Para dizer it´s a wonderful life

A minha vida é muito pequena. Não tenho muitas nem mais nem belas histórias. Estas apenas. Sequer tal coisa faz mal, não tem mal: outros têm muitas mais belas, eu ouço com os ouvidos, ouço pelos olhos de ver e ler, ouço pelo nariz dos poros, toco no que ouço, sou permeável à substância da coisa ouvida, sou feliz de ouvir. É uma vida pequena num tempo de vidas grandes. Mesmo as distâncias na minha vida se medem em passos no Verão ou voltas de bicicleta quando o calor se modera. Não é preciso passe social ou carro. Sim, esta é a medida da minha vida: não é preciso. É uma vida de palavras, cão, sobrinho e sushi. Às vezes, tantas vezes, até cão sobrinho sushi são palavras quando, de trela na boca, brinquedo na boca o cão pede, eu não dou, não vejo sobrinho, não encomendo sushi. É pequena. É não. Devorados a partir do ecrã e eles fazem-se ecrã nas letras pretas sobre a folha branca que tão pouco são letras ou folha branca, mas código invisível aos meus olhos que vêem letras e folha. Cão de letras. Sobrinho de letras. Sushi de letras. Habitantes todos da folha branca. Esta é a minha vida pequena e comigo Capra não faria George Bailey nem Clarence ganharia asas. Há pessoas que têm vidas grandes mesmo se parecem pequenas de George Bailey. Lindas. Vidas sim. Vidas asas para clarences. Outras têm vidas grandes que parecem grandes e fazem o mundo pequeno. Cabe-lhes tudo, até Bedford Falls inteiras. Admiráveis. E ainda há aqueles que nem consigo entender. O Richard Branson vai para o ano iniciar o turismo orbital, a terra entrará pela retina adentro dos turistas que já calcaram pó na Patagónia com vista para o mar  de acasalar baleias, mar quarto, mar cama, esses mesmos que fotografaram todas as torres eiffels do mundo, coleccionam cromos de mundo e finalmente, por agora, o último cromo, a terra pela retina adentro. Não saberia fazer uma fábrica de turismo. Também, que pena, nunca saberia fazer Bedford Falls. Porém repito, não tem mal, ouço as histórias, as muitas mais belas, vejo as bondades nas pedras do passeio ao lado das beatas e do lixo. Flores pequeninas. Caem das mesmas mãos de onde as beatas e o lixo. Vejo as mãos, vejo como primeiro fizeram as próprias mãos, depois as mãos a fazer o mundo e como, ao fim, fazem adeus. E as outras, árvores de sombra e jardim de fresco a iluminar de verde os escuros, oxigénio puro, boca a boca.

Comentários a “Para dizer it´s a wonderful life” (11)

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Montaigne era um isolado e foi grande.
    Eu acho que você é grande, particularmente quando escreve.
    E por causa disso, do escrever, vou meter o meu último post antes de semana curta de férias, ausente da rede quase sempre, onde alguém fala de poesia.
    «De nada serve impor a poesia», ou seja, a tentativa de colonização da sensibilidade dos outros.
    Temos de ser diferentes, a riqueza é essa.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Tem razão Eugénia, não vejo Bailey em si. Para ser franco acho que a sua pequena vida é a muito pequena vida de Clarence. Se calhar ainda não deu conta, ou então anda a esconder-nos, mas já lhe vimos todos a asa direita. Ganhou-a só de nos aturar e de nos fazer melhores no ETGM. Um dia destes “a bell rings”, e terá ganho a esquerda. Ficam-lhe bem as asas, Clarence de Vasconcellos.

    ps — só a muita pequena vida é que se roça na felicidade. Desconfio do show off das grandes vidas.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Se eu tivesse aqui à mão o livro do Tom Sawyer para lhe oferecer, fazia-lhe esta dedicatória: Manuel Fonseca, seu forreta!, já que me deu imerecida asa angélica porque é que só me deu uma? Quer que eu voe toda assimétrica?! Acha bem? Como não tenho, olhe, ficamos por aqui — para mim filme que tenha esta música é logo meio caminho para eu gostar.

      Ps: não se esqueça que me chamou anjo. ANJO.

  3. Turmalina diz:

    Fantasmas de Natal e anjos da guarda com missões assim tão positivas sempre me assombraram desde a infância.Como Shakespeare sempre andou presente nos bastidores da minha vida, eu desconfiava de tudo que era extremamente bom, ruim, grande ou pequeno. E assim fui crescendo acreditando na minha própria teoria da relatividade, mas sempre tomando o cuidado de saber que nada sabia. Só depois de muito tempo é que aprendi a visualizar diferenças e aquelas que realmente importam. Na verdade, Eugénia, não sei da sua vida, se é pequena, feliz, completa ou etc.Mas tenho uma única certeza a seu respeito, a de que você escreve como os anjos.Você desconstrói as palavras e depois as reconstrói de modo a transformá-las em pura poesia.Sua escrita é grande! É plural, com graça e muitas vezes profundamente emocional. Sabe, eu gosto de escrever, mas não sei traduzir em palavras nem metade do que sinto.E ao lê-la percebo que o mundo das letras está salvo :o)

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Cara Turmalina, a minha vida é como qualquer outra, as circunstâncias em torno dela mudam: às vezes alegria, às vezes não, incompleta, tranquila.. de um tudo como todas as vidas. O que desejo e me aplico, nem sempre sou bem sucedida, é em permanecer a mesma quando ganho ou perco.

      Obrigada pelas suas boas palavras. Escrever é-me importante.

  4. Orcama diz:

    Subscrevo o que antes é dito e partilho aqui as imagens de um passeio de Eugénia de Vasconcellos na sua bicicleta alada. Sim, Manuel, parece já ter ganho duas asas.
    Cara Eugénia de Vasconcellos desejo que partilhe também a música… e a letra!
    http://www.youtube.com/watch?v=BUt9Zfyea8Y

  5. Joana Vasconcelos diz:

    Eugénia, cada vez mais sei que a grandeza ou a pequenez de uma vida depende do muito ou pouco de nós que pomos em cada momento, da intensidade com que vivemos tudo aquilo que nos vai acontecendo ou vamos fazendo acntecer. Quer estejamos no olho do furacão, no centro das atenções ou sózinhos, em silêncio, apenas com um livro ou com um ecrã em branco, pronto a ser escrito, por companhia.

    Gostei muito deste seu imenso texto.

  6. José Navarro de Andrade diz:

    Cariño: vida pequena não é vida pobre. Vida pobre é sem palavras. Já agora, vida pequena seria sem sushi. E sobre isto já andava a cismar um post sobre Harvey Pekar, a prova de que mesmo uma vida absolutamente nula pode ser criadora. Mas nunca tanto como a sua escrita.

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