Short, short way to Paris

Quando, silenciosamente, Carlos da Maia entrou no camarote, percebeu que não lhe seria possível resistir. Pé ante pé, aproximou-se por detrás, e com um cú-cú sussurrado à orelha, espetou-lhe os dois indicadores nos lombos, ali por cima da terceira costela, mesmo por debaixo da costura do espartilho. A Srª Dona Castro Moniz, naturalmente, largou um grito, e largou também o binóculo, que se foi quebrar lá em baixo e em mil bocados, no cocuruto da cabeça adormecida do Sr. Martins, o importador de bacalhau, que gostava muito de música mas que nunca resistia até ao final do segundo acto. A partir daí, foi uma barafunda. O espectáculo teve que ser interrompido para poderem fazer sair em braços e pela porta principal em direcção à sua caleche, o dito Sr. Martins. A Srª Dona Castro Moniz aproveitou a confusão gerada para se retirar pelas traseiras. Ia visivelmente aborrecida e envergonhada. Carlos, esse, ali sentado e olhando o leque abandonado sobre o espesso tapete encarnado que revestia o camarote, decidiu, em toda a sua nonchalance, que era hora de fazer uma viagem a Paris. Ainda por cima a saison estava a acabar e nunca a sua cidade lhe tinha parecido tão enfadonha e provincial como agora. Tomado pela ligeireza de uma decisão bem tomada, Carlos levantou-se. Pegou no chapéu e na bengala, meteu o leque no bolso (mandá-lo-ia já de Paris à Srª Dona Castro Moniz com o devido pedido de desculpas) e por entre uma multidão exaltada pelos acontecimentos da noite, desceu as escadarias do São Carlos assobiando a Marselhesa baixinho.

Comentários a “Short, short way to Paris” (5)

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Eh-eh-eh!…
    Nunca o Carlos da Maia foi um sacana tão divertido como aqui!

  2. Orcama diz:

    … e foi juntar-se ao amigo Ega, ali pr’ás bandas do chiado alto…

    • Vasco Grilo diz:

      Estive para escrever o texto usando o Ega e não o Carlos. Confirma-se que o deveria ter feito. Era indiscutivelmente um sacaninha bem mais divertido que o sisudo e honrado do Carlos. Bengaladas é o que eu merecia…

  3. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Vasco, já me surpreendeu e fez rir.

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