados significativamente menores (para nao dizer nulos) … Este, aliás, o grande problema de tão temível e bravia espécie: ser como os santos da casa ou os profetas na sua (deles) terra …

  2. Vasco Grilo diz:

    Genial Joana! Eu pela A&F tento nem sequer passar pela porta. O perfume que é imagem (cheiro) de marca dessas lojas por todo o mundo é um anti afrodisiaco potentíssimo. Suspeito que em Milão, agora que começa a saison outonal, a marca vai começar a fade away pois nove em cada dez pessoas nos “aperitivi” mais da moda está vestida com as úbiquas farpelas da A&F. Cheers!

    • Eu já só sigo pelo mesmo passeio, sem atravessar a rua, quando trago comigo uma máscara de gás.

      • Joana Vasconcelos diz:

        Como eu o compreendo, Francisco … o problema é mesmo quando se tem de lá entrar, o que suspeito, mais cedo ou mais tarde me voltará a suceder … mas, enfim, pelo menos já sei para o que vou, o que sempre atenua o choque …

    • Joana Vasconcelos diz:

      Vasco, tens toda a razão: o problema do perfume não é ser ubíquo, é mesmo ser insuportável, logo, poderosamente anti montes de coisas … Diante daquele smell não há paixão, consumismo, brand-addiction, fashion-vitimization que resista. Mas vai-se a ver e é só no segmento dinossauro .… que a avaliar pelo que vi — e padeci, acredita — ontem, a A&F está para durar no jovem e poderoso segmento que avidamente povoava a loja e empilhava roupinhas nas caixas …

  3. Turmalina diz:

    Tem coisas que somente às mães é permitido :o)

    • Joana Vasconcelos diz:

      Claro que sim Turmalina … e eu confesso que aproveito todasas que posso — o que me sabe muito bem e me diverte ainda mais!

  4. José Navarro de Andrade diz:

    Ou seja: é cada vez mais divertido ir às compras a Londres. A vontade que me deu de ir com a minha de 11 anos; ela é que não haveria de querer — ir agora lá com o T-Rex pela trela…

  5. Joana Vasconcelos diz:

    Zé, não comece já com as desculpas (ou pensa que vai conseguir sempre safar-se, como com a Hannah Montana-Miley Cyrus?): a meina, mais cedo do que tarde vai exigir uma visita à loja ou, numa primeira fase e para começar, umas roupitas, para andar por aí. O que, em qualquer caso, implica a sua presença na dita, seja em versão T-rex, seja noutra mais cordata, mas sempre na qualidade de main sponsor: é que o tamanho do preço dos trapinhos da marca está ao nível do volume dos extintos bicharocos … Vá-se, pois, preparando, que é como quem diz que quem o avisa …

  6. Joao Tomas diz:

    Muito bom. :-)

Comentar