O Herói é o nome de guerra de um “quase-autor” do É Tudo Gente Morta. Quase autor, quase nómada, tem colaboração bissexta, que eu acolho e, mero intermediário, publico com o maior gosto na minha campa privativa. É meu kamba, meu amigo, e há tão poucos.

O dedo no Phantom
Um post do Herói
E eu ia dizer que não a um Cadillac Ride & Drive? Fui lá depois de sair do consulado da fraternité. Os franceses, é sempre outra conversa. Fala-se do que se quer e, no fim, só se falou de cultura. Abençoados attachés.
Já percebeste, meu, que me apanhaste na tua L.A. Saí de Santa Monica e o gps levou-me ao Groove. “Esqueça a snobeira, lá é que é”, disse-me o attaché, a pensar que eu queria o que ele estava a pensar. Quando cheguei, vi que era verdade. Um gado novo. Não te vou dizer fresco porque aqui, ainda estão na catequese e já coalharam (as merdas que eu aprendi convosco, meu).
Fui ao que fui sem saber ao que ia. Queria um test drive da Cadillac a lembrar-me do espada do velho Pinto. No meio do buzz mordeu-me o sotaque patrício*. O brother andava sem pisar, contente e senhor de si. Meti conversa e eram dois lá da banda mais garinas** locais.
O que é que vocês estão a fazer aqui e komé k é? Ah, eu lá moro em alvalade e os meus kotas…*** Em breve síntese, como diria o redundante Gebo, nosso prof de língua pátria, os ndengues**** estão cá a estudar e têm pais ministros – vá lá, da nomenklatura amiga e democrática. Como me viram amancebado com o Cadillac, gabaram-se: meu, vou mostrar-te o que é um bom mambo*****. Desceram-me até ao parking e enfiaram o ticket na boca do valet. Três minutos depois caíram-me os queixos. O caxico***** aparece com um Phantom, meu. Como a tua ignorância na matéria é lendária, explico-te: são quinhentos mil dólares de carro. Um brinquedo feito pela Rolls Royce, com motor V povoado por 12 cilindros e 48 válvulas. Phantom Drophead Coupé em mãos pouco mais do que adolescentes.
Estes putos estão a formar o espírito para servir a terra que os heróis libertaram das algemas******. Estranhei-lhes a contradição. Estranharam-me a estranheza. “Komé, temos que representar a pátria, é o nível, não vamos dar uma de subserviência.” Sabem falar, meu, e eu subservi logo: em 5 segundos já batíamos as 60 milhas. Só para cheirar, que em L.A. não se brinca. “Mama 25 aos 100, guio-o com um dedo e rasga como um Porsche”.
Não duvidei: um dedo para o Phantom, a mão inteira para segurar a terra amada que me viu nascer.
Glossário
da lavra do esquecido Manuel S. Fonseca
*Patrício – designa reconhecimento e pertença entre angolanos negros
** Garina – jovem de sexo feminino
*** Kotas – Mais velhos, pais
****Ndengues – mais novos, crianças
****Ter um bom mambo – ter alguma coisa de valor
*****Caxico – criado, tratamento depreciativo
******Os heróis quebraram as algemas – verso do hino do 4 de Fevereiro, data simbólica do início da luta de libertação de Angola

















Manuel Fonseca, bem sei: o Héroi não quer flores. Azarucho. Nem sempre temos o que queremos, mas muita vezes temos o que não. Olhe, mal comparado, que faça como os toureiros com flor caída fora do caminho. É só porque escreve bem. Muito bem.
Quanto às despesas de representação dos filhos da classe política de Angola que não subservem: ensaiam o futuro da governação.. ao volante.
Eugénia de Vasconcellos, o Herói já me prometera comentar os comentários e mimos recebidos no primeiro post que escreveu para o blog. Não cumpriu.
Ou, como se diz agora em Luanda: desconseguiu.
Desta vez, julgo que se esticou um bocadinho a “falar a política” e com a pressa nem ai, nem ui para os mortos deste cemitério. Vou azucrinar-lhe o miolo. E julgo-me com mandato suficiente para recolher as suas flores e fazer-lhe entrega DHL.
Sabe, talvez por ter uma grande saudade angolana, e mesmo de Portugal por sermos tão desconseguidos, penso em todos nós que subservimos.
Também gosto muito de RR’s. Fartei-me de guiar um Corniche, vários Silver Shadow Mark III e um Bentley Continental GT. Com um dedo, claro, todos de volante à direita.
Está bom de ver que a representação angolana se faz representar em grande estadão, o que já não é uma novidade enorme.
O Herói escreve como gosta — e assim é que deve ser.
Até conhecer este Cemitério, a África me era muito distante..a cultura, os idiomas, as paisagens, as histórias. Agora tenho conhecido um pouquinho da grande riqueza e diversidade que comporta aquele lugar, de onde estou acostumada a ouvir somente tristes e longinquos lamentos. Acho que em parte é culpa do Navio do Castro Alves. Sou grata pela oportunidade de vê-la com e através de outros olhos.
Por favor, Heróis e Bandidos, continuem escrevendo!!!
Pois é, “a oligarquia custa a todos”…
Extraordinários episódios protagoniza o quase-nosso Herói. Mais extraordinários só os seus relatos-comentários dos mesmos. Gostei muito.
Embora ele seja um homme du monde, dotado de i-pad, i-pod, e o mais que, inventado e por inventar, há-de vir, sublinharei ao Herói o seu apreço pelo que ele escreve, estimada Joana. Eu já o conheço de gingeira e e mesmo assim anda sempre a dar-me volta, a começar por quase nunca saber onde pára.