– Ó Minguinhos, olha que tu bem podias ir a um daqueles institutos de estética, que também há disso para homens, sabes?…
– Fogo, Gina… E, e instituto de estética pra quê, carago?!…, questionou o sucateiro por entre esgares de barbearia.
– É desses pêlos todos que tens nas tuas costas, filho… Dantes não tinhas. Ai, môre, é que te fica tão mal…
– Isto foi derivado à merda do tratamento capilar que fiz na Figueira há três meses: cresceu-me pêlos por todos os lados, até onde não queria. Até na ponta do nariz! Aliás vou já rapá-los…
Domingos limpou cuidadosamente a face glabra com a toalha de mão. Queria estar decente para o almoço que ia ter com o doutor do banco. «O homem foi ministro… e agora é ele que manda…, está certo!», concluiu no surdo pensamento, reconhecendo mesmo que sem ele a compra dos carris da CP a preço de saldo nunca poderia ter acontecido. E adoçar-lhe um bocado a boca com meia dúzia de bons robalos fora uma ideia bestial do seu amigo e sócio Eusébio Dias, que controlava os leilões de peixe em várias lotas do país. «Talvez o gajo abata algum na comissão…».
O chapinhar da água atrás de si fê-lo regressar aos pêlos nas costas:
– E que queres tu que eu faça, mulhiére?…
Georgina rebolou na água como uma toninha grávida e riu-se baixo, para não ofender:
– Que faças uma depilação… Olha que é muito moderno! Dizem que é metro sexual e tudo…
– Metro quêee?!…
– Sexual…
– Metro sexual nem na farmácia, filha. Andas a ler essas revistas malucas e acreditas em tudo! Não há disso em lado nenhum…
– Metro sexual é como se chama aos gajos modernos, meu burro! Os actores VIPes, o Clóni e esses todos. Olha, o Castelo Branco depila-se todo…
– Pôrra! O conde maluco?! Ó Gina, carago, tu agora queres-me a pegar de empurrão?!… Tu não me brinques com coisas sérias – ameaçou o sucateiro no tom de voz enferrujado com que assustava a mulher quando ela tentava espingardar mais do que o previsto.
E Georgina, que recebera há dois meses o Mercedes descapotável que ele lhe prometera como prenda de anos, logo ali percebeu que tinha encaminhado mal a conversa. Defensiva, recuou de imediato:
– Ó filho, não é nada disso, sei que és mesmo muito homem… A bem dizer acho que gostas de ir ao Lua Azul para mostrar isso, não é?…
A mulher pensava assim enaltecer a vaidade macha do marido. Mas não estava nada à espera do acrescento que este ia fazer à sua suposição.
Domingos deu uma gargalhada curta, prosseguindo na voz paciente de quem explica o funcionamento duma empilhadora industrial a um técnico de contas:
– Isso do Lua Azul não é por causa das gajas; ou antes, não é só por causa das gajas. É muito mais o prestígio…, o prestígio é que é importante.
– Ora, prestígio…, comentou Georgina em tom de gozo descrente.
– Prestígio sim senhor, está lá tudo o que mexe na borracha, percebes rapariga? Todas as noites, estão lá todos. É como ter uma amante, que também dá muito prestígio… Isso sim!
– Uma amante?!!!, rugiu Gina, gerando algum reboliço salpicado para os lados. – Tu tens uma amante, meu corno de merda?!…
Perdera subitamente o medo do marido ao aperceber-se da desconhecida invasão territorial. E Domingos, subitamente apanhado por esse mesmo medo que fugia, respondeu contemporizador:
– Ó môre, todos nós, os gajos de prestígio, temos de ter uma amante, carago! É como que uma questão de princípio, percebes? Olha o Barros – o de Ílhavo, sabes?… E o Eusébio! Esse ainda ontem deu um Mercedes à dele, por sinal igualzinho ao que eu dei há tempos à minha…
– Ai tu destes um Mercedes à tua, meu granda pulha?!…
Georgina levantara-se da banheira num repente de tsunami e segurava na mão direita um frasco pesado de sais de banho que tinham trazido da Tailândia. O ar ameaçador era inequívoco, mesmo se visto ao espelho, e o sucateiro sabia que existiam riscos reais a partir dali.
Então, com insuspeita agilidade, virou-se para trás e num gesto rápido segurou-lhe ambas as mãos. Os fortes corpos quase se tocavam, ela pingando, ele peludo.
Com o olhar bem fixo no rosto irado da mulher, Domingos apelou à calma:
– Não sejas tola, Gina, o Mercedes que dei à gaja é uma merda comparado com o teu… É daqueles pequeninos, nem capota automática tem! E foi comprado em segunda mão, vê lá tu… Foi só para amaciar, percebes môre?…
Com a ira facial a transformar-se progressivamente em beicinho, Gina roçou ao de leve os peitos túrgidos pelo denso matagal piloso do marido. Por fim perguntou, já na sua voz fininha e prometedora de criança mimada:
– O meu Mercedes é maior que o dela?… É, Mingos?…
– É filha, é. Pelo menos o dobro – elogiou o sucateiro, largando os punhos da mulher devagar e envolvendo-a num paternal e redondo abraço.
– Vá! Quero uma beijoca já!, exigiu o sucateiro num acesso de ternura.


















Genial.
O homem mede-se pelo tamanho do seu carro, antigamente aos palmos, agora aos carros. Não tardará e será medido aos telemóveis. boa semana
Bem lembrado, António. E belo texto.
Barbaridade, Benedito e o pior é que é verdade…infelizmente existem casos assim…o que é um absurdo, mas tudo bem, o que importa mesmo é que seu texto está uma delícia de ler.
Achei graça porque aqui dizemos: — seu e não meu, no caso de burro, pulha e etc. E se tem coisa que eu acho o fim, é quando o marido chama a mulher de filha.
Antonio, que delícia de texto. Gostei imensamente dos personagens, um tantinho ridículos e, justamente nisso, tão humanos.
Ainda bem que gostaram. Servi-me duma anedota antiga, dum casal portuense, mas modifiquei-a para não ser uma simples piada. Há gente assim, há…
será inspirado na célebre gina do fernado?
Quem é a Gina do Fernando, Zé Navarro?
A anedota que utilizei é velha: empresário e esposa passeiam-se na Foz; de repente passa uma gata num Mercedes e o empresário diz-lhe adeus — o que deixa a esposa histérica; diz-lhe o marido: «Ó filha, é a minha amante, todos nós, empresários de sucesso, temos de ter uma por uma questão de prestígio», ao que a madama acalma; depois passa outra gata num BMW — e novo adeus desenfreado do empresário, que explica ser aquela a amante do seu amigo Gualter.
Àparte da madama: «Ai filho, a nossa é muito melhor…».
God Almighty!
Anthony, what’s happened to your lovely portrait? Is that a Christmas tree that you’re wearing? What happened to the stylish tall hat? And the lovely red bowtie? Have you completely gone out of your mind? Even the nasty Manuel ultimately improved his image! Shame on you, boy!
Áaahhh?!…
Então passa-me a vida a azucrinar na cartola, diz que pareço um palhaço, eu (parvo!) mudo tudo (agora sim, pareço um palhaço)…, e não gosta do meu protector especial contra martelinhos de S. João?!…
Now, now, take it easy Anthony! What a terrible temper you have there! Naughty, naughty boy!
If you feel confortable with that thing on you head, that is absolutely fine with me: your happiness is my only concern. And I will assure that no one, not even myself, will ever laugh at that silly hat (is that a hat?).
I just cant’t see why you started wearing a protection against St John’s martelinhos in August, but I guess you must have your own reasons …
Should I wear a string bathsuite, or a spyderman fantasy?…
Of course it’s not a hat: it is a chair protection for, well… for the bottom.
If ther’s no dog use the cat — I say.
The string being highly improper for a family blog like ours and the spiderman too childish for a man of your age and position, I guess it will have to be the chair protection. Never mind, though, Anthony, here we appreciate you for what you are, not for your looks…
Agora é que me picou!
Só por causa disso vou mudar outra vez…
Lovely blond boy … But what on earth is he doing in your avatar? Do you happen to know him, Tony?
Exatamente essa história ouvia-a contar acerca do fernando mai-la sua gina. Gente de grandecíssimo gabarito no Porto nos anos 90. Ora pense lá, ponha lá as meninges a recordar debaixo desse capachinho…
Capachinho?! Mas se é uma farta cabeleira!… Nem uma extensão, nem um pingo de tinta!
Capachinho, ora essa…
Tu ouviste-a em 90, eu em 70… E sim, no Porto, claro. Mas há bichos destes por todo o lado.
Já me fez rir, António. Porque é que as habitantes do demimonde são sempre espampanantes concepcions pagas ao arrátel como a carne de vaca, conformes ainda às de um nosso outro querido Eça.. E será que são?
António, que maravilhosa incursão na intimidade deste prestigiuoso casal!
Um verdadeiro match made in heaven — digo eu — o empreendedor Mingos e a sua rechonchuda “legítima” Gina, percorrendo juntos os às vezes bem insondáveis ways of the world, rumo ao sucesso …
Ainda bem que gostou, Joana. Pelo menos gosta de alguma coisa…
Olhe, se guiar não troque as mudanças, viu?… Já sabe como é nas rotundas? É pelo outro lado, não se esqueça.
E não vá a Stonhenge às mezinhas que eu já avisei tudo o que há lá de revendedores! Só têm licença para lhe vender ‘dandelion’ e chá de hipericão — que é bom para os fígados…
E o tal do dandelion serve para quê? Não posso aceitar encomendas suas sem saber no que me está a meter …
Quanto ao hipericão, não se preocupe: logo que regresse segue o pacotinho por correio azul para as Antas …
Fintas a estas horas tardias, Joana?
O hipericão é para os seus maus fígados, o dandelion, olhe, para soprar e ver a voar…
E toclas!
Em certa medida são mesmo, Eugénia.
Há tempos li uma crítica a José Gil (de quem já li coisas bem interessantes) porque ele dizia que o grande erro pré-presente dos portugueses reside na não ‘inscrição’ do salazarismo (o julgamento de, punições eventuais, etc, a la Nuremberg), do que resultará a nossa inacção medrosa e a falta de rasgo. Num dos pontos da crítica lia-se algo como isto: a responsabilização quase exclusiva do salazarismo sobre o estado actual das coisas parece-me um exagero. Não sendo assim, como explicar a actualidade dos diagnósticos de Eça e Ramalho, tão anteriores a Salazar?
O crítico (um político actual) é de direita, mas isso não lhe retira alguma razão.
Fico contente que tenha gostado.
Talvez a actualidade se deva, não à não inscrição do salazarismo, mas ao facto do querido Eça ter lançado o olho àquilo que em nós, mais do que costume é natureza fazedora de costumes.. Hence, como diria hoje a nossa darling Jane, a absoluta necessidade de alguma elevação via ensino. Mas tanto quanto me é dado a ver, o elevador desce.
Também é verdade em certa medida: o elevador desce por, entre outras razões mais domésticas, existirem hoje paradigmas de sucesso (e civilizacionais) muito desajustados à realidade. A sobrevivência imediata, individual, impôs-se como um manto de formigas-guerreiras sobre uma plantação de trigo. O goal é ficar por cima, de preferência de todos.
O mundo pode acabar? Que se lixe, então!…
Há lemingues prontos a saltar da falésia, enquanto outros se agarram a uma balsa de plásticos para escapar à correnteza.
Depois, noutro patamar, o elevador sobe — porque já só pode subir, acho eu…
Até esse desacerto se mostra abissal.
A inscrição ou não do salazarismo parece-me inócua, particularmente agora, no fim da fornada do Tempo. A ser assim acabávamos a inscrever a 1ª república, o D. Sebastião, a Leonor Telles e o conde de Trava (o que de certo modo vai sendo feito, como um musgo acastanhado que cresce em silêncio).
A média é baixa, sem dúvida.
De deixar a BMW roidinha de inveja.
Grande, grande, António.
João, grande abraço!
Ainda bem que gostaste.
Limitaste-te a descrever, no teu melhor estilo, a realidade dos nossos business men, pura e crua.
Lindo, adorei, mano.
Um certo tipo de ‘business man’, certamente.
Ainda bem que gostaste, Zé Águia (ouve-me lá, então parece que agora vais-te dedicar ao comércio de frangos por atacado?…)