Sentença Judicial da Província de Sergipe, Brasil, no ano de 1833

Chegou-me às mãos esta notícia que dá conta da inteireza da justiça brasileira. Ora leiam:

Para além de muitas outras questões que poderiam a este propósito abordar-se (como é o caso das questões jurídicas, que interessarão sobretudo à Joana; ou da estética do abuso, que poderá ser defendida pelo Manuel; ou da radiografia do acto executório, coisa que muito interessaria o Pedro Norton; ou outras…) interessam-me aqui sobretudo as questões filosóficas, que só poderão ser verdadeiramente resolvidas, no entanto, com a ajuda das nossas amigas — e amigos — transatlânticos. Peço-vos, por isso, que nos digam:

1. Porque é que ao homem chamam “cabra”?
2. Pode-se também chamar bode a uma senhora?
3. O que quer dizer “abrafolou-se”?
4. O que quer dizer exactamente: “uma senhora ficar com as encomendas de fora”?
5. E mais pedagogicamente: como é que, em tal caso, as põe para dentro?
6. Qual o significado de “conxambrar”?
7. Pode-se, como insinua o Sr. Dr. Juíz, conxambrar também com homens?
8. E porque é que isso lhes mete medo?
9. A capadura feita a macete é muito dolorosa?
10. O que deve legalmente fazer o carcereiro com o justo resultado da execução da sentença?

Enfim, são dúvidas que ficam, mas que era importante resolver.

Comentários a “Sentença Judicial da Província de Sergipe, Brasil, no ano de 1833” (11)

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    O cabra Manoel Duda era um cabra muito à frente do seu tempo. De uma energia generosa, sempre pronto a tapar esse vazio a que a Natureza tem horror.
    Sir Thomas Morus, que se calhar imerecidamente ainda hoje cantamos, foi um homem for all seasons. Utópico também, na variante chumbregante, apostado em conxambrar com a humanidade inteira, o cabra Manoel Duda quis ser um homem para todas as encomendas — pondo-as lindamente de fora. O seu tempo não o compreendeu.
    Saindo de supetão da moita, o terceiro poder abrofoulou-se dele. O cruel Macete riscou da História mais do que um bom palmo de progresso. Para o resto dos tempos Vila do Porto da Folha Sergipe carregará o estigma de ter impedido o Século de ser Chumbregante.

  2. Orcama diz:

    Gostei do: “Ipsis litteris, ipsis verbis — trata-se de língua portuguesa arcaica”…

    Bem regressada Luciana,
    Tenho na mente uma musiquinha que fala de um cabra da peste… Eu, que sou um peste de cabra, militante e ajuramentado.
    Mas não deixe de nos fazer o carinho de deixar as significações correntes de todos essas nordestinas palavras.
    Já quanto ao objecto da capadura, em calão nordestino, sei que usava chamar-se “documento”…

    • Luciana diz:

      Orcama, eu não ia entrar em minúcias, mas sendo você quem solicita, não há como esquivar-me.

      Cabra — não tem absolutamente relação com o animal. É um epíteto que pode ser usado tanto para homens valentes, audazes, perigosos, como — com mais frequência — homens valentes, audazes, perigosos, safados e de maus bofes.

      Abrafolar — o mesmo que abarcar. Abarcar pode, também, variar de sentido e significar descer a ripa.

      Encomendas — partes pudendas.

      Conxambrar — manter relações carnais.

      Macete — atualmente ter o macete significa conhecer o caminho das pedras, ter a manha, ter astúcia. Mas também refere-se (como deve ser o caso) um tipo de martelo.

      Sabe que existem dicionários de cearensês? Mas não lhe envio um, pra não acabar de vez com a graça de trocarmos essas amabilidades.

      • Gonçalo Pistacchini Moita diz:

        Obrigadinho Luciana. Então se for eu a pedir você não responde, mas se for o Orcama já responde!? Francamente, fico ofendido. :(

        • Luciana diz:

          Ai, ai, ai, Gonçalo, não se chateie com esta pobre alma penada. Seja generoso e entenda que tenho xodó antigo por meu amigo Orcama, que já ruborizei madrugada adentro, já tratamos de Lampião, Luiz Gonzaga, Catulo da Paixão e outras variações sertanejas. Mesmo mergulhada na chateação de preparar aulas de Psicologia Jurídica, qualquer solicitação dele é, pra mim, ordem.

  3. José Navarro de Andrade diz:

    Um mimo de língua, este auto. Agora capado a macete — chiça…

  4. Redonda diz:

    Muito bom.

  5. Czar Maximus diz:

    Cá fico eu sorrindo de dó, ou chorando de rir, o caso é de choro, mas também de riso. Imagino que cabrunquento descambou em choro quando o macete moeu-lhe os bagos, ceifando-lhe as possibilidades futuras de fornicâncias. O carcereiro deitou-lhe o porrete, esmagando e inutilizando-lhe a arma de conxanbrância. Não sei quem era mais cabra homem, se o Dr Juiz, se o carcereiro ou se Manoel Dura, mas o fato é que Xico bento, a partir desse fatídico dia, mesmo abufelado, teve de aceitar, não seria mais o único a ter visto as vergonhas de Sant´Ana. Tudo bem que o bexiguento não conseguiu acunhar em Dona Sant´Ana, mas, ainda assim, me causa curiosidade: porque exatamente essa Senhora? Cogito que seria porque era apetrechada. Mas me decido pelo riso, pois um jerimbamba como esse só fazia malinagem na vizinhança, se gabando se achando o macho inteiro da freguesia, quando no fundo não passava de um papulagento. Aliás, ex-papulatento, pois depois do amassamento dos quibas, semverconhice só se fosse com o próprio subilatório.

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