
As nódoas negras nas costas do seu homem maravilhavam Madalena. E de tal modo ela se excitava com tamanha demonstração de piedade que acabava por tremer de medo ao sentir deveras a luxúria dos seus pensamentos. “Um simples pecadora”, pensava Madalena agitando as águas.
O cheiro da maresia no verão ou da terra húmida de outono, o ruído feliz dos filhos a crescer, o aconchego caloroso da lareira no inverno, nada disto demovia José Maria da sua missão. Todas as noites via o noticiário na televisão com escrúpulo e minúcia, anotando mentalmente as desgraças apresentadas, os crimes tão soezes quanto o esforço dos jornalistas para os ampliar e toda a coleção de tragédias globais que cintilavam com alacridade no ecrã elétrico.
Mais tarde, no sereno da alta noite, trancava-se na casa de banho e iniciava os trabalhos de expiação: uma vergastada por cada alma perdida, como mandavam as Ordens, assim redimindo todas aquelas mortes que não encontrariam outra salvação.
– São dias de grande abundância, mas tudo acaba porque tudo acaba – murmurava José Maria.
E Madalena, demolhada, anuía em silêncio.
Depois dormiam como justos até ao raiar da aurora. Lá vinha novo dia.

















Ó Zé Navarro, aquilo não são nódoas negras, são pelos… Poderá ser das vergastadas pelas alminhas nos costados… mas são pelos!
Caro Gonçalo: Nunca estive junto do quadro ao vivo. Daqui, estou capaz de jurar pelas almas que são nódoas negras; é o que vejo e não abro. E, como sabe, um quadro é aquilo que cada um vê nele.
Ah…mas eu consegui ver nitidamente as nódoas negras, achei graça que no alto das nádegas formavam círculos quase simétricos, como nos ombros as marcas eram mais alargadas…assim como pude escutar o som de cada vergastada…
Cada qual com suas expiações!
Zé, o texto impressionou-me e furtou, de pronto, as palavras de um possível comentário. E ficou rondando-me o juízo. É que, por aqui, no meu sertão, ainda é assim:
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=747411
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=754788
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=421912
[…] Perdão – […]