Peço desculpa pela interrupção

 

Peço desculpa pela interrupção mas a silly season segue dentro de momentos. Não custa nada. São só umas horas o tempo que dura a leitura. Que podem ser intercaladas por mergulhos e jantares à beira mar plantados. Que não nos perturbam por aí além o dolce far niente próprio das férias. São só umas horas para tomar consciência – muito, muito levemente — do que se tem passado lá fora. No mundo, longe, muito longe do nosso cantinho de brandos costumes.

Só para ficarmos a saber, se ainda não o sabíamos, e entre muitas outras interessantes revelações, que tempos houve não muito distantes, pouco menos de três décadas antes da constituição do Estado de Israel, em que altos representantes do movimento sionista e das (futuras) nações árabes se sentaram à mesa para louvar os laços de sangue entre os dois povos. E que escrito ficou que, caso o desejado grande reino independente árabe fosse criado em terras que iam da Península Arábica à Síria e ao Líbano, o estabelecimento dos judeus na Palestina seria muito bem vindo.

Mas, para que não nos deixemos levar pelas aparências, convém que se fique a saber, também, que nem sempre a vontade dos governados corresponde aos interesses estratégicos invocados pelos governantes. Como em 1949, já depois da criação de Israel e da monumental derrota infligida aos quatro países fronteiriços Egipto, Jordânia, Síria e Líbano. Num curto espaço de meses depois da assinatura dos armistícios reconhecendo os domínios de Israel, todos – todos mesmo — os que, em representação das nações árabes, tinham empunhado a caneta com que o acordo fora lavrado deixaram de pertencer ao mundo dos vivos, cravados por balas disparadas por compatriotas. E, desde então, de Sadat a Rabin, o mundo não deixou de nos lembrar, aí no Médio Oriente ou noutras zonas do planeta, como é difícil – e dizemos difícil, porque nenhum de nós se atreve a pronunciar a palavra “impossível” — que a paz se imponha à guerra, aos olhos de muitos governados (governados fundamentalistas ou radicais, é certo, mas é essa uma das contradições da democracia que esta nunca conseguirá resolver).

A partir de factos históricos como os acima referidos, o libanês Amin Maalouf faz-nos reflectir, no seu “Um Mundo sem Regras”, sobre as razões daquilo de que já todos desconfiamos há muito: que o mundo se tornou dificilmente governável e que ameaça mesmo tornar-se ingovernável de todo. Sobretudo, se uns continuarem a assobiar para o lado e outros, a pretexto da (louvável, em si mesmo, nada de confusões) defesa das especificidades étnicas, linguísticas, religiosas, sociais, culturais e outras, insistirem em cavar ainda mais o fosso entre “civilizações” que, depois da guerra fria e do desmoronamento do comunismo, nos rodeia (ou cerca?) por todos os lados.

Mas, enfim, estamos na silly season e o post, dizem-me os caros leitores e quem sou eu para vos desmentir, está totalmente fora de contexto. Isto não é para nós, para o nosso cantinho de brandos costumes. Só para os outros, para os que decidem o mundo. Em quem nós (lá está, outra das contradições sem solução da democracia) nem sequer votamos.

Para nós, são estas ondas lá fora. Vamos voltar a elas.   

Comentários a “Peço desculpa pela interrupção” (5)

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Gosto imenso do Maalouf tanto em romance (Leão, o Africano, o meu preferido) como em ensaio (As Identidades Assassinas).
    Vou buscar este, também. Obrigado pela dica.

  2. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Você, Diogo.. já não lhe basta andar estival e à beira d´água a passear o Maalouf e a ensandecer as moçoilas a quem o sol torra a moleirinha, ainda vem para aqui, culpado sabe que é ou não pediria desculpa, feito serpente, de amim maçã maalouf na mão a tentar quem, por ter tanto trabalho atrasado, nem pode pensar sequer uma mordidinha em tal maçã. Não leu a Bíblia? Não sabe o que acontece à tentadora serpentina? O mundo tem regras. Olaré se tem.

    Código de honra e lailailai: não diga que não avisei.

  3. Diogo Leote diz:

    Eugénia, ia eu todo prestável entregar-lhe o Maalouf em bandeja de ouro, todo eu salamaleques e atenções, quando percebi — a tempo felizmente — que uma terrível conspiração se preparava para me liquidar a mim e aos meus aromas de veraneio. Tive de me esconder bem escondido e esperar que a trama se desfizesse. Ainda pensei num qualquer tratamento desbronzeador para aplacar a fúria. Mas parece que, entretanto, lhe fizeram das boas lá em cima.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Ó Dona Joana, queira fazer-me a bondade de informar a Dom Diogo que não lhe falo: por mãos próprias, ou alheias, o certo é que, bárbaro, me escalpelou metaforicamente.

      • Joana Vasconcelos diz:

        Eugénia, Eugénia, releia o comentário do Diogo e reconsidere … ! Olhe que não é a qualquer uma que o dito se propõe apresentar-se de bandeja de ouro, todo ele em salamaleques e atenções, com aromas de veraneio e — presumivelmente e uma vez sem exemplo — a horas … Eu acho que ele está mesmo arrependido e a querer redimir-se. Seja magnanima com o coitado …

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