Lindo Rimance do Fuzilamento de Dom Diogo e, vá, de certos uns..


DOM DIOGO, fatigado,
dos trabalhos, dos cuidados,
rumou ao sul, rumou.
Mas à sua fera maldade,
à egoísta ruindade,
também de férias as levou.
Passeava à beira d´água
ostentando,  da liberdade,
o precioso bem: o tempo,
e entre golinhos na caipirinha,
o fresco mar, na areia fresquinha
debaixo do sol abrasador,
Dom Diogo era leitor e
com Maalouf, amigo Maalouf, Amim
tentava quem trabalhava ao calor,
e do mar só o saudoso odor
de uma lonjura sem fim.
O destino, justiceiro,
espada da lei dos céus
faz das serpentes de Adão,
tentadoras de então, réus.
Sabedor da culpa e culpado,
pedia o perdão de quem mente
à vida que não o consente:
se não há arrependimento,
haja fuzilamento!

Perfilados na justa parede,
à espera, os seus iguais,
de outros crimes, maldades tais,
que por balas de vis metais
certeiramente disparadas
contra a ingratidão do peito,
aguardavam a morte a preceito.
Perguntava Dom Manuel,
assassino confesso,
ao endemoinhado Dom Pedro, o possesso:
— e Dom Diogo, onde está que não vem?
O Demónio respondia-lhe, pasme-se!, bem:
— atrasado como só ele e mais ninguém.
Eis que enfim chegou
aquele que tanto prevaricou,
lavado, barbeado e ATRASADO
até para o encontro final -
não lhe serviu de nada, coitado -,
porém vinha esperançado
pois, mal chegado, inquiriu:
— o pelotão onde está?
Dona Eugénia sorriu
e mui docemente explicou:
— o tiro cobarde de muitos,
é de nenhum,
comigo é pim, pam, pum,
cada bala mata um..

Comentários a “Lindo Rimance do Fuzilamento de Dom Diogo e, vá, de certos uns..” (23)

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    O testemunho de Dona Eugénia é sorridente e rigoroso. Tudo se passou assim, nesta doce ordem e com este matemático pim, pam, pum. Mas antes, deu-se um caso que o historiador independente, por amor aos factos, não pode, nem deve ocultar. Ouçam:

    Metralha na mão, melena desgrenhada,
    Batendo na Sardenha o pé, a mãe ordena,
    Que o furtado colchão, fofo e de pena,
    Eugénia o ponha ali, ou a criada.

    Eugénia, moça esbelta e aperaltada,
    Lhe diz co’a doce voz que o ar serena:
    “Sumiu-lhe o colchão, é forte pena;
    Olhe não lhe fique a Sardenha arruinada.”

    “Tu respondes-me assim? Tu zombas disto?
    Cuidas que por ter Pedro e Diogo fuzilado,
    Já a mãe não tem mãos?” E dizendo isto,

    Arremete a Eugénia e ao penteado;
    Eis senão quando (caso nunca visto!)
    Sai-lhe o colchão de dentro do toucado.”

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Tratarei das suas falsidades atempadamente: depois do meus ricos Boston Legal e jantarinho — estou a fazer uns bifes de atum de serem comidos a rezar pela minha modéstia -, volto. Ai de si!

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Cruzes, Eugénia, você não perdoa!
    E devia, porque um homem que chega lavado e barbeado pode sempre (eu diria deve!) chegar um pouco atrasado.
    Penso eu de que…

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Não se iluda, Eugénia, eu atravesso paredes… Lavadinho e barbeado, quiçá fumando, sempre mais rápido que as próprias balas.
    Já que ninguém é modesto aqui…

  4. Joana Vasconcelos diz:

    Eugénia, como já deve ter percebido pela significativa amostra junta, vai ser um despautério de atrasos no jantar, à conta do muito barbear, pentear e perfumar — tudo, claro, para se nos apresentarem minimamente alindados (tarefa ingente, a avaliar pelos inqualificáveis respectivos avatares … ).

    Mas há que ver a coisa pela positiva: nós duas, pontualíssimas e naturalmente dispensadas de tamanho reboliço, aproveitaremos para, entre caipirinhas, pôr a conversa em dia …

  5. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Manuel NICOLAU TOLENTINO Fonseca, as suas FALSIDADES ..
    1 metralha?! só se forem os irmãos. Pim Pam Pum: pistola.
    2 algo despenteada, concedo, mas desgrenhada, moi?
    3 colchão de penas? Atchim.
    4 esbelta, bem, confesso, gostava de ser toda esprelicadinha kate moss sem cocaína, porém, ó drama, não sou.
    5 aperaltada?, tem dias, sempre se arranja um vestidinho, vá, de missa.
    6 nunca responderia tal à minha mãe.
    7 o que a mãe disse foi:
    cuidas que por ter o Manuel, o Pedro e o Diogo fuzilado
    nada mais sabes fazer senão matar vilões,
    mas digo te minha filha sabes achar colchões
    8 o resto é ficção, e eu uso o cabelo solto.

  6. Manuel S. Fonseca diz:

    Ó Eugénia, andou para aqui a cruzar rimas e a ver se se desenredava. Passou pelos pingos da chuva mesmo, mesmo no limite, mas não se esqueça: vestidinho de missa e cabelo solto. Cá a esperamos.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Apresenta-se descalço, praticamente de tanga, e depois espera o milagre da companhia e com exigências de stylist..

  7. Diogo Leote diz:

    Eugénia: agora, sim, percebo a que se deve esta irritante mania de chegar atrasado a todo o lado. Afinal o atraso tem uma justissima causa. Vejo que não teria sobrevivido se não tivesse chegado umas horas depois de consumado o fuzilamento. Chego e já está tudo morto. Parece que só a Joana se salvou porque foi incumbida de recuperar um escalpe da Sardenha das mãos dos pobres coitados do Manuel e do Pedro, que foram apanhados pela voracidade assassina do pelotão…

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Diogo, depois de um rimance inteiro com gasto de balas e tudo escalpela-me?! Não falo mais consigo, isso ainda é mais de pesadelo do que a jibóia do Vasco!

  8. Joana Vasconcelos diz:

    Estará tudo doido? Mas o que se passou neste sisudo e asisado blog enquanto eu fui ali jantar?

    Alguém me explica porque é que

    - o Manuel insiste em apresentar-se em versão bi-cinderelo no jantar?

    - o mesmo Manuel pretende exibir-nos os joelhos (para além de pés e tornozelos)?

    - se os ditos joelhos se viam através da calça escura às riscas no último jantar (doutus e perspicatius Gonsalvus dixit) porquê então agora o calção curto?

    - o Manuel formula um voto colectivo de que a Eugénia apareça de vestido de missa?

    - a minha ausente pessoa é referida como uma ameijoa (au naturel?au naturel? Eugénia, santinha, acaso não lhe ocorreu o que se seguiria????)

    - o Diogo Manuel mistura índios com sardos, inventa pelotões de fuzilamento, atira as culpas para o Manuel (o que se compreende) e para o ausente Pedro Norton (francamente…) e me ensanguenta as mãos com pedaços de pele e de cabelo de outrém … tudo para justificar o péssimo e arreigado hábito de não chegar nunca a horas????

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Joana! Tinha-me ido embora, estava na converseta em facebookês, mas voltei agora que regressou — já me penitenciei por ter dado de bandeja aquela do au naturel. Cilício! O seu amigo Diogo, olhe, um ingrato do piorio… Boa noite.

    • António Eça de Queiroz diz:

      De facto está, Joana.
      Parece-me que somos os únicos, vá lá, a fechar bem da mala…

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