Perdão


As nódoas negras nas costas do seu homem maravilhavam Madalena. E de tal modo ela se excitava com tamanha demonstração de piedade que acabava por tremer de medo ao sentir deveras a luxúria dos seus pensamentos. “Um simples pecadora”, pensava Madalena agitando as águas.
O cheiro da maresia no verão ou da terra húmida de outono, o ruído feliz dos filhos a crescer, o aconchego caloroso da lareira no inverno, nada disto demovia José Maria da sua missão. Todas as noites via o noticiário na televisão com escrúpulo e minúcia, anotando mentalmente as desgraças apresentadas, os crimes tão soezes quanto o esforço dos jornalistas para os ampliar e toda a coleção de tragédias globais que cintilavam com alacridade no ecrã elétrico.
Mais tarde, no sereno da alta noite, trancava-se na casa de banho e iniciava os trabalhos de expiação: uma vergastada por cada alma perdida, como mandavam as Ordens, assim redimindo todas aquelas mortes que não encontrariam outra salvação.
– São dias de grande abundância, mas tudo acaba porque tudo acaba – murmurava José Maria.
E Madalena, demolhada, anuía em silêncio.
Depois dormiam como justos até ao raiar da aurora. Lá vinha novo dia.

Comentários a “Perdão” (5)

  1. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Ó Zé Navarro, aquilo não são nódoas negras, são pelos… Poderá ser das vergastadas pelas alminhas nos costados… mas são pelos!

    • José Navarro de Andrade diz:

      Caro Gonçalo: Nunca estive junto do quadro ao vivo. Daqui, estou capaz de jurar pelas almas que são nódoas negras; é o que vejo e não abro. E, como sabe, um quadro é aquilo que cada um vê nele.

  2. Turmalina diz:

    Ah…mas eu consegui ver nitidamente as nódoas negras, achei graça que no alto das nádegas formavam círculos quase simétricos, como nos ombros as marcas eram mais alargadas…assim como pude escutar o som de cada vergastada…
    Cada qual com suas expiações!

  3. Luciana diz:

    Zé, o texto impressionou-me e furtou, de pronto, as palavras de um possível comentário. E ficou rondando-me o juízo. É que, por aqui, no meu sertão, ainda é assim:

    http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=747411

    http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=754788

    http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=421912

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