Num Mundo ao Contrário

Sou canhota. O meu único irmão e 2/3 das minhas filhas também. Tal como grande parte dos meus primos e dos seus ainda minúsculos descendentes — feitas as contas por alto, a canhotice atinge 6 dos 9 netos e, até ver, 4 dos 11 bisnetos do meu avô materno, o grande responsável por esta convictamente esquerdina família. Que, como todos os canhotos da sua época, apanhou de grande na escola até escrever com a mão direita. O resto — jogar ténis e futebol, caçar e pescar, cortar, segurar as cartas e lançar os dados — tudo à esquerda, irredutivelmente.

Celebra-se hoje, 13 de Agosto, o Dia Internacional do Canhoto, com o objectivo de alertar para as dificuldades que enfrentam os left-handed num predominantly right-handed world e, claro, celebrar a uniqueness daqueles que representam entre 7 e 10% da população mundial.

Longe vão, é certo, os tempos em que o obscurantismo tornado sinistrofobia levava a acusar de feitiçaria ou a tomar como demoníacos os canhotos. Deles subsiste, ainda, a sistemática conotação negativa que as mais diversas línguas conferem à palavra que designa a esquerda e/ou o canhoto — como a medonha sinistra, os desastrados gauche, maladroit, maldestro e canhestro, a triste condição do que se diz ter two left feet por dançar mal e/ou não marcar golos, o clandestino, porque ilegítimo, filho da mão esquerda e o esconjurativo cruzes, Canhoto! (sendo, está-se mesmo a ver quem, o Canhoto que assim se procura enxotar). Sempre em contraste com a exaltação do direito como certo, correcto, justo — pense-se nos jurídicos droit, derecho e recht, no acertado right, e mesmo no tauromáquico diestro.

Não tão longínqua, mas felizmente ultrapassada, vai também a era em que, em nome de questionáveis orientações pedagógicas, as crianças canhotas eram contrariadas e “adestradas” à força na escola. Perdi a conta às tantas, tantas pessoas que, vendo-nos, às minhas filhas e a mim, a escrever com a esquerda, revelam a sua história, sempre a mesma, tão igual à do meu avô: reguadas, golpes de palmatória, puxões de orelhas, mão amarrada atrás das costas até aprenderem a escrever direitinho … Mas — é fatal e é a parte de que mais gosto, claro -, logo acrescentam, com ar entre o safado e o triunfante, tudo o mais, sempre com a esquerda!

Ser canhoto significa viver num mundo pensado e construído às avessas. Dos irritantes garfinhos de bolo às imprestáveis facas de cortar tarte, com destaque para as enviesadas cadeiras de auditório com aquela tabuinha para tirar notas, invariavelmente à direita. A encabeçar esta exasperante lista, evidentemente os abre-latas. Os quais, terminado o 9.º ano e as frustrantes aulas de Desenho, para sempre destronaram os tenebrosos tira-linhas, que durante anos me fizeram a vida tão negra como a tinta da China que, traiçoeiros, derramavam sobre os meus esforçados trabalhos …

Mas ser canhoto significa também aprender a viver, e o melhor possível, nesse mundo que é também nosso. E isso implica, antes de mais, virar tudo o que para nós está ao contrário: passar a colher para a esquerda, pôr o relógio no pulso direito, enfiar o cinto nas presilhas pela direita, instalar a torradeira com o logotipo da marca virado para a parede, receber a hóstia da comunhão na mão direita, para depois lhe pegar com a esquerda (e fixar, sem pestanejar, o sacerdote que, às vezes, nos olha suspeitando sacrílegas intenções). Mas também adaptar-se. Sempre que o fazer “à esquerda” não seja opção. Ou, sendo-o, nos complique depois a vida, transformando-nos nuns seres à parte. Faço tricot e crochet “à direita” porque doutro modo as minhas dextras avós não mos teriam conseguido ensinar. As minhas filhas aprenderam a tocar guitarra “à direita” pois só assim poderiam fazê-lo em qualquer ocasião e em qualquer guitarra disponível (não ficando limitadas à respectiva guitarra de cordas “trocadas”, à Jimi Hendrix ou Paul Mc Cartney). Cá em casa não há teclados ou ratos “canhotos”, porque fugir ao standard nos tornaria menos aptas a manejar qualquer outro computador que não o nosso.

E implica, sobretudo, não enveredar pelo caminho da recusa do compromisso e da adaptação e da intransigente proclamação do direito a ser diferente, que por esta altura se faz ouvir com mais força — suponho que potenciada pelo remanso da silly season – e que me deixa sempre perplexa, quando não deveras constrangida. Pior, só mesmo a panóplia de proper left-handed products supostamente adequados a melhorar a vida de pessoas como eu e grande parte da minha família.

Descobri-os aqui há uns anos quando abriu uma loja dedicada a canhotos perto de minha casa. Apresentei-me lá na primeira oportunidade. Queria, evidentemente, um abre-latas. Estavam esgotados. Para atenuar o meu desalento, o simpático vendedor insistiu em mostrar-me tudo o que por lá tinha e que decerto me agradaria. Seguiu-se uma das horas mais surreais da minha vida. Canecas em que a imagem ou os dizeres se viam quando seguras com a esquerda. Saca-rolhas e afia-lápis a girar ao contrário. Porque não? Um boomerang. Réguas com a numeração da direita para a esquerda. Fitas-métricas, também. Calculadoras com os números invertidos. Comecei a achar aquilo tudo demasiado estranho. Agendas e livros de notas que abriam ao contrário e cujas páginas se percorriam de trás para a frente. Relógios com os números por ordem decrescente. Não quis ver mais. Praticamente fugi. Não voltei. Soube, pouco depois, que a dita loja fechara. Era de prever.

Ainda hoje não tenho o tão ambicionado abre-latas. Mas cada vez lhe sinto menos a falta, tal a profusão de latas com abertura fácil que crescentemente povoam as prateleiras dos supermercados. A provar que o mundo às vezes também gira na nossa direcção… 

Comentários a “Num Mundo ao Contrário” (9)

  1. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Bom post. Também à mesa, é suposto dar como o melhor lugar a nossa direita.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Olá “Sinistra” Joana. Só lhe quero dizer que um muito bom pé esquerdo é tudo o que eu agora peço pelas alminhas que me arranjem para o meu SLB. Já temos o do abençoado Coentrão, mas queremos outro, dançarino, para esticar a ala uns bons 200 metros. A título ainda mais pessoal, e dentro daquela lógica ecuménica que finjo que rege a minha vida, garanto-lhe, destro embora, que mantenho uma enternecida relação com minha mão esquerda (honny soit qui mal y pense).

    • Joana Vasconcelos diz:

      Olá Manuel Sinistrófilo Fonseca, apesar de convictamente desfutebolizada, agrada-me saber que o competente e desgrenhado Fábio Coentrão é canhoto e que o seu SLB não vai a lado nenhum a menos que contrate mais um canhoto …

  3. ana diz:

    e também usa o relógio na mão direita?

  4. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Só hoje li este seu mundo ao contrário, gostei dele — não a sabia à gauche.

  5. ricardo alves diz:

    sou canhoto e so gosto de namorar mulheres canhotas tenho dificuldades de encontrar mulheres canhotas porque gosto de canhotas que escrevem ao contrario ou seja de tras para frente ou com o caderno virado totalmente de cabeca para baixo amo esse detalhe e um charme e tudo de bom uma canhotinha

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