
Dapnhe Todd venceu o BP Portrait award 2010 com este impressionante “Last Portrait of Mother” que tive a sorte de ver na National Portrait Gallery, em Julho passado. Gosto particularmente deste lit de mort que, em bom rigor, ainda não o é. Gosto do peito sem peitos, da boca esquecida que parece procurá-los, dos olhos baços de um tristeza azul cinza. Gosto dos dedos imensos e descarnados. Gosto da pele mumificada de amarelo e da nuvem de penas que molda o cadáver numa paródia de vida. E gosto sobretudo da ternura da filha. Porque é ternura, não duvidem, o que arranca à mãe, num petrificado instante, este último sopro de crudelíssima beleza.

















Enfim, uma merdice de gostos.
Ó carissimo e sempre bem vindo Alberto, nem parece seu. Quem esteve próximo da velhice e da morte, quem já sentiu o cheiro, a angústia sem remissão, sabe que é aí, nesse momento em que os olhos se despojam de todo o brilho, nesse segundo que antecede a vanitas, que o amor — e nada é mais verdadeiro do que essa philia, sem eros, já só agápe — atinge o estético acumen. Outros gostos são, sim, uma boa merda.
Pois é, se calhar estiquei-me um bocado. O autor que me perdoe. Esqueci-me que a frontalidade nem sempre é bem aceite.
Mas sabe, caro Manuel, é que sempre tive uma má relação com a morte, não com a minha obviamente nem tão pouco com a sua perspectiva mas com a forma com que muitos dos meus entes queridos e amigos já se foram, ora precocemente, ora violentamente, ora por negligências médicas. Talvez por isso eu não encontre algum sentido estético na morte.
Alberto, o terrível, o horrível, o macabro e o mórbido são, a meu ver, essenciais a qualquer estética, Até, veja lá, à estética dos contos infantis. Não há maravilhoso sem macabro. De que valeria a história da Capuchinho Vermelho se o Lobo não lhe estripasse a querida Avózinha. E que graça teria o Lobo deglutir a linda velhinha se depois não viessem os salvíficos caçadores estoirar a cabeça ao Lobo e, rasgando-lhe a barriga, retirassem lá de dentro a Avó de boca pequenina sã e salva para poder viver feliz e para sempre com a rubra netinha?
Os quadros que o Pedro, tão mussorgskianmente tem exposto, são, a meu ver, belíssimos, e são o esconjuro artístico do vale de lágrimas e do cortejo de horrores que ao Alberto tanto o impressionam. O que o Alberto cristaliza em dor, outros cristalizam em tela e sais e pixels.
Repito, visite-nos sempre, comente o mais desbocadamente que quiser, mas a seguir, já sabe, é o que se faz entre amigos, explique-nos porquê.
Caro Alberto, pela minha parte está mais do que perdoado. Acho muito bem que discorde e respeito ainda mais as razões que agora invoca. Poderia dizer-lhe que são também minhas mas cada um reage ao horror da morte de um singularíssima maneira. quanto ao mais, o manuel e o antónio já disseram tudo. Continue a aparecer.
Lembra Lucian Freud mas em mais suave.
Um retrato incrível.
Alberto, aqui ninguém teme a frontalidade de ninguém. Acontece apenas que tu nem falaste do teu desamor pela matéria mas antes a consideraste imediatamente (a ela e aos seus cultores, curiosos ou investigadores) uma «merdice de gostos».
Todos nós temos as nossas tristezas em relação à morte de pessoas queridas — não acredito que penses que somos todos um bando de insensíveis. Acontece que o tema foi, é e será sempre assunto forte para a arte e para a filosofia — como sempre aconteceu através dos tempos.
Um abraço amigo.
Dei de caras hoje com ela, Pedro. Justamente na National Portrait Gallery, onde também a encontrou. Fiquei um bom bocado a olhá-la. A ver as reacções das pessoas — do awful ao disgusting, passando pelo Jesus! E a gostar, também. É muito mais luminosa face to face e o estranho formato resultante das telas sobrepostas dá-lhe um encanto especial.
Impressionou-me especialmente o facto de este quadro ser a longa e terna despedida de uma filha à sua mãe — já morta e com autorização da retratada.
Detesto despedidas, quaisquer que sejam, quaisquer que sejam o tempo e a distância. Angustiam-me e afligem-me, desde criança. Mas faço-as, sempre. Tão intensas e dramáticas como o que me vai na alma: beijo e abraço, abençoo (num gesto que aprendi com a minha avó), declaro o meu afecto, amor e gratidão, não deixo nada por dizer. Se sou eu a partir, faço recomendações e deixo tudo organizado. Se se trata de me despedir das crianças, a coisa atinge proporções de verdadeiro drama. À conta disto, sou altamente gozada, pelas ditas crianças, família e amigos.
Mas a verdade é que a vida me ensinou que a dor da partida e da separação é agravada, e como, pela trágica e irreversível impossibilidade dessa mesma despedida.
Vai-se a ver e foi por isso que — against all odds — este quadro tanto me tocou.