Lit de Mort I, II e, vá lá, até III

Gosto de leitos de morte. Não me perguntem porquê. Gosto dos que estão felizes, adormecidos na paz que é segredo de sábio. Gosto dos que carregam a máscara macerada do tempo a ser antes de tempo. Gosto dos resignados e gosto dos revoltados. Dos que morrem pintados de azul e dos que se despedem em amarelo. Gosto de mortos a preto e branco. Dos meus que arrancaram postas de mim. E dos outros que também imagino um pouco meus. Dos penteados e dos mais descabelados. Gosto dos que morrem em silêncio e dos que choram para toda a eternidade. Gosto das mães, dos filhos e sobretudo dos filhos que morreram às mães. Gosto até, vá-se lá perceber, dos que se vão amortalhados em lençóis sem amanhãs como me imagino no dia em que eu já não for. Gosto de todos. E gosto muito. Tanto, tanto, que já confessei o morto que queria ser e até o morto que queria parecer. Tanto, tanto, que o Manuel, sempre educado, veio morrer comigo para que não se dissesse que era capricho de um louco só. Tanto, tanto que quero apresentar-vos mais uns quantos. E desde já vos convido a convidar os que mais queiram. Só há uma regra. Que gostem muito e os deixem ser gostados.



Lit de Mort I — Victor Hugo por Nadar




Lit de Mort II — Proust por Man Ray




Lit de Mort III — Ernesto Che Guevara



Comentários a “Lit de Mort I, II e, vá lá, até III” (4)

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Na ausência do young master peter deixe que me aproprie indevidamente do que na boca dele são flores e lhe diga: doutor norton, que belo post!
    Levei a sério cada palavra sua, e para falar de coisas sérias quero dizer-lhe que a última vez, face a um morto, que senti belíssima a máscara de se ir embora e nos deixar, foi na igreja de são sebastião. O rosto tão branco, lindíssimo de quem em vida vivera com intensidade e volúpia; uma cabeleira de neve, esticada, de cinema, quase maquilhada. Um morto a branco e branco, de neve. Não fui só eu, o Pedro também o viu. Gostava de houvesse dele também essa fotografia.

  2. Luciana diz:

    Um post comovente, que me levou aos mortos meus e os que acolhi como se. Remeteu-me às carpideiras do meu Sertão onde bebemos os mortos como se de todos fossem, sempre. E, por fim, conduziu-me ao pé de Vinícius, ouvindo-lhe a boêmia e já sempre moribunda voz:

    Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio
    Pelo momento a vir, quando, emocionada
    Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
    Sem saber que é a minha mais nova namorada.

    http://www.youtube.com/watch?v=u6LcZfStlfc

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