Quem agora me há de levar lá?


Deram com o cadáver de Ruy Duarte de Carvalho na casa em que passara a viver após a reforma, na distante cidade de Swakopmund, na Namíbia. Como, e do que morreu não se sabe, nem sequer quando, pois embora o óbito fosse pronunciado a 12 de Agosto, há dias que já não dava notícias.
Este angolano de Luanda branco de Santarém, passou a infância e a juventude em Moçâmedes. Para lá voltou, ao fim de outras vidas, quando quis penetrar, perder-se, encontra-se e, por fim, devolver-nos, o vasto deserto do Namibe. Ruy Duarte de Carvalho ia atrás dos mucubais, os kuvale, hereros e himbas (tudo nomes do mesmo nome para nós, ignorantes) que por seu turno iam para onde os conduziam o gado que pastoreavam. E todos se iam internando na lua de terra que rodeia o Cunene e se espalha para cima, para o Sul de Angola e para baixo, pelo Norte da Namíbia, o Okavango e lugares assim negros e pedregosos.
Em 2005 fui fulminado por “Paisagens Propícias” que me veio parar às mãos sei lá porquê. “Fulminado” quer dizer que me senti cheio de sorte e envergonhado em simultâneo, tanto por não ter perdido tamanha maravilha, como por não ter dado com ela mais cedo apesar de ter estado sempre ali, à minha disposição. No mesmo fôlego atirei-me ao anterior volume da trilogia: “Os Papéis do Inglês” (2000) e já este ano ao fecho com “A Terceira Metade” (2009). Para compor o ramalhete devorei ainda “Vou Lá Visitar Pastores” de 1999.
A prosa de Ruy Duarte de Carvalho era, como próprio sabia: “uma meia-ficção-erudito-poético-viajeira”, pelo que os leitores vão carambolando pelos livros dele adentro, como quem assiste àqueles funâmbulos chineses que põem a rodar pratos em varas, uma floresta de varas, muitos pratos em equilíbrio precário, a velocidades diferentes, e nós empolgados com a ideia que tudo aquilo vai desabar e partir-se, mas não vai, no fim aguenta-se, pelo que ficamos radiantes com a perícia do artista em atender a tudo a tempo, e jubilantes com o prolongado frisson que nos ofereceu.
Podiam estes livros ter um ar de bloco de notas, de apressados nalguns momentos, ou pouco cuidados noutros, mas talvez por esse fervor da caçar o instante, sucedia com eles partirmos para o interior de uma paisagem e atravessarmos o fim do mundo do deserto namibiano, que fica para lá de qualquer fronteira, e nele sobreviver enquanto os tínhamos nas mãos. Uma Angola distante do asfalto, até dos trilhos, que nos permite um relance do tamanho africano para lá do que nos dizem.
E isto é muito do que gosto na leitura: sentir-me transportado para um território físico desconhecido, suar quando me dá calor e tremer quando me diz que está frio, conviver com as personagens que por lá habitam, aprender com elas, precipitar-me nas suas aflições e alegrias, e no fim, ficar com a sensação de que viajei uma aventura e fiquei a saber.
No meu pequeno mundo Ruy Duarte de Carvalho era um dos muito poucos melhores escritores portugueses (é a língua, estúpido!) contemporâneos. Que pena não poder mais ser guiado por ele.

Comentários a “Quem agora me há de levar lá?” (7)

  1. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Gostava de conseguir ler assim. Mas ainda vai ter que esperar. Daqui a dois anos, que é quando vou poder começar a tentar, se não conseguir, peço ajuda. Juro.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Em 72, numa Luanda que sonhava futuros, a editora Culturang, na colecção “O Livro de Angola”, publicou “Chão de Oferta” o primeiro livro de Ruy de Carvalho, que em livros posteriores assinaria Ruy Duarte de Carvalho. A sua poesia combinava léxico africano com estética modernista que viria, em anos seguintes, já bem depois da independência, a contaminar os seus filmes e a valer-lhe encómios da fase mais maoísta e militantemente política dos Cahiers du Cinéma. Aquele livro, que sobreviveu aos 3 anos mais transumantes da minha vida (fui onde havia pasto), comprado na Lello por 37 angolares e 50 centavos, guardo-o ainda hoje. É o mais próximo de Herberto a que, com esoterismo vocabular, um poeta impregnado de Angola chegou.

    Adoço-te as costas
    com licor de acácia.
    Espremo-te os rins:
    um favo de dem-dém.

    Vou fundo em ti
    feroz
    e oiço-te um ai:
    faz eco em mim
    a voz
    do meu país in-tacto.

    O post do José Navarro de Andrade faz-lhe toda a merecida justiça. Aqui, neste olhar patrício, também.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Você, Manuel Fonseca.. olhe, nem lhe digo para não me subir a tensão. Plasme lá o raio do livro! Ou não é lindo livro?

      • Eugénia de Vasconcellos diz:

        E o livro?! Ainda não vi a cara do transumante livro.. seria uma outra linda homenagem e com belo poema na abertura do nosso cemitério.

        • Manuel S. Fonseca diz:

          O livro é um falso quadrado (18×19) com a imagem das patas de animais (cavalos?) e barra branca de fundo. Título a bold, partido em 3 linhas e todo em minúsculas. Noutra linha, em baixo, em maiúsculas, letras finíssimas em corpo reduzido com nome do autor.
          Começa assim o último poema:

          PORQUE O DESERTO É MACHO
          E AVARO DE GESTO
          E SE PROJECTA EM JULHO
          TRIUNFANTE
          TANGENDO A SOMBRA DOS REBANHOS TRANSUMANTES

          Não tenho, perdoe-me a estimada Eugénia, imagem na net, nem scanner à mão.

  3. Turmalina diz:

    Eu não conheço o Ruy, prazer em conhecê-lo e tenho certeza que vou gostar muito de descobrí-lo.
    Eu também leio assim, me transporto! É mais um autor que vai entrar na minha lista de compras lusitana.

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